domingo, 27 de outubro de 2013

[0607] Fomes em Cabo Verde e ajuda das gentes da Metrópole (Portugal europeu)

É dado como assente que a colónia de Cabo Verde, mais que deliberadamente maltratada pelo Governo da antiga mãe-pátria foi sobretudo muitas vezes esquecida por ele. De facto, nos momentos graves, nem sempre surgiram os meios necessários para acudir ao território - por exemplo à catátrofe da fome, a mais trágica, sempre associada às secas - que o Governo central se "esquecia" de lhe fornecer. Mas uma coisa são os governos e outra são os povos. E Cabo Verde, na hora da verdade, sempre contou com os seus filhos da América e de outros locais de emigração e do povo português europeu, despertado sempre que possível pelas notícias que a imprensa mais destemida ia conseguindo fazer passar, em censura monárquica, republicana ou estadonovense...

Disso é exemplo curiosíssimo o texto que hoje publicamos na totalidade. Surgiu ele no jornal coimbrão Resistência, de 9 de Agosto de 1903, que refere os ingentes apelos de Loff de Vasconcelos (ver AQUI), maiense falecido em São Vicente, desassombrado homem da imprensa e nativista convicto. A descrição é dramática em alguns aspectos e nela se vê bem como diferia o tratamento dado aos cabo-verdianos pelo Governo do que o povo português agenciava para os seus irmãos das ilhas. E com associações comerciais em campo e barcos a fazerem transporte gratuito dos géneros. Em ocasião oportuna veremos que o mesmo se passava do lado de lá do Atlântico, com os cabo-verdianos e açorianos da América a darem o seu contributo para a amenização do flagelo que ciclicamente fustigava as gentes pobres do arquipélago.


5 comentários:

  1. Passei (como é costume diariamente) por esta "postagem", não a li nem na primeira nem na segunda vez. Lembro-me do espectro da fome.

    Costumo rememorar muitos sucedidos desde os meus sete aninhos em que viviamos no Alto da Companhia. Alguns marcaram-me de uma forma ou de outra, na alegria e na tristeza, e ainda - Graças ao Supremo - lembro-me de alguns factos, embora ténuamente. E uma dos mais tristes, coisa que deixou marca indelével foi quando vi crianças famélicas que chegavam da ilha do meu avô materno, S.Nicolau.

    O meu pai levou tempo para calar o meu choro porque eu queria que guardássemos duas delas. Dificilmente compreendia a situação..

    Mesmo querendo contribuir era impossível para nós. Eramos sete pessoas em casa, sem contar os chamados "cristom de Deus" qua apareciam para "salvar" nas horas de refeição.

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    1. Quem sempre teve pão na mesa, como eu, apresenta alguma dificuldade em refazer estes tempos. Mas a dramática descrição deste jornal de Coimbra ajuda a perceber um pouco o que foi um Cabo Verde esfomeado, a viver à custa da solidariedade dos seus filhos na América e dos seus irmãos de Portugal (situação que é a descrita no "Resistencia").

      Braça,
      Djack

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    2. Tempos difíceis viveu Cabo Verde no passado, uma terra pobre e ressequida, entregue ao sabor dos ventos de leste e de uma variabilidade climática impiedosa, assim como de um certo abandono administrativo da metrópole. Infelizmente o governo de Portugal desvalorizou estes grãos de areia, que não representavam nada, zero absoluto, face ao vasto e rico território colonial, quando não o fazia com o próprio território metropolitano. Mas esta atitude não significou indiferença do povo português à situação da colónia como ficou patente aqui neste blogue de importância histórica. Mas hoje este povo de Cabo Verde, pobre e humilde, sempre maltratado pelos poderes, reaparece ao mundo com a sua única riqueza que é a sua humanidade e os valores construídos pelos séculos de sobrevivência e de solidariedade. Infelizmente os governantes aprendem pouco com lições do passado e tempos difíceis viverá Cabo Verde no futuro se nos desorientarmos e não valorizarmos o essencial. Obrigado Saial por nos trazer tanta informação histórica.

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  2. Os povos das ilhas deram à História uma lição de estoicismo, de sobrevivência, de coragem, de inteligencia...Conquistaram o seu direito de serem orgulhosos e eu, filho de fora, deles me orgulho!
    Zito

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  3. Este quadro agora desenterrado do esquecimento é horripilante nas suas negras e trágicas cores. Isto passou-se nos princípios do século XX mas voltaria a acontecer com idêntica crueza em meados do mesmo século. Por isso se vê que nem a República, com o seu proclamado ideário de igualdade e solidariedade, nem o Estado Novo, com a sua fé acrisolada num Portugal uno e grandioso na sua geografia aglutinadora, tiveram resposta ou se preocuparam o quanto lhes era devido, para acudir à nossa gente com medidas eficazes. As populações de Portugal continental é que não ficaram surdas ao sino que repicou ruidosamente na sua consciência. Portanto, os governos nem sempre são o espelho dos povos. Muitas vezes preferem a teatrologia da política oca e vazia a torná-la o instrumento de serviço que deve ser.
    Cabo verde jamais pode esquecer semelhantes quadros de tragédia humana. O fantasma da fome extrema viria a partir dos anos cinquenta a ser afastado com algumas medidas tomadas e a independência consolidou o ritual do seu esconjuro. Mas, infelizmente, o pano de fundo da pobreza geral se mantém e por isso convém acautelar as políticas que hoje se tecem muitas vezes ignorando que o desperdício de recursos e o desacerto das prioridades podem ser meio caminho para atrair velhos e indesejáveis fantasmas. É certo que hoje em dia a comunidade internacional é mais atenta e actuante, mas é bom não esquecer que temos de aprender bem as lições da vida.

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