domingo, 30 de setembro de 2012

[0257] CONTINUAÇÃO DO TRABALHO DE ADRIANO MIRANDA LIMA SOBRE AS TROPAS EXPEDICIONÁRIAS EM CABO VERDE, NOS ANOS 40 DO SÉCULO XX

PRAIA DE BOTE chama a atenção dos leitores para o excepcional interesse histórico do conjunto de textos que teve início do post anterior. O que Adriano Miranda Lima aqui relata, fruto de situação privilegiada junto de antigos expedicionários, dificilmente poderá ser obtido noutro local. Ao amigo e colaborador, PB agradece a oferta que muito honra o blogue.


TROPAS EXPEDICIONÁRIAS PORTUGUESAS A CABO VERDE NO PERÍODO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
 

2 - Totalidade de forças mobilizadas

Adriano Miranda Lima
No post anterior, fizemos uma introdução a este tema, explicando as razões que levaram Portugal a guarnecer com elevados efectivos militares as suas ilhas atlânticas.

Vejamos agora alguns dados constantes da História do Exército Português (1910-1945), obra organizada sob a coordenação do general Arménio Nuno Ramires Oliveira, oficial que, por coincidência, serviu no comando militar de S. Vicente como capitão e major.

A organização militar, que devia ser estabelecida de acordo com o Decreto nº 29686, de 14 de Julho de 1939, acabaria por não ser efectivada em Cabo Verde. Assim, teve-se de recorrer ao envio de forças expedicionárias da metrópole para a sua defesa.

A ocupação das ilhas e a organização das forças foram sofrendo as adaptações que os efectivos iam permitindo. Uma das condicionantes foi a carência de material, em especial de artilharia. Mas em Julho de 1941 encontravam-se prontos a embarcar em Inglaterra com destino a Cabo Verde, 3 peças de artilharia 4,7", 3 jogos para plataformas e 450 munições. (este material diz respeito à artilharia de costa). As autoridades inglesas ofereceram ainda pessoal para instruir e montar estas peças.

Em 1941, foi criada na cidade do Mindelo, em S. Vicente, uma Bateria de Artilharia de Costa.

Em fins de Agosto de 1941, era transferida a título provisório, da cidade da Praia, em Santiago, para a cidade do Mindelo, em S. Vicente, a sede da Repartição Militar.

A evolução da guerra mostrou a urgência de criar um dispositivo defensivo na ilha de S. Vicente, pelo que foi ordenada a mobilização das seguintes forças:

Para a Ilha de S. Vicente:

- Comando Militar de Cabo Verde, sendo comandante o brigadeiro Augusto Martins Nogueira Soares, desde Agosto de 1941 até Dezembro de 1944;
- Comando do Regimento de Infantaria 23, integrando os batalhões seguintes;
- 1.º Batalhão expedicionário do Regimento de Infantaria 5 (Caldas da Rainha);
- 1.º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria 7 (Leiria);
- 1.º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria 15 (Tomar);
- Bataria de Artilharia de Costa 1;
- Bataria de Artilharia de Costa 2;
- Bataria de Artilharia Contra Aeronaves 9,4 cm;
- Bataria de Artilharia Contra Aeronaves 4 cm;
- Bataria de Referenciação;
- 2.ª Companhia de Sapadores Mineiros do Regimento de Engenharia 2;
    Apoiavam estas unidades as formações dos serviços militares seguintes:
- Parque de Engenharia;
- Tribunal Militar;
- Hospital Militar Principal de Cabo Verde;
- Depósito de Subsistência e Material;
- Laboratório de Análise de Águas;
- Depósito Sanitário;
- Secção de Padaria.

O conceito de defesa da ilha de S. Vicente consistia essencialmente numa sólida ocupação e, em caso de emergência, manter a posse a todo o custo das regiões de João Ribeiro e de Morro Branco e a cidade do Mindelo. Para tal, 2 batalhões ocupavam posições de defesa e 1 batalhão, reduzido, encontrava-se em posição de reserva.

O paquete "Colonial" fundeado no Porto Grande. O navio foi um dos que transportaram as forças expedicionárias - Foto fornecida por Luís Graça, filho de um expedicionário do BI 5
Esta imagem parece representar militares a serem transportados numa lancha entre o navio fundeado ao largo e o cais. Naquele tempo não havia cais acostável e do navio para o cais o transbordo era normalmente de bote ou “gasolina”, mas para grandes efectivos militares a opção teria de ser por um meio de maior dimensão como é uma lancha. No caso, seriam lanchas de carga e não lanchas militares de desembarque de forças para operações de lançamento de testa de praia - Foto fornecida por Luís Graça

Para a ilha do Sal:

- 1.º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria 2:
- 1.º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria 11;
- 3.ª Bataria de Artilharia Contra Aeronaves.

O Hospital Militar do Sal apoiava essas unidades.

O conceito de defesa da ilha do Sal, embora previsse a defesa das costas contra acções provenientes do mar, tinha como principal finalidade a defesa do aeródromo e a sua posse a todo o custo.

Na ilha de Santo Antão, a guarnição era constituída por forças destacadas da ilha de S. Vicente, normalmente uma companhia de atiradores reforçada do batalhão em reserva. Tinha por missão ocupar a povoação de Porto Novo, mantendo a posse da água de abastecimento e a vigilância do canal, em especial na zona correspondente ao Porto Grande de S. Vicente.

Na ilha de Santiago, na cidade da Praia, estava uma companhia de caçadores de praças de recrutamento local/regional, podendo eventualmente ser reforçada com meios atribuídos pelo Comando Militar de Cabo Verde, sediado em S. Vicente. Competia-lhe a defesa da cidade da Praia, como capital de Cabo Verde.

Com o fim da guerra mundial, regressaram à metrópole os efectivos expedicionários. O regresso efectuou-se progressivamente, sendo extintas as unidades, comandos e serviços ali criados. O regresso do Comandante Militar, brigadeiro Nogueira Soares, em Janeiro de 1945, e sobretudo a extinção do Comando Militar criado para o efeito, em 30 de Novembro de 1946, marcaram o final do reforço militar de Cabo Verde, embora várias comissões liquidatárias se tenham mantido pelo tempo necessário à conclusão das suas tarefas.

Continua…

Tomar, 26 de Setembro de 2012
Adriano Miranda Lima

6 comentários:

  1. Vou aprendendo detalhes de coisas que registei vagamente. Dos Militares (a tropa) foi o Batalhão da Infantaria 7 que ficou mais célebre sendo, de uma forma geral, todos acarinhados mas de quem mais se falava eram os Médicos.
    Embora o Adriano não seja desse tempo, espero que nos traga estorinhas que têm a sua importância e o seu gosto

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  2. Textos interessantes que nos dao a conhecer alguns aspectos da historia de Cabo Verde. Fui para Cabo Verde em 1947 com a idade de 7 anos. Encontrei tropa portuguesa mas pelo que diz o Adriano essa tropa expedicionaria de reforço tinha regressado ja a Portugal. Estes textos constituem um bom subsidio para quem queira debruçar-se no estudo da historia de Cabo Verde na era colonial.

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  3. Meu tio Manuel José de Faria era primeiro-sargento vago-mestre do R.I. 7, mas já não estava em S.Vicente quando, em 1943 aportei a S.Vicente, com os meus 9 aninhos, direitinho pora a 3ª classe da Escola Camões.
    Estas crónicas sobre a permanencia da tropa em S.Vicente creio que são subsídios de rara importancia documental sobre um período especialmente dificil da história da ilha e dos seus habitantes...A guerra na Europa terminaria dois anos mais tarde e,com a desmobilização que se seguiu foi como se a cidade ficasse quase deserta, tal era bulicio que os tropas e suas famílias tinham trazido à urbe...

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  4. Intervenho para esclarecer o seguinte.A legenda alusiva à foto sobre o navio Colonial refere que quem a forneceu (bloguista Dr. Luís Graça) é filho de um expediconário do BI 15, mas a verdade é que o seu pai pertenceu ao BI 5, mobilizado pelo RI 5, sediado nas Caldas da Rainha.

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  5. Como curiosidade vale a pena recordar que foi no batalhão de Leiria, como furriel, que desembarcou o expedicionário Manuel Ferreira, que veio a ser escritor (Hora de Bai), ensaísta (No Reino Caliban), professor universitário, etc. Aponto só estes dois títulos de uma vasta bibliografia. Casou com Orlanda Amarilis também escritora e cunhada do Nena de Farmácia. Ferreira foi o primeiro divulgador das literaturas africanas em Portugal.
    Outro nome que ficou ligado a Cabo Verde foi o dr. Baptista de Sousa.

    João Nobre de Oliveira

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