quinta-feira, 22 de outubro de 2015

[1708] A história de mais um barco afundado nas águas de Cabo Verde durante a II Guerra

Ocorrência 4 - Velhos conhecidos

(ver três anteriores ocorrências, em posts já lançados do Praia de Bote; clique na etiqueta Ocorrência, mesmo no final deste post)

Luís Filipe Morazzo
Nesta quarta crónica vamos poder encontrar um protagonista já nosso conhecido de navegações anteriores. O famosíssimo Hans-Gerrit Von Stockhausen, comandante do não menos famoso U-65, submarino que proporcionou aos tripulantes do petroleiro British Zeal, a oportunidade de se tornarem heróis nacionais, devido á luta estoica travada pela sobrevivência, após o torpedeamento que foram vitimas ao largo da ilha do Maio, Cabo Verde, conforme descrição feita na crónica anterior.

Hoje iremos falar do cargueiro Nalgora, um dos muitos navios pertencentes a um dos maiores armadores de todos os tempos, a British India Steam Navigation Company Ltd, empresa que possuiu mais de 500 navios e geriu mais 150 em sociedade com outros armadores. No seu auge em 1922, a BI teve mais de 160 navios na sua frota, muitos deles construídos em Clyde, na Escócia. As principais rotas de transporte da frota foram: Grã-Bretanha para a Índia, Austrália, Quénia e Tanganyika. Mais tarde, a empresa passou os serviços da Índia para o Paquistão, Ceilão, Baía de Bengala, Singapura, Malásia, Java, Tailândia, Japão, Golfo Pérsico, África Oriental e África do Sul. A BI teve uma longa história de bons serviços prestados aos governos britânicos e indianos, através da utilização intensiva dos seus navios, não só, como transportes de tropas, mas também, com outros contratos militares em períodos históricos importantes.

O Nalgora
Quando a Alemanha invadiu a Polónia em 1939, para nos apercebermos da importância e da grandeza deste armador inglês, a marinha mercante portuguesa era composta por 61 unidades de médio e longo curso, enquanto a frota da BI era constituída por 105 navios oceânicos, com 675.000 tons dos quais 51 iriam ser destruídos. O Nalgora seria um deles, um belo cargueiro, com um comprimento de 132m, um deslocamento bruto de 6.579 toneladas, construído em 1922 em Sunderland, Inglaterra, podendo desenvolver uma velocidade máxima de 11 nós e com capacidade para 8 passageiros.

No dia 2 de Janeiro de 1941, pelas 22.07 horas, vamos encontrar o vapor Nalgora a navegar calmamente com ventos de feição e “mar de almirante”, bastante pesado no mar, devido a um pleno carregamento de equipamentos militares que transportava nos seus imensos porões, tendo como destino final Alexandria, no Egipto. Quando inesperadamente uma forte explosão abalou o navio, resultante do impacto de um torpedo lançado pelo U-65, a cerca de 350 milhas ao norte das ilhas de Cabo Verde.

Depois de ter sido forçado a parar a máquina, o comandante do Nalgora, Aubrey Devereux Davies, velho lobo-do-mar, com milhares de singraduras feitas pelos setes mares do globo no seu já vasto currículo, ao ter conhecimento que o navio estava perdido, foi obrigado com muita mágoa a fazer aquilo que nenhum comandante quer fazer, dar ordem à sua tripulação para abandonar o navio. Os 102 membros da equipagem e três passageiros foram todos resgatados sãos e salvos, após oito dias à deriva em diferentes botes salva-vidas. Os primeiros 52 sobreviventes foram recuperados pelo vapor inglês Nolisement e levados de seguida para Freetown, enquanto outros 34 náufragos foram resgatados pelo Umgeni também cargueiro inglês que os desembarcou em Glasgow no dia 13 de Janeiro. Finalmente, os restantes 19 membros da tripulação, a bordo de mais uma das baleeiras, conseguiram desembarcar sãos e salvos na costa oeste da ilha do Fogo, Cabo Verde, na freguesia de Santo António.

Quanto ao infeliz Nalgora, Hans-Gerrit Von Stockhausen um dos mais brilhantes comandantes da Kriesgmarine, depois de ter assistido calmamente ao seu abandono por parte de toda a equipagem, preparou-se de seguida para dar o golpe de misericórdia na sua nova presa. Normalmente os submarinos da classe do U-65 utilizavam para este fim, a potente peça de artilharia de 105mm instalada no convés. Depois de 70 disparos efetuados, o Nalgora foi remetido inexoravelmente para as profundezas do Atlântico, juntando a sua carcaça às mais de 5000, número verdadeiramente astronómico de navios mercantes aliados perdidos, durante a segunda guerra mundial.

6 comentários:

  1. Mais um empolgante e ilustrativo relato da guerra marítima no Atlântico. Isto é mesmo um tesouro para o PdB, já que tudo se tem passado nos mares de Cabo Verde ou próximo.

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  2. Caro Adriano Lima

    Fico satisfeito em saber que as minhas crónicas sobre a guerra marítima em águas de Cabo Verde têm tido alguma aceitação por parte de alguns dos utilizadores deste blogue. Recordo que embora Portugal durante a segunda guerra mundial, se tivesse mantido neutral, foi também no mar onde sofreu maior número de mortos, 104 no total, como consequência da perda de 11 navios da sua frota de comércio.

    Saudações marinheiras

    Luis Filipe Morazzo

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    1. Caro Morazzo, eu substituo o seu "alguma aceitação" por "generalizada aceitação". Duvido que haja algum dos nossos leitores que não goste destes interessantes e esclarecedores textos sobre o "naval" das ilhas verdianas. Acontece porém que, tal como se verifica com outros textos aqui plasmados, o pessoal vem cá, lê, saboreia, pensa "ahhhhhhhhhh, que interessante", palita os dentes e vai-se embora sem dizer "água vai". Preguiça, preguiça, pura preguiça...

      Se o Praia de Bote fosse pelo "mata e esfola", o blogue seria um fervilhar de comentários. Mas como pelo contrário preferimos a via da pesquisa, da investigação, que depois oferecemos "gratuita, de borla e sem pagamento" aos nossos lazy readers, isto parece vazio. Nada a fazer, nunca teremos aqui um grande forum de discussão mas pelo menos temos um grande grupo de leitores anónimos. Os números não enganam...

      Braça e viva a marinha mercante e de guerra,
      Djack

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  3. O Djack explicou bem aquilo que é um fenómeno inexplicável: os leitores vêm, apreciam e se calhar até se empolgam como eu e o Djack e uns poucos que costumam deixar aqui o seu testemunho, mas vão-se embora sem uma palavrinha, por pequena que seja, nem um "gosto", como se usa no facebook. Paciência, não há nada a fazer depois de tudo o que já tentámos para partilharem connosco as suas impressões. Oxalá o Morazzo nos continue a oferecer estas magníficas crónicas, para gáudio dos presentes e dos ausentes de palavra.

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  4. Efectivamente Praia de Bote é insubstituível na temática da investigação e da procura da verdadeira história de CV, histórias de carne e osso e factos ocorridos tanto no nosso chão como nos nossos mares.

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  5. Boas!!!
    Sou Emanuel C D'Oliveira, tambem conhecido por Monaya, estou, com um grupo de outras pessoas, em S Vicente, S Nicolau e Praia a organizar-nos para assinala o centenario do duplo afundamento na baia do Porto Grande. Os navios brasileiros Acary e Guahiba foram torpedeados pelos alemães e a UNESCO lançou a ideia de proteger o patrimonio subaquatico da I GG como forma de promover a paz. Pelo conhecimento, informaçoes e interesse divulgados neste blog, seria enriquecedora a vossa contribuiçao e participaçao na conferencia que se pretende organizar em Novembro de 2017 em Mindelo. Por favor contactem-me para falarmos sobre o assunto. ecoliveiracv@yahoo.com; FB- Emmanuel D'Oliveira

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