terça-feira, 15 de outubro de 2013

[0597] "Da agricultura e algumas dicas" - Parte II (e última) de artigo de Arsénio de Pina (republicação, agora no Pd'B)

Arsénio de Pina
Dado que estou, há três meses, em São Vicente, comecemos pelos mercados municipais, de peixe e de frescos e géneros salpresados. Mas antes vejamos a situação das acácias americanas das ruas do Mindelo, tão altas e mal tratadas por poda defeituosa, com folhas só no cocuruto, que mais parecem vassouras. Somente o presidente da Câmara Municipal de São Vicente, Nelson Atanásio, seguiu a minha sugestão de as mandar podar como fazem americanos e australianos – seccionadas a cerca de 2,5 metros de altura do tronco - de modo a fazerem copas a baixa altura, propiciando sombra. Como estão, se houver uma ventania mais forte, tombarão facilmente quebrando beirais de casas e danificando carros e passeios. Se não se quiser optar por esta medida (só por teimosia), poder-se-ia substituí-las pela acácia chamada do Coxim que não cresce tanto em altura, faz boa copa e tem a vantagem de afugentar moscas e outros insectos por as folhas e flores conterem um insecticida, ou então por tamarindeiros por as árvores já estarem a ser regadas com água do plano sanitário do Mindelo.

Foto José Carlos Marques - Arvoredo do Mindelo, na Praça Nova (Setembro.2013)
Qualquer observador, mesmo distraído, dá-se conta de que o peixe não vendido volta várias vezes ao frigorífico, ou congelador, para ser presente como fresco no dia seguinte. Quando é atacado por moscas atraídas pela fetidez do início do apodrecimento, enxotadas pressurosamente pelas vendedeiras, passa então a ser salgado e seco ao sol - um atentado à Saúde Pública -, por grande parte das proteínas se ter transformado em nitratos e nitritos, substâncias tóxicas para o organismo, mormente para os rins, o que, segundo presumo, deve ser uma das causas de tanta insuficiência renal entre nós. Diz a boa norma que o peixe, uma vez descongelado, deve ser consumido ou salgado e seco, e não recongelado; a carne já não suporta dois descongelamentos. Deduzo desses factos que tais normas, se existem entre nós, não se aplicam, o que compromete a eficácia da vigilância sanitária da delegacia de saúde e camarária.

Foto José Carlos Marques - Parte posterior do plurim d'pêxe (em baixo, à direita, onde se vê o portão vermelho, Setembro.2013)
Há posturas camarárias que exigem a afixação de preços nos géneros expostos para venda nos mercados, que não se cumprem, não obstante haver fiscais e inspectores municipais. Para não haver mais agravamento do descrédito da lei, de normas e posturas, melhor seria que, não se aplicando no seu rigor, estas fossem revogadas e os fiscais e inspectores municipais destacados para outras funções, ou puramente dispensados, com boa economia para o município.

Felicito o actual Presidente da Câmara Municipal pela decisão de levantar a calçada antiga, que parece ter sido feita para faquires, substituindo-a pela chamada calçada portuguesa com reais benefícios económicos para o município, por ser mais ecológico, de maior duração, facilmente reparável em caso de dano e de promoção da utilização de material local (pedra basáltica), de pedreiros e calceteiros, em vez do alcatrão que temos de importar bem como de toda a maquinaria necessária para a sua aplicação.

Pensei que, com o avultado número de chineses por todo o país consagrados, prioritariamente, ao comércio, e pressupondo que manteriam os seus hábitos alimentares, a cachorrada, autóctone e importada, estaria em declínio, mas não, pelo contrário, e nem a delegacia de saúde nem a CM se preocupam com isso. Talvez não fosse má ideia a CM informar os amigos chineses de que nada obsta a que possam abrir talhos de canídeos e felinos, até porque, em muitos países do Oriente e do Sahel, a ingestão desses animais e até de insectos de todos os tipos está em crescendo, não condenada pela Organização Mundial de Saúde, por serem excelentes fontes de proteínas, havendo europeus e americanos que também os consomem. Na Europa há talhos de equídeos (cavalos), o que, para nós, cabo-verdianos, é tão estranho como os de canídeos.

Foto José Carlos Marques - Cão esgravatando no lixo da Praia de Bote (pormenor, Setembro.2013)
Falando de chineses, que muito admiro pelo seu labor e capacidade de adaptação, porque não aproveitar a excelente cooperação com essa nação e solicitar a vinda de camponeses chineses para melhorar a formação e o aperfeiçoamento dos nossos camponeses na arte da agricultura e da hidráulica? Em Moçambique, onde vivi na adolescência, eram os macaístas os melhores agricultores e fornecedores de produtos agrícolas (legumes, hortaliça e outros produtos agrícolas) às vilas e cidades, dedicando-se os indianos, preferentemente, ao comércio.

Temos camarões de profundidade, de que nunca beneficiámos, por não possuirmos a técnica da sua captura, bem como chocos e lulas, pela mesma razão e a pesca se fazer à noite. Li num dos nossos jornais, como novidade, a existência de camarões nos nossos mares e lembro-me de, por volta de 1968, ao assistir, no porto da Furna, à abertura de atuns pescados nos ilhéus da Brava, ter constatado a quantidade de camarões no bucho desses peixes. Um dos pescadores, perante o meu pasmo, informou-me de que havia camarões nos nossos mares, mas de profundidade, cuja técnica e meios de captura desconhecíamos. Em criança, em São Nicolau, encontrávamos vários esqueletos enormes de chocos na Praínha, que as pessoas diziam ser fezes de baleia. Porque não aprender, com quem sabe, a técnica de captura tanto de camarões como de chocos e lulas, em vez de deixar que outros o façam, à noite, sem darmos por isso?

Importamos água mineral quando temos mananciais dela nas nossas ilhas. A única, nossa, é a da Trindade, água leve de boa qualidade, mas a preço igual, ou superior à importada. Desde a minha colocação na Ilha Brava como delegado de Saúde (1967 a 1970) que me venho batendo, infelizmente debalde, pela valorização das nossas águas minero-medicinais, particularmente da do Vinagre, fluoretada – são raras e apreciadas as águas fluoretadas. Há mesmo um trabalho meu sobre a Água do Vinagre – cujo paradeiro já não sei onde está, tendo enviado cópia ao eng. Jorge Querido, um dos responsáveis pelo estudo dessa água. Outro trabalho foi sobre as areias vulcânicas quentes do Barril, em que associo o tratamento com as areias à água do Torno canalizada para o Tarrafal, cuja composição, que me fora facultada pelo administrador Manuel Lopes dos Santos (semelhante à do Luso), forneço. Há mais de oito anos que encaminhei esse trabalho ao Ministério da Saúde e a um grupo de estudo composto por patchês – criação de termas no Barril/Tarrafal de São Nicolau para tratamento de doenças reumáticas (pelas areias quentes) e do foro digestivo (pela água do Torno) – e nunca mais ouvi nada sobre o assunto, o que é pena, pois as termas são altamente rendosas e condicionam favoravelmente o turismo e a instalação de hotéis, restaurantes e outras comodidades e instituições. Poder-se-ia, inclusive, conjugar as termas com visitas guiadas ao Monte Gordo, Ilhéus Raso, Branco e ilha de Santa Luzia. Enfim, um maná por explorar… Que é feito do projecto de marina no Tarrafal de São Nicolau?

Há águas mínero-medicinais em várias ilhas, além das de Santiago: São Nicolau (água do Torno), Santo Antão (várias do tipo alcalino), Fogo (Nossa Senhora do Socorro), Brava (água do Vinagre, semelhante à de Vidago, fluoretada). Deveríamos estar a exportar águas minerais e não a importá-las, mas a inércia e o receio de correr algum risco por parte dos nossos argentários vêm limitando isso, sendo mais seguro e descansado importar, estando-se nas tintas pelo desenvolvimento endógeno.

Por pudor não recapitulo a questão das falências de SCAPA, Justino Lopes e outras pequenas e médias empresas bem-sucedidas no passado recente, nem mesmo a falência técnica de outras de maior dimensão como os TACV, ELECTRA e outras por má gestão ou gestão danosa, excesso de pessoal inútil aí metido por compadrio, nepotismo e interesses partidários ilícitos. Chiça!, exclamaria o nosso filósofo do povo Djunga  Fotógrafo.

Last but not least, praza ao bom Deus de todas as religiões que o prometido fórum, reunião ou seja lá o que vier a ser da longa congeminação do Governo sobre a descentralização/regionalização de Cabo Verde não passe de mais uma promessa, e venha a ser o requiem, mesmo em ritmo de funaná, da centralização do poder, e um ponta pé de saída para a prometida reforma administrativa do Estado, de reforma baseada na meritocracia, em vez de ser escorada numa chusma de mais assessores e conselheiros de assessores de compadrio e partidários, quando, antigamente, eram os directores gerais e outros funcionários competentes que desempenhavam essas funções, sem arvorar títulos pomposos. É necessário que o Estado tenha confiança e delegue competências e poderes nos elementos eleitos da periferia através da descentralização/regionalização, para controlar em seguida, averiguar e sancionar os desvios. Para essa reforma do Estado há que haver coragem para desempregar clientelas partidárias e políticas, oportunistas de primeira, dobrados a todos os ventos. Os brasileiros, no seu humor mordaz e corrosivo, denominam os assessores e conselheiros de ASPON (Assessor de Porra Nenhuma) e CASPON (Conselheiro de Assessor de Porra Nenhuma).

Para finalizar diria que há que implantar uma cultura de responsabilidade e responsabilização dos actos públicos visando transformar a mentalidade de governantes e cidadãos, e a erradicar a corrupção que se vai infiltrando na nossa sociedade e em várias instituições como percevejo em prega de colchão.

São Vicente, Agosto de 2013
Arsénio Fermino de Pina
(Pediatra e sócio honorário da Adeco)

3 comentários:

  1. O filho do Dr. Hermano decidiu pela Medicina e especializou-se de forma a ocupar-se das criancinhas. Ele podia também escolher a Agronomia que seria também excelente como prova regularmente na Comunicação Social com provas concretas que podiam ser (serão) aproveitadas.

    Pena é nunca ter sido aproveitado para ministrar estágios que incitariam os indecisos a voltar à terra e aplicar técnicas que nunca aprenderam para melhorar as suas parcelas.

    Além de ser um cabo-verdiano sincero, Arsénio não é pessoa que se deixa destruir com palavras menos amistosas.

    Venham mais artigos para a nossa delicia.

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  2. Obrigado, caro anónimo, pela sua participação. Apareça sempre!
    Braça
    Djack

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  3. Não posso, não ouso, e não vejo necessidade, comentar os doutos conselhos deste filho da nossa terra quando disserta, como agora, sobre a agricultura.
    Hoje o nosso Homem fala de cooperação chinesa. Vi o trabalho que fizeram na Ilha de Madagáscar e nunca mais esqueci a viragem que deram a uma certa agricultura. Espero que esta cooperação venha a ser efectiva um dia.
    Obrigado, Dr. Arsénio por mais este artigo

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