terça-feira, 26 de novembro de 2013

[0639] "Crónica do Norte Atlântico" de Novembro sobre o capitão "John" de Sousa, comandante de veleiros

A "Crónica do Norte Atlântico" deste mês foca diversos episódios da biografia do capitão John de Sousa, pai do notável médico e escritor Henrique Teixeira de Sousa. Nela se contam aventuras no fio da navalha da lei americana de imigração que trouxeram ao comandante e dono de veleiros dissabores diversos mas ao mesmo tempo libertaram da miséria que se vivia no arquipélago centenas de cabo-verdianos que escolheram os Estados Unidos da América para pátria de salvação. Será publicado na íntegra no Pd'B logo que sair no jornal "Terra Nova" (papel) de São Vicente e no blogue "Esquina do Tempo" e depois de o mesmo acontecer com a crónica anunciada no anterior post. Aqui fica um excerto, para abrir o apetite...


Em notícia bombástica de primeira página, o Diário de Notícias de New Bedford de 18 de Janeiro de 1929 referia que fora apreendida na Geórgia a escuna Fannie Belle Atwood e que o seu capitão, John L. Sousa fora preso, "acusado de passar ilegalmente para os Estados Unidos centenares de estrangeiros". Denominado como "chefe de uma das maiores companhias de contrabandistas estrangeiros no Sul" e procurado desde 1925, o capitão John (como também era conhecido) fora capturado na cidade costeira de Brunswick por um esquadrão de marshalls. Imediatamente conduzido a Boston, ali iria responder a um processo que lhe fora posto dois anos antes. Portugueses (decerto na maioria cabo-verdianos) mas também espanhóis, pagando entre 400 e 1000 dólares cada um, eram os passageiros que durante anos introduzira clandestinamente nos States. O capitão, que transferira a sua actividade de New Bedford para a zona costeira da Georgia cerca de 1925, era naturalizado americano desde Junho de 1926. Fora detentor da escuna William A. Graber que vendeu para depois adquirir a Fannie Belle Atwood  com a qual fez várias viagens entre Cabo Verde e a Flórida. João de Sousa comandara também a Georgette que naufragou algures na América do Sul, em desastre no qual se salvaram todos os tripulantes mas foram perdidos os bens que o barco transportava.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

[0638] Crimes, mortes, suicídios e outras desgraças na América cabo-verdiana

Para breve, no blogue parceiro "Esquina do Tempo", mais uma "Crónica do Norte Atlântico". Desta vez, em tom de policial, desvendando um viver hoje algo esquecido de cabo-verdianos da América no século passado e do anterior. Para aguçar o apetite, aqui ficam a introdução e o primeiro parágrafo. Como habitualmente, o artigo completo que já saiu no jornal "Terra Nova", será de novo dado à luz no "Esquina do Tempo" e algum tempo depois no Pd'B.
O historial de crimes de e contra cabo-verdianos nos Estados Unidos da América é longo, na exacta relação do seu número com a antiguidade da secular permanência de gente do arquipélago naquele país. Temos vasculhado milhares e milhares de páginas de jornais portugueses, americanos e americanos de língua portuguesa e, embora sem conhecermos estudos científicos ou estatísticas que o provem, a nossa nítida sensação é a de que a comunidade cabo-verdiana não tem sido nem mais nem menos protagonista ou vítima de crimes que as restantes – incluindo, até 1975, data limite das nossas investigações, a açoriana, por exemplo. Deles, nalguns casos bem risíveis como o primeiro que relatamos, resolvemos fazer curta selecção para a presente Crónica do Norte Atlântico – quase todos do século XIX, excepto os dois últimos, já do XX.

Uma bofetada por mais de 100 dólares

Que relação teria Luísa Gonçalves com Salomão Gomes, ambos cabo-verdianos residentes em New Bedford, Mass., não o sabemos. Nem sequer que malfeitoria este lhe fez para ela assim reagir. O que é verdade é que a dita mulher, lá pelos finais do século XIX, pregou no indivíduo valente estalada. Claro que sofreu as devidas consequências jurídicas. Feita queixa pelo Salomão e ouvidas as partes em tribunal, o juiz aplicou à agressora 100 dólares de multa e pagamento de custas. Ainda assim, retirou-se a Luísa satisfeita, segundo parece, como rezava O Progresso Californiense[1], em 1885…


[1] O Progresso Californiense, 18.06.1885, p. 2.

domingo, 24 de novembro de 2013

[0637] Escritor Manuel Ferreira

POST ACTUALIZADO

O post de hoje de Pd'B é dedicado a Manuel Ferreira (Gândara dos Olivais, Leiria, 1917 - Oeiras, 1994), português europeu apaixonado por África, sua cultura e gentes que em São Vicente foi militar expedicionário entre 1941 e 1947. Para saber mais sobre a biografia do notável escritor premiado e professor universitário que introduziu na Faculdade de Letras de Lisboa o estudo das literaturas africanas, clique AQUI.

Relativamente vasta, a biblioteca cabo-verdiana do Pd'B é no entanto escassa no que toca a Manuel Ferreira. Dele, infelizmente apenas possui "Hora di Bai", na versão de bolso da editora Europa-América (1987). Aqui ficam imagens dessa e de outras, entre as quais a capa de uma (e autógrafo) que relaciona mais um escritor natural ou associado a Cabo Verde com a Cova da Piedade (à semelhança do poeta Jorge Barbosa que nesta freguesia de Almada veio a falecer num prédio que em tempos recentes recebeu placa alusiva, como na altura se informou).

1.ª edição, Vértice, de 1962, ano em que "Hora di Bai" obteve o Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa.



Autógrafo de 1964, passado na Cova da Piedade (Almada, Portugal), para pessoa, ao que sabemos, ainda hoje viva.  Repare-se na gralha de data: o Prémio Ricardo Malheiros de 1963 foi na realidade para Augusto Abelaira com "As Boas Intenções". A edição do livro é que foi de 1963, nas Edições EA.
Capa da edição que o Pd'B possui, de 1987, aparentemente ainda à venda na FNAC, por 6,55€.
Contracapa da edição que o Pd'B possui.
Edição do Círculo dos Leitores (indicação da nossa amiga Nita Ferreira)

Lugre "Senhor das Areias" (aqui, em Bissau), o navio de que se fala logo no início de "Hora di Bai", encarregado de ir buscar famintos de São Nicolau para o porto de abrigo do Mindelo durante a fome de 1943.

sábado, 23 de novembro de 2013

[0636] Desinçar da economia a mafia especulativa

Arsénio de Pina
Prometi falar, num artigo anterior, por golfadas para não cansar os leitores modernos que preferem a TV. Como, no meu último livro - Adeche! Vendilhões em Vários Templos - ainda falo, entre variados assuntos, na globalização, acrescento, nestas linhas, um ou outro ponto que nos ajudará a ver mais claro.

A economia de mercado, que tem virtudes inegáveis, por saber criar riqueza, embora não saiba nem lhe interesse distribuí-la com equidade, quando devidamente controlada pelo Estado e não deixada, como vem acontecendo, à rédea solta, por conta da camarilha do ultraliberalismo. Ela procura convencer-nos de que a saída para uma vida melhor é uma questão individual; que Deus e o Estado se preocupem com os pobres e miseráveis. Outrossim, entidades teoricamente vocacionadas para ajudar os povos a sair  do subdesenvolvimento e da miséria, como o FMI e o BM, argumentam que a angústia humana, não sendo quantificável nem um elemento de análise macro-económica mensurável em termos económicos, não existe, não conta. Sabido é que organizações deste tipo e credores internacionais jamais auxiliam um escravo a levantar-se da lama, tão simplesmente porque, para eles, um escravo de pé já é um risco.

Paul Colleer, professor de economia na Universidade de Oxford, definiu a minoria de milionários e banqueiros que vive à custa dos lucros da exploração dos que trabalham e de depósitos de dinheiro sujo – pessoas que vivem de ganhos imorais de outros – como proxenetas. Não digo que esse tipo de regime, que permite tamanha injustiça e exploração, seja de tirania, mas antes de oligarquia, isto é, um regime cujo poder é movido pelas piores paixões: a concupiscência, a desumanidade e a corrupção.

Sendo essa a realidade que temos tido desde a implosão do comunismo na URSS, porque o capitalismo e os ricos deixaram de ter medo desse gongon que lhes frenava o apetite, a actualidade é a que vivemos, acrescida de crise larada. Há gente a contar com milagre para a solução da situação, o que não é de acreditar, por o milagre ser como um golpe de Estado dado por Deus contra as suas próprias leis – o que é inconcebível em Deus; há que procurar outra saída, antes que haja uma revolta violenta, como aconteceu em França, em 1789, em que os camponeses famintos e desesperados invadiram as cidades e deram mais força à acção dos revolucionários juntando-se a eles.

Facto raramente citado é a Revolução Francesa ter sido consequência do Pequeno Período Glacial, ocorrido entre os séculos XIV e XIX, que atingiu duramente a agricultura, levou à estagnação da população francesa e provocou grande mortandade por frio e fome na Europa. Foi também uma das causas da derrota de Napoleão ao invadir a Rússia devido ao rigoroso Inverno com que não contavam, derrota na qual, dos 600.0000 soldados da invasão, só regressaram 40.000 homens.

Actualmente, o risco de revolta reside na grande crise global económica, social e financeira e na incapacidade de os governantes do tipo light tomarem as decisões que a situação impõe de justiça e solidariedade e não de promoção do individualismo, de austeridade e de tolerância da economia especulativa que só servem os interesses egoísticos de classes privilegiadas.

Parede, Outubro de 2013
Arsénio Fermino de Pina


[0635] Pescas: Cabo Verde negoceia novo acordo com a União Europeia

Veja AQUI




quinta-feira, 21 de novembro de 2013

[0634] Ouro puro: 26 fotos de Djibla, o grande repórter fotográfico do Mindelo na segunda parte do século XX e do início do XXI

Recebidas hoje, directamente do autor, estas 26 fotos de São Vicente são simultaneamente belas e tristes, nalguns casos maravilhosas e noutros fantasticamente dramáticas. Como é comum em obras de bons fotógrafos, não é necessário fazer grandes comentários. É que o que aqui se mostra é sobretudo para ver... e matutar sobre esta grande terra e este grande porto, bordados por uma gente única a quem as malfeitorias que lhes fazem não dobram, apesar de tudo!...
Um grande abraço ao Djibla pela generosa oferta ao Praia de Bote.

RUA DE MATIJIM, 8 DE AGOSTO DE 2013, 9 DA MANHÃ








CRIME AMBIENTAL?







VISTAS DO FORTIM OU FEITAS A PARTIR DE LÁ














[0633] Viagem do "Vole au Vent" afinal adiada...

Afinal, parece que o "Vole au Vent" não chegou a sair da Madeira (ou talvez de Lisboa). Doença súbita de um dos velejadores alterou completamente o projecto de viagem até ao Mindelo e depois aos States. Dificuldades de comunicação têm gerado várias confusões (nenhum dos contactos foi feito por email) mas dentro de dias esclareceremos o que de facto se passou, em almoço que está a ser combinado para a Associação Cabo-Verdiana de Lisboa, entre o PdB e os oficiais da Armada de que temos vindo a falar. É no entanto uma pena que assim tenha acontecido, pois perspectivava-se um conjunto de relatos que decerto agradariam aos frequentadpores da Pd'B. Mas, ao que parece, nem tudo está perdido. É esperar, para ver...

[0632] Abriu a FIC 2013 no Mindelo


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

[0631] Centro de Congressos de Lisboa: Cabo Verde representado com stand no Bazar Diplomático - VEJA OS POSTS ANTERIORES, COLOCADOS HOJE

Enviado para o Praia de Bote pela Embaixada de Cabo Verde em Portugal

A Embaixada de Cabo Verde tem o prazer de informar que Cabo Verde estará presente no Bazar Diplomático 2013. Visite o nosso stand e habilite-se ao sorteio de uma viagem a Cabo Verde, entre muitos outros prémios.
Esperamos pela sua visita!


[0630] "Vole au Vent" ou já está no Porto Grande ou prestes a chegar

Praia de Bote aguarda com expectativa notícias dos quatro velejadores portugueses, ex-oficiais da Armada em romagem de saudade ou de alguma das figuras do Mindelo a quem foram recomendados sobre o andamento da viagem. Esperemos, pois...


[0629] Ainda o Fortim d'El Rei, no Mindelo

Parece que afinal há novidades. Cheiram a novo-riquismo que tresandam, quando o Mindelo está a cair aos bocados. Esperemos então para ver. De qualquer modo, em benefício de dúvida e com a honestidade que caracteriza o Pd'B, AQUI e AQUI fica o historial e... que Deus proteja o Fortim!...

terça-feira, 19 de novembro de 2013

[0628] No início de 1918, a menos de um ano do final da Grande Guerra, os boches e o seu imperador ainda pensavam em Cabo Verde

VER POST ANTERIOR SOBRE O COLÁ SAN JOM
O PdB divulga hoje aos seus leitores uma notícia de 10 de Janeiro de 1918 do jornal americano "Richmond Times-Dispatch". Nele se mostra que o interesse dos alemães pelas ilhas de Cabo Verde é bem anterior ao assunto do post de há dias relativo ao artigo que temos em curso de escrita, esse sobre os náufragos cabo-verdianos durante a II Guerra Mundial. A guerra só acabaria em Novembro de 18 mas os rapazes da salsicha Bratwurst não sossegavam... Veja AQUI um interessantíssimo filme sobre os submarinos alemães dessa época.

[0627] Presidente da República de Cabo Verde congratula-se por Portugal elevar "Colá San Jon" a património cultural imaterial. Mais uma vez, os dois países unidos.

Foto Joaquim Saial - Barco "Sagres"do "Colá San Jon" na Biblioteca Municipal de São Vicente  (Agosto.1999)












O Presidente de Cabo Verde saudou ontem (18.Novembro) o reconhecimento e inclusão do "Colá San Jon", expressão cultural cabo-verdiana, no inventário do Património Cultural Imaterial de Portugal.

Num comunicado da presidência cabo-verdiana, Jorge Carlos Fonseca lembrou que o "Colá San Jon" é uma manifestação do património cultural imaterial cabo-verdiano, "pela sua profundidade histórica, dimensão ritual e ancoragem social na respetiva comunidade".

"Enquanto Presidente da República, expresso a minha profunda satisfação por tamanha distinção conseguida a favor desta expressão cultural que tem desempenhado, na nossa comunidade na diáspora, em particular na residente em Cova da Moura (Portugal), um papel primordial de mobilização social e de reforço identitário", disse.

NOTA: A notícia refere esta manifestação cultural como "Kola San Jon". Dado que o PdB é um blogue de São Vicente e na nossa ilha ninguém gosta de "kapas", vertemos a exógena letra num óbvio "C" e acentuámos o "a". Afinal de contas, nisto de linguajar e escrevinhar, deve dar-se o seu a seu dono...

Agência Lusa

Foto Joaquim Saial - Barco "Arquipélago" do "Colá San Jon" na Biblioteca Municipal de São Vicente  (Agosto.1999)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

[0626] Fortim d'El Rei, símbolo máximo do desprezo pelo património


À semelhança do que o "Praia de Bote" e o "Arrozcatum" fizeram recentemente, "Notícias do Norte", sítio noticioso de Cabo Verde, dá conta (e com filme) AQUI do estado miserável de abandono e desprezo do Fortim d'El Rei (NOTA: não percebemos para que entraram no nome da velha fortificação aqueles "y" e o "del", numa estranha grafia a atirar para o castelhano...). O que poderia ser por exemplo uma pousada ao estilo das que se fizeram em Portugal ou em Espanha (ali designadas como Paradores Nacionales), salvando-se deste modo muitos monumentos da ruina, é neste momento um pardieiro degradado e infecto, à espera que o tempo e os vândalos dêem uma ajuda aos políticos do poder central e local que nunca para ele olharam porque não estão para perder tempo com tais ninharias. Devem estar mesmo a pensar: "Quanto mais depressa caires, mais depressa se calam estes tipos com manias de defesa do património." O Pd'B não consegue é perceber como é que os que têm responsabilidades no assunto ainda têm lata de sair à rua e enfrentar os seus concidadãos sem a cara enfiada dentro de um saco...  E mais não dizemos, porque o PdB não é blogue de marteladas. Porém, era impossível não deixarmos aqui o nosso contributo de alerta, perante tamanho desmando. E, embora eles pensem que não, a História registará os nomes dos que passaram pelo Governo e pelo poder local durante a queda lenta de um dos mais emblemáticos edifícios coloniais de São Vicente e logo de Cabo Verde. Seguem duas fotos de Setembro deste ano do infeliz Fortim.

Foto José Carlos Marques - Fortim d'El Rei, São Vicente de Cabo Verde
Foto José Carlos Marques - Fortim d'El Rei, São Vicente de Cabo Verde