sábado, 14 de novembro de 2015

[1732] Mais um texto sobre navios afundados nas águas de Cabo Verde na II Guerra Mundial

Ocorrência 7 - O primeiro grande erro de Hitler

(ver seis anteriores ocorrências, em posts já lançados do Praia de Bote; clique na etiqueta Ocorrência, mesmo no final deste post)

Luís Filipe Morazzo
Desde o início das hostilidades, os alemães estavam cientes de que o domínio aliado dos mares era uma potencial ameaça aos seus planos de guerra. Para comandar a frota de U-boats alemães, Hitler nomeou Karl Doenitz – que já possuía experiência como submarinista na Primeira Guerra Mundial, portanto compreendia as necessidades dos marinheiros e o potencial do submarino como arma de guerra. Mas a avidez do Führer por iniciar o conflito apanhou Doenitz de surpresa: ele contava com mais alguns anos de paz, até que pudesse dispor de uma frota com poder de fogo para ameaçar o comércio entre britânicos e norte-americanos. Em Setembro de 1939, início da Segunda Guerra Mundial, o almirante comandava “apenas” 57 submarinos – bem menos do que as 300 embarcações necessárias e pedidas há muito, para que um bloqueio contra a Grã-Bretanha fosse realmente efectivo. Embora no decorrer da guerra a construção de submarinos tivesse sido incrementada, chegou tarde demais para poder asfixiar o intenso tráfico marítimo, em redor das ilhas britânicas.

O Nardana
Continuando a seguir a saga do comboio SL-67, e em particular a ação desenvolvida por Wilhelm Schulz, o famoso comandante do U-124, vamos poder observar que entre as 5h47 e as 6h08 do dia 8 de Março de 1941, disparou uma salva de seis torpedos na direção do comboio SL-67, quando este se encontrava a navegar a NNE das ilhas de Cabo Verde, com rumo às ilhas britânicas. Em consequência deste ataque, quatro navios foram gravemente atingidos, tendo de seguida naufragado com graves perdas entre as suas tripulações, cerca de 70 homens. 

Deste grupo de quatro navios, já vimos os casos do Tielbank e do Harmodius, segue-se a terceira vítima a cair perante a acção dos torpedos do U-124, tratou-se do grande cargueiro Nardana, construído em 1919, com um deslocamento bruto de 8000 toneladas, comprimento de 142m, podendo atingir os 14 nós de velocidade, era propriedade de um dos maiores e conceituados armadores de sempre, a Bitish India Steam Navigation Co. Ltd. Empresa fundada em 1856, em 1922 a sua frota era composta por mais de 160 navios que praticavam rotas tão variadas como Inglaterra para a India, Austrália, Japão, Kenya, Tanganica, Africa do Sul e a partir da India perfaziam a cobertura integral do resto do grande império britânico, como Paquistão, Ceilão, Singapura, Java, Tailândia, Malásia, Golfo Pérsico.

O Nardana, após o seu torpedeamento, devido ao pesado carregamento que trazia a bordo, composto por 5500 toneladas de linhaça e 2500 toneladas de gusa de ferro e noz de palma, afundou-se rapidamente, levando para as profundezas do oceano, 19 membros de uma tripulação composta por 127 elementos.

2 comentários:

  1. Parabéns ao Luís Filipe, Morazzo e obrigado, na parte que me cabe. Sou um grande interessado nestas crónicas. Há-de chegar a altura do crepúsculo da estrelinha submarina alemã e da derrocada do seu poder militar. No entanto, sinto, como aliás nos tem permitido ver, que nesta contenda marítima havia da parte dos comandantes dos submarinos alemães certo respeito pela vida humana.
    Acrescento que os ingleses, povo de marinheiros, não se exultaram com o afundamento do Bismark senão pela saída do tabuleiro da guerra de um poderoso adversário. De facto, lastimaram a perda de um soberbo navio de guerra.

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    1. Caro Adriano Lima

      Começo por agradecer o comentário que fez a esta minha crónica. Na minha modesta opinião, deveria haver mais leitores como você a comentarem os assuntos postados neste blogue, seguramente para todos aqueles que escrevem, o incentivo seria bem maior.

      Quando se refere ao respeito pela vida humana que havia da parte dos comandantes dos submarinos alemães, tem toda a razão. Durante toda a contenda foram inúmeros os casos, em que estes comandantes, antes de torpedearem as suas presas, obrigavam-nas a parar com tiros de aviso da sua artilharia de convés, em seguida, davam algum tempo para que as tripulações abandonassem os seus navios em segurança, e só depois é que tratavam de dar o golpe de misericórdia. Houve também outras ocasiões, em que os submarinos chegaram a passar reboque a baleeiras pejadas de sobreviventes, a fim de os largarem mais próximos de terra, aumentando deste modo as suas possibilidades de salvamento.

      Claro que estas situações aconteceram quando os navios eram intercetados a navegar isolados, pois quando se encontravam organizados a navegar em comboios, com fortes escoltas por perto, era de todo impossível este cavalheirismo entre homens do mar, que sempre existiu ao longo dos tempos, independentemente das suas nacionalidades.

      Apareça sempre

      Saudações marinheiras

      Luis Filipe Morazzo

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