terça-feira, 21 de janeiro de 2014

[0700] 700 x 5: um esclarecimento, uma despedida (até já!...), uma saudação, um protocolo e, em ÚLTIMA HORA: João Branco à frente do CCP do Mindelo (ver no final deste post)

ESCLARECIMENTO

Sérgio Frusoni
Não é por mal, a gente sabe. Mas que parece mal, não há dúvida alguma. Roubarem a propriedade intelectual a quem produz cultura é tão ou mais doloroso que o roubo de uma propriedade fixa ou móvel, salvaguardadas as devidas distâncias e os pesos de cada uma delas. Abastardarem escrito nosso, ainda pior, dado que quem lê uma poesia, romance ou texto de jornal, fica sem saber se a gralha ou a mistura de linhas se deve ao autor ou não. 

No caso vertente, nem sequer se trata de velhacaria, mas sim de asneira recorrente - que ambos os autores, já falecidos, dispensavam. B. Leza e Sérgio Frusoni são suficientemente grandes para não andarem misturados quando não é caso disso. Foram duas estrelas luminosas e ainda são, nos caminhos da música e da poesia cabo-verdiana, figuras das mais altas na grande constelação que o Mindelo produziu ao longo dos tempos. Aqui fica o esclarecimento do filho e nosso amigo, Fernando Frusoni.

Tenho ouvido vários  cantores interpretar a morna do meu pai, Sergio Frusoni, “Tempe de Caniquinha “, mas não tive ainda o prazer de ouvir uma interpretação que tivesse utilizado na integra a versão original. O mais grave é que por vezes tenho ouvido utilizar palavras que não têm sentido e que não respeitam a rima seguida pelo meu pai. Ter lido no You Tube que esta morna foi composta por B. Leza e Sergio Frusoni, deixou-me estupefacto. 

Devo esclarecer o seguinte: a morna foi escrita e musicada pelo meu pai e foi pela primeira vez interpretada pelo meu irmão  Franco Frusoni no Conjunto Cénico  Castilhano.

Uma parte da letra original encontra-se no livro de Valdemar Pereira “O Teatro é uma Paixão, a Vida  é uma Emoção “, página 178. Completei a letra que tenho de memória de tanto a ouvir cantar em casa.

Eis a letra original, para  quem a quiser conhecer:

TEMPE DE CANIQUINHA

Sanvecente um tempe era sabe
Sanvecente um tempe era ôte côsa
Cónde sês modjêr ta usába
Um lenço e um xales cor de rósa
Um blusa e um conta de coral

Cónde na sês bói nacional
Tá mornód tê manchê
Cónde sem confiança nem abuse
Tá servid quel cafê
Ma quel ratchinha de cúscús.
Cónde pa nôs Senhóra da Luz
Tinha um grande procisson
Cónde ta colóde Santa Cruz
Ta colóde pa San Jon
Lá na rebêra de Julion

Cónde ta cutchide na pilon
Tá cantá na porfia
Cónde ta tchuveba e na porte
Ta vivide que mas sôrte
E que mais aligria.

Povo ca ta andá moda agora
Na mei de miséria tcheu de fome
Ta embarcá ta bá  ‘mbóra
Sem um papel, sem um nome,
Moda um lingada de carvon.

Era colheita na tchôn
Era vapôr na bahia,
Oh Sanvecente daquês dia
Atê góte de Manê Jon
Tá ingordá na gemáda.

Lá pa quês rua de moráda
Era um data de strangêr
Era um vida folgáda
Ciçarône vida airáda
Ta nadába na dnhêr.

De nôte sentód na pracinha
M’ ta partí gônhe assim…
Pa mim pa bô, pa mim,
Pa mim pa bô, pa mim
Era tempe de caniquinha…

Génova, 11 de Janeiro de 2014
Fernando Frusoni

UMA DESPEDIDA (até já!...)

Soube hoje, através do blogue CAFÉ MARGOSO do amigo actor e encenador João Branco, que a Dr.ª Ana Cordeiro, directora do Pólo do Mindelo do Centro Cultural Português (Instituto Camões) se vai aposentar. Lembrei-me então do meu livro "Capitania, romance de São Vicente de Cabo Verde" (há muito esgotado em Portugal e Cabo Verde), motivo pelo qual a conheci. 

Falei com ela pela primeira vez em 1999, quando fui a São Vicente em viagem de recuperação de memórias, apenas com 100 páginas escritas, das 200 que a obra viria a ter. Fiz então no CCP, em 30 de Junho, uma palestra de apresentação do texto até aí escrito. Em 2 de Abril de 2002, tal como aconteceu na Praia, efectuei no Mindelo (também no CCP) o lançamento do romance, acompanhado de uma palestra sobre os anos 10 do século XX em Cabo Verde. Na cidade do Porto Grande, a coisa meteu sempre televisão e bastante público, entre o qual se contavam antigos condiscípulos do Liceu Gil Eanes e velhos marinheiros da Capitania do Portos, o que sobremaneira me agradou, como se compreende.

Diga-se, a título de curiosidade, que tanto eu como a editora abdicámos de qualquer lucro nos ganhos do livro, para que ele pudesse ser vendido barato, praticamente ao preço do custo nas ilhas. Até o Instituto Camões (Lisboa), por iniciativa da minha editora, se prontificou a enviar os exemplares para Cabo Verde sem cobrar um tostão de portes a nenhuma das partes... 

O livro desapareceu pouco depois, cumprindo-se o desiderato do autor, mas para além desse gosto sabe ficou ainda outro: o da extrema simpatia da Dr.ª Ana Cordeiro em todo o processo relativo ao caminho do livro no arquipélago. Não me esqueço também do belo jantar que me ofereceu em sua casa, onde fui com o Germano Almeida e do sarilho que foi arranjar-lhe uma pequena lembrança para lhe levar, num Mindelo na altura escasso de mimos menos vulgares. Após muita procura, lá desencantei num supermercado uma caixa de bombons, única da casa, milagrosamente guardada para mim... 

E, pelo que me contou na altura e soube por outros amigos ao longo do tempo, ultrapassando de longe a função administrativa e cultural que lhe competia pelo cargo que detinha, ela foi de facto nas últimas décadas a segunda e grande embaixadora (ou embaixadora oficiosa) de Portugal em Cabo Verde. Mas, como diz o João Branco, dela Portugal e a sua segunda terra, Cabo Verde, ainda muito podem esperar. Um abraço do PRAIA DE BOTE e desejos de um risonho futuro, para bem dela própria e dos dois países.

UMA SAUDAÇÃO

O dia é especial. 

Comemora-se a chegada dos Portugueses à ilha do Monte Cara, em dia de São Vicente, há exactos 552 anos, nesse já longínquo 22 de Janeiro de 1462. Grande Diogo Afonso, esse rapaz esforçado que o escultor Gustavo Bastos retratou em bronze cheio de roupas (e decerto de calor), hoje ali plasmado na Praia de Bote, olhando o Atlântico que cruzou, quiçá cheio de vontade de mergulhar nele...

E comemora-se em simultâneo o dia do santo que aqui fica, no seu nicho da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Luz, em imagem já conhecida, talvez feita por alguém da Foto Melo, pode ser que pelo Djibla ou sabe-se lá por quem. 

Ele é o "nosso" santo, a par de Nossenhora da Luz e de São João, os quais constituem de facto a verdadeira trindade religiosa de nôs terra. Viva São Vicente! e Viva Soncente, portanto.

PROTOCOLO ENTRE SÃO VICENTE E SÃO NICOLAU

Tarrafal e Mindelo oficializam relação e adoptam Protocolo de Cooperação 

Ilha de São Nicolau
Protocolo de Cooperação será rubricado esta quarta-feira, 22, durante acto solene por ocasião do Dia de São Vicente, festa municipal na ilha do Porto Grande. O documento será assinado pelos Autarcas Augusto Neves e José Freitas de Brito, em cerimónia que será presidida pelo Chefe de Estado

As relações entre a ilha de São Vicente e São Nicolau são históricas e abrangem vários sectores. Desde que José Freitas de Brito assumiu a Administração municipal no Tarrafal tem-se registado um incremento das relações entre as duas autarquias, com colaboração pontual na base de amizade institucional. Entretanto, as duas municipalidades entendem que é chegada a hora de evoluir nas relações e que a cooperação é o quadro que pode melhor definir as relações que na prática já existem. Assim, o Autarca do Tarrafal está em São Vicente para esta quarta-feira, 22, no quadro das celebrações do Dia de São Vicente e do Município da ilha, assinar o Protocolo de Cooperação com a Câmara presidida por Augusto César Neves.

Há um desejo de reforçar os laços de amizade, solidariedade e cooperação entre as populações de ambas as regiões e neste particular a cooperação através das autarquias assume papel preponderante, realça o edil do Tarrafal. José Freitas de Brito está optimista quanto ao sucesso da geminação com São Vicente e perspetiva como positiva o impacto que esta cooperação pode ter para o desenvolvimento de Mindelo e Tarrafal, nomeadamente, em áreas de promoção de acções que favoreçam a riqueza da vida cultural, social e económica.

A vermelho, o território do Tarrafal de São Nicolau
A geminação, para além das tradicionais áreas de cooperação municipal, observa como pertinente a protecção e a conservação do ambiente, com enfoque para o saneamento público e a recolha de resíduos sólidos, num processo que pode culminar na cedência e empréstimo de máquinas e equipamentos para tratar esse importante sector e que no caso de Tarrafal carece de meios.

Promoção de intercâmbio cultural, de artesanato, desportivo, actividades económicas e produtivas são outras prioridades da geminação.

O Protocolo de Cooperação entre Tarrafal e Mindelo será assinado esta quarta-feira, dia 22, em sessão solene da Câmara Municipal de São Vicente, na presença do Chefe de Estado, Jorge Carlos Fonseca, e de outras individualidades e instituições.

Ainda do Tarrafal de São Nicolau...

O vencedor do concurso para a criação dos Símbolos Heráldicos do Município do Tarrafal é Emanuel José Brito do Rosário que apresentou na perspectiva do júri a melhor proposta.

A referida proposta já foi sufragada na passada quinta-feira, em reunião do executivo camarário que a validou na sequência dos resultados apresentados pela comissão presidida pelo artista plástico, Dr. Leão Lopes, e integrada por mais quatro membros.

O júri entende que a proposta vencedora apenas será revelada nos próximos dias, depois de receber a versão original (em formato digital) do candidato vencedor que tem um prazo de 15 dias, a partir de hoje, para entregar os documentos.

JOÃO BRANCO À FRENTE DO CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS, PÓLO DO MINDELO

Com os devido parabéns, pela merecida nomeação que deixa grandes esperanças aos que verdadeiramente amam a cidade do Mindelo e a ilha de São Vicente.

Ver AQUI

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

[0699] Acção conjunta de quatro blogues para reposição de uma verdade histórica e cultural sobre uma obra de Sérgio Frusoni

Amanhã, 22 de Janeiro, dia de São Vicente, os quatro blogues cabo-verdianos e parceiros PRAIA DE BOTE, CIDADE VELHA 1462, ESQUINA DO TEMPO e ARROZCATUM, unir-se-ão pela primeira vez em prol da reposição da verdade histórica e cultural.

A coisa tem a ver com o saudoso poeta Sérgio Frusoni que mais que merece esta atitude. Ou seja, o seu a seu dono. E mais não dizemos, pois o dia é amanhã...


sábado, 18 de janeiro de 2014

[0696] Quando o PAIGC Achou/Redescobriu S. Vicente

2.ª Parte - A decadência de S. Vicente: o triunfo da ruralidade, o retorno ao passado e a crise de valores - Ver 1.ª parte AQUI
Por José Fortes Lopes

José Fortes Lopes
Com o tropeção de Portugal em África e a emancipação das suas colónias a seguir à revolução de Abril, poderia Cabo Verde ter galgado uma onda transformadora sob os auspícios da liberdade para repensar o seu futuro. De novo, S. Vicente fazia jus ao mérito de, pela segunda vez, ser a alavanca anímica para o progresso, já que foi no seu seio que se fermentou a consciência revolucionária no território e se abriram as portas ao PAIGC para a tomada do poder. No entanto, a sua vocação para esse desígnio iria, por estranho paradoxo, torná-la vítima a longo prazo (40 anos) das suas próprias virtudes, em virtude do ostracismo a que a ilha foi sendo votada, assim como todos os valores que a caracterizavam: liberalismo, cosmopolitismo, abertura de espírito, inconformismo etc. O regime instalado em Cabo Verde, embora de cariz justicialista e mesmo messiânico, era incompatível com uma sociedade de valores livres e liberais, incarnada em S. Vicente, por razões que serão desenvolvidas mais à frente. 

Na realidade, é o advento do Estado Novo nascido com o 28 de Maio de 1926 e a sua longevidade de 50 anos, de par com o lento decair da influência e da presença inglesas, que marcam o fim da ascensão da ilha, iniciada nos meados do século XIX, representando um rude golpe na economia do arquipélago e numa trajectória que parecia imparável. O conservadorismo do regime salazarista e a ausência de perspectivas económicas constituíram o primeiro desencontro da ilha com a história. Punha-se fim a uma experiência de cerca de um século e meio na ilha que resultou numa das maiores expansões económicas alguma vez ocorridas no arquipélago, e o ‘Cabá Carvon’ da década de 40 do século XX engendrou o ‘Cabá Vapor’, entrava-se num novo ciclo de estagnação económica, uma nova era caracterizada pela emigração em larga escala (para os que mesmo assim podiam emigrar). Para a população residente as perspectivas ficavam cada vez mais sombrias, condenada a uma pobreza irreversível por escassez de trabalho. O imobilismo do Estado Novo contrastou com o dinamismo francês na vizinha Dakar e o espanhol nas Canárias, que atempadamente souberam atrair para si o tráfego marítimo internacional. S. Vicente e Cabo Verde ficariam à espera de mudanças na Metrópole e de novos ventos que não tardariam a soprar. 

O 25 de Abril e o 5 de Julho constituíram momentos revolucionários nunca dantes vividos na ilha, em que os mindelenses, liderados pela juventude estudantil e a pequena burguesia local, participaram efusivamente numa ampla movimentação social só comparada com as manifestações religiosas que no passado ocorriam. Esses momentos marcaram o início de uma nova era no arquipélago, uma ruptura com o passado sufocante associado ao Estado Novo conservador e paternalista. Desta vez, o povo mindelense participara numa revolução pacífica, foi o principal actor, entregando-se de corpo e alma inteiros à uma justa causa. O povo da ilha desafiou a sociedade de então, dançou, cantou ruidosamente com todas as suas energias, manifestou, amou livremente, enfim, fez tudo o que era proibido, tornara-se proibido proibir. Nada seria como dantes na ilha. Teoricamente, entrava-se na era das manhãs radiantes, da total liberdade de expressão de pensamento e de criação, do progresso material e espiritual, do pão e trabalho para todos, acreditando que brevemente ver-se-iam águas a correr pelas levadas como prometiam as canções revolucionárias (a ilha de S. Vicente continua tão seca como em 1975 e a águas das chuvas torrenciais anuais que erodem os seus solos só tem um destino o mar). Mas, como todos sabemos, nada disso se passou, e a festa foi de pouca dura, ou melhor, foi como a voragem dos festivais de um dia que animam uma população em desnorte de valores, sem trabalho, nem futuro, em que o que resta de esperança rima com o eco do passado que se recusa e emoldura-se com afloramentos da palavra mítica e intraduzível "Sabe" mas que esconde um certo fatalismo ou mesmo nostalgia: "Passá Sabe", "Sabura", "Depôs de Sabe Morrê Ca Nada", "Soncente Um Vez Era Sabe" ou mesmo, por auto-estima ou auto-consolação a máxima "Soncent ê sabe...". Passados 40 anos e ainda sob o efeito da ressaca revolucionária, os sobreviventes "ressaciados" desse período e das mil promessas enganosas, enxugam as suas lágrimas ante a memória do honroso passado de que o glorioso Eden Park, hoje em ruinas, é um túmulo simbólico com este triste epitáfio: "Aqui Jaz a Capital Cultural de Cabo Verde e a Esperança".  

Como já foi referido com o 25 de Abril, o PAIGC, partido com pouca implantação e até desconhecido da esmagadora maioria da população cabo-verdiana (devido provavelmente ao eficaz controlo do sistema do Estado Novo e ao zelo da PIDE), entra logo em cena, é levado aos píncaros pelos estudantes e a classe média mindelense e efectua um verdadeiro ‘rally’ político em Cabo Verde. Ao mesmo tempo marginalizam-se forças autóctones entretanto nascidas com o 25 de Abril, assim como as figuras consideradas proeminentes no arquipélago, por serem na época consideradas politicamente ilegítimas (o PAIGC ganhou toda a legitimidade histórica por ter combatido Portugal na Guiné em nome de Cabo Verde). Este partido negoceia assim unilateralmente com Portugal a transferência de poderes, excluindo assim a possibilidade de as outras forças políticas autóctones terem uma palavra a dizer no processo negocial ou no desenho do novo país. O PAIGC tornou-se num ápice força dirigente de Cabo Verde, a luz e o guia do povo e, portanto, auto-legitimado para governar sozinho tempo indeterminado e redesenhar o novo país à luz dos seus interesse e/ou ideais. Aparentemente silenciados qualquer oposição ou contestação interna no país, estavam lançados os dados em Cabo Verde e o seu futuro, pelo bem e pelo mal, ia depender desta trajectória inicial. 

Ao mesmo tempo que a população mindelense festejava ruidosamente a liberdade conquistada (na realidade era só uma face da moeda), antevia-se nos bastidores que o programa do PAIGC não se anunciava de todo amigável para a ilha, nem para Cabo Verde, deixando muita apreensão no ar: nacionalizações (de que?), restrições, racionamentos, economia centralizada e estatizada, colectivismo, reforma agrária (onde?), partido único e delito de opinião por quem tivesse ideias contrárias ao poder. Na realidade não se sabia por onde pegar ‘a ponta’ e não havia uma ideia do país nem programa económico coerente. Pior, o regime que se pretendeu ter nascido nas matas da Guiné, forjado na luta de libertação, que envolveu essencialmente camponeses, defendia constituir a sua principal base de apoio nos campos (?) de Cabo Verde, ou seja nas ilhas mais populosas do arquipélago, Santiago, que felizmente para as pretensões do PAIGC era a sede da capital do país. Nesta problemática a questão que o PAIGC deverá ter-se colocado terá sido o que fazer da principal base de apoio político, a ilha de S. Vicente, que deu o maior contributo para a independência e a instalação do partido no poder, agora que estava tudo consumado? 

Amílcar Cabral
Esta opção ideológica representaria o triunfo da ruralidade, o retorno ao passado, muito marcado pelas teses revolucionárias em voga no Terceiro Mundo. Em segundo lugar, pretendia-se uma ruptura total com o passado colonial, extirpando aquilo que denominavam de sequelas do colonialismo português em Cabo Verde, e por fim construir um homem novo limpo das mesmas sequelas. Nesta corrida, S. Vicente estava mal posicionada: a ilha revolucionária que adoptou incondicionalmente o programa do PAIGC, estaria corrompida espiritualmente, sendo mesma vista por alguns ‘intelectuais’ de circunstância como filha bastarda do colonialismo, aliada do colonialismo português, um estigma recorrente nalguns meios intelectuais fundamentalistas. Inicia-se assim a longa marcha rumo ao Centralismo em Cabo Verde polarizado na Praia, uma opção declaradamente assumida pelos poderes. É nesta perspectiva que uma ilha como S. Vicente não foi comtemplada com uma única representação do Estado, e a ‘Praia de Bote’ ficou mais uma vez a ver navios passar, ao mesmo tempo que a ilha perdia (e continua todos os dias a perder por inercia) massa crítica, actividade comercial e empresarial, e o dinheiro deixava de nela circular. A ilha muito participante e confiante no futuro radiante e próspero prometido em 1975 pela independência, transformou-se num pares de ano em ilha abandonada, deserta humanamente e culturalmente, descrente de sim mesma, sem trabalho, onde nada acontece para além de alguns festivais e o Carnaval inicialmente improvisados, depois institucionalizados. S. Vicente tornou-se paradoxalmente num problema pós-colonial de Cabo Verde, não sabendo os poderes o que fazer dele. Esta ilha ficou paradoxalmente refém das contradições ideológicas insanáveis do regime e da nova ideologia cabo-verdiana. Mas para o povo alheio ao que se tramava, a vida continuava, na ausência de mais perspectivas, o ‘Passá Sabe’ tornou-se o leitmotiv e a infindável farra que se iniciou no 25 de Abril tornou-se parte da decoração. Enquanto isso, assistiu-se impávido e sereno à descaracterização rampante da linda cidade e alguns mindelenses ainda embriagados pelas palavras de ordem revolucionárias, declaram ou apoiam ‘Tud Pa Tchom’ ao lindo património arquitectónico, caracterizado de ‘Bedjera’. Ainda hoje, enquanto grupos militam para a salvagurada e requalificação do património imaterial e material da cidade, outros modernizadores e demagogos prometem atirar ‘o Velho’ de Cabo Verde para o Lixo da História, usam palavreado modernista, apelidando de pardieiros imundos, refúgios de drogados ou lixeira degradante da Cidade do Mindelo, a antiga Casa Adriana, o Eden Park, e amanhão se nada for fito, talvez Liceu Gil Eanes, o Fortim e tantos outros edifícios deixados intencionalmente ou por ignorância cair em ruina.

Um dos leitmotiv do regime implantado em Cabo Verde era acabar com a miséria endémica que grassava no interior de Cabo Verde, sobretudo nos campos, com particular acuidade na ilha de Santiago. Todos os recursos e energias do país foram mobilizados para este combate. Todavia segundo uma absurda tese económica em voga no Cabo Verde de 1975, e ainda hoje persistente, S. Vicente não se devia desenvolver mais, tinha que parar no tempo (imaginem!) para que as outras partes do país chegassem ao seu nível de ‘(sub)desenvolvimento’. O objectivo desta política “justicialista” seria, segundo os seus mentores, contrariar o privilégio colonial (?) que alegam ter contemplado S. Vicente, pelo que esta ilha devia ser ‘punida’ durante décadas. Para fazer justiça reinvestiu-se na ilha capital e criou-se nela uma nova burguesia nacional, a nova base de apoio de todos os regimes vigentes no país desde a independência. Este efeito nunca mais parou, e a tendência de transferir recursos para a nova capital foi continuamente prosseguida, o que descapitalizou humanamente e economicamente S. Vicente e o resto do país, explicando grande parte a situação de decadência que encontramos na ilha. No preciso momento em que existe um discurso de recuperação (fruto de inúmeras pressões da sociedade civil para que se implementem políticas no sentido de travar o declínio de S. Vicente e das outras ilhas) prossegue a hemorragia humana da ilha e o centralismo inexorável do país: todo o centro político e económico está situado ou tem tendência a centrar-se na capital, todos os quadros mais competentes ou recém-formados, todas as profissões, todos os projectos, as empresas nacionais, todas as iniciativas só têm um destino, a capital. Este movimento transforma Santiago na única ilha onde os investimentos são mais viáveis, onde circula capital e dinheiro, onde há poder de compra, onde se criam empregos, onde há perspectiva de ascensão na carreira etc. Poucos países no mundo apresentam tais características concentracionárias. Se isto não resulta de um plano arquitectado, então pode-se afirmar que os regimes e as elites que governaram o país não têm qualquer noção e sensibilidade para administra-lo, pelo que nunca farão nada para contrariar os efeitos perversos da política injusta e absurda a que meteram ombros.

Mas esta política não foi implantada sem resistências em S. Vicente. Os primeiros sinais preocupantes de que a economia do principal centro económico do arquipélago entrava em colapso foram emitidos já em 1977 por uma sindicância de comerciantes mindelenses e enviada ao regime (que acolheu mal essa manifestação) pedindo atenção especial para os problemas da ilha. O efeito do fim da presença contingente militar português e da fuga para fora do país ou da emigração para a capital de um grande número de funcionários e da então ‘classe média’ já se fazia duramente na ilha, exigia alternativas. Mas o regime não tinha nem solução nem políticas específicas para a ilha na mediada em que se anunciava um ‘comunismo’ entre as ilhas, ou seja equipartição de recurso. Obviamente que numa visão justicialista do país, não podia haver áreas do país privilegiadas em termos de investimentos, todavia uma visão estratégica e responsável do país aconselhava não deixar a principal ilha e economia do país ir para o “esgoto”. Mas na realidade em vez de políticas de nivelamento do país, eram as políticas de austeridade, racionamento, colectivismo e centralismo na Praia ensaiadas pelo regime, que começavam a asfixiar a ilha e por ricochete o resto de Cabo Verde. Todo o potencial da ilha estava morrendo de inanição a olhos vistos, sem alternativas possíveis no quadro dos fundamentos em que se assentava o regime. Exigia-se uma NEP (nova política económica) tal como Lenine na Rússia nos anos 20 do século passado. Mesmo a própria Diáspora, que podia ser o maior parceiro do desenvolvimento do país, foi alienada em 1975, posta de costas viradas ao país. Iniciou-se a crispação, a revolta na ilha e o início do sentimento de oposição: nascia em S. Vicente a contestação ao regime e ela se alastrou à Diáspora, já muito desconfiada. O PAIGC/CV começava a perder irreversivelmente a ‘mão’ em S. Vicente. Mas a resposta não se fez esperar, uma onda de repressão abateu-se sobre a ilha, e uma chapa de chumbo sobre o arquipélago. As pessoas começaram a temer o ‘Partido’. Com o apoio da oposição fixada na diáspora, mas ainda embrionária, ressurgia das suas cinzas a oposição e a contestação interna no país.

Mas não fosse a esperança na Perestroika de Gorbatchev, o fim do Muro de Berlim e a alternância nascida 1992, o arquipélago estaria, talvez, ainda mergulhado no sistema de partido único, sem perspectivas de saídas possíveis. Com efeito, com os sinais de abertura no Mundo e em Cabo Verde, S. Vicente podia de novo acreditar no futuro na medida em que a abertura, a democracia seria a panaceia, o remédio para os seus males. Nada mais falso! Hélas, por detrás da Democracia emergia um novo fenómeno em Cabo Verde, que progredia silenciosamente por dentro dos partidos, o chamado Fundamentalismo, que eclodiu no início do milénio. 

Com a democracia dos números, tinha chegado a hora de Santiago, ilha que se considerava até então subjugada, esquecida, oprimida; a hora da interioridade de Cabo Verde, do outro Cabo Verde que reclamava o poder. Tenta-se voltar aos Fundamentos de Cabo Verde século XV-XVIII e consagra-se a Cidade Velha quinhentista em ruínas ao estatuto da quintessência de Cabo Verde, ao mesmo tempo que se desvaloriza ou se é indiferente em relação a todo o resto do património espalhado pelas ilhas. Triunfava a maioria dos números, que curiosamente em Cabo Verde não é a da maioria sociológica, o confronto de duas realidades bem diferentes no arquipélago. No espaço de uma geração os Fundamentalismos estavam convencidos de terem realizado uma revolução sociológica em Cabo Verde, de ter nascido enfim um Homem Novo com raiz fincada em Santiago, que reclamava ser o Cabo Verde Novo. O crescimento e a ‘Exuberância Irracional de Santiago’ condenavam preocupantemente o resto de Cabo Verde a transformar-se em paisagem. Estava-se assim decidido a construir a todo o custo um utópico e ideológico Estado Nação à imagem da maior ilha do arquipélago. Nesta perspectiva o primeiro debate sobre a Regionalização no Colóquio/“Atelier” de 9 a 11 de Abril de 2007, que “visava consensualizar os conceitos em torno da matéria da descentralização, desconcentração, ou até mesmo regionalização” (5), uma ideia bastante popular na altura, tinha sido na realidade organizada a contragosto, mas estava destinada a enterrar de vez a ideia da Regionalização de Cabo Verde. Silenciava-se tudo, provisoriamente. E os problemas recomeçavam e pioravam para S. Vicente! (fim)

Poderá ainda a Ilha renascer das suas cinzas no actual contexto de Cabo Verde? No próximo artigo apresentarei a problemática Regionalização da França (1980) e mostrarei que o processo desenvolvido neste país fez escola e é de grande interesse para uma nova organização política e administrativa de Cabo-Verde. Constituirá o pano de fundo para a defesa de um modelo de Regionalização que considero mais adaptado à realidade arquipelágica de Cabo Verde, e que melhor servirá os interesses de S. Vicente e das outras ilhas periféricas. Talvez S. Vicente poderá levantar-se de novo!
Bibliografia:

1 - LOPES, José Fortes - Revisitando a história de Cabo Verde no período que precede a independência. Secção B -Os condicionalismos históricos que levaram à instalação do monopartidarismo,http://www.jsn.com.cv/index.php/opiniao/532-jose-fortes-lopes-revisitando-a-historia-de-cabo-verde-no-periodo-que-precede-a-independencia-i-continuacao

2 - LOPES, José Fortes - Revisitando a história de Cabo Verde no período que precede a independência. Secção A - Do Monopartidarismo ao Centralismo http://www.jsn.com.cv/index.php/opiniao/525-jose-fortes-lopes-quando-o-paigc-achou-redescobriu-s-vicente-i

3 - LOPES, José Fortes - Quando um filho de S. Nicolau, Baltazar Lopes da Silva, poderia ter jogado um papel político proeminente no Cabo Verde do pós-25 de Abril e do pós-Independência. 
http://www.jsn.com.cv/index.php/opiniao/84-jose-fortes-lopes-quando-um-filho-de-sao-nicolau-baltazar-lopes-da-silva-poderia-ter-jogado-um-papel-politico-proeminente-no-cabo-verde-do-pos-25-de-abril-e-do-pos-independencia. Jornal de São Nicolau, 14 Outubro de 2013

4 - LOPES, José Fortes - Pensando Cabo Verde de outra maneira - Quando as Reformas Democráticas e o Conceito Plural de Cabo Verde deram razão a Baltazar Lopes da Silva. http://www.jsn.com.cv/index.php/opiniao/93-jose-fortes-lopes-pensando-cabo-verde-de-outra-maneira-quando-as-reformas-democraticas-e-o-conceito-plural-de-cabo-verde-deram-razao-a-baltazar-lopes-da-silva. Jornal de São Nicolau, 15Outubro de 2013. 

5 - LIMA, Adriano - A Regionalização em Cabo Verde: Recentrar o tema na agenda Nacional. Liberal Online, Fevereiro de 2012 .

[0695] Notícias do Tarrafal de São Nicolau - Presidente José Freitas de Brito preocupado com degradação das habitações em Palhal

Casa a casa, olhos nos olhos e com frontalidade. Foi assim a jornada de sexta-feira, 17. O Presidente José Freitas de Brito palmilhou a comunidade de Palhal de uma ponta à outra. Foram 5 horas e 30 minutos de estrada, feito a pé, com paragem em 20 casas, duas abordagens pelo caminho (uma senhora que subia para Hortelã e um jovem que cuidava dos animais) e contacto directo nesta primeira “presidência aberta” de 2014, com pelo menos 87 pessoas.

Assim como anunciado, o Presidente da Câmara Municipal deixou esta sexta-feira, 17, o seu gabinete de trabalho e foi ao terreno tomar pulso à situação de vida dos seus Munícipes. Palhal, comunidade que segundo dados do Censo 2010 acolhe uma população residente na ordem de uma centena de pessoas, foi a primeira etapa desta “presidência aberta” que se vai prolongar nas próximas semanas e se estender a todos os povoados do Concelho.

No seu bloco de notas o edil ia, pessoalmente, anotando as reivindicações dos moradores que de forma desinibida e descomplexada com ele conversavam. Um problema comum em Palhal, e muito inquietante: falta de emprego. Segunda grande preocupação: qualidade das habitações (coberturas, sobretudo). 

A estas duas inquietudes, o Presidente anotou outras reclamações como a necessidade de aumentar os apoios a nível da educação, melhoria dos caminhos vicinais, estrada na zona, situações que ele assegurou trabalhar para encontrar as respostas mais eficazes. “Todos sabem que a Câmara não tem muitos recursos. Para além das dívidas, todos os pedidos são de carácter urgente. Todas as pessoas pedem apoio e querem ser os primeiros a ser contemplados”, observou, explicando que a sua ida às comunidades é para “expressar” a solidariedade da Câmara Municipal e do Executivo com todos, por um lado, e por outro “para juntamente buscarmos as melhores formas de responder às preocupações de cada um”.

Em todas as portas que bateu, o autarca foi acolhido com simpatia - uma característica das gentes da ilha - parou, sentou-se, ouviu, falou e no final ficou com um retrato fiel das preocupações dessa pacata aldeia. 

“O problema maior é a habitação, encontramos situações gritantes, pessoas que vivem debaixo de tectos que ameaçam ruir”, sintetizou no final da visita, explicando que vai agora instruir o serviço municipal da Promoção Social no sentido de fazer o enquadramento destas situações, para de seguida estabelecer um programa de intervenção. “Não será possível apoiar a todos, mas vamos estabelecer regras, prioridades e avançar pois estas intervenções são urgentes e é uma questão de dignidade”, comentou.

Palhal foi a primeira zona a acolher esta “presidência aberta” promovida pelo edil José Freitas de Brito, seguindo-se no próximo dia 25, sábado, a comunidade de Alto Fontainhas, na periferia da Cidade. Amanhã, sábado, o autarca estará à frente de uma delegação da Câmara Municipal, numa visita de trabalho a Carbeirinho – Maravilha de Cabo Verde – onde se vai fazer um levantamento no quadro da melhoria do acesso àquela zona. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

[0694] Irmandade dos Homens Pretos de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Ribeira Grande de Santiago

Nuno Rebocho
PRAIA DE BOTE tem a honra de oferecer aos seus leitores habituais e a todos os interessados no tema este magnífico texto de Nuno Rebocho que versa assunto de notório interesse para a compreensão das antigas dinâmicas religiosas e sociais da primeira capital de Cabo Verde. O artigo está também publicado no blogue CIDADE VELHA 1462.

Em contrário do mencionado em livros e documentos diversos (vg. “A importância histórica de Cidade Velha”, Daniel A. Pereira, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2004 e “Cidade Velha – Sítio Histórico, Séc. XV”, PROIMTUR), a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos não pode ter sido mandada construir pela Irmandade dos Homens Pretos de Ribeira Grande, a ter-se em conta a vetustez do monumento (1).

Igreja de Nossa Senhora do Rosário
O templo foi erguido em 1493, segundo alguns autores - ou em 1495, segundo outros -, sendo a igreja mais antiga hoje existente em Cabo Verde e a sul do trópico de Câncer, feita em pedra especialmente vinda de Portugal, ostentando uma capela com teto manuelino, ogival (o único no continente africano) e possuindo restos da original azulejaria de fabrico português. Não se trata da igreja mais antiga construída em África: a mais antiga foi a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que inicialmente se chamou do Espírito Santo, que terá sido erguida em 1466 ou 1470, mas dela não existem hoje quaisquer vestígios – foi construída em pedra solta e barro, portanto menos rica e sólida, com baixela e alfaias de ouro e outras riquezas paramentais e religiosas (que foram pilhadas e algumas transferidas para a cidade da Praia), recebendo inicialmente algumas das pedras tumulares de famílias nobres e possidentes de Ribeira Grande de Santiago (portanto de origem reinol) observáveis na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Ao que se sabe, a nobreza reinol e algumas famílias “pardas” (crioulas) disputavam nestas igrejas, e mais tarde na Sé, o lugar de sepultamento.

Ora, a Irmandade dos Homens Pretos é decididamente posterior à fundação destas igrejas: inicialmente associação (instrumento) de defesa e solidariedade dos escravos africanos que começaram a chegar à ilha de Santiago depois de 1462 (data do início do seu povoamento), a Irmandade reflete a ação da Igreja Católica sobre eles, embora sirva também e muito para preservar tradições religiosas camufladas dos escravizados vindos de diferentes partes de África, sobretudo dos “rios da Guiné”. Nestas condições, a Irmandade dos Homens Pretos seria originariamente demasiado pobre para poder mandar alçar este templo em pedra, por conseguinte muito oneroso.

Demais, o facto da Igreja de Nossa Senhora do Rosário ser lugar de sepultamento disputado pelas famílias nobres, pelo menos até ao séc. XVII (data das pedras tumulares mais recentes na cidade encontradas), desde logo afasta a possibilidade de ser simultaneamente um lugar pertencente a uma Irmandade de Homens Pretos, escravos na grande maioria – os reinóis não eram obviamente dados a tamanhos “democratismos”. 

Por outro lado, a primeira carga de escravos, cuja referência é feita por Gomes Eannes de Azurara, in “Chrónica dos Feitos da Guiné” (capítulo VII), foi em 1442, sendo embarcados para Lagos - data que medeia apenas 50 anos antes da construção da Igreja, tempo então demasiado curto para conceber que já houvesse este tipo de Irmandade. E desde cedo apareceram os “fujões” (escravos escapulidos do cativeiro e internados na ilha que, apesar de ser geograficamente uma “prisão”, dispunha de bons lugares de refúgio). Mas esta é também uma forma de povoamento objetivo, o dos “badios” (palavra crioula que designa “evadidos” e designa os naturais da ilha de Santiago). A “fuga” é a primeira manifestação de resistência (negação) à escravatura, na busca de uma liberdade ansiada.

Cidade Velha - Vista da "baixa"
Para a neutralizar, formaram-se grupos de “caça aos fujões” (de que há memórias documentais), alguns deles integrando escravos que também participavam nesta atividade extremamente lucrativa a qual terá dado origem a uma camada de “aristocracia escrava” (chamemos-lhe assim) de onde emergiu mais tarde a Irmandade dos Homens Pretos (já da confiança dos reinóis possidentes e por estes beneficiados). Há notícia de que os “fujões” se agruparam em alguns quilombos (lugares fortificados) onde resistiram de armas na mão aos seus perseguidores. Tal processo curiosamente também se afirmou, em anos posteriores, no Brasil, onde se formaram muitos e tendo duração variável.

Mais operacional terá sido outro processo de neutralizar as fugas – a construção de muralhas rodeando a cidade e que ainda são hoje visíveis em cutelos de Cidade Velha.

O aparecimento da Irmandade

Terá sido desta massa de caçadores de “fujões” que saiu parte substancial da Irmandade, que – por via dela – obteve uma capacidade associativa alentadora, quer em forma de defesa, de solidariedade e de apoio. Juntaram-se-lhe forros que foram aparecendo, a par de escravos senhores de escravos que se internavam, como “lançados”, na região dos Rios da Guiné e que, ocupados no tráfico de escravos, resistiram melhor às condições do meio. Estes escravos foram granjeando algum capital próprio e para as suas iniciativas – há deles copiosas notícias. E juntou-se uma massa de descendentes de escravos, semilivres, que mesmo sendo a “camada superior da plebe”, se situavam numa área inferior da sociedade. 

Em fins do séc. XVII, inícios do séc. XVIII e até à extinção da Irmandade com o episódico desaparecimento da Ribeira Grande (o que acontece pouco depois da ascensão da Praia a capital do País – em 1770), a Irmandade é já constituída tão só por homens livres (“pardos”) e assume plenamente a dignidade de ter igreja sua. De resto, a existência de clero negro era um facto visível em Ribeira Grande, fruto da crioulização começada a tecer pelo terceiro bispo da diocese criada em 1533 (31 de janeiro), D. Francisco da Cruz, e que merece especial referência do Padre António Vieira, em 1652, aquando da sua passagem por Ribeira Grande, a caminho do Brasil: “Há aqui padres tão negros como azeviche. Mas só neste particular são diferentes dos de Portugal, porque tão doutos, tão morigerados, tão bons músicos que fazem inveja aos melhores das melhores Catedrais de Portugal"

Pe. António Vieira - Retrato de autoria desconhecida
Em 1612 há notícia de que havia em Ribeira Grande sete confrarias/irmandades (2): a do Santíssimo Jácome, a do Bem-Aventurado S. Jacinto, a da Cruz, a das Almas do Purgatório, a da Santíssima Trindade, a do Nome de Jesus e a de Nossa Senhora do Rosário (que depois ganhou o nome de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos), de que era mordomo Diogo Sousa, e a que se veio a juntar a do Santo Sacramento e outras. Deve portanto concluir-se que a Irmandade, nascida na igreja de Nossa Senhora do Rosário e a partir de escravos e seus descendentes, só depois teve o nome de “Homens Pretos”. E que, apenas depois dessa data, é que ela se apossou da Igreja de Nossa Senhora do Rosário.

Assim, terá sido progressivamente que esta Irmandade se afirmou: insuflada pelos frades dominicanos, veio aos poucos ganhando espaço, começando por ser uma congregação menor e desqualificada. À medida que os “pardos” e os “homens da terra” foram ganhando posição, até por força da progressiva desintegração da sociedade reinol, a Irmandade reforçou-se até que, com o apoio de um bispo de extração dominicana, fez-se a principal confraria de Ribeira Grande, sediada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, que aliás os Homens Pretos terão ajudado a construir (resta saber em que moldes o fizeram – que se saiba, não existe documentação).

Quando o esclavagismo é abolido – em Inglaterra tal foi imposto por lei em 1807 e em todo o império português por lei de 1836, embora no continente português o tenha sido por lei do Marquês de Pombal em fevereiro de 1761 – já a Irmandade tinha enorme importância em Ribeira Grande, burgo já reduzido a muito pouco e pobre devido à perda do domínio das rotas comerciais e marítimas, dando-se o seu afundamento na memória dos tempos - outrora imponente, concentrava num reduzido espaço um total de 24 igrejas (entre elas a igreja de S. Roque, a da Conceição, a de S. Pedro, a da Misericórdia, a Sé, a de Nossa Senhora do Rosário, a capela de Monte Alverne, a capela de Santa Luzia) e capelas, muito clero, enfim quase uma “Braga de Cabo Verde”. Na sede do bispado havia o cabido com o bispo, um deão, um pregador, um tesoureiro, um arcediago, um chantre, um mestre-escola, um provedor, um vigário-geral e 12 cónegos. A esta estrutura eclesiástica havia que somar as Ordens, a Mesa da Consciência, os párocos das diferentes paróquias, o convento, o hospital, as Irmandades, os funcionários administrativos ao serviço da igreja; percebe-se a enorme dimensão da estrutura clerical e a importância que ela assumiu na sociedade de Ribeira Grande de Santiago.

Uma emanação dominicana

Imagem da Sé
A Irmandade dos Homens Pretos, heterogénea na sua composição, terá assim aparecido talvez em fins do séc. XVI, animada por padres dominicanos radicados em Ribeira Grande de Santiago, que tiveram um papel importante na capitania e no povoamento. Digamos que a Irmandade surge com complemento da ladinização dos escravos – é uma etapa superior da escravatura, mas integra apenas os escravos que mereceram a confiança dos proprietários. Não existem documentos que permitam balizar o seu surgimento. E quando a Ribeira Grande recebe – em 1610 - o seu sétimo bispo, Frei Sebastião de Ascenção, ordenado dominicano, a Irmandade teve enorme impulso, aproveitando-se da particular estima que o prelado tinha pela igreja de Nossa Senhora do Rosário – onde este bispo foi sepultado – como tinha pela Confraria dos Homens Pretos, nascida sob influência dominicana, enorme apoio. Deste modo, a Irmandade tornou-se então a principal congregação de “irmãos”, correspondendo à circunstância de Nossa Senhora do Rosário se ter então tornado na principal igreja de Ribeira Grande. 

A Ordem mendicante dominicana, essencialmente urbana, foi fundada por Domingos de Gusmão (um cónego castelhano nascido em 1170 e falecido em Bolonha em 1221), depois da experiência obtida no combate aos cátaros e a sua falhada conversão: referida como Ordem dos Pregadores, surgiu no sul de França, apresentando-se de início como um ramo da Regra de Santo Agostinho (devido às limitações impostas pelo Concílio de Latrão, que proibia a criação de novas Ordens) e adotando então o voto de pobreza. Em 1221, com a aprovação das suas regras de funcionamento no primeiro Capítulo Geral da Ordem, ganhou um certo cariz democratizante no qual todos os cargos, do mais alto (mestre geral) ao mais pequeno, sempre exigia a respetiva eleição, dando-lhe um caráter não elitista, muito voltada para a burguesia emergente, os pequenos artífices e operários. No anto, por bula do Papa Gregório IX (1233), a Regra Dominicana identificou-se com o Tribunal do Santo Ofício (Inquisição), tornando-se maligna arma de combate às correntes que eram tidas como hereges. Devota de Nossa Senhora do Rosário, foi muito influente em Cabo Verde e, de modo geral, nas colónias ultramarinas de Portugal e Espanha.

São Domingos, por Fra Angelico
Em Ribeira Grande de Santiago verifica-se a partir dos fins do séc. XII um processo de decomposição e decadência da sociedade reinol, devido a diversos fatores que a levam a perder o predomínio no tráfico negreiro. Os senhores aceitam começar a misturar-se, sob rígidas condições, com a plebe que povoava as tabernas, a doca, os bordéis – é um facto que evidencia já a queda dos senhores, acossados pelos corsários e portanto dispostos a cedências perante o “inimigo interno”. Tal facto marca a época filipina (são deste tempo as últimas pedras tumulares de que há memória). É nessa altura, socorrendo-se da crise económica avassaladora, que a Irmandade se lança à ocupação de um templo que lhe é historicamente anterior. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário passa a ser dos Homens Pretos.

Não se sabe a data exata do nascimento da Irmandade dos Homens Pretos de Ribeira Grande de Santiago. Todavia, nunca poderá ser antes do séc. XVI – não existem documentos sobre ela - os escravos e seus descendentes eram analfabetos (3). Pode intuir-se que deve ter surgido, por influência dominicana, durante os anos quinhentos (na melhor das hipóteses), procedendo de pouco a Irmandade do mesmo nome criada em Lisboa com as mesmas razões que lhe deram origem e antecedendo iguais Irmandades criadas no Brasil, em São Paulo e Bahia, nos sécs. XVII e XVIII – é de admitir que a experiência cabo-verdiana tenha de algum modo servido, transmitida por algum escravo para lá levado, para impulsionar igual movimento brasileiro.

Artesanato da Cidade Velha
Estas Irmandades de Homens Negros foram formas de resistência negra aos terra-tenentes como o foram as revoltas e a fuga de escravos, havendo notícia da formação de (tal como no Brasil) dois ou três quilombos no interior do Município. Mas a igreja de Ribeira Grande era profundamente escravocrata: não só padres eram donos de escravos como as suas receitas provinham essencialmente (direta ou indiretamente) do tráfico particularmente dos rios da Guiné. Pelo menos, a igreja recusava-se a dar apoio às expressões anti-esclavagistas que começavam a aparecer, com algumas poucas exceções – por exemplo as do padre jesuíta Fernão Guerreiro, que se indignou e combateu alguns “excessos” transparecidos num seu significativo documento “entre os muitos abusos que havia nesta terra, um grande se tinha no batismo dos pretos que vêm da Guiné. Que como são muitos, se batizavam logo trezentos, quatrocentos e setecentos juntos; e como destes os mais são os que vão daqui para Índias, Brasil, Sevilha e outras partes, acontece que muitas vezes que pela pressa da embarcação que seus senhores lhes dão por não perderem a ocasião do tempo, o não deixam ter aos pobres para serem catequizados e instruídos na fé como convém…” (4); e o bispo D. Vitoriano Portuense que ousou intervir no tráfico negreiro com excomunhões, denunciando a superlotação de navios e as condições de embarque, como ausência de batismo e de catequização dos escravos. São vozes isoladas que, mesmo assim, desencadearam protestos dos possidentes, do Reino e da própria igreja – foi acusado de provocar graves prejuízos e de “excessos”. Estas vozes timidamente progressistas surgiam a destempo para ter algum efeito.

Imagem da Sé, mandada construir no séc. XVII pelo terceiro bispo de Santiago, D. Francisco da Cruz


Os “irmãos” da Irmandade eram, como o nome indica, pretos libertos que, tornados cidadãos, encontravam na associação modo de ganhar algum relevo na sociedade. Tinham uma mesa da Irmandade, com os seus secretários, liderado por um mordomo que era eleito entre os mesários. No Brasil estes “irmãos” recebiam o nome de “malungos” 5.

Século e meio de Bispado de Santiago (Ribeira Grande)

Diocese desde 1533 (31 de Janeiro), por ela passaram os mais diversos bispos, estando nos intervalos o bispado estado em regime de vacatura gerido correntemente pelo cabido – devido a falecimento do bispo, demoras em Lisboa e outras razões. Todo bispado era por isso afetado, dado que cabia ao pontífice, e só a ele, nomear prelados. Enquanto o bispado esteve sediado em Ribeira Grande houve os seguintes bispos:

- Dr. Brás Neto – tomou posse em 1533
- D. João Parvi – de 1533 a 1596
- D. Francisco da Cruz – até 19 de Março de 1574 (falecimento)
- D. Bartolomeu Leitão – de 1576 a 1580
- Frei Pedro Brandão – de 1588 a 1606 – longo litígio com a coroa e os nobres de Ribeira Grande; comandou a resistência aos corsários
- D. Luís Pereira de Miranda – tomou posse em Lisboa em 1607, mas só chegou à diocese em 1608, tendo falecido um mês depois.
- Frei Manuel Afonso da Guerra
- Frei Sebastião de Ascensão – faleceu a 16 de Março de 1614
- D. Lourenço Garra – 1646, faleceu a 1 de Novembro desse ano. 
- D. Francisco de Santo Agostinho – fugiu para o interior da ilha aquando do ataque de Jacques Cassard a Ribeira Grande de Santiago e de lá conduziu o contra-ataque contra os franceses.
- D. Frei Vitorino Portuense

Síntese
A Irmandade dos Homens Pretos, associação religiosa de solidariedade, terá aparecido por influência dominicana no séc. XVI (está por saber como se verificou tal influência). Com a decadência da sociedade reinol, ganhou progressiva importância até à sua sediação na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, tornando-se no séc. XVII, por força do bispado de D. Frei Sebastião da Ascensão (também ele dominicano) na mais influente Irmandade existente em Ribeira Grande.

Notas

1. Sabe-se que alguns “Homens Pretos” (provavelmente escravos ou “pardos”, crioulos) ajudaram na sua construção, mas desconhece-se em que moldes. Mas daí a concluir-se que a Irmandade a tenha mandado erguer vai um passo demasiado largo e impossível de ser dado sem a mínima prova não contestável.

2. Vinte e quatro igrejas, sete irmandades, grande peso do clero na população, uma sé, uma escola jesuíta (que ambicionava ser seminário – foi ponderado em tempo de D. Sebastião, mas nunca passou do papel): Ribeira Grande teve tudo para ser a “Braga de Cabo Verde”. No entanto, tal como a cidade sofreu enorme decadência que levou ao seu desaparecimento em consequência da crise económica e social que sobre ela se abateu, os seus templos foram caindo em ruínas: no séc. XVIII não havia mais que memória da antiga grandeza da “cidade do mais antigo nome”.

3. A existir qualquer documento referente à Irmandade e à Igreja de Nossa Senhora do Rosário só, em princípio, se achará no acervo dominicano ou excecionalmente em qualquer documento avulso. Sendo certo que a Igreja Católica teve papel importantíssimo na colonização, não é conhecido que ela tenha em Cabo Verde apetências historiógrafas, se bem que só tenha que se vangloriar do seu passado.

4. In “Relação anual das coisas que fizeram os padres da Companhia de Jesus nas missões, noa anos de 1600 a 1609 e do processo de conversão e cristandade daquelas partes”.

5. Os idiomas bantu – segundo Prof. Kabengele Munanga, festejado antropólogo nascido no Congo e docente na Universidade de São Paulo - variam os seus substantivos por prefixação e seus principais plurais são ba – por exemplo – ma – de mashona, plural de shona, ou mashope, plural de mashope– e wa. Lungo, em grande parte destes idiomas, dentre os quais o quimbundo, mais ou menos predominante entre os angolanos escravizados que chegaram ao Brasil, significa amigo, mas com sentido mais amplo que o que tem em português; malungo, por esta linha, seria amigos, companheiros, aqueles que, de algum modo, partilham algum momento significante de vida: a senzala, o transporte no mesmo navio, etc., etc. Em shangana, língua de Moçambique, existe mulungo (termo que designa o homem branco, o que de certa forma reflete uma atitude de apropriação, num sentido igualitário, de qualidades invejadas no ex-dominador). Nota enviada pelo estudioso brasileiro Ademir Barros dos Santos.

[0693] Notícias do Mundo - "Feral", filme de animação do luso-cabo-verdiano Daniel Sousa nomeado para Oscar de melhor curta-metragem

Ver AQUI notícia e em baixo o trailer do filme 


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

[0692] Notícias de Lisboa - Praia de Bote convida para palestra sobre Arte Pública... em Fevereiro

Marcada hoje mesmo, Pd'B vai convidando para esta palestra sobre Arte Pública no Palácio da Independência, Lisboa. Em altura mais próxima do evento, o convite será repetido. E amanhã, no PRAIA DE BOTE e no CIDADE VELHA 1462, teremos um grande texto (em tamanho e qualidade) de Nuno Rebocho sobre a Irmandade dos Homens Pretos de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Ribeira Grande de Santiago.


[0691] Notícias do Tarrafal de São Nicolau - Presidente retoma contactos directo com a população e passa a conceder audiência nas zonas

O edil vai intensificar o contacto com as pessoas nas diversas zonas que enformam o Município do Tarrafal, e amanhã sexta-feira, 17, estará em Palhal, onde pretende chegar a todas as casas da aldeia. Estima-se que cerca de uma centena de pessoas residem nesta comunidade 

O Presidente José Freitas de Brito retoma esta semana, em Palhal, o contacto directo com as pessoas para auscultar as suas preocupações e aproximar as comunidades da governação municipal.

A ideia é conceder audiências casa a casa, nas comunidades, e encurtar a distância entre as diversas zonas e a sede do Município. “Quero estar junto das pessoas, governar com elas, ter o sentimento que estamos juntos numa causa que é de todos”, referiu o Autarca ao anunciar a sua agenda que começa esta sexta-feira, dia 17, em Palhal, onde prevê chegar a todas as casas da aldeia para ouvir as pessoas. “É fundamental governar conhecendo os problemas de cada um”, acentuou José Freitas de Brito que já fez saber que depois de Palhal, ruma a Alto Fontainhas, na periferia da Cidade, para estar com as pessoas no dia 25.

A par das deslocações semanais para as diversas zonas, o Presidente mantém a agenda de audiências às quintas-feiras na Câmara Municipal.

[0690] Notícias de Cabo Verde - Portugal abre linha de crédito de 30 milhões de euros para Cabo Verde

Ver AQUI

[0689] Notícias de Cabo Verde - Cabo Verde vai alargar, em mais 50 por cento, o tempo de serviço militar obrigatório (actualmente de 14 meses)

Ver AQUI
Cooperação portuguesa também tem sido uma constante no treino das tropas cabo-verdianas, o que a notícia não refere. Veja-se também AQUI um sinal da cooperação portuguesa a nível de formação de cadetes dos PALOP na Escola Naval do Alfeite, entre os quais obviamente se encontram alguns de Cabo Verde

[0688] Notícias de São Vicente - Obras do Centro de Estágio da Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF), na ilha de São Vicente, caminham para o fim

Ver AQUI

[0687] No Café Royal achavam que o Monte também era "da" Cara

As duas versões juntas (Monte Cara com "da" e Cabeça de Washington), em edição do malogrado Café Royal. Uma curiosidade... bem curiosa. 500 exemplares, feitos em Lisboa, em 1953. E ainda com a designação de Cabeça de Washington. Nunca até agora havíamos visto este "nominha" do monte chegar até tão tarde no tempo.



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

[0686] Notícias do Tarrafal de São Nicolau

Requalificação do Largo do Cimentinho

Colocação da primeira pedra
Orçada em um milhão de escudos e totalmente financiada pela Câmara Municipal, a requalificação do Largo do Cimentinho vai durar cerca de 45 dias. As obras já estão em curso.

O Presidente José Freitas de Brito lançou esta manhã as obras de requalificação do Largo do Cimentinho, no centro do Tarrafal, uma das zonas mais emblemáticas desta urbe. A obra tem a duração de 45 dias e será desenvolvida e fiscalizada pelo Gabinete Técnico e Fiscalização da Autarquia.

O projecto de requalificação do Largo do Cimentinho consta do Plano de Actividades para o presente ano aprovado em Dezembro pela Assembleia Municipal mas não conta com o aval da oposição, PAICV, que votou contra os instrumentos de gestão.

Ao lançar a obra, esta manhã, o Edil José Freitas de Brito alertou para a necessidade de se cumprir o prazo definido.

Projecto de requalificação do Largo do Cimentinho
Esta requalificação, orçada em um milhão de escudos, é 100 por cento financiada pela Câmara Municipal, no quadro da sua política de investimentos.

O projecto foi concebido pelo Arquitecto Valério Martins, a convite da Câmara Municipal.

Durante as obras, o trânsito nessa zona será condicionado pelo que a Câmara Municipal agradece a boa colaboração dos condutores e das pessoas. Em alguns momentos será necessário mesmo a interrupção do trânsito.

Vencedor do concurso Símbolos Heráldicos conhecido no dia 21, próxima terça-feira

A comissão que trata este dossiê esteve reunida na passada sexta-feira para apreciar as propostas de criação dos Símbolos Heráldicos do Município do Tarrafal. O Júri, formado por cinco pessoas, foi presidido pelo artista plástico e docente universitário Leão Lopes.

Segundo informações do Vereador Adildo Soares Gomes que representa a Câmara Municipal na comissão que analisa as candidaturas, a proposta vencedora para a criação dos Símbolos Heráldicos já foi escolhida mas ainda não foi revelada. Uma situação justificada por “questões internas e de verificação da autenticidade”, explica o Vereador.

A comissão recebeu apenas três candidaturas: um dos candidatos é residente no Tarrafal e restantes dois vivem na emigração.

O Júri foi presidido pelo artista plástico e docente universitário Leão Lopes, e integrado ainda por mais quatro pessoas. Para além do Vereador, a equipa foi ainda integrada pelo historiador José Manuel Ramos, pelo arquitecto Valério Martins e pela socióloga Sulamita Silva.

A revelação da proposta vencedora será feita na próxima terça-feira, dia 21, através do site e Facebook da Câmara Municipal.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

[0685] Concurso 16 - Uma imagem a desvendar... o que é? Onde se situa, também serve... NITA FERREIRA, MAIS UMA VEZ VENCEDORA

Regressa o Concurso da Praia de Bote, o mais famoso entre os concursos famosos acima do Equador. Desta feita, com a mais enigmática imagem até agora aqui colocada. É difícil, mas não impossível identificá-la, como em todos os concursos que temos vindo a realizar, com geral agrado da imprensa internacional e dos concorrentes que se atropelam para resposta rápida e vencedora. A fim de criar ainda maior emoção, sempre se diz que substancial parte dos possíveis concorrentes (referimo-nos aos habitués) já por aqui passou... até um grande navegador que pouco navegou... microfones, então, nem se fala... e garrafas de whisky, upa, upa!!! Quanto a panaria...

O que é? Ou onde se situa?

Nita Ferreira, que já tinha dois ramos de acácia, ganha mais uma edição do Concurso da Praia de Bote. Parabéns à vencedora que, após tentativa alfandegária frustrada, acertou e passa a ficar em segundo lugar na classificação, depois do ultra-vencedor Zito que desta vez se "encolheu"...

Vejamos então o que queriam dizer os apontamentos de ajuda:

1 - Um grande navegador que pouco navegou: Tratava-se do Infante D. Henrique que foi a Ceuta em 1415 (início da Expansão com a conquista da cidade moura) e pouco mais navegou. O edifício motivo do concurso era a residência do senador Vera-Cruz. Quando este a cedeu para Liceu, tomou o nome de Liceu Infante D. Henrique.

2 - Microfones, então nem se fala: Já como Grémio Recreativo do Mindelo, o edifício também comportou a sede da Rádio Barlavento. Desta rádio se fala em "Entre duas bandeiras", livro de Teixeira de Sousa, situado no tempo quente que foi do 25 de Abril de 1974 a 5 de Julho de 1975.

3 - Garrafas de whisky, upa, upa!: Sim, corria o whisky no bar do Grémio, como em muitos outros lados do Mindelo, bebida que nunca faltou na ilha, a par do groguim tão sabe como ele. No Grémio, era servido pelo Pina, barman da casa.

4 - Quanto a panaria...: Após o fim do Grémio, a casa passou a Museu Etnológico (desconheço o nome exacto, mas a função é essa ainda hoje) e lá se podem ver alguns panu di tera de Cabo Verde.

Finalmente, as 4 funções foram as de casa do senador, Liceu Infante D. Henrique, Grémio Recreativo (e Rádio Barlavento, ao mesmo tempo) e Museu Etnológico.

Aqui fica o ramo de acácia que a Nita pode colocar no peito para fazer inveja aos amigos holandeses e a foto inteira, da autoria do amigo José Carlos Marques que a fez em tempos recentes, tal como as outras que temos vindo a mostrar.

Antiga casa do senador Ver-Cruz. Corredor no qual se vêem lambris de gesso (?) em baixo-relevo com motivos decorativos de recipientes com vegetação - Foto José Carlos Marques


[0684] Saiu 1.º número de "Novo Rumo", nova publicação da Câmara Municipal do Tarrafal de São Nicolau

Aqui se divulga a mensagem de Ano Novo do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Tarrafal de São Nicolau, ilha irmã de São Vicente, neste primeiro número da nova publicação informativa. Para os nossos amigos (ou para quem no-lo pedir), segue o "Novo Rumo" completo.

[0683] Grande entrevista do escritor Germano Almeida ao semanário português I

Ver AQUI
Foto Joaquim Saial


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

[0682] Quando o PAIGC achou/redescobriu São Vicente

1.ª Parte - Revisitando a história de Cabo Verde no período que precede a independência
Por José Fortes Lopes

Secção A - Do Monopartidarismo ao Centralismo

José Fortes Lopes
Neste artigo pretendo revisitar a história de Cabo Verde no período que precede a independência para melhor enquadrar a questão actual do Centralismo e de outros males que tanto atormentam o país. Para isso, tentarei recuar no tempo, para perceber como esta situação se instalou em Cabo Verde. Tentarei desmontar algumas ideias que desvalorizam o papel que a ilha de S. Vicente jogou na formação do Cabo Verde moderno e pré-independente e que sustentam que o estado em que a ilha se encontra não se deve a decisões políticas erradas, mas à sua incapacidade de se adaptar ao novo país independente. Para melhor clarificar o propósito deste artigo, aviso os leitores que não estabeleço uma ligação directa PAIGC-PAICV, dois partidos hoje bastante diferentes pela natureza e ideologia. A sigla PAIGC não se refere, pois, obrigatoriamente ao PAICV, partido ainda hoje considerado seu principal herdeiro do primeiro, mas estende-se também ao MPD, partido que pode ser também considerado herdeiro, na medida em que grande número dos seus principais dirigentes foram militantes e partilham, sem demérito nem juízo de valores, princípio e valores comuns. Também incluo muitos cabo-verdianos (incluindo o próprio autor) que, talvez, hoje não partilham as ideias do PAICV, ou não votam neste partido, mas um dia foram militantes ou simpatizantes da causa da independência, patrocinada pelo PAIGC.

Ao longo de 2014 e 2015, comemoram-se datas importantes na história recente de Cabo Verde, eventos que moldaram o seu futuro. Passarão praticamente 40 anos desde o 25 de Abril, data que marcou o fim da ditadura do Estado Novo e o início de uma nova para Portugal e para as ex-colónias, o renascer da esperança para uma época de liberdade, desenvolvimento e prosperidade. Este marco importante (40 anos) serve de referência entre o passado e o presente num momento em que o país se encontra numa encruzilhada de opções e alternativas para o seu futuro e S. Vicente analisa o seu passado (que parece já muito distante) para se interrogar sobre o possível nexo de causalidade entre ele e o presente ensombrado e as perspectivas de um futuro incerto.

Num momento em que se instala a crise generalizada (social, política, económica) no arquipélago e que a inquietação enche o espírito do cidadão mais consciente e avisado, muitos questionam sobre o que correu mal no passado, como e porquê, e quais poderiam ter sido as alternativas, as outras vias possíveis que o país poderia ter trilhado que permitiriam hoje às populações viverem em melhores condições socias políticas e económicas. Muitos começam a interrogar onde, como e por que se conjugaram as razões a as circunstâncias de estarmos em perda contínua de valores. Questionam-se os fundamentos da adopção do Centralismo, via castradora inexoravelmente seguida durante 40 anos que acabou por matar culturalmente e economicamente aquilo que era a principal e a mais dinâmica ilha do arquipélago, e cuja consequência foi não desenvolver harmoniosamente o país segundo as potencialidades e vocações de cada ilha ou Região. Muitos já perceberam que este rumo que está sendo traçado só acarreta uma irreversível concentração, descaracterização do país o aprofundamento das injustiças sociais e regionais, mais estagnação para a periferia do país, pelo que se propõem mudanças profundas na organização e funcionamento do país.

Existem, hoje, teses, até provindas de pessoas ditas insuspeitas, que defendem que haveria um único caminho possível para Cabo Verde, o da inevitabilidade do poder político centralizado, e obviamente de uma ditadura, na construção do Estado. Estas teses são insustentáveis e só têm um único objectivo, o branqueamento do passado e a justificação dos erros cometidos, sendo hoje como amanhã inaceitáveis do ponto de vista conceptual, pois é claro que há sempre caminhos alternativos (é questão para perguntar se não havia alternativas ao Estado Novo). Aceitar tais teses corresponderia a passar uma esponja a um período de grande interesse histórico (197-1980), onde houve uma renhida luta política e divisões no seio da família cabo-verdiana (ocorridas tanto Diáspora como em Cabo Verde, nomeadamente em S. Vicente) sobre a natureza do regime a implantar em Cabo Verde e os caminhos que deveriam ser seguidos, ao mesmo tempo que invalidaria o combate de muitos para instauração da democracia. Seria desrespeitar a memória de tantos cabo-verdianos, hoje caídos no esquecimento, que lutaram por ideias diferentes para Cabo Verde.

Como já referi inúmeras vezes, o Centralismo actual é uma herança do Centralismo autoritário implantado em Cabo Verde em 1975, e hoje integrado num sistema democrático constitucional por partidos que ainda não fizeram a sua completa reconversão aos valores democráticos, situação que vem criando disfunções na sociedade e dependências sociais típicas de regimes ‘democráticos totalitários’.

Amílcar Cabral, pai da independência de Cabo Verde
Em particular, nos dois últimos artigos (em bibliografia), enalteci homens como Baltazar Lopes da Silva (BLS) e tantos outros companheiros seus que terão pensado Cabo Verde numa perspectiva diferente e tentaram organizar-se, à pressa e muito tarde, em força política, no intuito de mudar o rumo dos acontecimentos e o caminho que levava o país, pela percepção de que o futuro que se avizinhava seria pouco consentâneo com os valores democráticos em que possivelmente acreditavam. Muitos pretendem hoje que não havia alternativas ao sistema implantado, que tendo em conta os condicionalismos do país só havia uma via possível, a do monopartidarismo e do centralismo para ressarcir partes do país deixadas para traz. Todavia, se a História tivesse sido escrita de outra maneira, não acredito que tivesse vingado um regime centralista autoritário de partido único, nem este modelo de desenvolvimento que hoje nos coloca em situação de verdadeiro impasse num mundo globalizado e em transformação. Na realidade na altura muitos questionaram ou opuseram-se ao princípio de um sistema de partido único.

Com a legitimidade histórica ganha nas matas da Guiné, o PAIGC conquistou o reconhecimento e a consagração implícita, da parte das autoridades portuguesas, da sua condição de único representante do povo cabo-verdiano e interlocutor nas negociações sobre o futuro do arquipélago, ou seja a sua independência. Para o MFA, tendo o PAIGC saído vitorioso, pelo menos politicamente (e querendo despachar à pressa o problema colonial português, que se tornara uma dor de cabeça e fonte de contenciosos internacionais), aquele partido ganhou a legitimidade suficiente para representar o povo cabo-verdiano, pelo que merecia ser declarado como a única força política no arquipélago e assumir o poder absoluto em Cabo Verde. O PAIGC tinha uma longa experiência política e reconhecimento internacional, pelo que aos olhos das autoridades portuguesas estava minimamente organizado para assumir as rédeas da nova nação. Portugal saia de um golpe de estado que derrubou o regime salazarista que oprimia o seu próprio povo e os povos das colónias, regime que era acusado de ser o responsável pelo prolongamento de uma longa guerra desgastante e considerada injusta e inútil. O país estava em plena convulsão política, e embora sendo o último a ter uma questão colonial nos braços, não tinha uma doutrina amadurecida e consensual sobre a descolonização. Assim sendo, os movimentos de libertação, os responsáveis indirectos pela queda do regime ditatorial, ganharam por isso legitimidade acrescida. O governo português tinha assim perdido a face e a legitimidade nas colónias, pelo que estando enfraquecido em quaisquer negociações sobre o futuro das colónias, só podia ter de assumir os passivos da situação criada. Situação bem diferente teve a Inglaterra ou mesmo a França no processo de descolonização das suas principais colónias africanas (tirando obviamente o caso da Argélia). Portugal perdeu assim a legitimidade para negociar sequer uma possibilidade da instauração no arquipélago de uma democracia pluralista, um legado que poderia ter sido importante para o povo cabo-verdiano, pois teria evitado o actual atoleiro em que a democracia se encontra. É assim que eliminação pura e simples de núcleos de partidos em Cabo Verde e o abafamento de uma solução pluralista para Cabo Verde foram expedientes muito convenientes para todas as partes, mas um erro histórico cuja magnitude só hoje, com as ferramentas analíticas que dispomos, estamos a altura de avaliar. Do mesmo modo que se considerava que o povo cabo-verdiano tinha direito à auto-determinação, o mesmo povo tinha direito a viver em regime de democracia parlamentar, à luz dos princípios hoje considerados universais associados aos estados de direito democrático. Foi necessário esperar 15 anos e o concurso de circunstâncias internacionais excepcionais para acontecer e consumar-se o que a evidência sempre aconselhara. Cabo Verde vive hoje situações de crispação e intolerância política porque a sua democracia foi mais fruto de imposição exterior do que de uma gestação natural.

Tendo em conta a situação criada no arquipélago já antes de o país assumir a sua soberania, a oposição interna nascente foi declarada inimiga do povo e ilegítima e por isso enviada para o Tarrafal e depois para o seu exílio forçado. Desta forma, o partido que ascendeu ao poder sem oposição nem eleições abertas e credíveis transformou-se na própria fonte do poder e da sua legitimidade, auto-proclamando-se como o partido dos melhores filhos da terra e consagrando-se assim o sistema de partido único.

Secção B - Os condicionalismos históricos que levaram à instalação do monopartidarismo

Primeira bandeira nacional de Cabo Verde
O PAIGC surge, assim, na óptica de uma descolonização à pressa, paradoxalmente como um respirar de alívio para Portugal em Cabo Verde, pois, após 500 anos da sua presença, assim se livrava a custo zero de um problema colonial num dos territórios dos mais carenciados, deixado sem a mínima estrutura económica sustentável, sem uma sociedade civil minimamente organizada, como se tivesse pensado com os seus botões: eles agora que se entendam. Por outro lado, esta situação era de toda a conveniência para o PAIGC (sobretudo os jovens turcos ou ‘cristãos novos’, que ascendia num golpe de magia ao poder, depressa e de mão beijada, e o cúmulo da sorte, sem oposição. O melhor dos dois mundos estava reunido para os dois protagonistas. É obvio que à luz daquilo que se conhece hoje, reconhece-se que organizar um governo de transição à pressa e com a duração de alguns meses (antes da ascensão da independência) para um arquipélago tão desnutrido como Cabo Verde, sem economia digna do nome, sem uma classe política minimamente organizada, sem contra-poderes, correspondia ao lavar das mãos como Pilatos. Contudo, nenhuma força política deveria arvorar-se em dono da pátria por ter lutado pela sua independência, mesmo que assumindo a responsabilidade da governação do país e até melhorando o seu nível sócio-económico relativamente à herança colonial. Mas as circunstâncias exigiam um tempo razoável, a acordar entre ambas as partes, para dotar o território de condições mínimas que o propiciassem para a auto-governação, o que passaria sobretudo por alguma infraestruturação básica e certas medidas cautelares nomeadamente no que concerne a organização político-administrativa do futuro jovem país, necessariamente a expensas do colonizador. Tudo se precipitou porque Portugal, sob pressão da facção esquerdista do MFA e das forças políticas da mesma cor, teve pressa em livrar-se de uma das batatas quentes e, por seu turno, o PAIGC, a que se juntaram os combatentes e também os heróis de circunstância e um séquito de “cristãos-novos”, quis liquidar depressa e em tempo record a presença colonial e ocupar o vazio deixado. E este pecado original talvez seja a fonte de todos os problemas políticos, sociais e económicos actuais por que Cabo Verde atravessa: criou-se um buraco geracional, um vazio que nunca foi preenchido e a natureza tem horror ao vazio.

Mas é o Estado Novo que, pela sua natureza fechada e totalitária condicionou à partida o futuro do território de Cabo Verde, ao inviabilizar o nascimento de correntes políticas autónomas e autóctones no arquipélago, não somente devido à sua natureza totalitária mas também por temer fomentar o separatismo. Sabemos que historicamente situações de bloqueio político só podem alimentar opções extremas. É esta atitude de fecho do regime, que infantiliza politicamente a sociedade cabo-verdiana, situação que faria pagar caro politicamente ao arquipélago ao criar condições objectivas para a ulterior instalação de um regime de partido único, mal tendo saído de um outro. Num país recém-independente, sem controlo político de uma oposição, escancaravam-se as portas para o aventureirismo e o experimentalismo político e social. A tese da necessidade de um período de mono-partidarismo ou de democracia condicionada durante um certo período é pois inaceitável.

Embora o evento do 25 de Abril em Portugal tenha marcado o fim da glaciação salazarista e o início de uma nova era, Cabo Verde encontrava-se no ponto zero politicamente, em 1975, atrasado de um ciclo político e histórico, não podendo assim aproveitar a lufada de ar fresco proporcionada pela revolução do 25 de Abril na Metrópole. Na realidade, Portugal entrara em convulsão política e o clima era pouco inspirador para as colónias, que naturalmente tomaram outros rumos com as suas independências. A partir daqui, as trajectórias iriam divergir inexoravelmente. Depois de um período conturbado politica e economicamente, Portugal seguiria a todo vapor o caminho da normalização da revolução, da democratização do regime, da liberalização da sua economia e da entrada na organização europeia CEE (mais tarde UE), o clube das ricas democracias liberais europeias. Cabo Verde seguiu ao mesmo ritmo o caminho da revolução, mediante a instauração de um regime autocrático corporizado no partido único, cuja lógica implicou a adopção de uma economia centralizada e estatizada, a par da integração na organização africana CEDEAO e no movimento dos Não-Alinhados.

Esse quadro sócio-político tornou o país numa coutada do PAIGC e das estruturas e organizações de massas, favorecendo aqueles que estavam no tempo certo e no lugar certo da História, constituindo assim uma oportunidade de ouro para oportunistas de toda a espécie e pessoas mal preparadas ascenderem depressa ao poder e singrar na máquina do Estado. O Estado, a partir dessa data, tornou-se assim o feudo de oportunidades para progressão na vida e garante do exclusivismo de privilégios sociais e profissionais. Dava-se início à legitimação do sistema de partido único, invocando o argumento da legitimidade histórica e da necessidade da refundação do país de através de um acto criador Demiurgo. As coisas poderiam ter corrido mesmo mal como na República irmã da Guiné-Bissau, não fosse a moderação de muitos líderes do PAIGC.

Mas se o Estado cabo-verdiano não existia antes de 1975, é tese hoje aceite que a Nação e o povo cabo-verdiano existiram muito antes da formalização e do reconhecimento internacional do Estado de Cabo Verde.

A consolidação do centralismo, o triunfo da ruralidade e o utópico retorno ao passado, factores que contribuem lento apagamento do farol civilizacional no arquipélago serão tema da 2.ª parte deste artigo.

Bibliografia

LOPES, José Fortes - Quando um filho de S. Nicolau, Baltazar Lopes da Silva, poderia ter jogado um papel político proeminente no Cabo Verde do pós-25 de Abril e do pós-Independência.http://www.jsn.com.cv/index.php/opiniao/84-jose-fortes-lopes-quando-um-filho-de-sao-nicolau-baltazar-lopes-da-silva-poderia-ter-jogado-um-papel-politico-proeminente-no-cabo-verde-do-pos-25-de-abril-e-do-pos-independencia. Jornal de São Nicolau, 14.10.2013.

LOPES, José Fortes - Pensando Cabo Verde de outra maneira - Quando as Reformas Democráticas e o Conceito Plural de Cabo Verde deram razão a Baltazar Lopes da Silva http://www.jsn.com.cv/index.php/opiniao/93-jose-fortes-lopes-pensando-cabo-verde-de-outra-maneira-quando-as-reformas-democraticas-e-o-conceito-plural-de-cabo-verde-deram-razao-a-baltazar-lopes-da-silva. Jornal de São Nicolau, 15.10.2013.

LOPES, José Fortes - Interdependência Portugal/Inglaterra - Pano de fundo da História de Cabo Verde (parte I) .http://www.jsn.com.cv/index.php/opiniao/483-jose-fortes-lopes-interdependencia-portugal-inglaterra-pano-de-fundo-da-historia-de-cabo-verde-parte-i.

LOPES, José Fortes - Do fim da sociedade escravocrata à eclosão do Cabo Verde moderno no Mindelo http://www.jsn.com.cv/index.php/opiniao/496-jose-fortes-lopes-do-fim-da-sociedade-escravocrata-a-eclosao-do-cabo-verde-moderno-no-mindelo.