quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

[0187] VIAGEM A SANTO ANTÃO - 23-25.Julho.1999 (07)

A iace deixou-me na praça do centro histórico de Ribeira Grande. Passo pelos Correios, por um banco e pelo que dizem ser o maior templo católico de Cabo Verde, a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Dentro em pouco estou no Hotel Residencial 5 de Julho (equivalente a uma pensão média portuguesa), um dos dois possíveis, trazido na memória por leitura do “Guia das Ilhas de Cabo Verde”, de Pierre Sorgial. Perto, a Casa Marçal, que me recorda a padaria sanvicentina do mesmo nome, dos meus tempos de miúdo.

Foto Pitt Reitmaier

O hotel parece limpo mas só consigo um quarto no segundo andar, sem casa de banho, o que desde logo me preocupa. À falta de elevador, lá subo vários lanços de escada com o meu saco. Na passagem pelos pisos, não me parece estar num hotel mas em várias habitações privadas. Em salas a dar para os patamares, vê-se gente sentada, em ameno cavaqueio, parecendo estar na própria casa. Uma mulher arranja as unhas a outra, uma terceira penteia-se, miúdos saltitam, um rádio debita uma morna de Tito Paris, em alto som. Cheira a cachupa por todo o lado.

O quarto agrada-me, impecavelmente limpo. A janela dá para o morro ao qual o hotel quase se encosta e por isso a vista que dali se pode observar é fraca. Embora se divise boa parte do enorme rochedo, o espaço dá para uma espécie de saguão. Arrumo a minha bagagem, penduro três camisas mais um par de calças e telefono para casa a dizer que estou bem e que não aumentei o número de esqueletos do Mar de Canal.

Trata-se agora de arranjar algo para comer. No restaurante do hotel a ementa é reduzida, sobretudo a esta hora tardia de quatro da tarde. Mas lá consigo desenterrar um esforçado arroz com atum, o popular "arrozcatum" cabo-verdiano, cujo bom sabor é ampliado pela fome que tenho. Uma Sagres gelada e uma manga, um café e o inevitável grogue da terra completam o repasto. Nunca antes tinha comido fruta e bebido café a aguardente produzidos na mesma terra, no mesmo momento.

Saio para dar uma volta e para me encontrar com o Alexandre. Como se faz tarde, opto por ir logo reencontrar o velho amigo e condiscípulo. É agricultor e a esposa, segundo o Fony me informou, tem loja de venda de produtos gerais, à qual me dirijo. A Teresa está ao balcão. Apresento-me e conto-lhe ao que venho. Surpresa das surpresas, informa-me que o marido não está na ilha mas sim em... Lisboa. Algum tempo antes, ao dirigir-se de mota para a sua propriedade, a imprevista aparição de uma miúda ou mulher (já não sei precisar bem) numa curva do caminho fizera-o cair, após desesperada manobra de mudança de direcção para não a atropelar. Partira uma perna e fora enviado para o Hospital Baptista de Sousa, em S. Vicente. Mas fora infeliz com o tratamento. Na contingência de possível amputação, decidira em desespero de causa ir para Lisboa resolver o problema de saúde. Estava agora no Hospital da CUF, já operado e bem.


Foto Joaquim Saial - Zona da Ribeira da Torre (o edifício rosa é a Escola Secundária Suzete Delgado, inaugurada em 1993; atrás do fotógrafo, o mar)

Não há Alexandre mas há Ribeira Grande. A tarde está amena, embora ventosa, como quase sempre nas ilhas. Joga-se à bola, com grande vivacidade de atletas e público, no campo fronteiro ao Atlântico. Passo pelo pequeno hospital que ostenta o nome de João Morais, santantonense meu médico de infância, com consultório na Rua de Lisboa, em São Vicente, merecida homenagem ao homem bom e sabedor que foi. Percorro a avenida do Luxemburgo, entro na Rua Município de Torres Novas, passo por escolas (a Secundária Suzete Delgado impressiona pela arquitectura moderna e escorreita) e muitas casas novas feitas com dinheiro angariado na emigração, mas também por inúmeros chiqueiros de tchuc que curiosamente não conseguem ensobrar o bom aspecto geral da Ribeira Grande. Os picos das montanhas que enquadram a cidade parecem querer resguardá-la do exterior  a que só o mar mostra dar abertura. Naquele dia, naquela hora, só, sem ninguém com quem conversar, absorvo a beleza do local que me parece um dos mais maravilhosos que já vi. Deambulo pelas ruas até anoitecer. As pessoas olham-me amigáveis mas não estabeleço conversação com ninguém. A magia do local tomou conta de mim e prefiro manter aquela solidão. Tardiamente, entro no restaurante do outro hotel, o Aliança, onde serei único comensal e despacho um pargo assado no forno com batatas como nunca comi antes. O acompanhamento alcoólico, como sempre lusitano, fica a cargo de uma garrafa de Casal Garcia.  Excelente doce de papaia com queijo é agora o remate gastronómico. Ribeira Grande já é o meu segundo paraíso, depois do Mindelo - que esse jamais poderá ser destronado.


Foto Joaquim Saial ( outro aspecto da mesma zona; o edifício verde à direita é o dos Correios)

Fez-se noite. Não se vislumbra ninguém nas ruas. A iluminação eléctrica é escassa. Ainda vou ver o mar, percorrendo parte da seca Ribeira da Torre que nele "desagua". As ondas rebentam nas rochas da praia com grande ímpeto, brilhando com os reflexos provocados pela luz da lua. Regresso ao hotel e deito-me. Amanhã, o Fony virá ter comigo, para darmos uma volta pelos arredores da Ribeira Grande. Falou-me num amigo que nos dará uma volta de jipe por locais próximos, Tanque e Coculi. Tenho curiosidade de ver os sinos da igreja desta última localidade que me disseram serem os maiores de Cabo Verde. Começo a ler um velho número do "Paris Match" esquecido no quarto por outro hóspede mas em breve adormeço.

CONTINUA

7 comentários:

  1. Belo relato, meu caro...Sobretudo, porque o meu amigo teve o seu contacto com o "arrozcatum" de sintanton antes que existisse este "arrozcatum" lisboeta...Belas memórias!

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  2. Joaquim, por mais que o amigo adoce a palavra e afague a expectativa na chegada à vila da Ribeira Grande (ou já é cidade?), transparece um não sei quê de desencanto e nostalgia nas suas impressões. Pudera, atravessa o mar de canal, com o “esqueleto” a salvo, e o que encontra naquele pequeno burgo de casas antigas é o tempo suspenso. Suspenso em quase tudo, nos ritmos transidos e na pacatez de vida, nos olhares resignados e nos sonhos trancados. Só onde a natureza é senhora de si, intocável, o tempo se consagra na sua imutabilidade. É, por exemplo, naquele eterno murmúrio entre o mar próximo e a montanha sobranceira, dois regaços em que o seu espírito encontrou pouso e prazer, por breves momentos. Talvez por isso diga que sentiu a magia do lugar, resguardando a solidão que preferiu gozar.
    Falo assim porque senti o mesmo quando revisitei a vila em 2003. Há uma empatia entre as suas palavras e o sentimento que me possuiu ao regressar àquele lugar. A minha nostalgia é avivada principalmente pela imagem dessa Igreja onde foram baptizados a minha avó materna e o meu avô paterno, e onde os pais deste se casaram. E a poucos metros, na rua de Santo António, ficava a casa da avó paterna. É evidente que alguma coisa evoluiu desde então. Por exemplo, a escolarização ( aquela Escola Secundária), casas novas, de traça moderna, construídas com o dinheiro dos emigrantes. Mas que é do futuro verdadeiro, palpável? Alguma cosmética de superfície não disfarça as fundas rugas.
    Quando visitamos ou revisitamos um lugar de memória é o que acontece, por vezes como uma fatalidade. A desilusão afoga a expectativa, quebra o encantamento. Claro que agora estou a falar de mim, porque estive de férias nessa vila ainda criancinha e nessas idades a realidade se veste de outras cores. As da fantasia. Como foi o caso do meu deslumbramento com uns simples naviozinhos de pau de purgueira, que ainda recordo, feitos por um rapaz com uma navalha de lavoura.
    Quanto ao Joaquim, a nostalgia será certamente a mesma que sente quando em viagem pelo Alentejo dos seus avós passa por lugares onde nota e sente o mesmo desamparo de alma. Onde a vida das pessoas continua parada no tempo.
    Gostei imenso da sua prosa e da sua narrativa. E li como se eu fosse (et pour cause) um destinatário especial das suas palavras. De um cabo-verdiano de coração para outro que é de corpo e alma.
    Ah, já me ia passando, falta enaltecer a magnífica qualidade das fotografias.

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  3. Corrijo um lapso de escrita. Na rua de Santo António ficava a casa da minha avó materna e não paterna. Esta nasceu em S. Vicente.

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  4. Caramba, mais uma coisa a corrigir, e tudo por causa do raio dessa Igreja da vila de Ribeira Grande. Claro que isto é de somenos e não interessa ao belo texto do Joaquim. Mas é que, no caso desta minha gafe, o João Manuel de Oliveira pode dar-me uma valente "chupleta", porque ele, melhor que ninguém, vai detectá-la.
    Os meus bisavós paternos não se casaram nessa Igreja. Ambos nasceram em Ribeira Grande e por certo foram ali baptizados. Mas o casamento foi na igreja paroquial da freguesia de Santo António das Pombas, Paúl. Isto porque a bisavó Ana de Oliveira teria fortes ligações familiares ao concelho de Paul, talvez as origens mais remotas. O João Manuel é que me forneceu os dados sobre o local do casamento e também de nasimento da Ana, porque, além de pesquisador de genealogia, ele é também sobrinho-bisneto dela.
    Prometo não voltar a chatear com rectificações, isso não, mas posso voltar a discorrer sobre este registo de viagam do nosso Joaquim.

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  5. O looooooooooooooooooongo relato da nossa expedição serve não só para dar a conhecer aos leitores a currrrrrrrrrrrrrrrrta mas interessantiíííííííííssima viagem, como também para dar oportunidade a derivações, igualmente saborosas, genealógico-adriânicas ou de outro tipo da mesma origem - é que ler o Adriano é sempre um prazer.

    Braça aos comentadores que mantêm acesa a chama comentativa!
    Djack

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  6. Tenho acompanhado esta interesante vaigem a Santo Antão "ILHA DAS MONTANHAS",e quero acrescentar que, tambem hoje já se chega à Vila da Ribeira Grande pela estrada do litural norte da ilha, conhecida por "estrada porto novo janela", e que liga os três Vilas (JANELA, PAUL, RIBEIRA GRANDE).É uma estrada construida com tecnicas moderna, pois alem de ser alcatroada possui dois Tuneis com mais de 100 metros de comprimento cada. Mas a estrada de montanha que liga Porto Novo a Ribeira Grande é simplesmente DESLUMBRANTE; Com curvas e contra curvas, fica-se com uma ideia da beleza e da integração das duas ilhas São Vicente e Santo Antão.

    Um Abraço de Marcos Soares

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    1. Boas-vindas ao Marcos Soares e obrigado pela participação. É sempre bom ver aparecer mais um leitor interessado e amante das ilhas.
      Um abraço
      Djack

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