quarta-feira, 11 de março de 2015

[1426] Continuação da continuação do "Diálogo sobre a questão da Língua Cabo-Verdiana"

III Parte (ver partes I AQUI e II AQUI)


Adriano Miranda Lima
Filinto:  ̶  Ora, aqui estamos de novo, amigo Elísio. Sabes, depois da nossa conversa de ontem, fiquei a matutar em muita coisa, com a cabeça a dar voltas de tal maneira que tive dificuldade em mergulhar nos braços de Morfeu.

Para começar, vamos ver uma coisa. Para o Governo e os que lhe estão próximos, tem de se “preservar e valorizar a língua cabo-verdiana porque ela tem um valor inquestionável como símbolo da identidade nacional”. Por outro lado, dizem que o crioulo é “a língua materna dos cabo-verdianos enquanto a língua portuguesa é uma segunda língua”. Achas que isto é assim tão pacífico se virmos o problema do ponto de vista histórico e sociológico?

Elísio:  ̶ Nada pacífico, nharmon. Ainda não há muito tempo, o Primeiro-Ministro afirmou que a introdução do crioulo no ensino será como associar-lhe um elemento de “afectividade”, exactamente porque se trata da língua materna. Não foi bem com estas palavras, mas a ideia era mais ou menos essa.

Filinto:  ̶Neste caso, em circunstância alguma reconhecem na língua portuguesa a mais leve reminiscência de afectividade. E, no entanto, é a língua que ao longo de séculos disciplinou as nossas mentes e alargou nosso olhar sobre o mundo. Foi com ela que aprendemos as primeiras letras e empreendemos a caminhada por  várias etapas do conhecimento. Então não sobra uma pontinha de afecto de todo o nosso convívio secular com a língua portuguesa?

Elísio:  ̶ Ora essa, Filinto. Sabes como me iniciei na leitura lúdica, fora do âmbito escolar? Aliás, aconteceu com todos, foi com as revistas de histórias aos quadradinhos, aquelas que nos deliciavam com as aventuras dos cowboys, do Tarzan, do Sandokan, do Fantasma, do Mandrake, e tantos outros personagens do imaginário da literatura juvenil. Essas revistas eram escritas em português e não em crioulo, e no entanto qualquer miúdo da escola primária apreendia tudo com a máxima facilidade. Então, como se pode dizer que essa parte recreativa da nossa meninice era desapossada de afecto? Permitiram a iniciação na leitura lúdica a várias gerações e isso é coisa que jamais se esquece. Líamos tudo em português, recriávamos algumas cenas usando o português (mãos ao ar!), e no entanto logo a seguir íamos para as nossas futeboladas com bola de meia e aí irrompia  o crioulo nas nossas conversas e discussões sobre se a bola entrou ou não entrou na baliza, se foi penalty ou não.

Filinto:  ̶  Agora me despertaste uma pontinha de saudade.  Acho absurdo afirmar assertivamente que com o crioulo se injecta afectividade nas aulas, porque isso contém implícita a insinuação de que com a língua portuguesa o efeito é nulo ou contrário. Isto é, transmite a ideia de que  a língua portuguesa desperta um sentimento de hostilidade e distanciamento. Eu diria que só um mentecapto seria capaz de tal afirmação, se não soubesse que por trás dela está uma  intencionalidade política. 

Elísio:   ̶Tocaste no ponto: intencionalidade política. É isto mesmo que está na origem desta falsa questão linguística. Motivação política, mas motivação espúria, demagógica e especulativa. Desde logo, quer-se passar a ideia de que o crioulo é o principal elemento-força da nossa identidade nacional, como se ele não resultasse da conjugação de determinadas circunstâncias históricas e geográficas. Não tivessem elas ocorrido, o português poderia ser hoje uma língua mais enraizada no nosso quotidiano informal. E, a ser assim,  pergunto se o português, nesse caso, já seria considerado língua materna em rigorosa paridade com o crioulo, sem nada de artificial, ou artificioso, a diferenciar os respectivos  estatutos sociolinguísticos. A não ser que se arranjasse algum pretexto discriminatório só pelo facto de se tratar da língua do descobridor e povoador das ilhas. Repara que eu não disse “colonizador”.

Filinto:  ̶ Ah, ah, ah, vejo que estás a aflorar o fundo do problema: povoador ou colonizador. Não diria que estas palavras sejam os termos de uma dicotomia, no mínimo poderão sê-lo de uma aglutinação irrealizada. Ou seja, povoou mas não agregou ou protegeu devidamente, para não dizer que abandonou e deixou tudo à sua sorte.

Mas, talvez sem o querer, o Primeiro-Ministro pôs o dedo na ferida quando falou em “afectividade” associada ao crioulo. Percebe-se que ele quer explorar o sentimentalismo barato. No entanto, o critério sobre afectividade é sempre subjectivo e muito tem a ver com as nossas vivências individuais, familiares e sociais, as quais também se estampam no pano de fundo da nossa existência colectiva, no passado como no presente. Por exemplo, a minha avó paterna só tinha a instrução primária, como era normal no seu tempo, e no entanto era uma leitora inveterada das obras do Júlio Dinis, Eça de Queirós, Camilo e outros daquele tempo. Garanto-te, Elísio, que ela lia essas obras com muito “afecto” e empolgava-se ao partilhar com outros o seu gosto pela leitura. Todavia, a minha avó falava o seu crioulo de forma natural como todos os cabo-verdianos, e certamente que o fazia com “afecto”.

Elísio:  ̶  E os nossos homens de letra do passado, como Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Januário Leite, Baltasar Lopes, Aurélio Gonçalves, Manuel Lopes, Teixeira de Sousa, Jorge Barbosa, assim como outros que não eram da área das letras mas que se notabilizaram em outros domínios do conhecimento? Acaso menosprezaram o crioulo da sua infância ao ascenderem a níveis superiores do conhecimento literário e científico? Não creio que o crioulo e a língua portuguesa não merecessem a mesma primazia do seu coração quando extravasaram as suas emoções juvenis exprimindo-se na primeira e demandaram o conhecimento universal escrevendo na segunda. O “afecto” pertence aos recônditos secretos do coração e não pode ser avaliado pelo crivo político ou por conveniências conjunturais.

Filinto:  ̶  Se tu o dizes com essa veemência, quem sou eu para dizer o contrário? Quero dizer que estou de acordo contigo mas mesmo que quisesse discordar para atiçar o lume da conversa, não sei o que mais poderia alimentar o meu respaldo.

O Primeiro-Ministro utilizou o termo “afectividade” ao referir-se à inserção do crioulo no ensino, mas quando os defensores da sua oficialização afirmam que “ele tem um valor inquestionável como símbolo da  identidade nacional”, importaria que analisássemos esta premissa. Desde logo, o que é isso de identidade nacional, o que define esse conceito? É que deves saber que o termo identidade nacional tem suscitado opiniões divergentes entre os estudiosos da matéria. Uns advogam a sua objectividade e consideram-na uma realidade imutável e integradora de múltiplos valores, mas para outros o conceito é subjectivo, no entendimento de que a identidade nacional é algo que se constrói e é susceptível de evolução, a ponto de um mesmo indivíduo poder pertencer a duas entidades distintas.

Elísio:  ̶  Quer isto então dizer que a concepção objectiva da identidade nacional contém a ideia de algo fechado, restrito e supondo uma homogeneização que é fruto de uma construção política, partindo-se do princípio de que as sociedades humanas não são imutáveis, imunes a influências exteriores. Neste caso, teremos a identidade nacional como resultado de um discurso, de uma representação simbólica em que os matizes geradores de condutas e práticas sociais integradoras são determinadas por uma vontade expressa. Mas, regra geral, e  numa ideia simplificadora, a identidade nacional tem como base a raça, a língua, a cultura, uma história comum, os costumes, as tradições e o temperamento do povo.

Mas, aqui chegados, vamos ver quem são os artífices da construção da identidade, questão que é de real pertinência em Estados ainda em fase incipiente da sua autonomia política, como o nosso. Os agentes que constroem as interpretações sobre a realidade são os intelectuais, modeladores que são de visões e discursos sobre a identidade que entendem mais adequada ao seu país. Só que, ao procurarem a mediação entre o simbólico e o popular, dificilmente se eximem da questão ideológica, podendo dizer-se que cada intelectual pode legitimar a sua concepção de identidade nacional.

Filinto:  ̶  Pronto, já percebi aonde queres chegar. Dizer que o crioulo é símbolo da nossa identidade nacional tem tanto de verdade como admitir que o português também pode exprimi-lo, não é? Ou, no mínimo, não se pode forçar a tónica de modo a transmitir a intenção de uma propositada exclusão, até porque o crioulo não nasceu de geração espontânea, tem progenitores, um pai ou uma mãe, dependendo da escolha de sexo que se fizer.

O Padre António Vieira passou por Cabo Verde (Santiago) em 1652 e disse: “(...) Há aqui clérigos e cónegos tão negros como azeviche, mas tão compostos, tão autorizados, tão doutos, tão grandes músicos, tão discretos e bem morigerados, que podem fazer inveja aos que lá vemos nas nossas catedrais.” Ora, o que quis dizer a ilustre figura histórica permite-nos localizar no espaço e no tempo a face iniludível de uma determinada realidade. Aqueles padres seiscentistas dominariam o português com a mesma desenvoltura de doutos nascidos em Portugal. Pergunta-se se não é isso a cabo-verdianidade na sua feição original, ou seja, no seu ponto de partida. E se outras comunidades dispersas pelas nossas ilhas tivessem tido a mesma oportunidade de instrução e escolarização, qual seria a nossa língua de berço?

Elísio:  ̶  OK, rapaz, bô tá largod na conversa ma m’tem que lembro’b hora. Oiá, quel mnininha li trás de balcon titá spiá pa nôs, curiosa, talvez tá perguntá o que quiz home titá falá lissim tud vez quês tá bem. Bô querê mudá manhã de Cafê ô nô ta continuá lissim?

Filinto:  ̶  Na, na, lissim meme na Crióla. Depôs m´tá tlefono’b pa marcá hora.

Tomar, 10 de Março de 2015
Adriano Miranda Lima

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