5 - A Actividade Militar e as suas múltiplas contingências (1.ª parte)
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| Adriano Miranda Lima |
A minha mãe tinha dezoito anos quando as tropas expedicionárias começaram a chegar a S. Vicente. Recorda-se perfeitamente do enorme rebuliço em que subitamente caiu a ilha e, muito particularmente, a cidade do Mindelo. Diz ela que volta e meia colunas apeadas de tropas equipadas passavam em trânsito para outros locais da ilha. Lembra-se de um dia admirar-se de ver numa dessas colunas um soldado tão franzino de corpo que lhe fazia confusão como conseguia ele aguentar o peso da mochila que lhe derreava as costas.
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| Formatura de um pelotão da 2.ª Companhia de Sapadores Mineiros. Foto do expedicionário 1.º cabo Custódio Jacinto (actualmente com 92 anos), pertencente e esta subunidade. |
Esta visão que a jovem que haveria de me dar à luz conserva na sua memória mais longínqua é um registo impressivo que pouco ou nada tem de substantivo senão a força imperecível da recordação de um acontecimento invulgar na cidade. A ilha dormia na pacatez dos seus dias quando subitamente milhares de homens vindos de fora lhe trouxeram aquela dimensão a um tempo impetuosa e sublime que é própria da instituição militar na sua mais pura essência. Para se ter uma ideia da actividade militar em Cabo Verde naquele tempo e da sua enorme repercussão no meio civil, apresentam-se os seguintes dados sobre os efectivos presentes em Cabo Verde entre 1941 e 1943, agrupando os militares das várias armas e serviços e discriminando as respectivas classes:
Na ilha de S. Vicente
Oficiais – 145; Sargentos – 233; Praças metropolitanas – 2.637; Praças de recrutamento local – 406; Total de efectivos – 3. 421.
Na ilha de Santo Antão
Oficiais – 23; Sargentos – 47; Praças metropolitanas – 635; Praças de recrutamento local – 48; Total de efectivos – 753.
Na ilha do Sal
Oficiais – 85; Sargentos – 146; Praças metropolitanas – 1869; Praças de recrutamento local – 144; Total de efectivos – 2.244
Total no arquipélago
Oficiais – 253; Sargentos – 426; Praças metropolitanas – 5141; Praças de recrutamento local – 598; Total geral – 6418.
Relembre-se que os 3 batalhões de infantaria de S. Vicente/S. Antão constituíram o Regimento de Infantaria 23 e que na ilha do Porto Grande foi sediado o Comando Militar de Cabo Verde, sob o comando do brigadeiro Augusto Martins Nogueira Soares.
Ora, o efectivo de 3421 militares em S. Vicente significou, em termos demográficos, um acréscimo percentualmente considerável aos cerca de 15.000 habitantes civis então existentes na ilha. Desse efectivo, 3.015 eram militares metropolitanos e 406 praças de recrutamento territorial. Se estes últimos se podiam considerar no seu meio natural, os primeiros representavam uma perfeita novidade aos olhos da população civil não tanto pela sua origem mas sobretudo pela sua importância como corpo social de repente injectado na comunidade local, fenómeno inédito e irrepetível no historial da ilha. Não será difícil imaginar a influência valorativa e transversal que tantos oficiais e sargentos passaram a ter na sociedade civil cabo-verdiana. A cidade não tinha uma dimensão urbana e demográfica que lhe permitisse absorver tanta população militar sem sentir profundamente alterada a sua pulsão habitual e o seu ritmo normal de existência, podendo dizer-se que os civis e os militares souberam interpenetrar-se para que Mindelo ganhasse um novo cariz sem dar por isso. Tarefas várias de natureza logística, incremento inusitado de trânsito automóvel militar nas ruas, cerimónias e comemorações militares, rondas militares à noite, escoltas ao Tribunal Militar, magotes de soldados fardados passeando pelas ruas nas suas horas de folga, tudo mudou na vida do Mindelo.
É importante referir que vários edifícios civis foram requisitados em S. Vicente para instalação de órgãos, serviços e mesmo efectivos militares, sobretudo as instalações que eram de utilização colectiva, como organizações recreativas e desportivas. Tal como diz a Dr.ª Risanda dos Reis Soares (1), o Clube de Ténis do Mindelo foi utilizado como garagem militar, o clube social Grémio Recreativo como quartel-general das forças expedicionárias, um edifício da comunidade britânica foi ocupado para um fim militar qualquer, numa dependência do Liceu foi instalado um serviço de fardamento e calçado, e o edifício da Câmara Municipal foi transformado temporariamente em hospital militar. Um outro exemplo que posso citar, por envolver a minha família paterna, diz respeito a um vasto terreno murado com depósitos que o meu bisavô, o comerciante Alfredo Miranda, possuía na zona que descai para a Lajinha e onde seria mais tarde construída a Escola Técnica. Foi-lhe requisitado, ao que parece a título definitivo, por uma quantia que o meu familiar entendeu ser simbólica e que, por isso, recusou receber. Segundo ainda a Dr.ª Risanda Soares, as autoridades civis de S. Vicente procuraram sensibilizar as populações para a mudança que ia ser operada na sua vida normal e a este respeito o então vice-cônsul britânico da ilha, a 3 de Dezembro de 1943, dizia o seguinte numa missiva: “A circulação das pessoas foi restringida pelos militares limitando a área em que as pessoas podiam fazer as suas vidas. Em consequência, a fome, o sobrepovoamento dessas áreas e condições de insalubridade aumentaram, assim como qualquer possibilidade de fazer negócio. A tensão entre os militares e a população também aumentou, dando origens a motins.” Mas tudo indica que a ocupação de algumas instalações civis foi numa primeira fase e na ausência de outra alternativa, e uma prova disso foi o hospital militar logo construído na zona entre o hospital civil e o bairro da Ribeira Bote. Mas o meu bisavô é que nunca foi ressarcido do que perdeu. Quanto a motins, pessoas ouvidas alegam haver exagero nas palavras do vice-cônsul britânico. São de opinião que houve bom relacionamento entre os civis e os militares e que alguns incidentes não passaram de rixas por causa de disputa das moças locais. A seu tempo, este assunto será abordado com mais detalhes.
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| Edifício onde esteve instalada a 2.ª Companhia de Sapadores Mineiros - Foto pertencente ao expedicionário 1.º cabo Custódio Jacinto. |
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| Capitão de Engenharia Firmino da Silva, comandante da 2.ª Companhia de Sapadores Mineiros - Foto pertencente ao expedicionário ex-1.º cabo Custódio Jacinto |
O que foi acabado de narrar nas páginas que precedem diz respeito à rotina militar e sua envolvência e implicações sociais. Como não podia deixar de ser, a parte nobre e nuclear da actividade militar era aquela que decorria da missão de defesa do arquipélago. Baseando-me em pouca documentação disponível e em testemunhos orais, a minha narrativa vai agora incidir sobre os aspectos mais significativos da actividade operacional desenvolvida, procurando, de uma forma sucinta, reconstituir o que seria normal e provável naquele contexto preciso.
Qual era a “situação geral” no âmbito territorial (Atlântico centro) e qual a potência em conflito mais provavelmente interessada em apoderar-se das ilhas de Cabo Verde? Vamos ver. A Inglaterra e os EUA não porque foi por sua pressão que Portugal se viu obrigado a reforçar a defesa das ilhas atlânticas. O inimigo provável era, com efeito, a Alemanha nazi, não obstante a declarada neutralidade do nosso país. A 2ª Repartição do Ministério da Guerra, no relatório elaborado pelo seu chefe, coronel José Mascarenhas (2), entendia que o porto de São Vicente seria útil, do ponto de vista dos beligerantes, mais como um ponto de apoio (porto de refúgio) do que como base naval. Admitia-se que o desembarque de forças adversas poderia ocorrer em qualquer ponto da ilha de S. Vicente, mas com mais probabilidade no próprio objectivo principal, ou seja, o Porto Grande e a cidade. Considerava-se que o inimigo excluiria a hipótese de perder tempo e desperdiçar energias com marchas longas e desgastantes quando lhe seria relativamente fácil um ataque frontal entrando directamente pelo Porto Grande, sabendo de antemão que Portugal não tinha capacidade para oferecer forte resistência nesse objectivo.
No entanto, não se punha de lado a possibilidade de o inimigo entrar também na ilha pelas baías de Salamansa, S. Pedro e Baía das Gatas. A actividade submarina alemã no Atlântico centro contra os comboios marítimos circulando entre a Europa, a América do Sul e Central e a África do Sul, colocava Cabo Verde no palco dos acontecimentos, dada a sua posição geoestratégica, e em várias ocasiões foram avistados submarinos alemães nas proximidades de S. Vicente e S. Antão. Há testemunhos de que chegaram a ancorar na baía do Tarrafal/S. Antão e em outros locais desta ilha, e também na baía de Salamansa e mesmo na do Porto Grande, neste último caso com o maior à vontade, e de tal forma que houve um veemente protesto do cônsul inglês em S. Vicente. O submarino, que acabou por acatar, só deixou o porto quando bem o entendeu. Porém, hoje já pertence à História que Cabo Verde deixou de ter grande importância para os alemães a partir do momento em que, com a capitulação da França, passaram a poder utilizar Dakar e os territórios da África Ocidental para bases aéreas e de apoio naval. De resto, tudo indica que os submarinos alemães aproximavam-se das nossas costas mais com o intuito de se reabastecerem de frescos do que como atitude de hostilidade. Vários testemunhos de civis referiram o ancoramento de submarinos em locais de S. Antão com essa finalidade, que nunca deixaram de pagar os produtos que adquiriam.
A defesa da do porto e da cidade do Mindelo, que constituíam o objectivo principal do ponto de vista do inimigo, de resto o mais plausível, exigiu a preparação e o guarnecimento de posições defensivas ao longo do perímetro da baía do Porto Grande e nos pontos dominantes da cidade que conferiam observação e campos de tiro dominantes sobre o invasor. Uma organização defensiva supõe a construção de trincheiras e abrigos em mais do que uma linha (escalão) de dispositivo e, como é de doutrina, os planos elaborados procuraram tirar proveito das encostas dominantes ao longo de toda a orla do porto. A grande azáfama de construção de trincheiras pode ter exigido o recurso a mão-de-obra civil, se bem que as tropas de infantaria, reforçadas com a engenharia militar normalmente dão conta dessa tarefa com os seus próprios meios (basicamente com pá e picareta, pois naquele tempo as máquinas de engenharia não eram muito comuns), salvo se um certo grau de urgência exigir a conclusão rápida dos trabalhos. Não estou seguro de que tenha havido recurso a civis, mas seria sem dúvida uma oportunidade de dar trabalho a algumas mãos desocupadas e de matar a fome a algumas pessoas. O que é natural é o acesso a toda essa área de posições defensivas ter sido vedado a civis, e isto é exemplo de uma das restrições que a população pode ter sentido na sua vida normal. É um facto que a actividade piscatória e a rocega de carvão podem ter ficado bastante limitadas em muitos locais.
Para além do empenhamento directo e prioritário na organização, preparação e treino da defesa do porto e da cidade, importava preparar também a defesa de outras zonas de possível desembarque de tropas inimigas, como o eram principalmente as baías de S. Pedro, Baía das Gatas e Salamansa. Enquanto na cidade do Mindelo e orla da baía do Porto Grande as tropas dispunham de instalações e posições de carácter permanente bem como um dispositivo de vigilância em estado de alerta contínuo, atendendo a que constituíam a área prioritária para a defesa da ilha, naquelas outras localidades citadas a sua ocupação seria encarada noutros moldes. Com efeito, o chamado “estudo da situação de operações” previu que naquelas regiões fossem construídas trincheiras e posições pré-preparadas para serem rapidamente ocupadas por uma companhia, reforçada com armas pesadas das companhias de acompanhamento dos batalhões. Estava previsto que essas posições incorporassem depósitos de munições e eventualmente água e víveres, permanentemente guardadas, e prontas a serem ocupadas quando e se a situação o recomendasse. Por testemunhos obtidos, sabe-se que, efectivamente, naquelas regiões estiveram destacadas forças de efectivo companhia ou pelotão, certamente obedecendo a um plano de rotatividade e com uma permanência variável com as informações que iam sendo obtidas sobre a situação do inimigo.
Independentemente da eventualidade do confronto real com forças invasoras, e conforme o plano de operações delineado para a defesa da ilha face às várias hipóteses consideradas, exercícios e ensaios periódicos de defesa realizavam-se nessas regiões da periferia, exigindo a deslocação em coluna apeada das forças sediadas na cidade, completamente equipadas para o combate. Penso que foi a deslocação de uma dessas colunas que a minha mãe presenciou quando o seu jovem coração feminino se compadeceu com a visão de um soldado franzino, vergado pelo peso da sua mochila, possivelmente com o rosto juvenil perlado de suor sob o capacete de aço.
Para não alongar demasiado o texto, esta narrativa prossegue numa 2.ª parte.
(1) S. Vicente de Cabo Verde no pós-guerra (1945-60), tese de mestrado em estudos africanos, Universidade do Porto-Faculdade de Letras, 1999.
(2) Coronel José Mascarenhas, Chefe da Segunda Repartição, AHM- FO/029/10/365/236.
Continua...
Lisboa, 21 de Outubro de 2012
Adriano Miranda Lima



























