quinta-feira, 28 de setembro de 2023

[7526] Praia de Bote ultrapassa os 800.000 visitantes! Ontem, 504; hoje (até agora), 646; este mês (até hoje), 4516

[7525] Memória dos pequenos mergulhadores que apanhavam moedas no Porto Grande, em mais um artigo (3 pp.) de Joaquim Saial na TURIMAZINE de Setembro.2023 (excerto das pp. 10 e 11)


[7524] Afinal, Anildo estava em Lisboa...

A história é curta, mas curiosa, por mostrar um desencontro. Pedro Paulo Ângelo, filatelista macaense, enviou uma carta para S. Vicente, dirigida ao Sr. Anildo Gama Cohen (ver AQUI, a sua biografia). Não sabemos a que se referia a missiva, mas é quase garantido que Anildo Cohen seria filatelista e que se trataria de algum negócio de selos. Na parte da frente, não é possível perceber as datas dos carimbos. No verso, há um de Lisboa (14.11.1938); a carta, vinda de Macau, segue depois para o Mindelo (25.11.1938); volta para Lisboa (6.1.1939); e finalmente regressa a Macau (11.11.1939). Um ano inteiro esteve a missiva a passear, nunca chegando ao destinatário, embora tenha passado por Lisboa, onde ele afinal se encontrava,


segunda-feira, 18 de setembro de 2023

[7519] Pintora polaca Olga Gutek, radicada em S. Vicente, apresenta "Paisagens Oceânicas, Abaixo da Superfície" no Centro Cultural do Mindelo

Ver AQUI

[7518] Três poemas de Carlota de Barros, um deles recentíssimo


SILÊNCIO!

                    PESSOA QUER DORMIR



Encontrei na página de um 

Livro de poesias de Pessoa

A folha cor de vinho de recortes finíssimos

Que caíra a meus pés submissa e linda

Naquela tarde feliz de Outono 


Doce folha que de novo me revelaste

O poema de Pessoa que me 

Entrara na alma tão subtilmente!

[...]


“Cessa o teu canto!

Cessa, que enquanto

O ouvi ouvia

Uma outra voz

Como que vindo

Nos interstícios

Do brando encanto

Com que o teu canto

Vinha até nós”

[...]


Que canto seria este, Pessoa

Melodia que não havia 

E se a lembras te faz chorar?


Essa voz, Pessoa

Encantamento

Silêncio que há a seguir

Ao canto

Alheio a ti

E a quem canta?


Ah o encantamento 

Do canto que vem

A seguir a outro canto

Quem o cantou?

Quem te fez ouvir

Para além

Do que é o sentido

Que uma voz tem?


Vozes com sentidos opostos!

Ah! Minha folha cor de vinho

Talvez essa voz te tenha seguido

Até o Livro de Poesias

Nesta terra por onde 

A alma de Pessoa divaga

Sem saberes que o fazias


Será que também provocaste em mim

Esse encantamento do canto 

Que vem a seguir a outro?

Estou a ouvir esse canto

Para além do sentido

Que a voz tem!  


Mas quem a teria cantado?

Quem teria provocado em Pessoa 

Esse encantamento

Que a mim também encanta? 


Porém Pessoa queria 

O silêncio para dormir

E eu desejo tanto o silêncio

Para descansar! 


Cessa teu canto!

Cessa!

Vem minha folha

Marca este poema de Pessoa

Que hoje reencontrei!


Um dia quero ouvir de novo

Esse canto que vem a seguir

A outro canto e encanta

Agora, Silêncio! 

Pessoa quer dormir

E eu desejo tanto descansar ...

Carlota de Barros

Lisboa, 8 de Julho de 2022



UM VOO AO BELO



Continuo a pensar 

que a rosa mais bela

com paisagem ao fundo

merece um poema

mas quem o escreverá?

Lancei a ideia.


A paisagem ao fundo 

muda diariamente

hoje fascinou-me

a inquietude da natureza


Que visão tão bela

me deu hoje a beber!

Tanta beleza para apagar

os horrores da guerra

que diariamente nos entram 

pela casa dentro!


Posso repetir que foi um voo ao belo.


Contemplo das grandes janelas da sala

nuvens negras  coração de fogo anéis dourados

variando em segundos

como se sentisse o coração agitado do sol

pulsando afogueado antes de se despedir


Fevereiro chegando ardentemente ao fim

coroas de fogo  anéis de chumbo 

crescem a meus olhos deslumbrados

a liberdade das árvores saboreando eroticamente

os últimos raios de sol

o silêncio  a música  o fervor 

que vou bebendo até à última gota


A Casa Cor-de-Rosa  terna no seu mistério

rodeada de fogo  cinza  e beijos de mel e de azul

adormecerá no silêncio dos campos verdes

e do silenciar dos pássaros abrigados nas árvores

da escuridão e do frio da noite de Fevereiro prestes a cair


A Casa Cor-de-Rosa  onde outrora o fogo vivo

aqueceu as paredes cobertas de artísticos painéis

e que ainda resiste solitária e bela convidando 

à opulência  à alegria  ao calor  ao esplendor de outros tempos

 

o sol despedindo-se meiga e nostalgicamente 

dos meus olhos e do meu coração  

magoado com as saudades 

da nossa grande casa rodeada

de ternura de meus pais e meus sete irmãos

a emoção  o amor  a cumplicidade  o calor

que durará no meu ser enquanto eu viver ....


Que voo ao belo Deus me ofereceu hoje! 

Devo-Lhe eterna gratidão ...


Carlota de Barros

Lisboa, 24 de Fevereiro, de 2023


HOJE O MEU DESEJO 

 


Escuto a longínqua 

voz da infância chamar-me

e entro de novo

no quarto da poesia

 

Desejo a luz pura da infância

o canto das tardes transparentes

o esplendor do mar

barcos    cais    velas

murmúrio de búzios

 

Desejo o brilho das coisas

que via na minha infância

o brilho das maçãs e dos abacates

das flores e dos pinheiros

e também dos peixes azuis na lagoa

 

Desejo sentir aquela luz levíssima

sobre os meus ombros erguidos

música   alegria súbita

uma alegria vinda não sei de onde

a alma   leve e limpa   

os lábios   beijos em flor

 

Desejo acordar e levantar-me ligeira

alegremente de cabeça erguida

meu riso a brilhar sorrisos 

anunciando um novo dia

lírios a abrirem-se para a vida 

alegremente como eu

 

Hoje o meu desejo

 

Amanhece

reconheço o rumor da aurora

nos meus versos   murmúrio de orvalho

música   delírio   madrugada

o canto da infância   pueril doçura 

 

Hoje o meu desejo...

Carlota de Barros

Lisboa, 16 de Setembro, 2023

segunda-feira, 10 de julho de 2023

[7508] Um conto tomarense do nosso amigo cabo-verdiano (e comentador militante do Pd'B) Adriano Miranda Lima

Joana e o seu tabuleiro 

Adriano Miranda Lima


De repente, a Joana, sabe-se lá porquê, sentiu um profundo remorso por sempre se ter recusado a participar com o marido, Alberto, no desfile da Festa dos Tabuleiros, incorporando a representação da sua freguesia. Esta sensação incómoda começou a assaltá-la quando faltava pouco mais de um ano para a próxima festa. Mas agora era tarde, porque enviuvara há três anos. 

− É como a saúde ou outras coisas boas da vida. Só damos pela sua importância quando deixamos de as ter. Ah, como teria dado os meus últimos anos de vida para ir levar um tabuleiro com o meu Alberto! – pensou ela com os seus botões. 

No dia seguinte, a regar a horta nas traseiras da sua casinha dos arredores da cidade, tomou repentinamente uma firme resolução: − Desta vez, vou, sim senhora, levar um tabuleiro. Custe o que custar. É assunto da minha inteira conta e não preciso comunicar à freguesia. Par já tenho. E vou construir o tabuleiro com os produtos da minha própria lavra.

E assim decidiu semear o próprio trigo com que cozeria os 30 pães no forno do seu quintal. As canas para enfiar os pães iria colhê-las junto ao ribeiro e o vime para a confecção do cesto, base do tabuleiro, também não era problema nenhum. Ela própria construiria o cesto com as suas mãos, assim como arranjaria o metal para moldar a Coroa com a Cruz de Cristo. As flores iria colhê-las, claro, no seu pequeno canteiro do quintal. Teria apenas de se preparar convenientemente e passar decididamente à obra.

Joana não teve dificuldades em aprontar os elementos necessários para o seu tabuleiro. Igualmente, nada lhe custou a sua confecção, tendo sido a tarefa mais meticulosa, a que emprestou especial desvelo, o bordado do pano de linho com que ia cobrir o cesto de vime. Como manda a tradição, o tabuleiro foi montado para que medisse exactamente a sua altura, 1, 65 metros. Faltava costurar o traje, composto pela blusa, a saia comprida e os respectivos enfeites, mas a seu tempo disso se encarregou com as próprias mãos na sua velha máquina Singer. 

Com tudo preparado, em inícios de Junho, começou os ensaios nas imediações da sua casa, normalmente ao fim da tarde, fazendo pequenos percursos com o tabuleiro à cabeça, entre as poucas casas próximas. Intrigados, os vizinhos observavam de longe os ensaios, porque ninguém ignorava que a Joana sempre se mostrara avessa a participar no cortejo com o marido, talvez por não se sentir fisicamente capaz ou por simples timidez… sabe-se lá? Agora que as pernas já lhe pesam aos seus 60 anos é que se vai meter num empreendimento deste? E depois quem seria o seu par? Ninguém sabe, porque se a Joana foi sempre senhora do seu nariz, passou a isolar-se muito depois da morte do Alberto. Estas eram as interrogações silenciosas dos vizinhos, que, no entanto, foram acompanhando com crescente curiosidade as deambulações diárias da Joana por entre as casas. O par que ela tinha em mente para o desfile é que era uma verdadeira incógnita.

Chegou o Dia dos Tabuleiros. Estava um dia normal de Julho, quente e luminoso, mas com uma leve brisa a amenizar de quando em quando a temperatura do ar. Os tabuleiros da freguesia tinham sido na véspera transportados para o espaço habitual da sua concentração – a Mata dos Sete Montes – de onde sai o cortejo. Mas não há notícia de o tabuleiro da Joana ter ido integrado no conjunto, porque nem mesmo o presidente da junta de freguesia teve conhecimento das suas intenções, embora lhe tenham chegado uns rumores aos ouvidos. Por isso, a seguir à hora do almoço, olhos curiosos foram às janelas espreitar quando viram passar uma pequena carrinha de caixa aberta com o tabuleiro da Joana e esta no banco ao lado do condutor, que logo se desconfiou pudesse ser o par masculino.

À hora prevista, o estalejar dos foguetes e as bandas de música anunciaram a saída do cortejo da Mata dos Sete Montes. As avenidas e as ruas estavam pejadas das multidões de centenas de milhares de visitantes que encheram a cidade. O longo cortejo de tabuleiros, com as representações das freguesias e os seus pendões, foi escoando gradualmente ao som da música das várias bandas, sob os aplausos vibrantes das multidões.

Passaram os tabuleiros de todas as freguesias, e no fim do respectivo cortejo, a cerca de dez metros de distância, surpreendentemente, desfilava uma senhora já de certa idade com um tabuleiro à cabeça, sozinha, sem par. Os assistentes olhavam-na com especial curiosidade e não faltou quem sentisse o impulso natural de avançar para a ajudar, ao aperceber-se de que ela não levava o habitual par. O gesto voluntário iria contra o protocolo do desfile, mas seria uma ajuda, nem que fosse por alguns metros de percurso. De resto, era visível que ela já não tinha o vigor físico do comum das raparigas que desfilavam mais à frente. De súbito, alguém a deve ter identificado, porque entre os assistentes junto à Ponte Nova se ouviu gritar, em meio a aplausos sonoros que logo se multiplicaram: − Joana!!! Joana!!! Mas esta, se ouviu, não teve qualquer reacção ou não se deu por isso. 

Apesar da sua notória dificuldade em cumprir a promessa solene que fizera a si mesma, a Joana, com o rosto perlado de suor e as pernas parecendo por vezes quererem vacilar, lá foi desfilando com o seu tabuleiro ao longo das ruas e avenidas, enigmática figura aparentemente autonomizada no gigantesco cortejo. Bem ela jurara a si própria que haveria de desfilar por conta própria. 

O cortejo chegou finalmente ao seu termo, com os conjuntos dos tabuleiros das freguesias recolhendo às suas zonas de reunião para a posterior desconcentração.

Só que a Joana não interrompeu o seu percurso, porque ela o idealizara intérmino e sagrado, como algo imerso no espaço e para lá do tempo. Continuou a caminhar, em passo lento, mas resoluto, rumando em direcção ao sol poente. O tabuleiro já não lhe pesava e as pernas se lhe tornaram penas de ave. Alguém caminhava silenciosamente ao seu lado e ambos levitavam sobre uma estrada de luz.

 (O autor escreve de acordo com a antiga ortografia) 

Tomar, 25 de Junho de 2023

quarta-feira, 28 de junho de 2023

[7506] Um monumento gastronómico que chegou à biblioteca cabo-verdiana do Pd'B, em oferta da autora

Acaba de chegar à biblioteca cabo-verdiana do Pd'B, em oferta da autora, o livro monumental de D. Maria de Lourdes Chantre, "História, Tradição e Novos Sabores da Cozinha de Cabo Verde", edição da Rosa de Porcelana, de Novembro de 2022. 

Muito longe de se consubstanciar como mero livro de receitas, a obra ganha foros de trabalho antropológico, com suas 1158 páginas, onde para além de se referir a diversificada gastronomia das ilhas verdianas também se fala de outros assuntos a ela ligados e à sua história e tradições, como aliás o título indica. Trata-se sem dúvida de uma preciosidade que deve figurar em todos os locais onde se produza a "cozinha" do arquipélago crioulo que com minucioso detalhe aqui se vê não ser apenas pátria da nacional (e internacional) cachupa. 

Praia de Bote aproveitou para obter o autógrafo de obra antiga da mesma autora, o seu clássico "Cozinha de Cabo Verde" (que temos em 3.ª edição, mas já vai na 4.ª).