quinta-feira, 29 de junho de 2017

[3034] No n.º 6 de "Claridade"... e na Rua de Matijim do Mindelo e também com nhô Balta. Ou seja, com ele, enquanto Osvaldo Alcântara

Apesar da promessa de hoje não colocarmos nenhum post, ao tomarmos posse deste material (no caso, digitalizado) que foi o n.º 6 da "Claridade", não resistimos a uma excepção... E ela aqui vai:


Estava-se no Mindelo, em Julho de 1948, na Rua de Santo António, vulgo "de Matijim", por nela ter tido negócio de géneros (sabemos que, entre outros produtos, por exemplo, vendia vinho) o senhor Mateus (Mateuzinho = no crioulo, Matijm). Neste mês havia ali grande azáfama, não só pelo facto de a característica artéria de morada ser já de si muito movimentada, devido a comércio de toda a ordem - dede botequins a lojas de aprestos marítimos -, incluindo o informal, mas por outro motivo. É que num impreciso número da rua, situava-se a Sociedade de Tipografia e Publicidade, Lda. E nas suas instalações (ou seria ali apenas a redacção da publicação de que falaremos a seguir?) entravam a toda a hora o João Lopes e o Nuno de Miranda, respectivamente editor e director da "Claridade", revista que estava a dar à estampa o n.º 6. E, diga-se, os dois intelectuais não davam sossego aos operários da gráfica, sempre interessados em indicar-lhes como melhorar este pormenor, aquela localização de título, aquele tipo de letra…

Em data também desconhecida desse mês, à beira da época de as-águas, lá saiu o 6.º número da revista que teria mais três, sendo que o último veria a luz do dia em Dezembro de 1960, ainda com Lopes por director mas já sem Nuno de Miranda, entretanto substituído por Joaquim Tolentino e agora com endereço na Travessa Brites de Almeida…

Na capa do 6, o poema "O Rapaz Torpedeado", de Baltasar Lopes/Osvaldo Alcântara, escritor/poeta recordado da guerra a que Cabo Verde escapou por um triz, não sem que tivesse havido alguns episódios tristes que roçaram o território, nomeadamente no Atlântico (como no caso do poema). 

No miolo, colaborações de Jorge Barbosa, Aguinaldo Brito Fonseca, Félix Monteiro, Osvaldo Alcântara (de novo), António Aurélio Gonçalves, Gabriel Mariano e Manuel Serra… 

Bem, quase estivemos lá, não foi? Como teria sido interessante se assim tivesse acontecido…

Deixamos aqui a capa, com o "Poema do Rapaz Torpedeado", para os que não o conhecem e que com toda esta conversa ficaram pela certa com água na boca.

E viva nhô Balta, sempre nhô Balta, claro!!!

4 comentários:

  1. Encheste-me a alma com este post, Djack. Revisitar a memória da revista Claridade, andar pela rua de Matijim, ouvir os passos do meu primo Nuno ressoar naquelas calçadas, sentir o cheiro da mancarra torrada a exalar-se do cesto da vendedeira, ouvir a sirene do vapor a deixar o porto, reler o poema de Baltasar Lopes, enfim, tudo pequenos apontamentos que nos fazem agarrar o fio invisível entre o passado e o presente. O que ninguém imaginava naquele ano de 1948 é que iria nascer na Metrópole um menino que habitaria a Capitania e captaria a alma da ilha e do seu porto para a manter viva pelo tempo fora. Ciente de que não faltará quem mais tarde passe de mão em mão as memórias.

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  2. Queria que este menino curioso debruçasse também na rua precursora desta de Matijim que era a Rua Sambandera (Sà da Bandeira).
    Nessa existiam três pessoas carismaticas cujos estabelecimentos eram muito frequentados por razões diferentes:
    - 1° Era a loginha de Jsé Badiu que vendia cordas e outros artefatos de bordo nomeadamente a por que era mais conhecida: a sua "gurdura-ronce" (restos de navios) que empestava a rua inteira; parace que era ideal para a cachupa pobre;
    - 2° Era a pensão de Nha Daluz-de-Carlins este irmão de José Figueira) e,
    - 3° A Casa de Nha Norata. Casa de pasto que ficou famosa com o que dizia um estrangeiro ali hospedado: - "Comida di casa di nha Norata, além de pouco, quente, cheio di caldo, mal faita".
    Garanto-vos que a rua de Nha Nizinha e de Nha Dadora e Nha Jona Encomadeira, teve também os seus dias gloriosos so ultrapassados quando o grogue chegou à Rua de Passà Sabe.
    Boas lembranças a todos.

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  3. Deus ta dabo corage e longa vida para nos mimosear com essas peças da história do nosso Soncent. Falando com um dos teus colaboradores fotográficos de cenas mindelenses - Zeca Soares - ele disse-me, e é verdade, que estás contribuindo imenso para relembra a história desta ilha.
    Um abração, meu caro, de agradecimento e felicitações

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    1. O Zeca é de facto o meu ponta-de-lança fotográfico no Mindelo e um sujeito muito simpático. Pena é ele não comentar mais vezes, pois sabe imensa coisa do Mindelo.

      Quanto às histórias da cidade (e da ilha e de Cabo Verde), vão surgindo a pouco e pouco, à medida que eu próprio as desenterro de milhares de folhas de jornal que vou pesquisando e arquivando. Neste momento, cerca de 4000.

      Braça mindelense,
      Djack

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