domingo, 15 de março de 2015

[1437] Fotos do Mindelo, por Filipe Conceição e Silva (dose 3)

Antigo Comando Naval, Defesa Marítima e Capitania (hoje ainda mantém esta última valência) e monumento ao Tratado de Tordesilhas e em simultâneo aos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral
A velha Escola Profissional. Mestre Cunc...
Clube Naval
Centro Cultural do Mindelo (antiga Alfândega)
Passarom
"Casino" de uril na Praia de Bote
Ta lavá pêxe sem gastá ága d'Electra? É li na Praia d'Bote...


[1436] "Crónicas Desaforadas" de João Branco, em breve, em Lisboa

Praia de Bote está em condições de informar que o livro "Crónicas Desaforadas" de João Branco sairá em Lisboa a 26 de Abril, na Livraria Ler Devagar, em Alcântara, e que a apresentação será feita por um desaforado amigo nosso... 

Na previsão de avalanches de excursões de Tours, Cabo Verde, Queluz e Tomar com imensos desaforados até Lisboa, a livraria está desde já a ampliar o parque de estacionamento.

Praia de Bote, sempre em cima do acontecimentos, irá dando as informações que entretanto vier a obter sobre este evento que envolve o mais desaforado dos desaforados e outros que tais que irão apresentar-lhe a obra e assitir ao enorme desaforo que é a saída lisbonense deste desaforo... em livro.

[1435] Blogue "Cidade Velha 1462" comemora hoje 5 anos de vida



Iniciado em 15 de Março de 2010, o blogue "Cidade Velha 1462" (ver AQUI), irmão mais velho do "Praia de Bote", comemora cinco anos de vida dedicados em exclusivo à propaganda e divulgação dos eventos relacionados com a Cidade Velha, Ribeira Grande de Santiago - que sendo a primeira cidade fundada por europeus fora da Europa e berço da crioulidade, possui hoje por isso e muito justamente o título de Património Mundial da Humanidade, por agora único em Cabo Verde. Com mais de 58 000 visualizações, o blogue tem sido veículo importante da presença desta histórica urbe da nação cabo-verdiana no mundo. E assim continuará, sem final à vista...

Daqui de Portugal segue um abraço para todos os autarcas e funcionários da Câmara Municipal de Ribeira Grande de Santiago e obviamente para os habitantes da Cidade Velha, uns e outros irmanados no mesmo desejo de progresso sob a égide daquele plurim que mais que sinal de escravatura de má memória é símbolo perene da sua autonomia e avidez de liberdade.


sábado, 14 de março de 2015

[1434] Os dois amigos continuam a sua profícua conversa sobre a língua cabo-verdiana

V Parte (ver partes I AQUI, II AQUI, III AQUI e IV AQUI)

Adriano Miranda Lima
Filinto:  ̶  Amigo, retomemos então a questão do ensino  do (e em) crioulo, que para mim será o que determinará o sucesso ou a falência do processo. Digamos que o ensino será o veio de transmissão de todo o seu mecanismo funcional. Será importante analisar de que modo e em que momento o crioulo será encaixado em toda a engrenagem.

Elísio:  ̶ Sim, o primeiro passo será constituir, como ponto de partida, um corpo docente, devidamente preparado e habilitado para o ensino do crioulo, que antes de tudo tratará da formação pedagógica dos professores nos mais diferentes sectores e estruturas do sistema de ensino, básico, secundário e superior. Isto implica que a norma-padrão esteja já bem definida e consensualizada, restando, no entanto, saber  como irá ela conformar-se com a manutenção de todas as variedades do crioulo. Haverá necessidade de um cuidadoso faseamento de todo o processo de implementação, com a devida consolidação de cada etapa, avançando e recuando para poder avançar melhor, se for caso disso. sem o que cairemos no mais descontrolado improviso. Para não dizer uma autêntica balbúrdia linguística, com graves implicações sociais e psicológicas.

Filinto:  ̶  Improviso em que se cairá fatalmente se o processo não for  concebido e executado com o necessário embasamento científico. Mas convinha desde já saber que prioridade, que meios e que suporte pedagógico restarão para o ensino da língua portuguesa, enquanto paralelamente se empenha no crioulo. Sim, porque não é crível que o ensino e a formação nessa língua sofram desacelerações e constrangimentos enquanto não se atingirem os padrões de sucesso almejados com o crioulo. Se não for bem acautelada essa condição, o resultado será um desastre certo, porque se perdem as competências anteriormente garantidas com o português, poucas que fossem, sem terem sido alcançados os objectivos visados com o crioulo, no todo ou em parte. Sobre esta questão, o Professor José Fortes Lopes, entre outras personalidades, tem vindo a fazer sérias advertências, que parece não merecerem a devida atenção dos responsáveis. 

Elísio:  ̶  É iniludível que essa fase de transição e sobreposição será de muito difícil e delicada gestão. Não apenas em termos de prática funcional mas também  de disponibilidade de recursos humanos para fazer face às duas realidades em simultâneo. É que os professores que vão ministrar o ensino do  crioulo terão de ser, em princípio, recrutados entre os da formação em língua portuguesa, pelo que não vejo onde poderá o país ir buscar os recursos humanos necessários, a não ser que tenha de importar de Portugal ou do Brasil os do ensino da língua portuguesa. 

Filinto:  ̶  Estás a referir-te à fase em que se sobreporá o ensino nas duas línguas. No entanto, caso se mantenha a intenção de não abdicar do ensino do português, a duplicação de recursos humanos  manter-se-á pelo tempo fora. De facto, não vejo como poderão ser simultaneamente inclusivas duas realidades não somente distintas mas que se oporão na disputa de prioridade e de recursos.

Elísio:  ̶  Rapaz, o desafio vai ser tremendo e não posso deixar de tirar o meu chapéu àqueles que ousam enfrentá-lo como se fosse a mais crítica prova das suas vidas. O facto de levantarmos questões e de chamar a atenção da comunidade para este processo, não significa que não respeitemos os que tomaram a opção de ir pelo ignoto caminho de uma aventura de desfecho imprevisível. 

Filinto:  ̶  Concordo com o que dizes. Todavia, é sempre de questionar se uns poucos têm o direito de arrastar todo um povo para uma situação de verdadeira incógnita. E importará saber se se prevê arrepiar caminho caso os efeitos desta medida se verifiquem claramente perniciosos  e com   reflexos no sistema educativo que não tardarão a repercutir-se em outros sectores vitais do país. Se a instrução é a pedra angular do sistema económico e social em qualquer sociedade, até que ponto se poderá assistir à sua  ruína sem que os sinos toquem a rebate a anunciar a suspensão e a retroversão do que está a revelar-se nocivo?

Elísio:  ̶  E olha, Filinto, que ainda não entrámos no cerne do que poderá ser o mais crucial dos problemas. Se o Governo levar por diante a sua promessa de manter e respeitar cada uma das variedades dialectais, do que duvido, mas se por hipótese assim acontecer, como é que vai ser a sua implementação? Já pensaste bem no problema?

Filinto:  ̶  Se tal for mesmo levado a efeito, o resultado será  a proliferação de medidas de padronização e a adopção de um número diversificado de gramáticas, dicionários e prontuários conforme cada variedade dialectal. Em vez de um único modelo, haverá tantos quantos forem as variedades detentoras do privilégio de pontificar no sistema de ensino.  Julgo que não é preciso muito esforço intelectual para se concluir que essa abrangência e diversificação é irrealizável em termos práticos e porventura  inconcebível cientificamente.  E do ponto de vista económico, nem um país rico ousaria semelhante aventura de desperdício de recursos, quanto mais Cabo Verde, que nem para o prioritário há dinheiro suficiente.

Elísio:  ̶  E estamos só a falar de aspectos de concretização prática e da desmesurada grandeza dos seus custos reais. Porém, se transferirmos o desafio para a esfera íntima do ensino e da formação,  em que não é concebível que o instrumento linguístico passe a ser mais um agravante das dificuldades naturais do processo de aprendizagem, raia o  insólito imaginar que numa determinada aula com alunos oriundos de várias ilhas, cada um tenha a faculdade de usar o seu próprio crioulo, com os respectivos meios de suporte (gramática, dicionário, etc.),  para atingir os objectivos de aprendizagem. Calcule-se a Torre da Babel crioula que se instalará em cada estabelecimento de ensino.  

Filinto:  ̶  Conclui-se assim que estamos perante um terrível dilema. Se todas as variedades forem alienadas das suas prerrogativas naturais para serem integradas num único padrão,  as populações vão indignar-se  com o que não passa de uma violência moral, para não dizer um afrontamento histórico. Se, por outro lado, forem dadas a todas as variedades igual primazia no sistema de ensino, assistir-se-á, sem dúvida alguma, à total falência de uma solução demagógica e irresponsável, que, no entanto, e como já analisámos, poderá não passar de um mero expediente dilatório. 

Elísio:  ̶  Vamos lá ver uma coisa. Dou de barato que a filosofia de toda esta mudança radica na convicção de que é com o crioulo que realizamos os nossos legítimos anseios como povo, quaisquer que sejam eles, daí a intenção de o envolver em todo o espectro da vida nacional. E, neste caso, o ensino não pode deixar de ser o motor impulsionador de toda a mudança. Sabemos que a concepção do sistema moderno de ensino se funda em três pilares fundamentais: o intelectual, o instrumental e o analítico. Mas o entendimento do Governo é que o crioulo será o cimento para o reforço transversal daqueles pilares, enfim,  a  “afectividade”  a que se referiu o Primeiro-Ministro. Deduzo assim que, no fundo, a ideia-força perseguida é que só o crioulo é capaz de realizar a função de ponte entre os vectores da cognição com a qual apreendemos a realidade e atingimos o conhecimento. Ou seja, acreditam que a íngua materna terá potencialidades de ordem espiritual que a língua portuguesa não consegue carrear para os cabo-verdianos. Não há dúvida que o crioulo tem a sua vocação genética virada especialmente para as manifestações folclóricas e para a espontaneidade das emoções e da afectividade. Por exemplo, para o cabo-verdiano, não fará sentido contar em português uma anedota relacionada com o contexto social das ilhas. Resta, porém, saber como se comportará o crioulo quando lhe vestirem uma  farpela gramatical, amarrando-o a normas rígidas. Não creio que as crónicas do Zizim Figueira nos soassem da mesma maneira sem a espontaneidade e a liberdade do seu linguajar típico mindelense. Contudo, uma coisa são os afloramentos espontâneos da alma, outra é a racionalização do processo do conhecimento. Bem disse Max Weber que a realidade é infinitamente complexa, tanto quantitativa quanto qualitativamente, de forma que nenhum conceito abstracto pode abarcá-la.

Filinto:  ̶  Mergulhaste fundo no problema, meu caro. Mas repara que às vezes a alma popular exprime a verdade com uma veemência e simplicidade que os intelectuais não conseguem senão com grandes dissertações. Há dias, li um artigo do Dr. Arsénio de Pina em que contou um episódio engraçado. Uma cabo-verdiana, ao saber que o filho ia passar a aprender o crioulo, afirmou: “Adeche, criol ele nascê c’ele prindid; bsot insnál maz ê quel português”.

Elísio:  ̶  Ah, ah, ah, fizeste-me rir agora. Recapitulando, toda esta problemática resulta da convicção de que o crioulo está socialmente subalternizado e que a sua promoção a um estatuto mais elevado (língua do ensino, no caso em apreço) produzirá efeitos positivos no processo de aprendizagem. Alguns atribuem as nossas dificuldades naturais no domínio do português a uma situação de diglossia, daí convencerem-se de que a instituição do enino em crioulo não só será um factor de desbloqueamento mental como promoverá uma efectiva igualdade sociolinguística. No entanto, estão a ignorar a enormíssima dificuldade que será obrigar as nossas crianças a aprender ao mesmo tempo o crioulo e o português, cada uma destas línguas com o seu respectivo alfabeto, um fonológico, o ALUPEC,  outro etimológico, o alfabeto latino. Para não falar dos constrangimentos que decorrem da supressão da letra “C” no ALUPEC e da ausência de solução para o caso dos ditongos, que existem em algumas variedades do crioulo. Cito apenas dois exemplos, pois o imbróglio não é pequeno.

Filinto:  ̶  Pergunto se as  alegadas dificuldades no domínio do português  imputadas à influência do crioulo são mesmo uma realidade incontornável, ou se apenas serviram de pretexto para justificar uma decisão política visando outro objectivo. Sim, porque outra opção poderia ser melhorar e investir mais no português.

Elísio:  ̶  Até porque não é verdade que só os cabo-verdianos têm actualmente problemas com a língua portuguesa. É hoje em dia uma tendência generalizada, e basta observares o que se passa em Portugal e no Brasil. Só que, enquanto eles estão a tentar superar essas dificuldades, nós queremos abolir o português e substituí-lo pelo crioulo. Exageram quando invocam os sobressaltos e traumas psicológicos na transição das nossas crianças do universo doméstico para o escolar. No meu caso pessoal, e certamente no de outros alunos do passado, iniciei o ensino primário com uma professora da Metrópole, que não tinha o crioulo como coadjuvante do seu magistério. Não me lembro de ter havido grandes problemas de comunicação. Como foi isso possível? Em minha opinião, a resposta é esta. Se o português foi a língua mãe nos primórdios da formação do nosso crioulo, com o andar dos tempos as duas línguas se tornaram uma espécie de irmãs, embora uma delas mais distante e mais pretensiosa. Mas bastou isso para que o cabo-verdiano retivesse o essencial do português no seu espírito. Mesmo as crianças e os adultos analfabetos que não o falam correctamente percebem-no de forma intuitiva. Alguém disse que a linguagem é a revelação da sombra do pensamento. Acrescentaria que o crioulo se revela instantaneamente e em primeiro lugar na zona cognitiva, enquanto o português jaz ali, oculto, imiscuindo-se na intelecção da linguagem e dando sinais da sua existência quando espicaçado.

Filinto:  ̶  Queres tu então concluir que não há uma razão suficientemente válida para retirar à língua portuguesa o lugar que tem tido no nosso sistema de ensino.

Elísio:  ̶  É isso mesmo, o que não significa que o crioulo não possa ser objecto de um processo de estudo e investigação científicos para melhor o compreender e enquadrar na nossa realidade social. Ir além disso tem riscos enormes que podem desestabilizar o país, com danos porventura irreparáveis. Bem, por ora chega. Continuamos amanhã à mesma hora e no mesmo lugar.

Tomar, 13 de Março de 2015
Adriano Miranda Lima

sexta-feira, 13 de março de 2015

[1433] Um livro a não perder... ou seja, dois... porque são três e um já cá (quase) canta

Praia de Bote acaba de adquirir para a sua biblioteca cabo-verdiana a 2.ª edição do livro cuja capa abaixo se reproduz e cujo historial se pode encontrar no blogue amigo Arrozcatum (ver AQUI). 

Comprado hoje, só nos chegará lá para a semana que vem. Quem no-lo vendeu tem mais dois exemplares. Se algum dos nossos amigos pretender um deles, que nos contacte, mas só depois de o negócio estar concluído, dado que não conhecemos o vendedor - que no entanto tem um palmarés fiável. Por 8 euros, mais 1,50 de portes (dentro de Portugal), vale bem a pena... 

O Adriano não vai querer, pois já o tem, sabemo-lo e oferecido por um dos autores, o último de ordem na capa, Henrique Teixeira de Sousa.


[1432] Sábado, dia 14, apresentação do livro vencedor do Prémio de Poesia e Ficção de Almada 2014

Recorda-se que a acção de Fernando Fitas foi de importância decisiva na homenagem ao poeta Jorge Barbosa em Almada, em 15 de Junho de 2013. Um excelente livro, alusivo às memórias e vivências do autor no grande horizonte alentejano.


quinta-feira, 12 de março de 2015

[1431] "Gravata de Honra do Pd'B" por texto inovador atribuída a Adriano Miranda Lima

O Pd'B, consubstanciado no seu CEO Djack, corpo redactorial de 427 jornalistas, cerca de uma dezena de colaboradores encartados, empregada da limpeza Nha Bia e paquete Djosa de nha Bia resolveu em votação unânime realizada na delegação da Rua de Coco, Mindelo, atribuir pela primeira vez a "Gravata de Honra" do blogue - no caso, a Adriano Miranda Lima, pelo seu longo, inovador e engenhoso texto-contributo (ainda em andamento mas já com 4 capítulos) alusivo à questão da língua cabo-verdiana. 

Veja posts anteriores recentes.


[1430] A saga continua... Os dois amigos continuam a discutir civilizadamente a questão da língua cabo-verdiana

IV Parte (ver partes I AQUI, II AQUI e III AQUI)

Adriano Miranda Lima
Elísio:  ̶  Hoje, ê mim  q’tá dá pontapé de saída. Ondê  q’nô fcá onte.

Filinto:  ̶  Ah, foi naquel queston de identidade nacional e sê relaçon c’nôs criol.

Elísio:  ̶  Ah, pois, foi isso mesmo. Olha, para começar, há uns anos, quando o Manuel Veiga publicitou as suas ideias sobre a oficialização do crioulo e deu à luz o ALUPEC, afirmou:  “Com o Crioulo é que Cabo Verde marca a sua diferença no mundo”.  Esta afirmação  entronca precisamente nas considerações que ontem fizemos acerca de identidade nacional, e se dúvidas houvesse acerca da questão político-ideológica que subjaz a esta problemática, aquela afirmação as desfaz por completo. Não achas?

Filinto:  ̶  Pois, com certeza. Para já,  é muito discutível aquela  afirmação, para não dizer que é pretensiosa e abusiva. Quem é esse senhor para sentenciar o que deve ser a imagem do povo cabo-verdiano no mundo? Essa imagem não se decreta nem pode ser forjada na oficina de um ou dois artífices, por mais imaginativos que se julguem. Ela  não pode cingir-se unicamente a uma língua, pois é muito mais do que isso, é um produto multifacetado que tem a sua raiz na idiossincrasia do povo, no seu temperamento, nos traços essenciais do seu carácter, nos seus sentimentos, nas suas inclinações naturais, etc., etc.

Elísio:  ̶  Ao exprimir-se assim, o Manuel Veiga não julgava suficiente a imagem intrínseca do seu povo, e por isso considerou que o crioulo  é o único ou o mais importante selo da sua autenticidade. Discordo veementemente desse ponto de vista, pois o povo cabo-verdiano pode ostentar ao mundo outras facetas marcantes  da sua identidade, porventura até mais gratificantes, como a sua imagem de povo pobre mas rico de sentimentos, de povo maltratado pelo destino mas esperançado no futuro, de povo prisioneiro da insularidade mas aberto à universalidade, enfim, de povo pacífico, convivente e comprometido com o humanismo.  Além disso, é um perfeito disparate considerar que uma língua restrita a um pequeno povo pode ser imagem de marca neste mundo globalizante e em que o domínio das línguas universais é cada vez mais uma ferramenta indispensável para o sucesso individual e para a competição.

Filinto:  ̶  Sabes uma coisa?,  tenho o pressentimento de que, com esta aventura do Governo, estamos a entrar num terreno ignoto e cheio de armadilhas, só para satisfazer os caprichos de algumas pessoas. Ainda por cima, de uma forma imprevidente, o que me faz lembrar aquela do gato escondido com o rabo de fora. Passo a explicar. No enunciado de intenções do Governo, e segundo aquilo que recentemente me chegou aos ouvidos, o crioulo vai ser consagrado e  dotado de um “estatuto social condigno”, em paridade com o português, mas ao mesmo tempo diz-se que “deverá ser equacionada a possibilidade de a língua portuguesa se manter como a língua de comunicação internacional, tanto na comunicação oral como na escrita, enquanto decorrer o processo de padronização do crioulo”. Repara que sublinhei a expressão “deverá ser equacionada”. O gato está, pois, escondido com o rabo de fora. É que tudo indica que a intenção é mesmo banir o português da nossa vida e que apenas o toleram enquanto não estiver concluído o processo de padronização dos crioulos.

Elísio:  ̶  E quanto tempo vai demorar esse processo de padronização, que eu entendo deve requerer um período razoável para a sua consolidação? O mesmo é perguntar por quanto tempo mais teremos a língua portuguesa nos nossos hábitos e práticas sociais e oficiais. Parto do princípio de que todo esse processo de transposição linguística subentende que o crioulo já estará enraizado em todo o nosso sistema de ensino. E sobre o ensino podemos fazer uns prolegómenos sobre os trâmites do processo?

Filinto:  ̶  Está bem, até porque considero a introdução do crioulo no sistema do ensino a fase mais crítica e desafiadora  do processo que se tenciona implementar. É preciso saber como   vai funcionar tudo isso, por onde começar, até onde ir, como superar eventuais situações de bloqueamento, que metodologias serão utilizadas para a aferição do processo, que instrumentos didácticos irão suportar cada fase de transição.  E, muito importante, saber com que meios  e quem vai custear todo um processo que não deixará de exigir uma fatia não despicienda do orçamento. Será que até nisto vamos ao peditório internacional, para a mera satisfação de um capricho?

Elísio:  ̶  Ora, aí estão elencadas algumas questões para discussão. Mas antes de metermos a foice nessa seara, convém trazer de novo à baila uma questão que terá sérios reflexos no processo de ensino. Segundo o que ouvi recentemente, e já foi ventilado nas nossas conversas, existe a promessa de que todas as variedades do crioulo serão consideradas, em pé de igualdade, no processo de padronização, normalização e instrumentalização, e isto desde logo a aplicar-se na publicação de gramáticas, dicionários, prontuários, terminologia científica e técnica, etc.  Foi o que me constou, e é assunto que acho devíamos abordar antes de tratar a questão do ensino e da formação com o uso do crioulo. Queres pegar na ponta?

Filinto:  ̶  Começo por dizer que aquela promessa do tratamento igualitário a todas as variedades do crioulo não convence nem ao mais ingénuo. Não é necessário ser um expert para perceber que tudo isso é expediente dilatório. É que basta imaginar o que será a complexidade e a inviabilidade prática desse  processo, para desconfiarmos  que o Governo vai entreter o pagode com promessas vãs e incumpríveis enquanto fermenta no seu bojo outro desígnio. E qual é ele?  Precisamente, a uniformização e padronização dos crioulos cabo-verdianos num único modelo, como objectivo a alcançar a prazo, convencido de que o tempo (e a paciência dos cabo-verdianos) se encarregará de esbater a memória dos crioulos da  “periferia” e de os diluir paulatinamente  no da ilha de Santiago.
Elísio:  ̶  Bem, deixa-me agora completar. Em suma,  por simples tacticismo político,  o Governo não defende ou não prescreve de uma forma clara a extinção das variedades dialectais exteriores à ilha de Santiago, por acreditar que serão absorvidos inapelavelmente pelo organismo do crioulo dessa ilha, no pressuposto de que o efeito de massa prevalecerá sobre as realidades sociolinguísticas tidas como menores. Não o dirá assertivamente, pois preferirá subterfúgios de linguagem  ambígua, de modo a  iludir os ingénuos.

Filinto:  ̶  Elísio, independentemente das nossas conjecturas e opiniões, achas  que, como fenómeno sociolinguístico, a absorção das variedades do crioulo num único modelo é coisa que poderá acontecer num futuro distante? A processar-se de uma forma sub-reptícia ou por coacção levada a cabo das formas mais subtis? Por exemplo, começar a exigir que todos os funcionários do Estado ou os que se candidatam a cargos públicos usem apenas o crioulo de Santiago tanto na fala como na escrita? Olha, estou a especular, mas não é destituída de sentido essa possibilidade. No entanto, duvido que haja sustentação científica em todo este processo, tal a pressa na sua implementação, pelas seguintes por estas duas razões essenciais:  não parece haver precedentes históricos que validem esta experiência; será difícil, se não impossível, interferir por via oficial nas variedades de crioulo faladas nas comunidades emigrantes, onde o de Santiago não é o mais representativo, uma vez que as mais importantes correntes emigratórias tiveram origem nas ilhas do Barlavento e no Fogo e na Brava. E não se esqueça da expressão demográfica da população emigrada ou radicada no estrangeiro.

Elísio:  ̶   O tempo passou depressa sem darmos por isso. Julgo que será melhor continuarmos a abordar o tema do ensino amanhã.

Filinto:  ̶  Por mim, tudo bem. Depois telefono-te.

Tomar, 12 de Março de 2015
Adriano Miranda Lima



[1429] O Monte Cara e os Fuzileiros de Cabo Verde

A propósito do post 1420 (ver AQUI), da relação do Monte Cara com os Fuzileiros de Cabo Verde, há que desvendar o enigma sugerido - e que não o foi antes, devido a tarefas pessoais ingentes e ao facto de as conversas dos dois amigos de Adriano Lima terem a necessidade de respirar sem outros posts que as abafassem. Aliás, seguir-se-á a este post a IV parte dessa conversa que tem dado farto lucro e divertimento aos leitores e ao dono do botequim onde os dois comparsas linguistas se têm reunido.

Ora então trata-se do seguinte: algumas das fotos que temos vindo a divulgar feitas pelo nosso amigo Filipe Conceição e Silva em época recente no Mindelo retratam o Monte Cara, com bastante definição. Interessado em fotografia e em São Vicente, aqui o Pd'B vasculha tudo em pormenor, não deixando mosca de plurim d'pêxe por observar. E foi assim que deu com um enorme símbolo dos fuzos de Cabo Verde, pintado no sopé do nosso monte mais famoso. Digamos que o Cara está bem guardado ali em baixo, a partir do Morro Branco, embora o facto não abone totalmente a favor da pureza natural que se quer do maior símbolo "vivo" de São Vicente e do Mindelo (e das imediações do dito), ou seja, "Monte Cara ca ta pintá cabel nem pescoce". Ainda assim, um viva aos fuzos de Cabo Verde e outro ao Monte Cara, tudo bons rapazes.

Veja as três fotos






quarta-feira, 11 de março de 2015

[1428] Apresentação do Prémio de Poesia e Ficção de Almada, 2014, "Alforge de Heranças", de Fernando Fitas, por Joaquim Saial


[1427] Perplexidade pelo alupec chega à Praia de Bote

Naise d'Monte Sossego, pescador da Praia d'Bote, natural de São Vicente, foi filmado pela nossa reportagem, no preciso momento em que ia beber uma Strela e lhe disseram que os seus nove filhos seriam em breve obrigados a aprender o alupec. Momentos depois teve um enfarte, pelo que agora se encontra em tratamento no Hospital Baptista de Sousa, do Mindelo. Leia os interessantes textos de Adriano Miranda Lima, em posts anteriores sobre a língua cabo-verdiana.


[1426] Continuação da continuação do "Diálogo sobre a questão da Língua Cabo-Verdiana"

III Parte (ver partes I AQUI e II AQUI)


Adriano Miranda Lima
Filinto:  ̶  Ora, aqui estamos de novo, amigo Elísio. Sabes, depois da nossa conversa de ontem, fiquei a matutar em muita coisa, com a cabeça a dar voltas de tal maneira que tive dificuldade em mergulhar nos braços de Morfeu.

Para começar, vamos ver uma coisa. Para o Governo e os que lhe estão próximos, tem de se “preservar e valorizar a língua cabo-verdiana porque ela tem um valor inquestionável como símbolo da identidade nacional”. Por outro lado, dizem que o crioulo é “a língua materna dos cabo-verdianos enquanto a língua portuguesa é uma segunda língua”. Achas que isto é assim tão pacífico se virmos o problema do ponto de vista histórico e sociológico?

Elísio:  ̶ Nada pacífico, nharmon. Ainda não há muito tempo, o Primeiro-Ministro afirmou que a introdução do crioulo no ensino será como associar-lhe um elemento de “afectividade”, exactamente porque se trata da língua materna. Não foi bem com estas palavras, mas a ideia era mais ou menos essa.

Filinto:  ̶Neste caso, em circunstância alguma reconhecem na língua portuguesa a mais leve reminiscência de afectividade. E, no entanto, é a língua que ao longo de séculos disciplinou as nossas mentes e alargou nosso olhar sobre o mundo. Foi com ela que aprendemos as primeiras letras e empreendemos a caminhada por  várias etapas do conhecimento. Então não sobra uma pontinha de afecto de todo o nosso convívio secular com a língua portuguesa?

Elísio:  ̶ Ora essa, Filinto. Sabes como me iniciei na leitura lúdica, fora do âmbito escolar? Aliás, aconteceu com todos, foi com as revistas de histórias aos quadradinhos, aquelas que nos deliciavam com as aventuras dos cowboys, do Tarzan, do Sandokan, do Fantasma, do Mandrake, e tantos outros personagens do imaginário da literatura juvenil. Essas revistas eram escritas em português e não em crioulo, e no entanto qualquer miúdo da escola primária apreendia tudo com a máxima facilidade. Então, como se pode dizer que essa parte recreativa da nossa meninice era desapossada de afecto? Permitiram a iniciação na leitura lúdica a várias gerações e isso é coisa que jamais se esquece. Líamos tudo em português, recriávamos algumas cenas usando o português (mãos ao ar!), e no entanto logo a seguir íamos para as nossas futeboladas com bola de meia e aí irrompia  o crioulo nas nossas conversas e discussões sobre se a bola entrou ou não entrou na baliza, se foi penalty ou não.

Filinto:  ̶  Agora me despertaste uma pontinha de saudade.  Acho absurdo afirmar assertivamente que com o crioulo se injecta afectividade nas aulas, porque isso contém implícita a insinuação de que com a língua portuguesa o efeito é nulo ou contrário. Isto é, transmite a ideia de que  a língua portuguesa desperta um sentimento de hostilidade e distanciamento. Eu diria que só um mentecapto seria capaz de tal afirmação, se não soubesse que por trás dela está uma  intencionalidade política. 

Elísio:   ̶Tocaste no ponto: intencionalidade política. É isto mesmo que está na origem desta falsa questão linguística. Motivação política, mas motivação espúria, demagógica e especulativa. Desde logo, quer-se passar a ideia de que o crioulo é o principal elemento-força da nossa identidade nacional, como se ele não resultasse da conjugação de determinadas circunstâncias históricas e geográficas. Não tivessem elas ocorrido, o português poderia ser hoje uma língua mais enraizada no nosso quotidiano informal. E, a ser assim,  pergunto se o português, nesse caso, já seria considerado língua materna em rigorosa paridade com o crioulo, sem nada de artificial, ou artificioso, a diferenciar os respectivos  estatutos sociolinguísticos. A não ser que se arranjasse algum pretexto discriminatório só pelo facto de se tratar da língua do descobridor e povoador das ilhas. Repara que eu não disse “colonizador”.

Filinto:  ̶ Ah, ah, ah, vejo que estás a aflorar o fundo do problema: povoador ou colonizador. Não diria que estas palavras sejam os termos de uma dicotomia, no mínimo poderão sê-lo de uma aglutinação irrealizada. Ou seja, povoou mas não agregou ou protegeu devidamente, para não dizer que abandonou e deixou tudo à sua sorte.

Mas, talvez sem o querer, o Primeiro-Ministro pôs o dedo na ferida quando falou em “afectividade” associada ao crioulo. Percebe-se que ele quer explorar o sentimentalismo barato. No entanto, o critério sobre afectividade é sempre subjectivo e muito tem a ver com as nossas vivências individuais, familiares e sociais, as quais também se estampam no pano de fundo da nossa existência colectiva, no passado como no presente. Por exemplo, a minha avó paterna só tinha a instrução primária, como era normal no seu tempo, e no entanto era uma leitora inveterada das obras do Júlio Dinis, Eça de Queirós, Camilo e outros daquele tempo. Garanto-te, Elísio, que ela lia essas obras com muito “afecto” e empolgava-se ao partilhar com outros o seu gosto pela leitura. Todavia, a minha avó falava o seu crioulo de forma natural como todos os cabo-verdianos, e certamente que o fazia com “afecto”.

Elísio:  ̶  E os nossos homens de letra do passado, como Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Januário Leite, Baltasar Lopes, Aurélio Gonçalves, Manuel Lopes, Teixeira de Sousa, Jorge Barbosa, assim como outros que não eram da área das letras mas que se notabilizaram em outros domínios do conhecimento? Acaso menosprezaram o crioulo da sua infância ao ascenderem a níveis superiores do conhecimento literário e científico? Não creio que o crioulo e a língua portuguesa não merecessem a mesma primazia do seu coração quando extravasaram as suas emoções juvenis exprimindo-se na primeira e demandaram o conhecimento universal escrevendo na segunda. O “afecto” pertence aos recônditos secretos do coração e não pode ser avaliado pelo crivo político ou por conveniências conjunturais.

Filinto:  ̶  Se tu o dizes com essa veemência, quem sou eu para dizer o contrário? Quero dizer que estou de acordo contigo mas mesmo que quisesse discordar para atiçar o lume da conversa, não sei o que mais poderia alimentar o meu respaldo.

O Primeiro-Ministro utilizou o termo “afectividade” ao referir-se à inserção do crioulo no ensino, mas quando os defensores da sua oficialização afirmam que “ele tem um valor inquestionável como símbolo da  identidade nacional”, importaria que analisássemos esta premissa. Desde logo, o que é isso de identidade nacional, o que define esse conceito? É que deves saber que o termo identidade nacional tem suscitado opiniões divergentes entre os estudiosos da matéria. Uns advogam a sua objectividade e consideram-na uma realidade imutável e integradora de múltiplos valores, mas para outros o conceito é subjectivo, no entendimento de que a identidade nacional é algo que se constrói e é susceptível de evolução, a ponto de um mesmo indivíduo poder pertencer a duas entidades distintas.

Elísio:  ̶  Quer isto então dizer que a concepção objectiva da identidade nacional contém a ideia de algo fechado, restrito e supondo uma homogeneização que é fruto de uma construção política, partindo-se do princípio de que as sociedades humanas não são imutáveis, imunes a influências exteriores. Neste caso, teremos a identidade nacional como resultado de um discurso, de uma representação simbólica em que os matizes geradores de condutas e práticas sociais integradoras são determinadas por uma vontade expressa. Mas, regra geral, e  numa ideia simplificadora, a identidade nacional tem como base a raça, a língua, a cultura, uma história comum, os costumes, as tradições e o temperamento do povo.

Mas, aqui chegados, vamos ver quem são os artífices da construção da identidade, questão que é de real pertinência em Estados ainda em fase incipiente da sua autonomia política, como o nosso. Os agentes que constroem as interpretações sobre a realidade são os intelectuais, modeladores que são de visões e discursos sobre a identidade que entendem mais adequada ao seu país. Só que, ao procurarem a mediação entre o simbólico e o popular, dificilmente se eximem da questão ideológica, podendo dizer-se que cada intelectual pode legitimar a sua concepção de identidade nacional.

Filinto:  ̶  Pronto, já percebi aonde queres chegar. Dizer que o crioulo é símbolo da nossa identidade nacional tem tanto de verdade como admitir que o português também pode exprimi-lo, não é? Ou, no mínimo, não se pode forçar a tónica de modo a transmitir a intenção de uma propositada exclusão, até porque o crioulo não nasceu de geração espontânea, tem progenitores, um pai ou uma mãe, dependendo da escolha de sexo que se fizer.

O Padre António Vieira passou por Cabo Verde (Santiago) em 1652 e disse: “(...) Há aqui clérigos e cónegos tão negros como azeviche, mas tão compostos, tão autorizados, tão doutos, tão grandes músicos, tão discretos e bem morigerados, que podem fazer inveja aos que lá vemos nas nossas catedrais.” Ora, o que quis dizer a ilustre figura histórica permite-nos localizar no espaço e no tempo a face iniludível de uma determinada realidade. Aqueles padres seiscentistas dominariam o português com a mesma desenvoltura de doutos nascidos em Portugal. Pergunta-se se não é isso a cabo-verdianidade na sua feição original, ou seja, no seu ponto de partida. E se outras comunidades dispersas pelas nossas ilhas tivessem tido a mesma oportunidade de instrução e escolarização, qual seria a nossa língua de berço?

Elísio:  ̶  OK, rapaz, bô tá largod na conversa ma m’tem que lembro’b hora. Oiá, quel mnininha li trás de balcon titá spiá pa nôs, curiosa, talvez tá perguntá o que quiz home titá falá lissim tud vez quês tá bem. Bô querê mudá manhã de Cafê ô nô ta continuá lissim?

Filinto:  ̶  Na, na, lissim meme na Crióla. Depôs m´tá tlefono’b pa marcá hora.

Tomar, 10 de Março de 2015
Adriano Miranda Lima

terça-feira, 10 de março de 2015

[1425] Continuação do diálogo do post 1421 sobre a questão da Língua Cabo-Verdiana

II Parte (ver parte I AQUI)

Adriano Miranda Lima
Filinto:  ̶  Bem, Elísio, em que ponto ficámos ontem? Ah, já me lembro, o ALUPEC. Mas porque é que para muitos ele é tão mal amado, como se fosse algo estapafúrdio criado só para azucrinar a malta do Barlavento?

Elísio:  ̶  Pois é, pois é, não terá sido propriamente para azucrinar mas o efeito foi praticamente o mesmo se virmos a reacção negativa que ele mereceu nas ilhas do Barlavento e na diáspora. O ALUPEC surgiu em 1994 e foi elaborado pelo chamado Grupo de Padronização da Língua Cabo-Verdiana, constituído por Manuel Veiga, Dulce Almada Duarte, Eduardo Cardoso, Inês Brito, e outros. É um sistema fonético que essencialmente define as letras para representar cada som, e o objectivo é, alegadamente, uniformizar a escrita de todas as variedades do crioulo, para evitar que cada um utilize a grafia que julgue mais consentânea com a expressão da variedade dialectal da sua ilha, com o seu próprio sociolecto e o seu próprio idiolecto. Aquando da sua aprovação, prometia-se que depois de um período experimental seria encarada a sua introdução no ensino, o que parece estar agora para breve.

Filinto:  ̶  Ah sim, e que mais?

Elísio:  ̶ Bem, diz-se que a importância deste sistema se prende exclusivamente com a língua escrita, mas veremos mais adiante o grau de susceptibilidade que poderá ter ou não ter na expressão oral. Não sendo especialista no assunto, a minha opinião é apenas pela rama, mas sem deixar de valorizar as reacções negativas e as muitas opiniões que têm surgido de vários quadrantes da sociedade. Para além de uma generalizada contestação à substituição da letra “c” pela letra “k”, existe a desconfiança de que a intenção é, com o tempo, e ao contrário do que é agora propalado, padronizar todas as variedades dialectais em função do crioulo falado na ilha de Santiago. Contudo, é iniludível  a diferença significativa a nível fonológico, e não só, entre os crioulos do grupo Sotavento e os do grupo Barlavento, daí que qualquer tentativa de uniformização tenha de produzir fortes traumas, e a resistência passiva será o mais provável. No entanto, para agradar a todos, numa primeira abordagem diz-se que serão respeitadas todas as variedades porque o ALUPEC contém as soluções linguísticas adequadas para cada caso. Resta porém saber se não é um expediente dilatório, na crença de que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. E isto porque não vejo como tornar o crioulo o ambicionado instrumento de comunicação válido, escorreito e eficaz no ensino e em outras funções exigentes, com a coexistência de todas as suas variedades.

Filinto:  ̶  O que queres insinuar é que, por exemplo, se o crioulo de S. Vicente utilizar o ALUPEC, acabará mais tarde ou mais cedo por convergir com o de Santiago, não é? Estamos a falar de padronização do processo da escrita, mas seria, de facto, interessante especular se a domesticação da grafia não acabará por ter um efeito reflexivo na oralidade. Explico melhor. O ALUPEC é uma ferramenta pensada mais para privilegiar o crioulo de Santiago do que para a generalidade dos crioulos cabo-verdianos, ainda que os seus autores aleguem o contrário. Assim, em que medida a prática generalizada da escrita baseada no ALUPEC não fará transpor insidiosamente para a oralidade as inflexões fonéticas que aquele alfabeto consagra, com predomínio na letra “u”?  Contudo, tudo isto só seria possível se a escrita em crioulo se tornasse uma prática corrente e generalizada, pelo que a questão é saber como atingir esse desiderato enquanto o português não for destronado dos nossos hábitos. De facto, se, ao longo de séculos, os cabo-verdianos sempre escreveram as suas cartas, bilhetes e recados em português, que transmutação sociolinguística ocorrerá para justificar que o crioulo  passe a substituir a língua lusa nessa função instrumental? Para mais, nesta época de abertura ao exterior e de mobilidade social sem precedentes em que vivemos.

Elísio:  ̶  Bem, Filinto, estás a colocar questões de uma certa complexidade. Repito que não sou especialista na matéria e por isso me inibo de sentenciar depreciativamente o que é da lavra dos que o são, ou julgam sê-lo, embora se censure que no grupo de trabalho nomeado não tenha havido uma representação plural e equilibrada da sociedade cabo-verdiana. Em suma, no grupo predominava e predomina uma certa orientação político-partidária. E é por isso que alguns autores, de opinião tão respeitável como a dos defensores do ALUPEC, defendem a padronização dos crioulos de Sotavento em torno do de Santiago e a dos crioulos de Barlavento em torno do de São Vicente. E o curioso é que o Governo parece admitir agora essa possibilidade, como forma de atenuar o ruído de fundo, procurando agradar a gregos e a troianos. A ser assim, o crioulo tornar-se-á numa língua pluricêntrica, mas não nos iludamos com os expedientes dilatórios.

Filinto:  ̶  Interpreto isso no sentido de que passaria a haver duas formas básicas e  distintas de crioulo em Cabo Verde, mas só no âmbito da grafia, uma vez que ainda há dúvidas se a oralidade ficará imune às prescrições impostas na grafia. A sensação, para já, é que estamos a armar uma enormíssima confusão em Cabo Verde, em matéria linguística. Verdade ou não?

Elísio:  ̶  Ah, pois, nisso estou como tu. Também julgo imprevisível a influência que a grafia possa vir a ter na expressão oral. É que, em princípio, estamos perante duas situações distintas, a da grafia e a da oralidade, mas, na verdade, até que ponto se pode definir ou garantir zonas estanques no comportamento do fenómeno linguístico. E julgo que nem os próprios linguistas terão qualquer opinião avalizada sobre este aspecto particular, mas não duvidemos que estão a apostar nessa probabilidade.

Sempre teria sido aconselhável olhar com olhos de ver para o percurso histórico das línguas mundiais, no sentido de colher adequados instrumentos de análise e aferição susceptíveis de ajudar a compreender mais profundamente o nosso caso. Até que ponto uma cautelosa atitude prospectiva presidiu à decisão de oficialização do crioulo? É uma pergunta que aqui deixo.

Filinto:  ̶  Enfim, estamos para ver o que vai acontecer. Mas, para já, o ar que se respira nos círculos oficiais é de franco optimismo em relação ao sucesso da adopção e vulgarização da escrita do crioulo.

Elísio:  ̶  Voltemos um pouco atrás, Filinto. A introdução e vulgarização da escrita em crioulo parte do pressuposto de que a língua portuguesa será secundarizada nos nossos hábitos de escrita e leitura e em grande parte da comunicação oral, quer nas vivências informais quer mesmo nos actos oficiais a nível das funções do Estado. Não tenhas dúvidas acerca disso. Achas provável que isso aconteça num futuro mais próximo ou mesmo mais distante? As pessoas vão abdicar voluntariamente de utilizar a língua portuguesa, ou  será isso imposto mediante formas subtis de coacção? É que não vejo o que pode motivar as pessoas a escrever em crioulo enquanto prevalecer o português, impregnado como está nos nossos hábitos e nas nossas práticas, e sem que aparentemente se descortine qualquer vantagem na sua substituição. Bem pelo contrário, passar do português para o crioulo é como passar do garantido para o incerto, sem nada que o justifique. A não ser que para alguns seja um acto patrioteiro.

Filinto:  ̶ Mas, espera aí. O governo não diz que vai suprimir a língua portuguesa. Defende, sim, a construção de um bilinguismo social com base no crioulo e no português, e é precisamente como resposta à chamada situação de diglossia existente na sociedade cabo-verdiana que oficializa o crioulo para o colocar em paridade com o português.  Nesse sentido, um dos primeiros passos é introduzir o crioulo no sistema de ensino.

Elísio:  ̶  Tudo isto cheira-me a uma autêntica  aventura em que nos vamos mergulhar de cabeça, porque nada de verdadeiramente imperioso recomenda a alteração do panorama linguístico que ao longo de séculos foi o nosso. Repara que esta conversa oferece pano para muita manga e as questões surgem em catadupa.

Ma já bô oiá pa reloje, Filinto? Pa hoje tá tchgá. Manhã, na meme hora d’hoje, lissim na Cafê “Crióla”.

Filinto:  ̶  OK, rapaz, pa mim tud dret.

Tomar, 10 de Março de 2015
Adriano Miranda Lima

[1424] Mais uma reacção ao post 1421 sobre a língua cabo-verdiana

Alertado pelos muitos  amigos cabo-verdianos de segunda, terceira e quarta geração que tem em New Bedford sobre a contestada questão da unificação dos crioulos, o actor Will Smith reagiu como aqui vemos.


[1423] Ainda o texto de Adriano Miranda Lima, agora comentado pelo actor Hugh Laurie (Dr. House)

Telefonema de Hugh Laurie para o Pd'B, ontem à noite: "Ao ler o pertinente texto de Adriano Miranda Lima (post 1421) percebi que na sociedade morabi há gente que decerto anda a precisar de médico. Não percebo é porque querem inventar um crioulo único, quando os diversos crioulos regionais sobreviveram cinco séculos sem ninguém se sentir mal com eles. Parece-me que anda aí gato escondido com o rabo de fora."


[1422] Clint Eastwood ao Praia de Bote: "- Porque não deixam o crioulo em paz?"

Clint Eastwood, que leu com toda a atenção o interessante texto do nosso colaborador Adriano Miranda Lima (ver post anterior) pasma com a embirração que há em alguns sectores da sociedade morabi contra os regionalismos crioulos e admira-se com a sanha desenfreada por uma uniformização dos mesmos. Eis a cara que fez quando lhe fornecemos mais dados sobre o ingente tema.


segunda-feira, 9 de março de 2015

[1421] Diálogo sobre a questão da “Língua Cabo-Verdiana”

I Parte

Adriano Miranda Lima
(Este diálogo concretiza-se entre duas personagens fictícias. Uma segunda parte, que por lapso ainda aqui colocámos, não estava revista e por isso só verá a luz do dia quando estiver de facto pronta)

Filinto:  ̶  Esta questão do crioulo está como a discussão do sexo dos anjos, uma discussão bizantina, não é verdade, Elísio? Não me parece que haja muito a discutir se é irreversível a decisão sobre a  oficialização do crioulo e tudo o resto que  se espera da “língua cabo-verdiana”.

Elísio:  ̶  Filinto, não vejo que alguma vez tenha existido uma discussão sobre esta matéria, quanto mais poder-se dizer que ela  tanto se arrastou que se tornou bizantina. O assunto esteve sempre sob o domínio exclusivo  de um número restrito pessoas, quais vestais de um templo sagrado, que se presumiram donas da verdade absoluta, e neste momento o ponto de situação se centra apenas na auscultação da opinião das forças políticas representadas na assembleia nacional. A sociedade foi completamente excluída do que devia ter sido um debate à escala nacional, necessariamente num ambiente de pluralidade de ideias e opiniões. E não faltaram especialistas, colunistas e comentadores que, ao longo do tempo, se pronunciaram por iniciativa própria na imprensa, mas  sem nunca  lhes ter sido dada a mínima atenção.

Filinto:  ̶  Está bem, amigo, mas o que mais poderia advir de  valorativo para instituir dignidade nacional ao crioulo?

Elísio:  ̶  Olha, está em causa uma decisão de importância crítica para o futuro do país e dos cabo-verdianos. Como poderia ela ter ficado refém  de algumas pessoas que se convencem dotadas do dom da infalibilidade? Isso alguma vez existe nas ciências sociais, para mais na delicada e complexa questão do fenómeno linguístico? Acaso Cabo Verde não tem mais cabeças pensantes e especialistas na área? E será que o problema é apenas linguístico, ou, bem mais do que isso, não estaremos perante uma questão eminentemente estratégica pelo conjunto diversificado das suas implicações no presente e no futuro? Voltando à questão da discussão bizantina, lembro-te que os termos da dialéctica são a tese, a antítese e a síntese. A tese é a afirmação ou ideia inicial, a antítese é a sua negação, e a síntese resulta do produto final do confronto, e ela pode até reconduzir a uma nova tese, derrogada a razoabilidade ou a sustentação da primeira. Achas que a dialéctica existiu no tratamento da questão do crioulo? Portanto, repito que é errado falar em discussão bizantina, se isso traduz simplesmente a ideia de que houve um exaustivo e cabal tratamento dialéctico do tema. Mas, por outro lado, aquela expressão até ganha certo sentido, e aí terás razão, se pensarmos que o que aconteceu até agora decorreu num ambiente de total alienação das realidades nacionais.

Filinto:  ̶  Então, achas, companheiro, que tudo está para ser decidido sem que tenha havido uma franca e aberta discussão a nível nacional? Mesmo que as forças políticas venham a ser ouvidas e dêem o seu contributo? 

Elísio:  ̶  Mas, oh Filinto, sejamos realistas, rapaz. Como pode um problema desta natureza limitar-se ao âmbito político? A decisão já tomada foi, erradamente, política, e pretende agora consumar-se no estrito terreno privado da política, quando se trata de uma matéria tão importante que, a meu ver, até devia justificar um referendo nacional. Reafirmo, não se trata de uma questão política como um aumento da carga fiscal, uma revisão do Código Penal ou a privatização de um banco. É o futuro que está em causa, o que devia por si só desaconselhar a vinculação do problema a qualquer conjuntura política ou ao ideário deste ou daquele político que transitoriamente passa pelo poder. O assunto devia ter sido o mais escrutinado possível, e jamais ignoradas as vozes que se têm exprimido no sentido contrário ao pensamento do governo.

Filinto:  ̶  Como podes induzir que não há consenso nacional sobre esta matéria? As populações de todas as ilhas não estão ciosas do seu falar crioulo? E quando se diz que não vai ser exequível a padronização do crioulo em torno do de Santiago, será que não se reconhece que essa ilha é a maior e a mais populosa do arquipélago?

Elísio:  ̶  Ora, aí estão questões pertinentes merecedoras de clarificação. É um facto consabido que não há consenso nacional, e o argumento de que as populações das ilhas estão ciosas do seu próprio crioulo mais o comprova. Além disso, nestas coisas da língua nem sempre é válido o princípio da maioria. As populações de S. Vicente, S. Antão e S. Nicolau têm direito ao crioulo que lhes está entranhado na alma e no coração, do mesmo modo que as da ilha mais populosa reclamam o seu. Não é a aritmética que conta neste tipo de fenómeno, nele preponderam o enraizamento e o entrelaçamento de factores sociais e psicológicos os mais variados, em que o sentimento comunitário, as memórias antigas e o património de vivências comuns têm uma força incomensurável. Ora, o  crioulo é o cimento agregador das especificidades humanas em cada uma das comunidades sociais. Não se pode decretar a sua extinção. Não há volta a dar-lhe, amigo.

E, já agora, permite-me que te conte um episódio que o ilustra de uma forma flagrante. Há uns anos, um deputado discursou na assembleia nacional em crioulo de Santiago e, no fim, como houve colegas que alegaram não  o perceber, ele, arrogantemente, aconselhou-os a “fazer o trabalho  de casa”. Em seguida, para lhe dar o devido troco, um deputado discursou, propositadamente,  no crioulo  “fundo” de S. Antão, e como a reacção de alguns de Santiago foi em tudo semelhante, ele respondeu da mesma maneira que o colega santiaguense. Vê lá tu o que poderá acontecer na esfera das vivências sociais comuns, se é a própria assembleia nacional que nos comtempla com semelhante exemplo de clara e acintosa clivagem.

Filinto:  ̶  E em que é que nisto tudo entra o ALUPEC?

Elísio:  ̶   Oh rapaz, já viste as horas? O ALUPEC fica para depois. Vamos continuar esta conversa amanhã à mesma hora. Neste mesmo Café, o “Crioula”.

Tomar, 8 de Março de 2015
Adriano Miranda Lima

[1420] Pergunta (aparentemente) tola...

O que é que o Monte Cara tem a ver com os fuzileiros?



Site http://www.marinhasplp.org/

domingo, 8 de março de 2015

[1419] Mindelo: fotos de Filipe Conceição e Silva (dose 2)

Como sempre, clique na imagem, para ver melhor

Marina de São Vicente
Provável resto dos suportes do antigo cais da Alfândega


[1418] Fotos frescas de São Vicente... de Janeiro

Fotos de Filipe Conceição e Silva, muito recentes e extremamente apetitosas. Para ver e suspirar. É uma longa série que iremos colocando a pouco e pouco, para alegria dos nossos visitantes. Esperamos no entanto que estes não sejam forretas e paguem o serviço com comentários. Clique nas imagens, para as poder ver melhor.

Enquadramento pouco usual do Monte Cara, entre o Mindel Hotel e outro edifício
Praça Nova, vista do Hotel Oásis Porto Grande. Repare-se no grupo de turistas e seu guia, em baixo, à esquerda
A velha alfândega, hoje Centro Cultural do Mindelo
Placa da velha alfândega a precisar de tinta (atenção, Câmara Municipal de São Vicente!)
Outra placa da velha alfândega, a precisar ainda mais de tinta

[1417] Ontem falou-se de Cabo Verde em Almada

Necas Paris
A sessão era sobre viagens e aqui o Pd'B apresentou uma longa viagem cabo-verdiana que ainda dura... e durará. A coisa foi de estalo, com plateia em número difícil de calcular mas que deve ter-se situado entre 150 e 200 espectadores. Entre eles, aquele que salvou a honra do convento ilhéu, Necas Paris. E compareceram pelo menos mais quatro pessoas que conheciam São Vicente, mas europeias. Houve até alguém que veio perguntar ao dono do Pd'B se ele conhecia um tal de Manuel Brito Semedo que tinha sido seu aluno na universidade e que muito estimava. Enfim, grande tarde arquipelágica e sobretudo são-vicentina... para quem esteve.


quarta-feira, 4 de março de 2015

[1415] Enquanto o Pd'B está em pausa, fazemos uma excepção, para mostrar "algo"...

Praça Estrela, 19 de Janeiro de 2015. Nunca visto, único no Mundo, sofás de couro ou napa ao ar livre, num jardim público, um luxo das arábias ou alguém que está a vender parte da mobília mas foi almoçar...

Foto Filipe Conceição e Silva