quarta-feira, 9 de julho de 2014

[0955] O "Madalan", navio de longa história (1.ª parte)

 







POR MOTIVOS RELACIONADOS COM A FUTURA PUBLICAÇÃO EM LIVRO DAS "CRÓNICAS DO NORTE ATLÂNTICO" (JORNAL EM PAPEL "TERRA NOVA") E DOS ARTIGOS "CABVERD DI MEU" (EXTINTO JORNAL DIGITAL "LIBERAL"), A PARTIR DE AGORA AS "CRÓNICAS DO NORTE ATLÂNTICO" SERÃO  DIVULGADAS NO Pd'B APENAS ATRAVÉS DOS PRIMEIROS TRÊS PARÁGRAFOS.

Crónica de Abril.2014

"MADALAN", BARCO DE MUITAS NAVEGAÇÕES E FIM TRÁGICO [1]

Da marinha de recreio e investigação científica à actividade militar, durante a II Guerra Mundial

O "Madalan" ainda como "Illyria"
Praticamente todo o povo de Cabo Verde conhece o "Madalan", de o ver ao vivo, em fotografia ou nas belas moedas de 100$00 da emissão de 1994, alusiva a navios históricos das ilhas. Construído em Itália em 1928 e registado no arquipélago em 1950[2], o veleiro teve história movimentada que acabou em naufrágio, em 1959, junto ao ilhéu de Santa Maria, à vista da Praia.

Construído como iate na localidade então italiana de Lussimpiccolo[3] pelo estaleiro de Marco U. Martinolich para Cornelius Crane, industrial americano de artigos de casas de banho, de Ipswich, Massachusetts, chamava-se de início "Illyria". Com 133 pés[4], 357 toneladas brutas e 242 líquidas, para além da cabina do capitão e alojamentos dos tripulantes, tinha quatro quartos duplos, biblioteca e sala de estar. Enquanto propriedade de Crane, realizou em 1928-29 uma longa viagem, procurando peixes, aves[5] e animais raros para o Field Museum de Chicago. Partiu de Boston, atravessou o Canal do Panamá e passou pelas Galápagos, Marquesas, Taiti, Novas Hébridas, Ilhas Salomão, Nova Bretanha (no arquipélago de Bismarck), Nova Guiné, Celebes e Bornéu, antes de transpor o Mar da China Meridional e o Oceano Índico e regressar ao porto de partida, 11 meses e 32 000 milhas depois. Planos iniciais para levar um avião com asas desmontáveis, três câmaras e um projector de cinema, equipamento de mergulho, dinamite, 25 espingardas e diverso outro material, não foram concretizados por absoluta falta de espaço no navio[6].

Entretanto, passa à posse de George M. Moffett, de Nova Iorque, que o rebaptiza como "Malaina". No início da II Guerra Mundial, a Guarda Costeira americana adquire-o por 45 000 dólares e gasta quase outro tanto para o reconverter em barco de guerra, equipando-o com duas metralhadoras de 2 20mm[7], dois lançadores de cargas de profundidade, localizadores de alcance e plataformas para armas. É a partir dessa altura que toma o nome de "Madalan"[8] com que há-de ficar para sempre. A sua permanência como vaso de combate iniciou-se em 1 de Abril de 1943, estando nessa altura adstrito ao Fort Tilden, Nova Iorque. Exactamente um mês depois do fim do conflito na Europa[9], o "Madalan" foi transferido para a War Shipping Administration, já como embarcação mercante[10]. (o presente texto é um excerto do artigo total)

(continua)

 Notas:

[1] A documentação que possuímos sobre o "Madalan" dá para pelo menos dois artigos.
[2] Ver Notas e Moedas de Cabo Verde, Cadernos BCV, Série Educação Financeira – 05/2007, p. 17.
[3] Lussimpiccolo, na ilha de Lussino (actualmente Losinj), pertenceu ao império austro-húngaro até ao fim da Grande Guerra, à Itália até ao término da II e integrou a Jugoslávia a partir de 1947. Hoje, é território croata.
[4] Cerca de 40,54 metros.
[5] Em Zoological Series of Field Museum ofd Natural History, Vol. XX, Chicago, 30.Agosto.1938, n.º 34, refere-se na p. 53 que foram recolhidos 1198 espécimes de aves.
[6] Ver SHURCLIFF, Sidney Nichols e SCHMIDT, Karl Patterson – Jungle Islands: The "Illyria" in the South Seas, ed. G. P. Putnam's Sons, Nova Iorque e Londres, 1930 (The Record of the Crane Pacific Expedition Fields Museum of Natural History, Chicago, Illinois). Este livro foi-nos dado a conhecer por Artur Manuel Mendes, ex-tripulante do "Ernestina", do "Novas de Alegria" e do Carvalho", antigos navios de cabotagem de Cabo Verde.
[7] Número do texto original, mas 20mm deve ser a referência exacta. A sugestão, que nos parece plausível, foi feita pelo coronel Adriano Miranda Lima, em conversa que com ele tivemos.
[8] Na Guarda Costeira dos EUA, "Madalan" (WYPc-345).
[9] Embora a guerra no Pacífico ainda tenha continuado, o que restou do governo alemão rendeu-se a 7 de Maio de 1945.
[10] Estes dois sítios apresentam rica informação sobre o navio, nomeadamente o segundo: www.uscg.mil/history/webcutters/Madalan_WYP345.pdf e www.worldofcoins.eu/forum/index.php?topic=11080.85;wap2

2 comentários:

  1. Nunca imaginei que o Madalan fosse um navio desta categoria e com um passado tão nobre. Quanto às metralhadoras, só podem ser de 20 mmm, Djack.
    Grande trabalho de pesquisa! É muito importante que as novas gerações cabo-verdianas conheçam estas peças importantes da nossa história marítima, que teve o seu lado trágico mas também heróico e romântico. Foram as portas de entrada e saída na construção dos nossos sonhos.

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  2. A questão do calibre está resolvida na nota 7, com a ajuda de um amigo, especialista na área, que conheces bem...

    Braça à FBP,
    Djack

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