quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

[0747] Pré-publicação de parte da "Crónica do Norte Atlântico" de Fevereiro (excepto notas e ainda sem revisão de texto) - DOIS GRANDES PETISCOS VISUAIS (E HISTÓRICOS) NO PRÓXIMO POST








CONTRIBUTOS PARA O ESTUDO DAS RELAÇÕES CULTURAIS ENTRE CABO VERDE E O BRASIL 

Pode ler-se no carioca Jornal do Brasil de 18 de Janeiro de 1933 um texto de crítica literária demonstrativo do interesse que as coisas cabo-verdianas já despertavam na altura entre a intelectualidade daquele país latino-americano de expressão portuguesa – no caso, associado ao poeta das ilhas, José Lopes da Silva. Daí, a nossa crónica desta feita descer do Atlântico Norte ao Sul, em águas de igual gosto lusófono, sentido por irmãos brasileiros, cabo-verdianos e portugueses. 

José Lopes da Silva
O aludido texto, publicado pelas oficinas gráficas do Jornal do Brasil nesse mesmo ano, reproduzia o discurso de José Lopes da Silva na Câmara Municipal de São Vicente, escrito por ocasião da passagem pela ilha, a 24 de Maio do ano anterior, do cabo-verdiano Martinho Nobre de Melo, então embaixador de Portugal no Brasil, que se dirigia ao Rio. Dizia o articulista que se tratava de notável peça de oratória que convinha "ser conhecida de todos e principalmente dos que [sabiam] aquilatar da vernaculidade da língua portuguesa, tal [era] a expressão do tribuno erudito que se [revelava] nesse trabalho, um atleta da linguagem castiça, dos grande lances oratórios e do pensamento fecundo." Prosseguia o texto: "O discurso, que ocupa as cerca de 20 páginas páginas do folheto recebido é uma saudação ungida de afecto do venerando professor ao Dr. Martinho Nobre de Melo, seu discípulo na adolescência, aferindo as qualidades de carácter e talento do homenageado em todos os postos da sua vida pública, como as dos mais eminentes patrícios." Mais curiosa, pela inclusão de pedido local, era a referência à esposa do embaixador. Afirmando que pelo nome (Alexandra) ela era "defensora do homem", invocava o orador o seu auxílio em favor da mocidade escolar cabo-verdiana. Terminava o discurso com cumprimentos ao também ali presente antigo senador Augusto Vera-Cruz, então cônsul do Brasil em Cabo Verde. A representação do Brasil no arquipélago iria ser detida pouco depois, como veremos, pelo próprio poeta José Lopes da Silva, por morte do senador Vera-Cruz a 5 de Dezembro desse ano de 1933.

A 3 de Novembro, Lopes da Silva surge-nos em A Noite, outro jornal do Rio, a propósito de "Hesperitanas", saído em Lisboa em edição da Livraria J. Rodrigues. (...)

6 comentários:

  1. Sabe bem ouvir falar da amizade entre o Brasil e a nossa terra pelo grande vate José Lopes da Silva de quem falei na passada semana e principio desta no meu blog (Valdas) onde apresentei o poema "Ao Brasil", escrito em 1919 e publicado no livro Hesperitanas publicado em Lisboa em 1929.
    Quanto ao ilustre santantonense, Embaixador Martinho Nobre de Melo, tive o privilégio de o encontrar quando foi representar Portugal na festa de Independência do Senegal. O encontro se deu numa grande recepção em Dakar

    ResponderEliminar
  2. É muito importante relembrar factos e figuras desta relevância.

    ResponderEliminar
  3. Estou a ver que o Valdas tem a edição de 1929... Há de facto essa, obviamente a primeira e uma de 1933, ambas da mesma editora lisboeta. A segunda é a que motiva o texto de "A Noite".

    Braça editorial
    Djack

    ResponderEliminar
  4. bom ficamos aqui a saber que o ilustre caboverdiano Martinho Nobre de Melo fora nomeado embaixador de Portugal no Brasil. O poeta José Lopes da Silva foi outro grande homem. Parece-me que aquilo que distinguia estes homens era a nobreza de carácter, a dignidade.
    Só podemos estar orgulhosos por nossa terra ter produzido homens deste calibre. Hoje até parece que estes homens viviam no planeta Marte, de qualquer maneira seriam visto como marcianos.

    ResponderEliminar
  5. É-me sempre particularmente grato recordar a figura de José Lopes a quem, quando era ainda bastante jóvem, dediquei um carinho de verdadeiro neto...Até porque, era com um neto dele, o Alvaro, prematuramente sonegado ao nosso convívio, que o visitava com frequencia, na sua residencia à que hoje se designa por Vial do Poeta José Lopes...Foram horas de verdadeiro encantamento, ouvir as palavras do ilustre vate cuja morte chorei como se de um parente se tratasse. Continua, e decerto que continuará, a constituir-se como alguma da melhor memória que retenho dos meus anos de Mindelo!

    ResponderEliminar
  6. Tenho de confessar a minha ignorância. Não conheci o poeta José Lopes, nem me lembro de o ter visto alguma vez. Também, nunca li o livro Hesperitanas. Culpa minha? Talvez, mas culpa também do sistema de ensino, que parecia ignorar o que estava mais próximo do estudante. Não me recordo de alguma vez os meus professores de português terem feito qualquer referência a poetas cabo-verdianos. O pouco que fui ouvindo foi portas fora do Gil Eanes.
    Do que bem me lembro é de ser informado da sua morte. Estava eu em Lisboa, numa casa de estudantes ultramarinos que ficava na rua Visconde Valmor. À noite, um estudante mais velho, cabo-verdiano, pediu um minuto de silêncio pela morte do vate.

    ResponderEliminar