domingo, 26 de julho de 2015

[1600] Mais um texto do nosso colaborador e grande comentador Adriano Miranda Lima

Adriano Miranda Lima
MEMÓRIAS DE CRISTAL (3)
Força de Cretcheu

Naquele tempo, tanto quanto me lembro, não havia aulas à tarde, no velho Liceu Gil Eanes, a não ser em situações pontuais de ajuste de cargas horárias. Por regra, a programação escolar cingia-se ao período da manhã, o que actualmente talvez seja inconcebível devido ao aumento exponencial do efectivo discente. Assim, a tarde era normalmente destinada aos trabalhos de casa e ao estudo, para os alunos que a isso se predispusessem, claro.

Andava eu nos meus 15 ou 16 anos e estava embrenhado na preparação para uma prova escrita de Física que ia realizar-se no dia seguinte. A minha mãe, Isabel, estava a passar a ferro alguma roupa da casa, o que às vezes fazia cantarolando uma que outra morna. Ela tinha especial predilecção pelas composições do Eugénio Tavares. Possuía o dom de uma voz agradável, de boa dicção e um ouvido para a música que o filho primogénito nem pouco mais ou menos lhe herdou geneticamente. Era um daqueles dias em que o vento fustiga desalmadamente a ilha, arrastando tudo na sua estrepitosa voragem. As persianas das nossas janelas rangiam fazendo lembrar flautas grotescas e desafinadas, com as suas tabuinhas transversais ameaçando desconjuntar-se. 

A dada altura, talvez para ensaiar um dueto com o vento, a Isabel começou a cantarolar enquanto as peças de roupa iam deslizando debaixo do seu ferro de engomar. Nesse dia, escolheu a morna Força de Cretcheu. Sempre o Eugénio Tavares! 

Ca tem nada na es vida
Mas grande que amor
Se Deus ca tem medida
Amor inda é maior
Maior que mar, que céu
Mas, entre tudo cretcheu
De meu inda é maior
………………………...

E foi assim pela tarde dentro. Enquanto eu procurava rever matérias como – sei lá – as propriedades dos sólidos e fluídos, óptica, acústica, etc., a música do nosso poeta e compositor bailava melodiosamente nos lábios da minha mãe. O ambiente era assim um compósito de faina escolar, engomadaria e estúdio musical, tendo como pano de fundo a ventania. Esta portava-se como um lençol ondulando atrabiliariamente, em cuja superfície as cenas daquele quotidiano doméstico se projectavam na sua histriónica diversidade.  

Houve um momento em que as janelas quase que se desarticulavam, tal a violência da rabanada de vento que subitamente as açoitou. Seguiu-se então um silêncio semelhante àqueles que se verificam no olho dos ciclones, e a mãe aproveitou para me perguntar se eu não ia tomar o lanche. Este era quase sempre, e para meu gosto, um “barão” com manteiga de terra e café com leite. Não me fiz rogado porque “barão” era o produto de panificação que eu mais apreciava. Foi pena que, durante largo tempo, tivessem interrompido o seu fabrico, mas notei em recente visita a S. Vicente que o dito cujo regressara ao mercado, e, curiosamente, creio que por iniciativa de um empresário português, embora eu possa não estar suficientemente informado. Mas o certo é que no mês de Maio deste ano comprei-os várias vezes num dos estabelecimentos de venda desse dinâmico empresário. Infelizmente, sabem ligeiramente a baunilha, diferente dos de antigamente, que se distinguiam pelo gosto puro e simples da mistura de trigo e cevada, conforme eu preferia. Enfim, julgo que essa substancial bolacha de forma quadrada bem dispensava perfume para fazer jus ao título nobiliárquico de…barão.

Mas a melodia que saía dos lábios da Isabel era verdadeiramente o que dulcificava a aspereza da tarde ventosa:
………………….. 
Cretcheu más sabe
É quel que é di meu
Ele é que é tchabe
Que abrim nha céu
Cretcheu más sabe
 É quel qui crem
Ai sim perdel
Morte dja bem
………………

O vento bem se esforçava para lhe abafar a voz, mas em vão. E houve até um momento em que parou de soprar, como que rendido à mestria do compositor e à voz da cantora. Ou será que uma forma de desarmar a raiva da natureza é cantar-lhe baixinho, ao ouvido? O certo é que à Isabel pouco importava este tipo de indagação meteorológico-filosófica. O que ela queria era despachar rapidamente a roupa da casa enquanto anestesiava a fadiga do corpo com o que há de melhor no nosso reportório musical.
…………………....
Ó força de cretcheu
Que abrim nha asa em flôr
Dixam bá alcança céu
Pa'n bá odja Nôs Senhor
Pa'n bá pedil semente
De amor cuma ês di meu
Pa'n bem dá tudo djente
Pa tudo bá conché céu.

Ah, não havia nada a fazer. Naquele dia, Força de Cretcheu mereceu sucessivos “bis”, sem dar oportunidade a outras composições que normalmente a Isabel cantarolava enquanto entregue aos seus afazeres. Lá para o fim da tarde, o vento aplacou o seu furor e já só se lhe ouvia um fiozinho de voz a insinuar-se nas frinchas das janelas, como que envergonhado de ter feito má figura no dueto com a cantora.

Devo confessar que o pouco que nessa idade fui apreendendo do nosso canto tradicional – a morna – foi por intermédio da minha progenitora. Também foi graças a ela a minha admiração crescente pelo talento do compositor e poeta que foi o grande Eugénio Tavares. Pela vida fora, e por onde andei, de vez em quando vinham-me ao ouvido esses momentos musicais que espontaneamente nos proporcionava a nossa mãe. Ainda há uns 12 anos, pedi-lhe para cantar Força de Cretcheu e ela satisfez-me o pedido, e, entusiasmando-se, cantou ainda mais duas mornas. Ela teve o dom de conservar incólume uma voz límpida e de bom timbre até ao fim da sua vida. Tanto que por vezes, ao telefone, lhe dizia: – Ah, graças a Deus que conserva a sua voz de menina, ao que ela se ria com gosto. 

Algarve, 16 de Julho de 2015

5 comentários:

  1. Contando uma passagem de vida pessoal o autor nos faz reviver fazes da nossa meninice e da nossa adolecência pois o que se passou em casa da D. Isabel era o mesmo que se via e ouvia em nossa casa quando a Mãe costurava ou fazia rendas, seu passatempo preferido. Foi assim que aprendemos, não só as mornas como, muitas melodias brasileiras que chegavam a S.Vicente não sabia como nem em que ritmo. Portanto, antes mesmo de aprendermos a ler já sabíamos das obras de e da existência de Noel Rosa, Zequinha de Abreu e tantos mais que contribuíram para nos interessarmos pela terra do samba e do samba-canção ao mesmo tempo que pelas nossas ilhas da Boavista (Luiz Rendall...) e Brava lugar dos maiores criadores de então.
    Se o autor frisa neste nota o génio Tavares, eu ouvia mais as composições do Francisco Xavier, como era conhecido o saudoso B.Leza, também parceiro dos bailes da mocidade.
    Ao ler Adriano leio o mesmo livro (comum) de lembranças mas em outros capítulos também melodiosos que continuaram (e continuam) a sê-los enquanto a idade não nos der o castigado cruel de perder a audição.

    Melhor seria ainda se os visitantes não ficassem invisíveis e contassem os autores da suas mamãs e dos seus próprios.

    ResponderEliminar
  2. Bonito texto, mais um em memória da mãe, para o futuro livro do Adriano. Temos aqui a prova da relação umbilical que une o filho à mãe (sobretudo a caboverdiana, cuja a única e verdadeira riqueza imaterial eram os filhos) e que ultrapassa o tempo e a idade para se alojar no subsconcinete da memória individual. Bravo

    ResponderEliminar
  3. Quando não se é de má cepa, o amor filial z o apanágio das familias tradicionais. Infelizmente com a evolução dos tempos e a tendência para uma vivência diferente dos modos ancestrais. Muitos filhos esquecem o que de bom lhes foi deixado como herança transmissivel para e se perderem nas facilidades ou até na perversidade de saquear e desprezar os genitores escravizando-os na sua velhice. E adeus os valores. Outros tempos outros modos mas, felizmente ainda existem alguns para demonstar o que foi os tempos de dias-há.

    V/

    ResponderEliminar
  4. Que texto agradável e de boa leitura! Memorativo q.b. ao estilo do Adriano. Terno, sentido e saudoso. Uma homenagem peculiar à mãe. A voz que se guarda na memória e eco da nossa aprendizagem emotiva e cultural.
    Abraços
    Ondina

    ResponderEliminar
  5. Sou particularmente sensível a esta crónica que, para alem das anteriores, contem um ingrediente extra que a torna particularmente epetecivel - a Força di Cretcheu...Para mim, esta é A morna! E, para alem do mais foi, precisamente, a primeira que aprendi a cantar e a que me provoca, ainda hoje, pele de galinha quando tento entoa-la...Talvez memórias de tempos e gentes de outros tempos, de outros sitios, do despertar de outros sentidos, da paixão do primeiro encontro com a melodia saída da sensibilidade ímpar de Tatai! Obrigado, Adriano!

    ResponderEliminar