quinta-feira, 15 de outubro de 2015

[1702] O "Bristish Zeal", um barco com sorte...

Ocorrência 3 - O British Zeal

(ver duas anteriores ocorrências, em posts já lançados do Praia de Bote; clique na etiqueta Ocorrência, mesmo no final deste post)

Luís Filipe Morazzo
Este evento irá abordar um tipo de incidente que não tendo sido muito comum, durante os dois conflitos mundiais, ainda foi reportado algumas vezes em diferentes latitudes e nem sempre com finais negativos.

Este é um desses raros casos, em que um navio após ter sido torpedeado e abandonado pela sua equipagem, depois de terem estado algumas horas nas baleeiras, e terem percebido que o navio continuou a flutuar, é mais tarde reocupado pelos seus tripulantes, tendo estes de seguida com muito estoicismo e coragem reparado provisoriamente as avarias e levado o navio a bom porto.

Pelas 23h00, do dia 31 de Dezembro, de 1940, vamos encontrar o petroleiro British Zeal de 8532 toneladas, construído em Glasgow, em 1937, propriedade da famosa empresa britânica, British Tanker Co. Ltd, Londres, após ter soltado amarras de Liverpool, a 16 Dezembro e ter tirado rumo a Freetown, a navegar isolado, depois de ter-se separado em 19 de Dezembro do comboio OB-260.

O British Zeal
Atingido a estibordo precisamente no meio do tanque nº 2, logo abaixo da ponte de comando, por um torpedo lançado pelo U-65, enquanto perfazia uma singradura a 10.5 nós, a cerca de 120 milhas a leste da ilha do Maio, Cabo Verde.

O U-65 tinha perseguido o navio-tanque por cerca de oito horas e lançado uma salva de dois torpedos, dos quais só um é que teve êxito. Um vigia do navio avistou um dos rastos dos torpedos, imediatamente alertou o timoneiro que colocou o leme cerrado a estibordo, manobra que evitou o impacto do primeiro torpedo, no entanto, não conseguiu evitar que o navio fosse atingido pelo segundo engenho.

A sorte deste navio começou logo a ser traçada, pelas péssimas condições de tempo que no momento do ataque reinava naquela área do Atlântico. Os alemães ao não poderem usar a peça de artilharia de 105mm, instalada no convés, com a precisão necessária para o efeito, não puderem fazer aquilo que tão bem costumavam fazer, dar o “coup de grace” na vítima, em que 98% destas ocasiões foram letais.

Os germânicos observaram atentamente como a tripulação abandonou o navio de uma maneira bem-disciplinada, embora com o mar cada vez mais agitado, deixaram a área sem questionar os sobreviventes, assumindo que o navio se iria afundar em breve. No entanto, a tripulação inglesa ao avistar o British Zeal ainda a flutuar na luz do por do sol, remou em direcção ao seu navio em mares cada vez mais bravios e reocuparam o petroleiro cerca do meio-dia de 1 de Janeiro de 1941.

Após uma vistoria cuidadosa ao estado do seu navio, os ingleses anotaram que três tanques tinham sido inundados devido a dois grandes buracos no lado de estibordo e o convés tinha sido rasgado pelas explosões da artilharia, porém a praça das máquinas foi encontrada intacta. A tripulação levantou a pressão do vapor e testou os motores e direção, de seguida abandonou o navio novamente passando a noite nas baleeiras, com receio que o U-boat ainda estivesse nas proximidades. Na madrugada do dia seguinte, a tripulação inglesa rapidamente reocupou uma vez mais o petroleiro e de seguida dirigiu-se para Freetown a 5 nós. Algumas horas mais tarde, em resposta a vários pedidos de auxílio lançados pelo British Zeal, não só, o contratorpedeiro HMS Encounter, mas também, o salvádego oceânico HMS Hudson responderam aos chamamentos, tendo mais tarde oferecido assistência e escolta até Freetown, onde todos chegaram a 8 de Janeiro. Em 16 de Julho de 1941, o sortudo British Zeal após ter sofrido consertos temporários, deixou Freetown em direção a Baltimore, onde iria sofrer reparos permanentes, chegando em 18 de Agosto. O navio retornou o serviço em Fevereiro de 1942.

Adjetivei de sortudo este petroleiro por várias razões, primeiro, porque este navio quando foi atacado, estava a navegar em lastro, caso contrário se estivesse em plena carga, as consequências teriam sido seguramente mais desastrosas, em segundo lugar, porque Hans Gerrit Von Stockhausen comandante do U-65, era já considerado à data deste ataque, um dos grandes ases dos terríveis U-Boats alemães, de tal modo era respeitado e considerado que no seguimento desta patrulha, foi promovido a comandante da 26ª flotilha em Pilau, tendo morrido ironicamente num estúpido acidente de viação, em Berlim, em 1943, e por último, as condições muito adversas do mar na altura do ataque, impediram que a tripulação do U-65 pudesse ter utilizado a terrível peça de 105mm, com a eficácia que normalmente patenteavam em condições semelhantes.

Importante mencionar que ao falarmos dos submarinos do tipo U-65, estamos a descrever o maior predador de navios que existiu durante a segunda guerra mundial. Foi devido à ação deste tipo de submarinos que o curso da guerra esteve indeciso até 1943 e quase foi invertido. Felizmente Hitler não deu ouvidos a Doenitz, comandante em chefe da sua arma submarina, quando este lhe pediu incessantemente que mandasse construir mais submarinos em vez dos grandes couraçados e cruzadores, que mais tarde veio a provar-se seriam alvos fáceis principalmente para a aviação inimiga.

O U-65 pertencia ao tipo (IXB), grupo constituído por 14 unidades, considerada a classe mais mortífera da segunda guerra mundial, com uma média de afundamentos estimada em mais de 100.000 toneladas. Podiam navegar à superfície a 18 nós, quando a maior parte dos vapores faziam 10 nós na melhor das hipóteses, tinham uma autonomia da ordem das 12.000 milhas náuticas, podiam transportar até 22 torpedos, 44 minas e cerca de 140 obuses para a sua peça de 105mm, o que lhes emprestava um poder de fogo terrível.

2 comentários:

  1. Muito interessante apontamento. Empolgante.

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  2. Este relato é realmente empolgante, Val. Leio sempre com muito interesse estes episódios da guerra no Atlântico. Que venham mais que isto é mesmo matéria preciosa para o Praia de Bote.

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