quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

[0185] VIAGEM A SANTO ANTÃO - 23-25.Julho.1999 (05)

Foto Joaquim Saial - Monte Cara
Foto Joaquim Saial - Monte Cara, saída do Porto Grande
Foto Joaquim Saial - Em pleno Mar de Canal, cruzamento com o "N/M "Mar Azul" que vem de Santo Antão
Foto Joaquim Saial - A bordo do N/M "Ribeira de Paul", com o djéu (ilhéu dos Pássaros) em fundo

O "Ribeira de Paul" partiu, finalmente. É bom ver o Monte Cara tão perto, elevação que poderia estar como fotografia num imaginável bilhete de identidade da ilha de S. Vicente. As águas da baía são calmas mas a entrada no Mar de Canal começa a fazer os habituais estragos na cabeça e estômago dos passageiros. Ês tita fcá marióde...

Por precariedade de equilíbrio, não fotografo uma cena que se desenrola durante toda a mais de meia hora de viagem, mas conto-a aqui: um tripulante, de fato de macaco azul, dirige-se pouco depois de sairmos do Porto Grande a um armário existente na coberta, abre-o e começa a retirar baldes pretos de plástico que distribui a quem lhos pede. Mas devido ao movimento das ondas, o "Ribeira de Paul" balouça assustadoramente e por isso o pobre homem, para evitar queda fatal, é obrigado a deslocar-se de rastos. De rastos leva os baldes aos passageiros e do mesmo modo regressa ao armário para buscar mais. Há quem não resista e se vomite antes da chegada do recipiente. Alguns, mais prevenidos, trouxeram sacos de plástico e servem-se deles. Até vejo sacos de papel da TAP e dos TACV, em algumas mãos. Tresanda o cheiro a vómito e tanto este como os sons dos arrancos estomacais se infiltram em nós... Muita cachupa de pequeno-almoço foi parar ao convés e ao mar. Haverá ilustração melhor dos efeitos destas águas em quem se aventura nelas? Inevitavelmente, lembro-me da morna do Bana: "Mar de canal, bô é carambolento".

Vou do lado de bombordo e de repente vejo o "Mar Azul" que volta do Porto Novo e será o meu transporte de regresso. A estibordo, surge, aqui gigantesco, o djéu. Todos os olhares se viram para lá, menos os dos que estão com as cabeças debruçadas sobre os baldes ou os sacos. Eu, impávido e sereno, porque me soube prevenir com o comprimido salvador, mas em equilíbrio instável que não me permite fazer mais fotos do ilhéu dos Pássaros, delicio-me a observar o monólito mais querido do povo sanvicentino. O barco saltita sem parar e todos nos agarramos ao suporte mais próximo. Pode ser que no regresso haja menos vagas. O drama só é amenizado por cardumes (ou serão  bandos?) de peixes-voadores que nos acompanham durante quase todo o percurso, em maravilhosos bailados.

CONTINUA

3 comentários:

  1. Jack, V. devia aconselhar os seus leitores a engulir um dos comprimidos que evitam as náuseas porque o relato, de tão realista, nos provoca algumas ânsias...Lindas fotos...

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  2. Bom texto, Djack. Desta vez deliciei-me com a descrição dos vômitos e enjôos. E também com o apontamento sobre os peixes-voadores. Calculo que deve ter havido um ventinho no mar de canal, pois lembro-me de que esses peixes apareciam no mercado nos dias ventosos. Ou estarei enganado?

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    1. Aí está o sortilégio de uma coisa tão "sujamente" suja como essa ficar passível de apreciação através de algumas palavras bem escolhidas e ordenadas. Vantagens de uma escrita pensada.

      Quanto ao ventinho, era mais ventão. Aliás, o vento é o namorado das nossas ilhas - nunca as larga, é o verdadeiro crêtcheu delas.

      Braça
      Djack

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