Mostrar mensagens com a etiqueta Viagem a Santo Antão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Viagem a Santo Antão. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 28 de junho de 2012

[0193] VIAGEM A SANTO ANTÃO - 23-25.Julho.1999 (09)


Continuação do post 0189

De súbito, numa curva da estrada, encontro um jipe acidentado. Parece coisa recente, pois ainda há óleo a escorrer da zona do motor que alastra estrada abaixo. Lá dentro, ninguém, nem sinais de que tenha havido problemas de maior com o condutor ou possíveis passageiros. Nas imediações, também não se vislumbra vivalma. Venho a saber depois que se tratava de uma viatura dos serviços judiciários.


A paisagem continua avassaladora. É o Santo Antão de que se fala nos folhetos e roteiros turísticos e que não foge ao que dele se diz. Em país de secas e terras escalavradas, a ilha foge ao padrão habitual, embora também possua zonas falhas de vegetação. Não é que haja exuberância de verdes, pelo menos nesta altura do ano e nesta zona, mas por todo o lado essa cor faz a sua aparição, com maior ou menor intensidade. Nos cumes mais altos, sempre uma bruma que tudo cobre.


Em mais uma curva do caminho, dou com uma casa em construção, no lado da estrada virada para o mar. Há alguns miúdos que me pedem para lhes tirar fotografias. "Tráme um foto, tráme um foto", pedem em coro, mas a película está racionada e como não sei que maravilhas ainda solicitarão cliques da máquina, limito-me a fotografar os tijolos dispostos em várias filas, fabricados no local com recurso a cimento e moldes de madeira. É hábito antigo fazer tijolos deste modo, aqui como em toda a ilha, devido à falta de argila. É este material que dá a cor predominante à paisagem urbana, em quase todo o Cabo Verde. Segundo me contaram, uma casa inacabada, sem reboco ou pintura, não paga impostos ou pelo menos a sua totalidade. Daí que muitas famílias terminem as casas por dentro mas as mantenham com os tijolos à mostra, por fora...


Vou espreitando o mar que ruge lá em baixo e que vejo através de gargantas profundas e perigosas. O rebentamento das vagas produz sons estranhos que se repercutem no ar até ao sítio onde estou.  
[Mais ou menos por aqui iria morrer em desastre de viação o músico Vadu, em 12 de Janeiro de 2010, quando a viatura em que seguia caiu ao mar.]


Estou próximo de Ponta do Sol. Do lado de terra, um pouco antes da localidade, perfila-se uma fiada de prédios, ainda em construção, com três andares e muito bom aspecto que não parecem corresponder à frase presente no cartaz que os dá como sendo de habitação social. O dono da obra é a Câmara Municipal de Ribeira Grande e os financiadores são esta e o Grão Ducado do Luxemburgo, um do maiores benfeitores estrangeiros de Santo Antão e país onde muitos santantonenses mourejam.

Passa por mim o casal de portugueses que não via desde o dia anterior, ao que suponho de regresso a Ribeira Grande. Não se vê mais ninguém na estrada. Cumprimentamo-nos com um educado aceno de cabeça mas não chegamos à fala. Suporão eles que também sou português? Pode ser que sim, embora não me tenham ouvido falar. A verdade é que não metem conversa e eu agradeço interiormente a gentileza...

 .CONTINUA

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

[0189] VIAGEM A SANTO ANTÃO - 23-25.Julho.1999 (08)

A noite decorreu bem, em cama confortável, e a manhã acordou sorridente e soalheira. O dia parece perfeito para a passeata prevista. Dirijo-me à casa de banho ao fundo do corredor e enfrento a primeira grande decepção em Ribeira Grande – e afinal única, como depois verificarei. Não há palavras para descrever o antro, bem equipado mas incrivelmente imundo pela passagem de hóspedes desconhecedores dos mínimos requisitos civilizacionais. Em bicos de pés, num chão alagado, com a toalha num ombro e um sabonete (meu) na mão esquerda, lavo-me com a outra, em malabarismos que nunca pensei praticar. Barba feita e cara lavada, constituem a reduzida ablução matinal. Impossível tomar duche em tais condições…

Saio do hotel e passo de novo pela igreja matriz que agora fotografo. Alguém abre a porta do templo, para a missa da manhã. Entram os poucos fiéis que já estavam por ali e eu também. Olham-me com curiosidade, mas nenhum me interpela. Daí a pouco entram mais pessoas, algumas das quais encontrara no dia anterior. Minutos após, volto à rua, para continuar a minha volta. O Fony deve estar a chegar. Tem coisas para resolver e o nosso passeio está previsto para a parte da tarde mas combinámos encontrar-nos antes para acertarmos pormenores, pois reservei a manhã para ir a pé a Ponta do Sol.


Foto Joaquim Saial - Igreja de N.ª Sr.ª do Rosário, Ribeira Grande

Antes, ainda vou procurar a casa onde nasceu o reputado químico Roberto Duarte Silva (1837-1889), uma das maiores personalidades científicas que as ilhas cabo-verdianas deram ao mundo. Como a terra é pequena, não demoro a encontrá-la. Mais uma vez verifico que para se ser um grande homem não é necessário nascer em rico palácio. A casa, modestíssima e a precisar de pintura, alberga hoje a Mercearia Cipriano Cruz. Registando a memória do notável ribeiragrandense que passou pela China e por Lisboa e em Paris atingiu raras honrarias, subsiste uma placa indicativa por cima da porta da loja. 


Foto Joaquim Saial - Casa natal de Roberto Duarte Silva, Ribeira Grande

Junto a escola primária próxima, encontro o Fony. Estamos a conversar, quando chega uma senhora, a professora primária D. Isabel, que o conhece. Trocamos impressões sobre a Ribeira Grande e o que eu já vira naquele e no dia anterior. Nisto, ela aponta-me para o pedaço de calçada sobre o qual nos encontramos. Custa-me acreditar no que os meus olhos vêem: um escudo português, em pedra branca, remanescente dos tempos coloniais, incrustado no negro vulcânico do pavimento. A D. Isabel descreve ponto por ponto os sinais do símbolo nacional lusitano. Não me admiro, pois é de uma geração próxima da minha, em que nas escolas do Império os miúdos eram obrigados a ter esse e outros conhecimentos. É famosa, pelo seu ridículo, a situação que obrigava alunos dos confins de Angola ou Moçambique, para não falar dos da Índia, Macau e Timor, a saberem todas as linhas de comboio de Portugal continental… São cerca de dez horas. Despeço-me e dirijo-me para o lado do oceano, para bordejar a ilha pela estrada que leva à Ponta do Sol. Aproveito para fazer fotografias, entre as quais venho a encontrar duas das mais interessantes da campanha de Cabo Verde: a primeira retrata a ravina junto à estrada, por onde passa um homem carregado com lenha e a outra duas crianças que observam uma galinha a correr em velocidade acelerada, sem motivo aparente que o justifique (que não coloco aqui, por motivos óbvios, embora já se tenham passado mais de dez anos). No percurso, ainda perto da cidade e junto ao mar, repetem-se as pocilgas, cada uma com um ou dois porcos. A estrada vai subindo, o ar torna-se cada vez mais puro. Montanhas pela esquerda, sol por cima, Atlântico à direita. A paisagem é perfeita.


Foto Joaquim Saial - Estrada Ribeira Grande / Ponta do Sol

Foto Joaquim Saial - Estrada Ribeira Grande / Ponta do Sol (pocilgas)

Foto Joaquim Saial - Estrada Ribeira Grande / Ponta do Sol (pocilgas)

Foto Joaquim Saial - Estrada Ribeira Grande / Ponta do Sol (ao fundo, a últimas casas de Ribeira Grande)
.CONTINUA