domingo, 15 de janeiro de 2012

[0186] VIAGEM A SANTO ANTÃO - 23-25.Julho.1999 (06)

Foto Joaquim Saial - Chegada a Santo Antão, Porto Novo

Com tanta movimentação, o tempo corre depressa. Santo Antão vai-se agigantando, à medida que os minutos passam e em breve Porto Novo está à vista. No cais, para além de muita gente para receber os familiares, há carrinhas, iaces e alugueres com fartura. O Fony e o filho sobem das profundezas do navio e vêm ter comigo. O nervosismo da chegada é o mesmo de sempre, nestas ocasiões. Eu e um jovem casal de portugueses, aparentemente em lua-de-mel, somos os únicos europeus a desembarcar.

Foto Joaquim Saial - Chegada a Santo Antão, Porto Novo

Como pretendo ficar um dia no Porto Novo, chamo um táxi e sigo com os meus dois companheiros à procura de alojamento para mim. Isto, porque o Fony não me pode dar abrigo, visto a sua casa estar em obras. Deparo no entanto com enorme contratempo. É que a final de um torneio ou campeonato de futebol decorre na cidade e está tudo cheio de jogadores e respectivas comitivas. Resumindo, nem um quarto livre. Em desespero de causa, tomo uma decisão rápida: vou seguir já para Ribeira Grande, onde prevejo fazer uma surpresa ao Alexandre, meu velho amigo e condiscípulo de Liceu Gil Eanes e na volta visitarei então o Porto Novo com mais calma. Dito e feito, regressamos ao cais acostável. Por milagre, ainda lá está a última iace... cheia e pronta a partir. É o Fony quem me salva, pedindo ao condutor um lugar para o amigo português. Assim como assim, a lotação já estava ultrapassada, pois num local para nove estavam uns onze passageiros. Sou por isso o décimo segundo. Vou ao lado de uma mulher que leva dois edredões ao colo e o meu saco tem de ficar no meu, bem comprimido entre a dita e a zona lateral direita do veículo. O banco é o traseiro. Atrás, a maioria da bagagem dos viajantes e uma galinha que passará o tempo a saltar e a cacarejar...

Foto Joaquim Saial - Cais acostável do Porto Novo, Santo Antão. Em fundo, São Vicente, de onde parti.

Foto Joaquim Saial - Pormenor da foto anterior

Vamos pela perigosa estrada de Corda, rasgada na montanha. A paisagem começa mais ou menos desértica mas logo dá lugar a zonas de pinheiros e de outro arvoredo que vislumbro vagamente por entre nevoeiro. A dado passo, olho para a direita e vejo bem abaixo da estrada a cratera de um vulcão (Cova) onde grupos de pessoas praticam agricultura. Encontramo-nos a cerca de 1170 metros de altitude. A via mete medo mas o condutor guia com aparente segurança. Os meus companheiros de viagem vão saindo a pouco e pouco, aqui e além, uns no meio do nada, outros em pequenas povoações que não devem estar registadas em nenhum mapa. Quando chegamos a Ribeira Grande somos já poucos, menos de metade dos que partiram de Porto Novo. Pago os quatrocentos escudos pedidos (à época, cerca de oitocentos portugueses) e vou à procura de sítio para ficar. São cerca de três horas da tarde. 

 CONTINUA

3 comentários:

  1. E pronto,o nosso viajante já está em Porto Novo. A narrativa, num estilo muito apropriado e agradável de ler, faz-me lembrar a viagem que fiz em 2002, para mim uma novidade uma descoberta, porque a última tinha sido em 1957 e num veleiro,e com destino a Ponta de Sol. Esse veleiro (motorizado) chamava-se Mar Novo.
    Agora vamos aguardar a chegada a Ribeira Grande, terra da minha avó materna e do meu avô paterno.

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    1. Ribeira Grande será a tarde desse dia e todo o dia seguinte, mais o início da manhã do terceiro. Neste, haverá um bom espaço de Porto Novo e logo de seguida o Djack e o seu saco de viagem voltam ao Mindelo, num "Mar Azul" carregado de banana.

      Braça,
      Djack

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  2. Eu "fiz" a estrada da Corda quando o então Presidente da Republica, Américo Thomaz, visitou C.Verde, salvo erro em 1968 e fiquei, simplesmete, estarrecido! A visão de infinito que se tem dá-nos a sensação de estarmos no ceu e a beleza telúrica que nos cerca é de cortar a respiração...Como me recordo ter comentado, na reportagem que então realizei para a Rádio e para o jornal O Arquipélago, a espectacular pauisagem que ali nos esmaga é, simplesmente, ciclópica!

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