sábado, 14 de junho de 2014

[0921] Um visita de diazá na Soncente...

Fotos do Instituto de Investigação Científica Tropical, da visita do Presidente da República Américo Thomaz a São Vicente, em 1968. Por vezes, o arquivo não é muito claro quanto ao local das imagens mas estamos em crer que as que agora mostramos são todas de São Vicente (uma ou duas podem ser de outra ilha mas a identificação torna-se algo difícil). A chegada ao Porto Grande, o povo nas ruas e a visita ao edifício onde estiveram instalados os serviços da Capitania dos Portos (até há poucos anos ainda lá estava e talvez ainda esteja, no último andar), Defesa Marítima e Comando Naval. Também se vê a acompanhar o Presidente o governador Leão Maria Tavares Rosado do Sacramento Monteiro (1920-2005), natural de Nelas mas mais que ligado a Cabo Verde, por laços de família (Fogo, sobretudo). Repare-se nos atuneiros japoneses de que se vêem as popas, atracados ao cais acostável e que para as ilhas foram por volta de 63 ou 64. Na última foto, um grande das ilhas, facilmente reconhecível, dando uma entrevista aos órgãos de comunicação social do Continente. Em algumas das fotos, também se pode ver o ministro do Ultramar de então, Joaquim Moreira da Silva Cunha. Quanto ao salão e à varanda do pau da bandeira, é quase certo que são da Câmara Municipal. E reparem que nas fotos do Comando Naval está tudo com cara fechada. Parece que o Belenenses tinha perdido nesse dia com o Benfica e a comitiva seguia o desgosto do Presidente...

E enquanto aguardamos pelos comentários dos nossos visitantes a estas 18 saborosas imagens, que têm muito para comentar, sugerimos-lhes que pensem em algo que estas duas outras figuras tiveram em comum. E claro que não é que tiveram a mesma pátria ou que ambos possuíam uma farta cabeleira branca. Isso era demasiado óbvio... Trata-se de algo mais especial, mais intelectual, mais lusíada... 




















sexta-feira, 13 de junho de 2014

[0920] Encerrado o concurso n.º 18 do Praia de Bote - Perguntas e respostas

Questões "simples":
O sujeito que sai do avião é o mesmo que entra no Palácio do Governo (hoje Palácio do Povo), no Mindelo. Um ramo de acácia para quem disser quem ele é e quem é o outro que o acompanha na entrada no edifício. Quem também puder dizer a data em que esta visita aconteceu, terá mais um ramo de acácia.


Ora as respostas eram as seguintes:

A pessoa que sai do avião dos TACV (repare-se na lindíssima e funcional escada posta para a alta personalidade descer da aeronave) era o então subsecretário de Estado do Exército, Francisco Costa Gomes. Bastava olhar para a parte remanescente da cara do militar (nas fotos, à civil) nessa fotografia para chegar lá - já não na outra foto, de muito mais difícil escrutínio. Acertou o José no à época recém-chegado ao arquipélago, governador Silvino Silvério Marques (1958-1962). Pois as duas fotos são da chegada de Costa Gomes ao aeroporto de São Pedro e ao Palácio do Governo (hoje do Povo). O governante andava em visita a Angola, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Foi depois dessa viagem que decidiu criar uma tropa especial anti-guerrilha, a Companhia de Caçadores de Lamego. Em 1961, devido ao seu envolvimento no chamado golpe Botelho Moniz, seria afastado e enviado para o quartel de Beja... Acabou por ser o último Presidente da República dos cabo-verdianos, antes da independência.

Ah!... E as imagens são da inevitável Foto Melo do Mindelo, essa grande instituição local que serviu a reportagem são-vicentina (e não só) por tanto tempo... e bem!




quinta-feira, 12 de junho de 2014

[0919] Filme incompleto, mas um luxo! Como banda sonora, "Nha Codé", dos Simentera (1995)

Dá gosto, dá gosto, ver e ouvir! Para comemorar a chegada aos 135 000 visitantes. E o filme vem com bónus... No fim do primeiro, chega logo o segundo...

[0918] Cabo Verde não participa no Campeonato do Mundo mas Pd'B coloca-o lá, através de Cesária Évora e do seu "Carnaval de São Vicente" porque... São Vicente é um Brasilim

E Portugal tem um dever, a cumprir no dia 26 de Junho... É vingar aquele 2-0 do Gana a Cabo Verde, nos quartos de final do CAN, em 2 de Fevereiro de 2013. Ouviram, rapazes das quinas? Ouviram, lusitanos seleccionados do chuto na bola? Para além dos portugueses, Cabo Verde também estará nesse dia de olhos postos em vós, rangendo os dentes. Não se esqueçam!...

quarta-feira, 11 de junho de 2014

[0917] E já que no post anterior falámos das mangas de São Tomé, falemos agora da sua música, nas pessoas dos "África Negra"

Para breve, um concerto histórico que está aí ao virar da esquina. Trata-se do regresso dos míticos "África Negra", indubitavelmente os maiores e mais genuínos embaixadores da música de São Tomé e Príncipe fora de portas, cujos ecos ressoaram em toda a África lusófona (não há cabo-verdiano que não conheça as músicas deles e são populares em Angola e na Guiné-Bissau, apesar da barreira da linguagem, uma vez que são tipos de crioulo diferentes) e na América do Sul (basta ver os comentários em alguns vídeos que têm no Youtube). Começaram em 1974 e as primeiras gravações remontam a 1981, altura em que andaram em digressão por Angola, Cabo Verde e Portugal. A banda teve formações variáveis até há pouco; reuniram-se novamente há sensivelmente dois anos e voltaram a ensaiar e a tocar com regularidade. Surgiu a oportunidade de os trazer de volta a Portugal, para uma data no Festival de Músicas do Mundo de Sines a 23 de Julho e no B.Leza, em Lisboa, a 31 de Julho.

O início da lenda do conjunto "África Negra" é oficialmente atribuído ao ano de 1974, quando a formação original da banda mais amada e conhecida além-fronteiras de São Tomé e Príncipe sentiu que tinha chegado a hora de começar a tocar ao vivo no circuito dos ‘fundões’ da capital São Tomé. Os fundões eram os bailes ao ar livre que juntavam as diferentes comunidades locais: os mestiços, descendentes de colonialistas portugueses e escravos africanos, os Angolares, descendentes de escravos angolanos naufragados que se fixaram em comunidades piscatórias na zonal sul, e os descendentes de trabalhadores contratados Cabo-verdianos e Moçambicanos que tinham vindo trabalhar para as plantações de café e cacau da ilha.

Ao longo da década de 70, o núcleo criativo da banda constituído por Emídio Vaz, guitarra solo, Leonildo Barros, guitarra ritmo, e João Seria, vocalista, motivaram-se a maturar o seu inimitável estilo de São Tomé Rumba, música de uma languidez paradisíaca devedora do vizinho Soukous, com suaves traços redentores de Highlife, acabando por se tornar num contributo fundamental para a construção cultural da identidade da então jovem nação independente.  

O seu reportório original de cerca de 40 a 50 canções foi gravado na Rádio Nacional de São Tomé no início da década de 80, sendo que depois foram editadas em 3 LPs prensados e editados em Portugal pela Iefe Discos. Nessa altura, os estúdios de gravação e emissão da Rádio São Tomé estavam localizados no extremo este da cidade capital São Tomé, numa pequena casa a olhar o oceano. As salas de gravação eram pequenas demais para acomodar um grupo alargado de músicos, por isso os "África Negra" montaram o seu material no relvado circundante da casa, olhando as ondas que banhavam a costa, e gravaram os temas rodeados pelos seus fãs mais leais.

A década de 80 revelou-se a época de expansão do conjunto "África Negra". O grupo tocava regularmente por todo o país natal, fazia visitas regulares a Portugal, visitou Angola nove vezes (em tours pelas províncias de Luanda, Benguela e Cabinda) e foram um sucesso retumbante em Cabo Verde. O icónico epíteto de ‘Mama Djumba’ pelo o qual o seu estilo musical é conhecido entre os fãs, teve origem num concerto em 1981 em Portugal, onde se celebrava o 8º aniversário da independência da Guiné-Bissau. Os "África Negra" dividiam a noite com os igualmente fabulosos Super Mama Djombo da Guiné-Bissau, com as duas bandas alternando sets tendo atingido 4 horas de espectáculo. Perto do final do serão, perguntaram ao público presente qual a banda que queriam que trouxessem de volta ao palco para fechar a noite. O público maioritariamente guineense preteriu os ‘Super Mama Djombo’ e começou a cantar ‘África Negra’. Os filhos preferidos de São Tomé orgulhosamente regressaram ao palco, e para suavizar a tensão com os seus colegas desolados, a banda arrancou o encore com um tributo aos Super Mama Djombo, entoando a espaços a expressão impromptu ‘África Mama Djumba’. Passado alguns minutos o público começou a repetir esse simples canto. Quando o grupo regressou a São Tomé, as notícias do seu triunfo em Portugal já os tinha precedido, e no seu próximo concerto subiram ao palco ao som do mesmo cântico de ‘África Mama Djumba’. Estes anos dourados dos "África Negra" chegaram a um fim quando a banda terminou uma digressão das ilhas de Cabo Verde em 1990. A tour teve tamanho êxito que desmembrou a banda. Quando foi altura de regressar a São Tomé, o vocalista João Seria e o baixista Pacheco decidiram ficar em Praia, tal era a adoração de que gozavam.

Com uma relativa intermitência na sua actividade ao longo dos últimos 20 anos, os "África Negra" editaram por meios próprios em 2008 um CD com novas canções originais chamado ‘Cua na Sun Pô Na Buà Fa’ - algo como ‘Mesmo que aches que não vale a pena’ - e mantêm uma regularidade tranquila de actuações em São Tomé, usando o mesmo material antigo que, por qualquer força divina, ainda funciona, como os amplificadores e os processadores de efeitos de guitarra usados originalmente nas gravações dos anos oitenta e que constituem parte do segredo da magia do som e das músicas da banda. Muitas das suas antigas gravações continuam a ser clássicos habitualmente rodados na rádio São Tomense e, no mundo global online, vídeos com a sua música no YouTube prosseguem contabilizando números de visualizações a cada vez que um São Tomense expatriado procura saciar a saudade ou convidar um par para dançar ou um novo miúdo no Brasil descobre a música desta formação abençoada. Estranha-se não terem sido ainda bafejados pela boa fortuna da tendência das reedições, o que custa um pouco a acreditar quando se põe em perspectiva a singularidade da sua identidade musical no contexto da música produzida na África ocidental pós-colonialista, e se constata a ávida procura e especulação à volta dos seus LPs originais no mercado de coleccionadores.

Actualmente os "África Negra" são seis pessoas (voz, duas guitarras, bateria, baixo e percussão), sendo que dois dos membros fazem parte da formação original, o vocalista João Seria e o guitarrista Leonildo Barros, e será este grupo que se apresentará em Portugal, pela primeira vez desde a última visita perdida algures na memória dos anos 80. Para todos os lusófonos de coração este Verão, chegou a hora deste reencontro há muito devido com este património vivo da música e cultura São Tomense. 

Para conhecer (ou rever) os "África Negra":

'Mino bo qua  cueda' - http://youtu.be/WPjDZtprhZ4

Bilhetes disponíveis na Ticketline em http://ticketline.sapo.pt/evento/africa-negra-8808 e nos locais habituais (lojas FNAC, Worten, El Corte Inglés, etc.)

Telefone para Reservas: 1820

[0916] De São Tomé para Cabo Verde

E o resto... são mangas. Tudo por culpa do governador Caetano d'Albuquerque (que esteve no cargo, entre 1869 e 1876). E como são boas as manguinha di téra. Pena terem tantos filamentos mas que são saborosas, são.

E filhas de São Tomé... Aqui, não é ver para crer... mas sim "comer para querer".

Lembram-se os nossos visitantes das ilhas como eram em tempos comidas (bebidas), quando duras? Força contra a parede, um furinho na casca e vá de beber o saboroso sumo. Em épocas em que em Cabo Verde não havia paredes grafitadas, havia de facto imensas paredes "mangadas"...

in África Illustrada, 1892

Governador Caetano de Albuquerque - Busto na Praia - Foto Joaquim Saial

segunda-feira, 9 de junho de 2014

[0915] Uma tentativa de assassínio de Américo Thomaz em Cabo Verde, em 1968, que a História não refere

A História não a refere mas ela existiu e o Pd'B prova-o com documento fotográfico pela primeira vez apresentado em público. Uma ardilosa trama planeada pelas altas esferas independentistas preparou a liquidação do Presidente da República de Portugal, então em visita às colónias da Guiné e Cabo Verde, durante um banquete em que senhoras das forças vivas locais obrigariam o mais alto magistrado da Nação a comer sem parar as melhores iguarias das ilhas verdianas. Américo Thomaz esteve quase a soçobrar, mas após 30 sucrinhas, 27 pastilim d'pêxe e 87 doce d'coque (fora os iniciais 43 pratos de doce de papaia com queijo di tera) e vigorosos protestos que alertaram os guarda-costas da PIDE que com ele viajavam, salvou-se in extremis. Eis o momento que Américo Thomaz, já com os braços no ar, pede ajuda. Logo a seguir verificou-se a chegada dos gorilas da polícia política, armados de matracas, que salvaram o PR mas que infelizmente não surgem na imagem.


[0914] Para além de poder comentar seis posts novos já aqui atrás, dê um título a esta imagem.


[0913] Dizem que é um banco lento...

Ver AQUI


[0912] Ainda mais dois livros de culinária de Cabo Verde, de 2003 e 2004. Ver post 908

"Cozinha tradicional de Cabo Verde", de Maria Teresa Lyon de Castro. Reimpressão em 2003, desconhecendo o Pd'B a data da primeira edição. Ver AQUI

A propósito de Lyon de Castro: Francisco Lyon de Castro (1914-2004), da mesma família e longo editor da Europa-América, era amigo de Henrique Teixeira de Sousa. Na editora foi publicada grande parte da obra do saudoso médico, autarca  e escritor.


Fica também outro que encontrámos, "Cozinha da Avó", de Josefina Benchimol Duarte, de 2004, divulgado no blogue parceiro Esquina do Tempo (ver AQUI), de que apresentamos um resumo em inglês, com erro no título, por causa da falta de acentuação nessa língua.



[0911] Depois de futebol, regionalização e culinária cabo-verdiana (ver três posts anteriores), vai uma cachimbada à antiga, com um canhote cheio de stil


[0910] O Grémio Sportivo Castilho, sempre o Castilho...


Praia de Bote continua sem imagens de qualidade dos símbolos do Castilho, do Derby e do Amarante. Contudo, alguma coisa vai surgindo, como este blogue para o qual remetemos o mais castiliano dos castilianos, o nosso amigo vice-cônsul Valdemar, sempre saudoso do seu clube, lá na França longe... (ver AQUI)

Ficamos a aguardar que uma alma caridosa da ilha do Monte Cara nos envie bons emblemas destes três respeitados clubes da cidade. Sim, porque embora o Pd'B defenda o Mindelense, também tem uma especial estima por estes outros clubes e pelo Micá.

[0909] Regionalização - Mais uma curta de Zeca Soares

Zeca Soares
Para os visitantes do Pd'B, envio desde Mindelo estas imagens de um pedacinho de Monte Cara e da Rua da Praia (da Praia de Bote), com um enorme cartaz publicitário sobre um tema de actualidade. Infelizmente, a este respeito, a realidade veio a demonstrar as fragilidades da nossa "Sociedade Civil". Depois de um pequeno grupo de cidadãos mindelenses ter cumprido o seu dever cívico de mobilização, eis que agora são os partidos políticos a entrar em acção. 

Com muita pena, duvido se este não vai ser mais um problema a juntar a muitos outros que o país já tem, que são a consequência da materialização de conteúdos programáticos dos programas. Pelo rumo que esta questão, tão séria, está a tomar, devia ser tema de campanha eleitoral. Os seus resultados ainda vão levar gerações. É só aguardar.


Pormenor da foto de cima

[0908] O primeiro livro de culinária sobre gastronomia cabo-verdiana... Yes? No? Maybe?...

O nosso parceiro Arrozcatum anunciou há pouco (ver AQUI) o decerto interessante e útil livro sobre culinária cabo-verdiana "Sabores com histórias de D. Minguinha", editado pela Livraria Nhô Eugénio. Com 51 receitas tradicionais, trata-se de uma recolha dos vastos saberes gastronómicos e doceiros desta senhora bravense. Passado ao papel por sua filha Elsa Tavares, o Ac'A deu-o como sendo o primeiro no género. Posto isto, vamos então ao que interessa: 

Logo no seu post 32, o Praia de Bote falava do livro de Maria de Lourdes Chantre, "Cozinha de Cabo Verde", cuja 3.ª edição possui, datada esta de 1993, já lá vão 21 anos (ver AQUI) mas com direitos copyright de 1989, o que indicia a primeira edição do book, acrescentando-lhe mais quatro, o que dá 25, um quarto de século... Logo, bem mais idoso que o agora surgido. Se o de Lourdes Chantre é o primeiro do género, não o sabe o Pd'B que não investigou o assunto. Mas, dando o seu a seu dono, reivindicamos-lhe a farta anterioridade em relação ao de D. Minguinha. Seja como for, ambos decerto se completarão e ambos serão monumentos da culinária das ilhas, bem variada e apetitosa. 

Lourdes Chantre - Foto JS
Cabe dizer ainda que se o livro mais recente tem 51 receitas de pratos tradicionais e doces e salgados (segundo o Ac'A), o de Lourdes Chantre divulga 13 receitas de sopas e caldos, 22 de peixes e mariscos, 14 de carnes e aves, 7 de cachupa, 4 de xerém, 14 de papas, 27 diversas, 8 de conservas, 19 de bolos, 5 de cuscuz, 25 de pudins, 22 de bolos sortidos, 32 de doces de compoteira, 22 de guloseimas, 22 de grogues, ponches, licores e refrescos, 12 de frutas e... 35 de chás. Fora, um delicioso prefácio de Nhô Roque Gonçalves que até apetece comer... 

Enfim, mais uma vez, há que dizer que o objectivo deste post é apenas o de dar o seu a seu dono, estabelecendo a verdade da cronologia. Seria até curioso alguém vir com um ou mais livros culinários anteriores a estes dois (que é possível que os haja), para a stóra das comezainas verdianas ficar ainda mais composta e o estômago mais aconchegado. Porque "livre a livre nôs ta fazê digestive", como diz o antiquíssimo ditado das ilhas... meio estrambólico e inventado agora.

sábado, 7 de junho de 2014

[907] Genes cabo-verdianos chegaram ao Japão antes dos meados do século XIX.Ou seja, Cabo Verde, país crioulo, também criou os seus crioulos.

Isabel Marques da Silva (de nhô Césa d'Eden-Park) descobriu a coisa, enviou-a para o Valdemar Pereira e este para o Praia de Bote que continua em trabalhos militares nas "Campanhas de Pacificação" da Guiné, com tiroteio por todo o lado, acompanhado de polícias cabo-verdianos mal armados e desejosos de regressarem a casa, nas ilhas... Abrimos a excepção, dado o interesse do assunto. Com pequenas correcções de texto, para o tornar mais compreensível, ele aqui vai:

Texto de IMS: O texto abaixo é de Mio Matsuda, japonesa e exímia intérprete da música cabo-verdiana, que postou esta relíquia no seu Facebook. Ela está na foto com um senhor que é descendente de gentes de Dja Braba! Imaginem!...

Texto de MM (em japonês e em português): JAPÃO CRIOL クレオール日本の生き字引、カーボヴェルデのブラヴァ島から1831年に捕鯨漁師としてやってきたジョアキン・ゴンザレス(おそらくゴンサルヴェスだったろう)の子孫、小笠原愛作さん(83)に会えたよ!26時間かかって来た甲斐がある素晴らしい出会いとインタヴューができました。

Meus amigos cabo-verdianos! Em São Vicente, vive Abe (o pescador japonês) e no Japão vive um descendente de Cabo Verde! Este senhor, Aisaku Gonzales (talvez fosse Gonçalves), é o descendente de um pescador de baleia, natural da ilha Brava, Cabo Verde, que residiu em Ogasawara (ilhas Bonin) em 1831. É o pastor respeitado na vila. Viajei 26 horas de barco para me encontrar com ele mas valeu a pena!

Lembra o Praia de Bote, relativamente ao "Gonzales" o músico saxofonista Paul Gonsalves (1920-1974) que trabalhou com Duke Ellington, Eddie "Lockjaw" Davis, Clark Terry e outros, natural de Brockton e logo... filho de um Gonçalves de Cabo Verde.

terça-feira, 3 de junho de 2014

[906] Nunca digas nunca (ver título do post anterior) ou a obrigação de publicar um texto que é um luxo

Texto sobre o "Clube Sportivo Mindelense, Campeão" de Rocca Vera Cruz, no Facebook

Praia de Bote, com sede do Mindelense à esquerda - Foto José Carlos Marques

Depois de ler tantas coisas nestes últimos dias sobre a pseudo alienação dos cabo-verdianos por causa do Benfica, tenho que voltar a ler, urgentemente, Franz Fanon, Eduardo Galleano, Desmond Morris e Batta. Ou seja, preciso reler sobre o complexo fenómeno do futebol e sobre o complexo complexo de inferioridade que vem tomando conta de algumas consciências por aqui [o autor refere-se ao Mindelo e por extensão a Cabo Verde]. Não vou jurar passar a ler só escritores crioulos, a vestir fatos de pano di terra, a beber gin com água de coco, e, já agora , também não passarei a ir à Torrada porque estão a acabar com o Caizim. Não, isso não. Mas vou tentar posicionar-me em relação a umas coisas que venho lendo. Vi algures, e não vou procurar onde porque este tema já me cansa, que o cabo-verdiano prefere o glorioso Benfica ao Mindelense porque este é de uma infame rua de botes, sem glória, sem luz, sem catedral!!! Essa infame rua de botes, ou seja a Rua da Praia, que, segundo Joaquim Saial é 'o coração mais genuíno da cidade do Mindelo' , espelha bem o que é Mindelo e o Mindelense: uma mescla de catraeiros, peixeiras, pescadores, ateliers de pintura (Tchalé Figueira), botequins, batoteiros, restaurantes, gasolineiras, supermercados e por aí vai... O Mindelense é também o clube da família Serradas (César Arnaldo Carvalho Serradas), do Sr. Ricardino Vasconcelos, do Sr. Dadal sem deixar de ser de Nharibul, Clament Pertá Puxe, Aibú, Scuik, Taivon, Xica de Cucuta, Mari Salema e tantos outros. Essa mistura, que faz de nós um povo diferente, que, até certo ponto, ri para não chorar (porque depois, 'loreta ta sentá pele'), é que é a luz e glória desse clube mítico cuja catedral se situa na emblemática Rua da Praia.O Mindelense, amigos, é de uma cidade cosmopolita que inspirou e inspira um enorme número de poetas, escritores, músicos e que acolhe desde há muitos anos uma grande diversidade de estrangeiros tendo gerado por isso uma cultura aberta ao mundo. Para nós, gostar do outro não implica deixar de gostar do que é nosso. 'O outro' faz parte de nós, convivemos diariamente com ele. Sei que, para muitos, este tipo de atitude é incompreensivel, preferem ou só compreendem a sentença maniqueísta! O povo mindelense, esse, tem tido e vai continuar a ter a capacidade para enfrentar conscientemente as contradições geradas no seu próprio seio e, aproveitando a energia dessas contradições, resolvê-las. Do Benfica ao Sparta de Rotterdam, do FCPorto ao Nhagar, do Sporting da Praia ao Chelsea, do Cantareira aos Veteranos da Praia, todos têm lugar aqui e são ben-vindos. Pu Brito é nosso, assim como o Adriano Barbosa, o Nhambu, o Toy Adão, o Garay e o Mangala, o Vave, o Simão e o Djosa de Fausta. Germano Almeida, João Branco, Baltasar Lopes e Fátima Bettencourt são igualmente nossos. Soncent ê isto, Soncent ê ot cosa!

Praia de Bote regozija-se com este texto, abraça o autor e deita foguetes de contentamento. Praia de Bote também convive muito bem com o Mindelense e o Benfica. Praia  de Bote também convive muito bem com as suas duas terras, Vila Viçosa e Mindelo (não esquecendo a que o adoptou verdadeiramente, de papel passado, a Cidade Velha), Praia de Bote até acha (e decerto não se engana) que cabo-verdianos e alentejanos ês é tude mêm cosa, tude gente drête e sabim... tal como os benfiquistas e os mindelenses do Clube Sportivo.

Viva o Benfica!
Viva o Mindelense!
não, enganei-me...
Viva o Mindelense!
Viva o Benfica!
não, é melhor ao contrário...
Viva o Benfica!
Viva o Mindelense!
não, tem de ser como antes...
Viva o Mindelense!
Viva o Benfica!
não, a melhor maneira é esta:
Viva o Mindefica e viva o Bendelense!!!

[905] Após este post e o anterior, Praia de Bote fecha MESMO (sem apelo nem agravo), até dia 15 ou 16. Travail oblige!...


[0904] Cinema cabo-verdiano em grande - Notícia in "Correio da Manhã" de ontem


segunda-feira, 2 de junho de 2014

[0903] Praia de Bote faz fugaz aparição para difundir as primeiras linhas de mais uma "Crónica do Norte Atlântico" e desaparece logo de seguida que ainda há muito para "batalhar"

REVOLTAS NA GUINÉ, SOLDADOS ACLIMATADOS EM CABO VERDE E ESPINGARDAS DECRÉPITAS  (título provisório)

Nos finais de 1885, as forças militares e militarizadas da guarnição das coloniais portuguesas contemplavam apenas 7359 praças, faltando 2251 homens para que os quadros estivessem completos. Cabo Verde, que tinha duas companhias de polícia com 235 praças, possuía lugar para ainda mais 32 . À primeira vista pouca gente, para as nove ilhas habitadas, mas de certo modo suficiente para um território onde nesta época (ou em anos mais ou menos próximos, anteriores e posteriores) as revoltas contra o domínio colonial foram sempre mínimas e nada ou pouco armadas  – apesar das miseráveis condições de vida –, ao contrário do que recorrentemente acontecia, por exemplo, na Guiné, onde a guerra era constante e feroz.

De facto, no território continental africano sob administração portuguesa vizinho de Cabo Verde, as destemidas rebeliões locais davam origem a títulos bélicos nos jornais, como "A guerra na Guiné", acerca da revolta papel de 1893-94 e de ataques a Bissau. E atribuíam-se condecorações, como de costume, embora mitigadas. A este propósito, recordamos o caso da concessão de "dois hábitos" da Ordem da Torre e Espada "dados à sorte" a marinheiros que tinham participado nas campanhas… Cabo Verde, que ia servindo de retaguarda hospitalar aos combates na Guiné, recebia feridos. Um deles, o marinheiro 114 da 6.ª Companhia, atingido numa coxa, recebeu tratamento no Hospital de São Vicente.