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sábado, 7 de janeiro de 2012

[0179] Divertido texto de Zito Azevedo

O ENGATE…

Zito Azevedo
Estava frio em Lisboa, nesse Outono de 1956, enquanto eu e mais uma mão-cheia de amigos aguardávamos ordem de embarque para Luanda, todos futuros Aspirantes do Quadro Administrativo de Angola, todos oriundos de Cabo Verde, principalmente de S. Vicente e da Praia… Lembro, além dos meus fieis companheiros na viagem desde o Porto Grande a bordo do “Ganda” (Dick Ferro e Adriano Lima), do Caldeira Marques, do Serra, do Lúcio e muitos outros pois, ao que recordo, éramos uns dezasseis, ao todo.

Os que tinham chegado antes de nós deram-nos algumas dicas sobre como tratar das coisas no ministério do Ultramar ou seja, não devíamos levar de uma só vez todos os documentos que nos eram exigidos, como declarações, estampilhas fiscais, certificados, etc., mas, apenas, uma parte. O funcionário do ministério dava-nos um raspanete e concedia mais dez dias para entregarmos os documentos em falta. A gente desculpava-se com a nossa ignorância, devida a falhas de informação, e dez dias depois lá íamos com mais alguns papeis… Bem, quando, finalmente, embarcámos em Lisboa para uma viagem de cerca de doze dias que nos havia de levar até S. Paulo de Luanda, tinham já passado trinta dias desde a nossa chegada de Cabo Verde…


Claro que isso deu-nos tempo para calcorrear Lisboa de lés-a-lés, ir à Casa das Fardas comprar calças, calções, camisas, boné, tudo em caqui, verde garrafa, meias altas,  botins castanhos e uma espécie de crachás de metal amarelo com as quinas pintadas a azul, que se fixavam às pontas dos colarinhos e eram o pormenor que nos identificava profissionalmente. Eu, que tinha perdido toda a minha melhor roupinha, num desagradável incidente no Porto da Praia (Santiago), fiz uma peregrinação à Avenida Almirante Reis que era, na altura, a Babel das compras, de onde regressei de calças de feltro cinzento clarinho e um casaco bem quente cor de tijolo. Era o conjunto da moda, como hoje acontece com as calças cinza e os “blazers” azuis.

Nós, os três que tínhamos viajado juntos, víamo-nos todos os dias e era rara a noite que não íamos beber umas cervejitas ao “Bolero”, um bar-dançante, “cabaret” ou como lhe queiram chamar. O “Bolero” ficava (e parece que ainda fica…) ali no começo da Rua da Palma, que sempre teve má fama, vá-se lá saber porquê. Era um sítio acolhedor, o consumo mínimo era uma cerveja que já não me lembro quanto custava, e tinha um conjunto musical com uma pinta especial: era um saxofonista, que também tocava clarinete, um acordeonista e um baterista; eram três, dos quais, dois, eram cegos… Nos intervalos das suas actuações, dava gosto ver o cuidado com que o baterista, o único que via, guiava os seus companheiros para fora do palco, diligentemente os acomodava a uma mesa onde três cervejinhas frescas os aguardavam e onde entabulavam animada conversa. Durante estes intervalos, contudo, o baile continuava, graças às músicas de uma “jukebox” bastante gasta, estrategicamente colocada a meio da maior parede do salão. Há coisas que a gente jamais esquece, por muitos anos que passem e o que se passou quando faltavam cinco dias para embarcarmos para Luanda certa noite, no “Bolero” é disso paradigma.

Dizia-se à boca pequena que o “Bolero” era um lugar de “engate”, que por vezes se viam uns parzinhos saírem sorrateiramente, fazendo os possíveis e os impossíveis para parecerem invisíveis e que umas vezes não regressavam e outras voltavam parecendo  pouco à-vontade. Claro que nós não dávamos grande importância às más-línguas: a nossa intenção era passar umas horas divertidas, dar uns pezinhos de dança, beber umas cervejas, ocasionalmente um “whisky” baptizado, comer uma tapas… Nessa noite, os músicos descansavam e a máquina tocava – tenho a certeza - “No Man Is An’Island” e o Adriano dançava com uma moça cuja cabeça lhe dava pelo ombro,  de corpo bem feito moldado por um vestido de malha cinzento, sapatos pretos e cabelo solto. Dançava bem, a moça, embora coxeasse levemente, com a perna esquerda. Passou-se um  minuto, dois minutos e a cabeça do Adriano emergia acima da turba dançante, lá no fundo da sala quando ouvimos a exclamação disparada pelo vozeirão do nosso companheiro e que nos gelou o sangue: “O QUÊ? QUINHENTOS PAUS?”

Em menos de um fósforo, o Adriano atravessou a sala e saiu porta fora. Ficámos três dias sem o ver!

Zito Azevedo
Queluz, 3 de Janeiro de 2012

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

[0168] Novo texto de Zito Azevedo. Proximamente, poema de Adriano Miranda Lima

BRANDY v.s.o.p.

Zito Azevedo
Corria para aí o ano de 1953 e o Rádio Clube Mindelo, que funcionava nos dois andares superiores do ultimo prédio da Rua de Lisboa, mesmo em frente ao, então, Palácio do Governo (hoje, Palácio do Povo), organizava um dos seus famosos bailes com orquestra, não me lembro se era o Baile da Pinhata, se era o Baile das Chitas. Só sei que estava animado, como sempre acontecia naquelas organizações do amigo José Pedro Afonso, o primeiro amigo que me calhou com três nomes próprios. Eu, passava as horas a tirar um pequeno espelho do bolso para controlar o estado do meu laço de gravata, pois havia, nessa noite, dois concursos: um para o melhor nó de gravata, para os homens, e outro, para a mais bela flor artificial, para as senhoras.

Reunido o júri, foi deliberado que o Zito Azevedo (que era eu) vencia o concurso do melhor nó de gravata e a menina Maria do Carmo, mais conhecida por Maiúca, vencia o concurso das flores. Não me lembro qual era o prémio mas o simples facto de os dois vencedores terem que dançar um com o outro, já era prémio suficiente para mim pois a menina da belíssima rosa que uma tia lhe havia enviado dos “States” já há algum tempo que me vinha despertando os instintos em fugazes olhares de esguelha naquelas intermináveis voltas na Praça Nova. Mas, encurtando razões, o que é certo é que naquela noite de baile no RCM eu acabara de ter um encontro com o destino, conhecendo a mulher com quem, há 54 anos, partilho a minha vida.

 Algum tempo mais tarde, depois de resolvermos que queríamos dar o passo seguinte, era mister que eu pensasse em dar o corpo ao manifesto. Foi quando me confrontei com uma notícia de que o Governo de Angola queria recrutar em Cabo Verde elementos para o seu Quadro Administrativo, na categoria de Aspirantes. Lá fui de abalada à Praia, prestar umas provas de conhecimentos gerais e físicas sem qualquer tipo de dificuldades, de tal forma que, duas ou três semanas mais tarde fui notificado de que tinha sido aprovado, eu e mais uns tantos amigos e ex-colegas do Liceu Gil Eanes. Lá teria que voltar à Praia, para oficializar a situação e receber guia-de-marcha para Angola…De armas a bagagens rumei à Brava para me despedir da minha futura noiva e esposa, vi a vida mal parada quando, a caminho de Santiago, desembarquei no Fogo abandonando um “Novas de Alegria” demasiado dançarino para o meu gosto, consegui, quase por milagre, viajar, de avião, para a Praia, quase me afoguei nas águas do porto quando buscava meu navio para S. Vicente e a calema inundou a casca de noz que tio Polu tinha colocado à minha disposição por o tráfego profissional estar suspenso, dei de caras com meu pai no aeroporto da Praia e na viagem para S. Vicente ainda houve tempo para uma breve passagem pelo Sal, para reparar um dos tirantes das asas do “Dragon Rapid”. Depois de ter perdido o mesmo navio duas vezes em 24 horas, uma vez na Praia, outra no Porto Grande, lá consegui, com outros amigos, lugar no cargueiro “Ganda” onde, finalmente, me encontrava, três anos depois daquele célebre baile, no Rádio Clube Mindelo, de tão boa memória! Parecia a vida do Tim-Tim em 48 horas…

O Dick Ferro, o Adriano Lima e eu, fomos acordados, subitamente, pela sineta que, insistentemente, chamava os passageiros para o pequeno-almoço. A primeira impressão foi de um certo pânico, pois não se via nadinha. Foram necessários alguns segundos para nos recordarmos que estávamos num camarote interior, onde a luz do sol não tinha acesso e onde, segundo a judiciosa constatação da noite anterior, era tão escuro que se podia dormir de olhos abertos… Tinha começado a rotina que nos haveria de acompanhar nos próximos quatro ou cinco dias, dependendo do estado do mar e esta era a minha primeira “grande” viagem desde que, treze anos antes, tinha partido de Lisboa para o Mindelo, S. Vicente de Cabo Verde.

A vida a bordo de um navio no alto mar, tem um sabor especial em que as dimensões do espaço imenso que nos rodeia nos produz uma sensação de isolamento e solidão tão incoerente quanto é certo que nos encontramos rodeados de gente e de ruídos que percorrem os nossos sentidos como um filme, sempre o mesmo filme, visto e revisto, hora após hora, dia após dia… O nosso relógio orgânico vai-se adaptando a novas realidades, recuperamos o equilíbrio sincronizando os nossos movimentos com as oscilações do grande navio e, sobretudo, sentimos uma certa tendência para engordar. Efectivamente, uma parte substancial da vida a bordo de um navio de longo curso é passada… a comer! São, normalmente, quatro refeições: pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar e começa-se, logo ao pequeno-almoço, a comer de garfo, além dos habituais pão, manteiga, café, chá, bolachas, etc. É que, segundo dizem, o ar do mar abre o apetite…


Talvez por deferência institucional, nós os três fomos convidados para almoçar à mesa do comandante do navio, onde também tinham assento os quatro oficiais de bordo, um major reformado que vinha de Luanda e uma senhora a quem, que me lembre, apenas ouvi dizer “bom-dia”, “boa-tarde” e “boa-noite”. Findo o repasto, o comandante pediu licença para acender o primeiro dos dois charutos que fumava por dia, enquanto se deliciava com uma dose generosa de “cognac” cujo aroma se misturava, de forma muito subtil com o do café de Timor que era exclusivo daquela mesa. O nosso anfitrião não se cansava de tecer elogios ao “cognac” que, segundo confessava, não conseguia dispensar depois das principais refeições do dia, tal como o charuto. E explicava que se tratava de um “brandy” de alta qualidade e que, por isso, se designava por v.s.o.p. que significa Very Special Old Pale ou seja, um perfeito Reserva do melhor “Napoleon” que ele conhecia…Foi, então, que o Dick Ferro teve a frase de que, dias mais tarde, se haveria de arrepender até às lágrimas. Disse: “Isso, senhor Capitão, é porque o senhor nunca provou um bom grogue de Santo Antão!”. Levantou-se e saiu, disparado, para voltar dois minutos mais tarde com uma garrafa que acabava de libertar do papel pardo em que vinha embrulhada. Era uma bem conhecida garrafa de “whisky” que conservava o rótulo negro do “Johnny Walker”. Exteriorizando um entusiasmo que eu lhe desconhecia, o Dick tentava destacar um papelinho preso à garrafa com fita-cola, (mais tarde vim a saber que tinha o nome de um familiar residente em Lisboa) enquanto explicava que, segundo constava, os ingleses que trabalhavam em S. Vicente na estação do cabo submarino da Cable & Wireless, a que todos chamávamos de Telégrafo, recebiam o “whisky” da Escócia em pequenos barris de madeira de carvalho, de 50 litros. Em S. Vicente era “destemperado” até se obter a graduação oficial e engarrafado, apenas para consumo do pessoal da Companhia. Ora, os produtores da melhor aguardente de Santo Antão, sabendo muito bem que o carvalho era uma madeira óptima para envelhecer destilados, compravam aqueles barris que, ainda por cima vinham “bêbedos” de “whisky”, e neles guardavam as suas melhores “colheitas” por anos, obtendo autênticos néctares de sabor e aroma inigualáveis… Um “rum” melhor do que muitos mundialmente célebres como os da Jamaica e de Cuba.  Com tanta euforia o Dick já suava enquanto o comandante, que já ia no seu segundo “brandy v.s.o.p.” se afirmava pronto a experimentar o grogue especial do Dick Ferro, no dia seguinte, quando não tivesse o palato adormecido pelo distinto sabor do Napoleon...


No dia seguinte, ao almoço, não tivemos o prazer da companhia do Comandante que, segundo o telegrafista, estava um pouco febril. Pensei logo que devia ser do “calor” do “cognac” que, por ausência do anfitrião, também parecia indisponível e não deu as caras sequer. O telegrafista, para além de um tanto comprometido pela ausência do seu chefe, parecia cansado e eu os meus amigos não deixamos de sentir uma carta pena do homem – afinal, tínhamo-lo desalojado do seu camarote para podermos usufruir de instalações similares a uma primeira classe, já que o navio não tinha segunda, a que tínhamos direito por inerência de funções – e nem sequer sabíamos como é que ele estava acomodado.

Ao jantar, o Capitão da nave parecia fino que nem um pêro, barbeado de fresco e impecável na sua farda branca, brancura “Omo”, decerto e, segundo dizia, em grande expectativa de que a refeição terminasse para provar “aquela maravilha envelhecida em barris de “whisky”. Cá com os meus botões, eu pensava que no dia seguinte ao almoço o Comandante iria primar, de novo, pela ausência…E já não falo do pequeno-almoço porque, esse, tomava-o, sempre, nos seus aposentos. Enfim, após uma primeira baforada do robusto charuto, levou ao nariz o cálice de meio-cristal, meio de grogue, inspirou longamente, de olhos semicerrados, fez o liquido âmbar rodar dentro do cálice para acentuar mais o aroma e levou-o aos lábios entreabertos sorvendo, quase que com receio, uma lágrima que o obrigou a esbugalhar os olhos e esboçar um sorriso de deleite quase sensual a que se seguiu o veredicto que haveria de fazer do Dick o mais feliz e o mais infeliz dos cabo-verdianos de Santo Antão: “Isto, meus amigos, é uma bomba!!!”


E, claro, os bombardeamentos que se seguiram, até ao fim da nossa viagem colocaram em sério perigo a integridade moral do amigo Dick, que tinha recebido do pai quatro garrafas do seu melhor grogue de sempre para levar pessoas de família residentes na Metrópole. Só que, as sucessivas rodadas da “bomba” que o Comandante não se cansava de elogiar a ponto de dizer que, como se costuma afirmar a respeito de Nápoles, ele já podia morrer pois tivera o privilégio de ter beber a melhor aguardente, o melhor “brandy”, o melhor “cognac” que jamais alguém produzira sobre a terra, tudo, consubstanciado naquele divino grogue de Santo Antão, a melhor colheita de sempre da marca Ferro, iam consumindo o “stock” a olhos vistos: primeiro, foi a garrafa do tio, depois a do primo, depois a do cunhado e só a última, que era para o irmão ainda estava intacta… Estava pois, na véspera da nossa chegada a Lisboa, o que aconteceria às primeiras horas da manhã seguinte, o nosso Capitão resolveu proporcionar-nos e aos restantes passageiros da primeira classe, uma ceia de despedida, que foi servida com alguns requintes por volta das 10,30 da noite. Teve direito a vinho espumante, carnes frias, tábua de queijos, saladas e, imagine-se, pastéis de nata. Estava tudo na maior, quando o Comandante, de forma audível a todo o salão, inquiriu: “Então, senhor Aspirante Henrique Ferro, não há lá uma pinguinha do melhor “brandy” do mundo para a despedida?” Como quem caminhasse para a forca, o Dick lá foi ao camarote buscar a ultima garrafa da relíquia de seu pai. Então, tive uma ideia luminosa e, à socapa, segredei ao Dick que deixasse lá no camarote, um bom bocado do grogue, no copo da casa de banho, que depois lhe explicaria a finalidade.

Era já madrugada quando nos recolhemos para refazer as malas e pouco mais. E, então, expliquei ao Dick para o que era o grogue que tinha sido guardado: como o pai dele, decerto, teria avisado as pessoas a quem mandava os presentes, o portador teria que ter uma boa explicação para a não entrega das mesmas. Era fácil: o Dick diria que devido a mau manuseamento da bagagem, aquando do embarque em S. Vicente, a sua mala tinha caído e as garrafas haviam-se partido todas, encharcando a roupa de grogue… Nada mais eficiente.

Dois dias mais tarde, encontrámo-nos todos, conforme o combinado, no Pic-Nic, em pleno Rossio. Perguntado sobre o assunto das garrafas de grogue, o Dick, satisfeito, informou que tudo tinha corrido bem. Aliás, o pai, que era homem precavido e, obviamente, muito vivido, na presunção de que pudesse haver algum acidente com as garrafas que o Dick trazia na mala de mão, tinha mandado colocar umas tantas na mala de porão. “Just in case!”...

Zito Azevedo

Queluz, 21 de Dezembro de 2011

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

[0158] Após o "naufrágio", um texto ainda "naufragado" do nosso colaborador Zito Azevedo

REGRESSO AO FUTURO

Zito Azevedo
Naquele dia, que jamais esquecerei, do ano de 1956, as últimas horas da minha ainda breve existência tinham sido bem mais frenéticas do que eu teria desejado - caso se pudesse interferir na marcha do destino, se é que essa coisa existe. Não havia dúvidas que eu havia sido abalroado por uma onda de calema, em plena baía do porto da Praia, capital do arquipélago e da sua maior ilha, Santiago! Pescados à procela eu, o meu remador e a minha bagagem, aí vínhamos nós, cavalgando as ondas, agarrados de unhas e dentes ao banco do robusto escaler que oito espadaúdos remadores impulsionavam, à força de braços e ao som de uma melopeia ininteligível, que dava ritmo às remadas, nos limites do esforço, onda acima, a toda brida, onda abaixo, enquanto, na direcção de terra as luzes escassas subiam e desciam no nosso horizonte visual, ora aparecendo, ora desaparecendo, prolongando a nossa angustia ao dar-nos a ilusão de estarem cada vez mais distantes.

À segunda ou terceira tentativa, conseguimos encostar o tempo suficiente para um rápido desembarque, antes que nova ondona levasse o nosso barco de salvação para o meio da calema, de regresso ao vapor cuja tripulação nos tinha subtraído a uma situação que poderia ter sido bem mais grave. Ainda hoje, passados tantos anos, conservo gravadas na minha memória afectiva cada imagem desses momentos de aflição e recordo de, nessa altura, sentir o que era, na realidade, regressar ao futuro…

Foto Joaquim Saial - Mar d'Canal, com Djéu e São Vicente em fundo (clique na imagem)
 O meu primeiro grande suspiro do dia, creio que me saiu directo da minha alma, estava eu sentado na calma cálida do cadeirão preferido do tio Polu que me estendia, com a sua mão peluda de longos dedos, um cálice microscópico cheio daquele néctar cor de âmbar com cheirava à distância ao bom grogue de Santo Antão, daquele que nem toda a gente tinha o privilégio de degustar!

Estava aquele calorzinho etílico a chegar-me ao estômago quando me apercebi da verdadeira dimensão do brado que ti Nanda me enviava, lá da varanda do bungalow, como se a terceira guerra mundial tivesse eclodido: “Oi Zito, águ di mar dja stragâ tudo bu rôpa!”

Eu tinha ido à Brava despedir-me da minha futura esposa, numa visita de algumas semanas e, por isso, tinha enchido a abarrotar a minha bela mala, que por sinal me tinha sido oferecida pela Ti Nanda, com tudo o que tinha de melhor, por motivos óbvios… Ora, a mala, era uma bela peça, de calfe azul que envolvia uma armação de aço bem forte mas, pelos vistos, a tinta não era de tão boa qualidade e ali estava eu, mais a Ti Nanda e o Tio Polu, a olharmos para umas dezenas de peças de roupa, interior e exterior, toda muito azul, tão azul, que pouca coisa escaparia…E estávamos em 1956, numa altura em que a roupa pronta a vestir, para além de cuecas, camisolas e camisas, pouca mais era… A minha única safa é que eu estava, afinal, a caminho de Lisboa, via  Mindelo.

Depois de uma noite mal dormida, em que sonhei com tubarões, sereias, casamentos e marcianos azuis, lá fui para o aeroporto da Praia, para apanhar o Dragon para S. Vicente, onde dei de caras, imagine-se, com o meu pai que vinha aflito para saber de mim depois de constatar que eu não tinha seguido no navio que era previsto, entretanto chegado ao  Mindelo.  Na altura, ainda não havia telefones móveis. Na viagem, além de meu pai, tive a companhia do “velho” amigo Rui Miranda e, claro, dumas dezenas de caixas dos tais pintainhos amarelos palradores…

Estava eu a tentar catalogar os acontecimentos dos últimos dois dias, quando verifiquei que um dos tirantes, esticadores ou como se chamam aqueles cabos que ligavam as duas asas dos Dragon Rapid, estava solto… Ía eu entrar em pânico quando o piloto disse que tínhamos que fazer uma escala técnica no Sal, para reparar o tal tirante. E eu a ver o tempo a passar e a gente a passear lá em cima, à velocidade do caracol! Enfim, descemos no Sal, bebemos uma cerveja morna enquanto substituíam o tirante, levantámos voo, de novo, voltamos a aterrar, desta vez em S. Pedro (ou seria na Baía das Gatas?), uma corrida de automóvel até à morada ao encontro da minha mãe chorosa de preocupação, agravada com a notícia de que estava sem roupa…

E, claro, o meu navio, esse, eu havia-o perdido pela segunda vez em vinte e quatro horas mas, felizmente, não era o único. Os meus camaradas Dick Ferro e Adriano (Migo) Brito Lima, que também iam para Angola, andavam a ver que conseguiam ir no “Ganda” da Sociedade Geral, que estava no porto a descarregar milho do sul e seguiria, no dia seguinte, para Lisboa. O cargueiro não tinha muitas acomodações para passageiros mas, como se tratava de funcionários públicos, lá deram um jeito e venderam-nos as passagens.

"Ganda" - Foto do blogue Companhia de Moçambique (clique na imagem)

Assim, tivemos tempo para eu refazer o meu “guarda-roupa”, dentro das limitações do mercado e, no dia seguinte, de manhã, lá fomos, de armas e bagagens para bordo do "Ganda" onde nos levaram para a 3.ª classe… Aí, a gente estranhou e com a ajuda do amigo Pedro Afonso, que tinha servido na Marinha e era, na altura, telegrafista do "Senhor das Areias", fizemos ver ao pessoal do navio que, sendo funcionários administrativos de Angola tínhamos direito a viajar em 2.ª classe. Ora, como o navio só tinha 1.ª e 3.ª obviamente, tínhamos que seguir viagem em 1ª classe…Mas, azar dos azares, a 1.ª classe estava repleta. Assim tiveram que desalojar o telegrafista do navio, que tinha uma cabine bem ampla, onde nós os três fomos instalados, com quarto de banho privativo e tudo… Só havia um inconveniente: o camarote era interior e, depois da luz apagada, o sítio ficava tão escuro que o Adriano comentou, nessa noite: “Ó mnis, ess lugar é tão ‘scuro que bô câ nen mestê f’chá oi pâ dormi…”

Com uma saudável e ensonada gargalhada despedimo-nos do nosso primeiro dia a bordo. Os dias seguintes dariam, como um via veremos, pano para mangas!

Zito Azevedo

Queluz, 5 de Dezembro de 2011

sábado, 12 de novembro de 2011

[0148] Velhas recordações do “Novas”…

Zito Azevedo
Ao rever, aqui no PRAIA DE BOTE, as elegantes silhuetas do “Ernestina” e do “Maria Sony” (post anterior), recordei um outro – talvez o mais elegante deles todos – o “Novas de Alegria”, em que, num dia de pouca sorte, resolvi viajar.

Corria o ano de 1956 e estava eu na Brava – Nova Sintra – onde tinha passado breves semanas despedindo-me da que haveria de ser minha esposa no ano seguinte, pois estava de abalada para Angola…

Dizia-se do “Novas” que era navio rápido, ou não fosse um iate a que, claro, haviam sido impostas algumas alterações no sentido de lhe aumentar a capacidade de carga e de espaço para passageiros… Ao fazê-lo, no entanto, julgo que se terá tomado uma iniciativa perigosa – a de diminuir de forma radical o volume da quilha… Como se sabe, a quilha dos iates é muito característica no desenho e no tamanho, creio que necessários para responder a exigências da física de contra-balanço com o altíssimo mastro. Sem parte importante da quilha e do lastro ganhou-se “espaço” para mais carga mas, infelizmente, o navio perdeu, quase por completo, a estabilidade lateral.

"Novas de Alegria" (clique na imagem)
A minha viagem, adiada por diversas vezes pois esta coisa de a gente se despedir da namorada – quase esposa – não é fácil, é doloroso, demorado, tira-nos o sono, aumenta-nos a ansiedade e dá direito ao que eu chamaria de síndrome da orfandade… Creio que há muito de filial no amor de um homem por uma mulher e o objecto do nosso amor acho que tem sempre uma aura de maternidade onde se alojam alguns dos nossos sentimentos mais disponíveis, como o respeito e a admiração… Fica-se absorto, envolto numa espécie de solenidade angelical tão grandiosa como se fosse o último segundo de uma breve eternidade, irrepetível, único, irreal, como o são, afinal todos os segundos da nossa existência.

(clique na imagem)
Quando acordei para a realidade do mundo real, o “Novas” baloiçava, de velas recolhidas e o motor auxiliar roncando lá nas profundezas do casco robusto, abandonando o porto da Furna… Olhando para o largo, foi com alguma apreensão que vislumbrei a imensidade de “carneiros” que se iam acumulando na crista da ondulação cada vez mais cavada, enquanto o veleiro transpunha os obstáculos cinzento-azulados, como se se tratasse de um cavalo branco esvoaçante… Algo me dizia que apesar da beleza telúrica do enquadramento, com aquele tempo e naquele iate, eu jamais chegaria à Praia… É que, se o canal para o Fogo estava daquele jeito eu podia calcular como estaria o Alcatraz!

Então, ali mesmo, à ré do navio, enquanto um reverendo lançava ao mar golfadas de um castanho igualzinho ao da sua capa de franciscano (comigo pensando que lá se ia o leite-com-chocolate…) decidi que desembarcaria em S. Filipe e depois… depois logo se veria!

Costuma dizer-se que todos os malandros têm sorte, muito embora eu não fosse um malandro e já tivesse experimentado dose suficiente de falta de sorte para um só dia!  Eu explico…

Quando havia carga e passageiros que o justificasse, o avião Dragon Rapid (um asa dupla em lona que transportava umas tantas malas, uns tantos garrafões e sete passageiros além, claro, do piloto!). Para o aviãozinho se deslocar, no entanto, era necessário mandar um telegrama e 24 ou 36 horas depois o Dragon lá aparecia. Na época, não havia serviço telefónico para fora do Fogo… Quer dizer: não havia mas ia ser inaugurado nessa manhã! A sorte do malando…

(clique na imagem)
Depois de muita conversa, muito pedido, muitos sapos engolidos, ficou combinado que logo a seguir ao telefonema protocolar de inauguração do serviço, seria feito o primeiro de carácter comercial para os TACV para fazer deslocar o avião, onde havia mais do que suficiente de carga e passageiros a justificar a deslocação.

Enfim, poucas horas depois eu, o piloto mais seis pessoas muito agradecidas, dez malas e seis caixas de pintainhos amarelos que não se calaram a viagem toda, cruzávamos os céus até ao aeroporto da Praia!

Respirei de alívio pela primeira vez nesse dia, mal sabendo que o trajecto seguinte, para S. Vicente, para embarcar, no dia seguinte, para Lisboa a caminho de Angola, ia dar pano para mangas…

Mas isso são contas de outro rosário!

Zito Azevedo

Queluz, 11 de Novembro de 2011
Imagens do arquivo do PRAIA DE BOTE

domingo, 30 de outubro de 2011

[0139] Ainda o "Senhor das Areias". Mais um texto sobre este veleiro, da autoria de Zito Azevedo, nosso novo colaborador. Ver post 0138, de Adriano Miranda Lima

A   PEREGRINAÇÃO

Zito Azevedo
Chegado a S. Vicente em 1943 – tinha eu nove anos – a minha primeira tentação, depois de saber que me encontrava numa de dez ilhas que formavam um arquipélago de Cabo Verde, foi conhecê-las a todas… Conheci algumas nos anos 50 mas tive que esperar até 1969 para visitar as mesmas e as que faltavam. Por estranho que possa parecer, no entanto, nunca fui a Sta.Luzia!

Creio que, naquele ano as minhas notas não devem ter agradado a meu pai que, logo em Junho, me foi avisando que me tinha arranjado um emprego para as férias, no escritório do Sr. Mário Nascimento que, imagine-se, era o agente do “Senhor das Areias”… Não fiquei muito aborrecido, até porque o Senhor Mário tinha uma filha bem gira que, por acaso, nunca me ligou nenhuma. E lá fui, sentar-me a uma mesa minúscula, a passar bilhetes de passagem e documentos der carga para aquele que era o “paquete” dos navios que circulavam pelas ilhas no transporte de pessoas e bens, a todos levando a palma com a excepção da velocidade que raramente ultrapassada as três milhas horárias. Mas era um navio quase imponente,  ex-lugre bacalhoeiro, de três mastros e bojo alto, sempre imaculadamente limpo e escovado e com uma tripulação que até incluía um telegrafista residente, o Sr. José Pedro Afonso, que era meu amigo e haveria, anos mais tarde, de ser meu padrinho de casamento.

"Senhor das Areias"
Acontece que devo ter desempenhado muito bem as minhas funções, apesar da tenra idade, pois quando me despedi para regressar às aulas no Liceu Gil Eanes, foi-me oferecida uma viagem no “Senhor das Areias” à minha escolha. Como, na altura, lá namorava a que haveria de vir a ser minha mulher, resolvi ir até à Brava, sua terra natal, onde ela ainda estava de férias. Faltava mais de um mês para as aulas. Só que… enfim,  naquela viagem à Brava, o “Senhor das Areias” iria escalar S. Nicolau e Sal, o que alongava a viagem de forma perigosa. Mas como quem ama não pensa, embarquei nessa peregrinação, numa noite escaldante em que a expectativa me não deixou pregar olho apesar do colchão ser óptimo e o lençol cheirar a lavado… O toque da sineta para o pequeno-almoço apanhou-me debruçado na amurada, tentando apanhar peixes-voadores. Fiquei pasmado ao sentar-me à mesa do capitão, ao lado do meu amigo telegrafista e restantes oficiais de bordo, para um repasto de cachupa refogada com salsichas e ovos estrelados, leite com café, bolachas, manteiga, enfim, um autêntico banquete, isto se se tiver em linha de conta que, até aquele momento, o melhor que eu tinha comido a bordo de um palhabote, fora uma cachupa de olho-largo, em pé, encostado à casa-das-máquinas com toda a força para não ser atirado  borda fora…

A Ribeira Brava era uma vilazinha simpática, silenciosa, pintada de fresco, onde tive a felicidade de ir encontrar a Mary Melo, uma das mais belas pequenas de S.Vicente, que aí estava de férias e a quem tirei uma foto que ainda hoje conservo. Chegados à Pedra-de-Lume preferi aceitar uma boleia para Sta. Maria, tendo passado a noite no Hotel Atlântico que os italianos ali tinham construído e que tinha sempre uma tripulação da Alitália para rendição nos voos para e da África do Sul. Foi muito educativo, vê-los cozinhar a sua própria “pasta” e o molho de tomate em placas eléctricas sobre a mesa que ocupavam e, mais tarde, noite dentro, testemunhar as entradas e saídas, de uns quartos para os outros, das aeromoças italianas, em bicos de pés descalços, envoltas em lençóis brancos esvoaçando ao compasso da brisa nocturna, fantasmas brancos que sugeriam mais promessas do que temores. Um espectáculo…

Mal dormido, com a mente repleta de muitas perguntas e poucas respostas, lá reembarquei no “Senhor das Areias”, onde, recorde-se, se continuava a comer muito bem e a dormir melhor, para uma longuíssima estirada entre o Sal e a Brava. Tão longa e tão lenta que muitas vezes pensei se, para lá daquela onda não iríamos vislumbrar o Brasil…

A chegada à Furna foi, por isso, uma espécie de regresso ao futuro e um bálsamo para o meu equilíbrio emocional, num reencontro com o mundo, com as pessoas, com o ruído das coisas… A bordo de um navio relativamente estável mas extremamente lento e silencioso em que a única coisa que se ouve é o marulhar da ondulação baixa, vendo horas sobre horas, as mesmas caras, os mesmos gestos, a mesma rotina, uma pessoa acaba por se sentir só no mundo e nem olhar à volta resolve porque de norte para sul e de oeste para leste a miragem é a mesma: NADA!

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Quando, nessa tarde, cheguei à oficina de Nhô Manelinho, sapateiro, fui acolhido com um largo sorriso e um gesto cúmplice:  foi abrir as portadas da janela que dava para a casa da minha amada e através da qual, depois de revê-la, voltei a subir aos céus pouco tempo depois de ter descido à terra!

Não voltei a viajar no “Senhor das Areias” mas, à fé de quem sou vos digo que, de bom grado, repetiria a minha peregrinação dos anos 50 do século passado…

ZITO AZEVEDO
Queluz, 29.10.2011

sábado, 19 de março de 2011

[0047] Um rádio Telefunken, uma licença que custou 25$00, memórias dos sons no éter

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No dia 15.Março.1963, o Chefe dos Serviços dos Correios, Telégrafos e Telefones de Cabo Verde, organismo com sede na Praia, passava a um residente em S. Vicente a licença para exploração de um posto radioeléctrico. Contudo, conforme se diz no documento, esse posto - afinal simples receptor de rádio da marca Telefunken - "somente [podia] receber emissões públicas de rádiodifusão". Sublinhe-se o "emissões públicas" que subentendia nas entrelinhas um "nem pensar em clandestinas"...

O proprietário do aparelho comprara-o a prestações, por volta de 1956, numa loja de mobílias na Cova da Piedade, Almada (que também transaccionava aparelhos de rádio). Terá sido este o único objecto por ele adquirido durante toda a sua vida por tal processo já que tudo o resto, sem outra excepção, o foi a pronto. Grande companheiro da família, foi através dele que aqui o PRAIA DE BOTE recebeu no espírito os primeiros, saudáveis e utilíssimos cromossomas da música cabo-verdiana. Todo o dia aquela máquina debitava na Capitania dos Portos, na sala que ainda hoje apresenta a segunda janela após o Plurim d'Pexe, para além das notícias e outros programas, mornas e coladeras sem fim. Grande Rádio Barlavento, grande Rádio Clube do Mindelo... palavras para quê? Recorde-se, a propósito, numa delas (RCM?),  a voz inesquecível de Hermenegildo Cardoso, cabo escriturário mondrongue da Capitania e radialista amador.

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 Resta dizer que o dono do radiozinho podia perfeitamente ter tido o aparelho clandestino durante os três anos que viveu na Rua de Praia. Ninguém o molestaria, dado o sítio em que o mesmo se encontrava instalado, repartição pública respeitada e com a qual nenhum chefe dos correios, por mais zeloso que fosse, interferiria para vasculhar... ou multar. Mas acontece que o sargento de que ali se fala era rigorosos cumpridor da lei e jamais lhe passou pela cabeça ter em casa um rádio clandestino. Por isso, pagou pela licença os gordos 25 paus que no papel se referem...

Veja-se ainda, a propósito da rádio sanvicentina, o texto no nosso amigo jornalista Carlos Lima (também ele ligado à Capitania dos Portos através do pai, o saudoso polícia-marítimo Orlando "Lola" Lima). E o carinho que atribui à acção de diversos nomes da rádio da terra, entre os quais os de Aníbal Lopes da Silva ou o do nosso colega bloguista Zito Azevedo.

NOTA FINAL: o aparelho ainda existe e, mais que isso, ainda funciona, embora com um ruído aqui, outro ali.