segunda-feira, 14 de outubro de 2013

[0596] "Da agricultura e algumas dicas" - Parte I de artigo de Arsénio de Pina (republicação, agora no Pd'B)

Arsénio de Pina
A leitura da entrevista da engenheira agrónoma Helena Semedo, directora geral adjunta da FAO e ex-ministra da Agricultura em Cabo Verde, veio espevitar o meu interesse pelo assunto do título do artigo, o qual, de resto, venho ventilando em escritos publicados, dado que passei grande parte da minha infância em meio rural e aprecio tudo quanto diz respeito ao aproveitamento e valorização do meio ambiente, mormente do solo, da água, das plantas e animais. Embora médico, ou talvez por isso mesmo, toda a ecologia me apaixona, pelo que leio o que descubro sobre a matéria. Daí a razão do número de artigos versando a agricultura, a luta anti-erosiva e a contenção da água das chuvas, fraquezas nossas que poderiam ser contornadas de modo a melhorar a produção agrícola, diminuir a importação, criar melhores condições de vida para a população e a atrair turistas, à semelhança do que aconteceu nas Ilhas Canárias.

Não irei falar no Porto Grande de São Vicente porque especialistas e conhecedores das questões do mar já se pronunciaram, bastas vezes e debalde, sobre o assunto, não sendo curial pôr em dúvida o tão badalado, pelo Governo, cluster do mar para São Vicente, que ainda ninguém conseguiu explicar em que realmente consiste, não sendo somente termo inglês para entreter a empatia do Mindelense pela língua de Shakespeare, pelos hábitos britânicos e o seu saudosismo dos tempos em que o gato de Mané Jon era engordado com gemada. O pobre desconfia quando a promessa de fartura é muita, mormente quando ouve garantir um ctchada de denher para fazer do porto da Praia um entreposto marítimo rivalizando com o Porto Grande, o que nos parece duvidoso e sujeito a contingências das costumadas calemas que atiram barcos e construções para terra, a não ser que haja algum milagre, fiados na Concordata com o Vaticano, que transforme as águas alterosas desses períodos em água benta. Esse investimento deveria ir para o Porto Grande, que tem condições naturais excepcionais, estando a baía protegida de temporais e calemas pela situação natural que a mãe-natura lhe reservou.

Ponhamos de parte a questão do Porto Grande, que só cito por desgosto e raiva, e entremos propriamente na matéria do título.

Foto José Carlos Marques - Porto Grande (Setembro.2013)

O aquecimento global tem, paradoxalmente, beneficiado Cabo Verde no capítulo de chuvas regulares, devido ao aumento da humidade relativa da atmosfera com a aproximação da Frente Intertropical Húmida. Há que aproveitar essa benesse retendo a água das chuvas com diques, represas, barragens, lagoas artificiais e a utilização das estradas nessa contenção, como descrevi no artigo Da ausência da multidisciplinaridade e intersectorialidade aquando da construção destas, lagoas artificiais nas ilhas ou locais com pouco declive, como fizeram os Canarinos. Essas lagoas artificiais são feitas escavando o leito de ribeiras com pouco declive ou achadas extensas – simulando crateras de vulcões, abertas a montante - de modo a que a água das chuvas fique aí retida. As encostas das ribeiras devem ser protegidas, concomitantemente, com plantação de árvores e arbustos para a fixação da terra e retenção da água, em sulcos mais ou menos profundos, como vemos nalgumas ilhas.

Obviamente, o que sugiro não deve limitar-se a Santiago, como vem acontecendo, embora, ultimamente, face aos protestos, outras ilhas venham ganhando algumas migalhas. Há que repartir isso criteriosamente, dando prioridade às ilhas menos favorecidas pelos fados governamentais, como São Nicolau, Maio, Boavista, São Vicente, Brava. Só assim se poderá desenvolver a agricultura e fazer regressar os camponeses que migraram para as vilas e cidades por falta de apoios e de meios para colocar com segurança os produtos agrícolas do seu labor nos mercados de maior consumo e de reter os que ainda ficaram no campo, o que pressupõe transporte marítimo seguro e regular, de modo a que o mundo rural, repositório de equilíbrios e valores tradicionais, não continue a ser cada vez mais uma realidade esquecida. Sem isso, nada feito, por tal – transporte marítimo – ser absolutamente prioritário. Ninguém investirá na agricultura sem segurança de colocar a sua produção. Algo me intriga na carência de barcos, dado que os barcos que não puderam ser adaptados para transporte de contentores estão à venda na Europa a baixo preço, e é desses barcos que necessitamos, por não transportarmos contentores entre ilhas. Porque será que o privado não se habilita à sua compra? É facto que a nossa burguesia endinheirada nunca se dispôs a investir em indústrias, embora seja tradição o investimento em barcos, desde os tempos em que Bravenses e Foguenses compravam barcos desactivados da pesca da baleia, nos Estados Unidos da América, como nos conta, na sua saborosa crónica no "Terra Nova", Joaquim Saial, e Abel Pires Ferreira, este com trabalho por publicar, que não encontra patrocínio. No capítulo de investimentos na criação de indústrias, os nossos argentários poderiam ir-se treinando na criação de pequenas indústrias como sal fino, palitos, abaixa-línguas ou espátulas em madeira, fruta cristalizada, charcutaria, xarope de tamarindos, farinha de banana, queijos de cabra do tipo dos da Boa Vista, secagem e salga de peixe fresco servindo-se das experiências dos pescadores e peixeiras do Tarrafal de São Nicolau, do Tarrafal de Monte Trigo, Boa Vista e Maio, e até de compotas e massa de tomate e outras pequenas indústrias, como queria fazer, segundo me confessou, o malogrado amigo Eng. Canuto, na sua Ilha do Fogo, após a reforma. As câmaras municipais (CM) e o ministério da agricultura deveriam ter viveiros de árvores frutíferas em todas as ilhas para promover a sua difusão e reintrodução das eliminadas por pragas e seca passadas. Cabo Verde já chegou a produzir vinho das suas videiras em Santo Antão, Brava e Fogo para o Brasil, exportação posteriormente proibida pelo Marquês de Pombal por fazer concorrência aos vinhos portugueses. O exemplo do aumento da área do cultivo da vinha de várias espécies e de produção de vinhos de boa qualidade na região da Chã das Caldeira e o fabrico de queijos em Santo Antão são bons exemplos a frutificar, porque o desenvolvimento do país não pode depender exclusivamente do exterior.

Foto José Carlos Marques - Paisagem rural de S. Vicente (Setembro.2013)
Também nunca entendi a causa de preços muito mais elevados para os produtos agrícolas e transformados cabo-verdianos em comparação com os similares importados, embora a justifiquem por serem de melhor qualidade do que os importados, o que nem sempre é verdade e deveria antes ser motivo para o consumidor lhes dar preferência e não para os encarecer. Informa-nos o eng. João do Rosário no seu último livro, Cabo Verde, Perspectiva e Realidade, que o transporte entre ilhas é, proporcionalmente, muito mais caro do que da Europa para Cabo Verde, isso devido à permanência de impostos do tempo colonial que favoreciam a importação de Portugal e coartavam a importação de matéria-prima e interditavam a transformação/produção de produtos localmente. Outrossim, os produtos agrícolas europeus para exportação beneficiam de subsídios – condenados pela OMC, mas que persistem - de modo a concorrerem vantajosamente com os de outros países. Solução? Rever os preços dos fretes, eliminar esses impostos e taxar fortemente os produtos importados subsidiados de modo a não fazerem concorrência desleal aos nossos. Todavia há algo que, a mim, continua a revoltar: a chusma de intermediários no comércio entre ilhas – que parasitariamente ficam com a parte que deveria caber aos produtores e camponeses -, a rabidância que não paga direitos nem impostos e esfola o consumidor. Igualmente intrigante, os preços nas feiras serem iguais aos do mercado formal, quando, em todos os países, compra-se mais barato nelas. Os maus hábitos de certos comerciantes e rabidantes têm a pele dura!... Desafore! diria o nosso Djunga Fotógrafo. Aí deveriam intervir as instituições de regulação criadas, as quais preferem olhar para o lado, permitindo preços abusivos, duplos a triplos dos praticados em Portugal de produtos importados daí, quando sabemos que, para a exportação, se retiram os impostos, e nem sempre alguns produtos primam pela qualidade, mormente a fruta, alguns vinhos e o leite. Explicam essa inércia por vivermos em sistema de economia de mercado. Economia de mercado, uma ova!, por não haver concorrência honesta controlada. Vivemos, sim, em regime de oligo e monpólio do capitalismo selvagem necessitando de controlo estatal rigoroso a bem dos consumidores e do país.

Vamos a algumas dicas omitidas no passado, ou não atendidas, que vamos ouvindo ou coleccionando, dado que tudo pode e deve ser pensado e repensado por todos; ninguém é dono da verdade, e há gente boa em ambos os lados da barricada. De resto, a integridade e maturidade das maiorias, conjunturais ou não, avaliam-se pelo respeito com que tratam as minorias, e inversamente, e não como vem sendo hábito dos que, na sua omnipotência centralizada e centralizadora, nos têm governado, tanto do PAIGC/CV como do MpD, actuando como autênticas mãos de Judas a apagar no altar do desenvolvimento todas as velas que não acenderam.

São Vicente, Agosto de 2013
     
(O texto continuará no próximo post)                          

4 comentários:

  1. Arsénio é o nosso Guru no que tange o desenvolvimento sustentável e a gestão dos recursos. As dicas que ele nos vem regularmente contemplando não tem tido correspondência na acção mas no dia em que alguma dessas ideias forem concretizadas então podemos dizer que Cabo Verde entrou no bom caminho, o do bom senso, e na senda do progresso...

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  2. O Arsênio fala de agricultura com um gosto, à.vontade e saber que dá gosto lê-lo. Infelizmente,
    as suas sugestões não têm sido aproveitas por quem devia.

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  3. O Dr. Arsénio de Pina, que muito admiro, de longa data, tem o dom, que lhe vem do saber acumulado, de falar das coisas mais complexas de forma tão clara e objectiva que até o mais obtuso dos leitores consegue entender...Pelos vistos, só não entende quem, na realidade, deveria entender e agradecer a tão ilustre paladino do desenvolvimento que conhece como poucos problemas para os quais aponta soluções que os cegos que seguram as rédeas do poder teimam em não ver...Como diz o velho ditado, vale mais a pena caír em graça do que ser engraçado!
    As minhas saudações a tão ilustre personalidade!
    Zito Azevedo

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  4. Dr. Arsénio faz-me sonhar de um Cabo Verde...verde. Os seus escritos versando sobre a agricultura confortam-me na miha ideia e que não me enganei quando sugeri, a quem pude, que procurassem técnicos com provas dadas para revolucionar a nossa agricultura; gente que consegue tirar proveito das regiões desertas. Bastava sô pedir ajuda que mandariam seus técnicos ensinar a nossa gente mais corajosa, as que amam a terra e que não a desertam com lamentações.
    Força, Arsénio !!!

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