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domingo, 24 de julho de 2016

[2317] Texto de Maria Beatriz Lima Barreiro inspirado num poema de Adriano Miranda Lima (ver post 2315)

A MAGIA DA PRAÇA NOVA
Ver AQUI outro texto da autora no Pd'B

Há momentos em que, sem querermos, quase ao acaso, apercebemo-nos de que a retrospectiva das coisas que nos aconteceram ganha um valor diferente. Um sabor até especial, de recordação sentida. Através de uma maneira mais actualizada de olhar para a realidade que vivemos no passado.

Encontrei nos escritos do meu avô Adriano Lima um poema que tem o título Noite de Luar na Praça Nova. Ah, é a praça que conheci em 2012 quando pela primeira vez visitei a cidade do Mindelo. Então, deu-me para ler esse poema, que não tinha ainda lido. Foi como se quisesse encontrar nas memórias pessoais que nele se celebram alguma correspondência com as minhas próprias memórias da visita que fiz.

Já agora, digo que estive sentada nos bancos da Praça Nova mais de uma vez, principalmente quando íamos ao hotel em que ficou hospedada a minha tia Ana e que ficava mesmo ao lado. Lembro-me de que a praça era muito frequentada à noite e havia muito movimento de pessoas a andar para cima e para baixo. As crianças brincavam, umas andando em pequenas bicicletas, outras em “scooters” e “skates”, outras correndo e fazendo as normais tropelias infantis. Achei aquilo tudo muito semelhante às rotinas das praças em Portugal das cidades médias da província. Por sinal, o tempo atmosférico era nessas noites muito agradável, apetecível para se estar ao ar livre e deixar correr o tempo. Ou não estivéssemos em Julho…

É desta maneira, tentando recompor a memória fotográfica que guardei da Praça Nova, que a tento ver agora sob o olhar do autor do poema. Mas leio o poema e surgem perguntas inevitáveis: - avô, quem era o B. Leza, esse de quem dizes: “E em vão procurar B. Leza entre os rapazes da serenata e só conseguir ouvir a plangência do seu violino no lento suspiro da noite e na terna placidez das raparigas girando em redor da praça”. Pergunta feita e fico a conhecer o músico, que pertence às memórias do autor. Percebi o sentido da metáfora. Os músicos estão em toda a parte e a toda a hora na cidade do Mindelo. 

Foto Nelson Fortes Lima
Mas de música só ouvi um dia a do coreto da Praça. Ela saiu “da clausura da pauta e foi pousar nas folhas das árvores, nas réstias de luar, no riso das moças, nos vestidos das damas, e depois!... foi senti-la a evadir-se, dengosa e insinuante, pelas ruas de Mindelo.”

Agora sinto que foi pena não conhecer este poema à data da minha visita. Mas eu tinha então só doze anos… Os actuais dezassete, feitos há uma semana, fazem a diferença, o que é natural. 

Mas as perguntas continuam: avô, não vi esse cinema Eden Park de que falas quando escreves: … “Ei-la afinal presente e ausente na sedução do olhar, na volúpia dos lábios, no langor do sorriso, da Marlene Dietrich, além no cartaz do Eden Park!...”. Com a resposta à pergunta, fiquei a saber que esse cinema terminou há muito os seus dias. Que pena! Numa época em que não havia televisão, internet e os outros aparelhos que nos fazem as delícias actualmente, entendo o sentimento que o autor deixa transparecer no poema.

O Eden Park já tinha sido, já era só memória, mas… ahhh, as vendedeiras de mancarra (amendoim) essas lá estavam e comprei uma mancheia do produto: … “Deixar soltar a voz ridente da vendedeira de mancarra e ouvi-la cantarolar sodade di nha cretcheu até cair a penugem da noite na cálida nudez dos seus enfeites”. E eu que achei essa mancarra com um paladar diferente, mais saborosa, como se tivesse sido acabada de torrar...

Na minha jovem idade, quatro anos fazem uma enorme diferença. Aquilo que vivi em 2012 foi mais à flor da pele da menina de doze anos, diferente do que permite a minha idade actual, e ainda mais depois de ter estudado bem as disciplinas de português e filosofia. Mas o poema de Adriano Lima, que li agora, veio avivar-me o sentimento e mostrar-me uma Praça Nova iluminada não por uma noite de luar mas por luzes que pertencem à alma.

Enfim, a nostalgia do avô é agora minha: “Ó doce e inefável fixação do olhar feiticeiro que alumia a noite na Praça Nova!”


Quarteira, 23 de Julho de 2016
Maria Beatriz Lima Barreiro

domingo, 23 de agosto de 2015

[1641] Regressa o "Liberal", com novo logótipo

Liberal,aí está de novo. O endereço é este, no qual pode clicar:
Para comemorar, e por ser coisa ainda actual, aqui fica um dos nossos cerca de 60 artigos publicados no defunto e agora renascido jornal.

13 Jan, 2006     06:35h
A coluna de Joaquim Saial 
CABO VERDE DI MEU 
DE EDEN PARK A QUÊ?

Como terá surgido o nome? Inspirado no do londrino Eden Park Hotel, de 1860? No do Art Museum Eden Park, de Cincinnati, Ohio, feito em 1887? No da casa construída em 1891 em Marryatville, Adelaide, Austrália, hoje colégio? Seja como for, aquela designação de “Parque do Paraíso” fica-lhe bem. Aliás, sempre lhe caiu que nem uma luva. Porque durante oito décadas foi realmente o paraíso do cinema, do teatro, de récitas de estudantes e de soldados do quartel, de festas de Natal, de eleições de misses, de mil e uma actividades que fizeram a sua própria história, a da cidade, a da ilha e a de Cabo Verde. E não é “Cinema Paraíso” um dos mais belos filmes sobre o cinema e os edifícios em que ele vive, em que ele se divulga?

O Luíz Silva, o Adriano Lima, o Zizim Figuera, o Djô Martins, cada um a seu modo, já deram valiosíssimo, certeiro e atempado contributo à causa da manutenção deste templo mindelense da Cultura. Ponto final, então? Parece-me que de modo nenhum. Contudo, é necessário não ter ilusões. Nos tempos que correm, de vídeo e DVD, um cinema com aquelas características, naquelas condições, se não levar uma grande volta, está condenado à morte lenta. E o giro é possível, mantendo-se o espírito da coisa, mantendo-se a magia, conservando-se a matriz primeira, de sítio cultural. Neste ponto, parece-me que o inteligente depoimento de Adriano Lima oferece grandes possibilidades de sucesso. E dou aos leitores um exemplo semelhante em que participei, ainda que a nível modesto.

Como alguns leitores sabem, apesar de transportar uma forte costela mental mindelense, sou natural de Vila Viçosa, Alto Alentejo, Portugal. E nesta minha terra, um grupo de figuras locais construiu nos meados do século XX um Cine-Teatro baptizado com o nome da poetisa local Florbela Espanca. Edifício grande, com vasta capacidade de público, alguns lugares cativos, como era usual, grande luxo de ferragens e de mármores, pedra abundante nas imediações da vila, e máquina de primeira qualidade para a projecção das fitas.

Tudo correu bem, até ao advento do vídeo. Depois, foi o descalabro. Algures no início dos anos 80 vi ali o meu último filme, por acaso português, da autoria de Monique Rutler. Era Inverno, o frio mais que muito e eu tiritava. Ainda por cima, não percebi metade do que os actores diziam, apesar de falarem na minha língua. A dado passo, a fita partiu-se. Daí a pouco, partiu-se de novo. E à terceira, quando ela começou a arder, com projecção do incêndio no ecrã, jurei a mim mesmo que nunca mais ali poria os pés enquanto não houvesse alterações ao estado de coisas que aqui descrevo. E assim foi.

Os anos foram passando e o Cine-Teatro Florbela Espanca a definhar, num marasmo de cortar o coração, degradando-se e aviltando os seus pergaminhos. Até que a Câmara Municipal de Vila Viçosa, em boa hora, resolveu adquiri-lo aos antigos proprietários e dar a tal volta de que falei atrás. Abriu-se concurso público, a fim de remodelar o interior do edifício, com novas valências, embora mantendo as anteriores de teatro e cinema. E o projecto surgiu, com autoria dos arquitectos da terra Manuel Lapão e José Carlos Ramalho e uma colaboração minha na área da memória cultural do teatro e do cinema em Vila Viçosa. A grande sala manteve mais ou menos a mesma volumetria, dando embora possibilidade de divisão em duas, uma maior, outra mais pequena, do tipo cinema de bolso, para realização de palestras, por exemplo. Uma zona lateral foi dedicada a galeria de arte, que tem mantido programa quase contínuo de exposições nos últimos quinze anos. E implantou-se um moderno sistema de ar condicionado.

Pelo menos duas vezes por semana, há sessões de cinema, com filmes de estreia, o que faz com que o público, que de há muito abandonara o Cine-Teatro, tenha vindo paulatinamente a regressar e a fixar-se. E grande parte das cerimónias municipais já ali se realiza, a par do uso público mais rotineiro, de cinema, teatro e espectáculos musicais. Ou seja, a casa salvou-se.

Em Vila Viçosa, não se recorreu à inclusão de lojas ou outros equipamentos comerciais no Cine-Teatro. Mesmo assim, não consta que a Câmara Municipal esteja a ter prejuízo com a administração deste espaço. No Mindelo, porém, a situação será outra. E por isso a ideia de Adriano Lima, deve ser estudada por quem de direito. Para além de que lojas e algum bar ou restaurante darão mais vida à Praça Nova durante a manhã e a tarde, para não falar em algumas noites da semana em que está deserta. Afinal, só há um sábado e um domingo por semana…

Pergunto eu, em título: “De Eden Park a quê?”. Parece-me que só há três respostas prováveis: a primeira, “de Eden Park a condomínio privado”, deve estar para sempre longe dos nossos horizontes de gente civilizada; a segunda, “de Eden Park a ruínas”, pelo mesmo motivo, também; a terceira, “de Eden Park a Eden Park”, parece-me a mais aceitável e única permissível, com as necessárias alterações que os tempos modernos exigem. O progresso é bom, não sejamos complexados, e é sabido que há coisas que não podem cristalizar no tempo. Mas com calma, mantendo-se as memórias, as finalidades, não destruindo mas adaptando. Um Eden Park jovem pode conviver perfeitamente com a ideia de lucro. Basta utilizar os miolos, basta não ser empedernido, basta ter espírito mindelense, de generosidade.

Um dos últimos acontecimentos que presenciei no Eden Park foi o que teve como protagonista o Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra que ali cantaram e encantaram na noite de 26 de Julho de 1999 (e não de 1998), como por lapso se indica no site do próprio coro. Foi a Dr.ª Ana Cordeiro, do Centro Cultural Português, quem me ofereceu o bilhete para o espectáculo, do qual o pai era um dos componentes. Lembro-me de que fui acompanhado pela minha amiga, professora D. Zinha Lima. A sala estava a rebentar pelas costuras. O coro arrancou, o público num silêncio impressionante, apenas interrompido por trovoadas de aplausos de cada vez que as peças terminavam. Até que se aconteceu uma surpresa: o Ildo Lobo surgiu no palco do Eden Park, para acompanhar o coro. “Tchapéu di Padja” e “Sôdad” foram duas das canções em que a hoje saudosa voz rouca do homem dos Tubarões acompanhou a mais doce dos doutores de Coimbra.

Após uma primeira parte de canções, seguiu-se outra de tradicional fado coimbrão. No fim do espectáculo, como é hábito, um dos componentes do coro chamou os elementos do público que tivessem sido antigos alunos da Universidade de Coimbra para, em conjunto com os orfeonistas, cantar a canção da despedida. Logo, um grupo de umas duas dezenas de pessoas se dirigiu ao palco. Entre elas, encontrava-se a Dr.ª Isaura Gomes…

Por favor, não me rasguem aquele cinema, como o porteiro rasgava o bilhete quando eu ali entrava; ou como me rasgaram o Café Royal; ou como me rasgaram o seu companheiro de infortúnio Park Miramar; ou como me rasgaram a Central Eléctrica, símbolo ímpar de arqueologia industrial; ou como me rasgaram a Matiota; ou… Enfim, é preciso ter fé nos homens e mulheres de boa-vontade. Acho que o período de sete palavras (número de sorte) com que rematei o penúltimo parágrafo deste CABO VERDE DI MEU diz tudo das minhas esperanças (e das do povo de São Vicente) sobre um desfecho feliz para o “affaire” Eden Park.

Mais palavras para quê? É um cinema mindelense…

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

[1385] Um saboroso texto de Adriano Miranda Lima, de desembrulhar, lamber e deitar o celofane fora

Adriano Miranda Lima regressa hoje ao nosso convívio, com um texto inédito situado entre o doce e o saudoso, lembrado de "Mitchêl", uma das muitas características figuras que o Mindelo tem tido. O Praia de Bote não o conheceu - ou pelo menos não se lembra dele -, mas agora, pela pena do nosso colaborador, o divertido comerciante ambulante volta à vida e ao seu negóce de venda de drops e toffees, mais um tabaquinho mercóne de contrabando. Deixamos o inevitável agradecimento ao autor e amigo.

“MITCHÊL”, VENDEDOR DE DROPS

Adriano Miranda Lima
Desconheço qual era o seu nome de registo, pois sempre o vi ser tratado por “Mitchêl”, o que não admira porque em S. Vicente quase toda a gente tem um “nominho”.

Como qualquer mindelense da minha geração, conheci muito bem o “Mitchêl”, não porque tenha tido alguma intimidade com a sua pessoa, mas porque ele se dedicava a uma actividade que o tornava muito notado, mesmo que o não quisesse. Pois, para além da sua venda ambulante de drops, chocolates e cigarros, calcorreando os locais mais movimentados da cidade, distinguia-se pela sua postura histriónica e divertida, sem ser leviano ou inconveniente. Nas sessões de cinema, gostava de mandar as suas bocas em voz alta quando acontecia algum imprevisto, como o atraso no início da sessão ou a  interrupção acidental da projecção do filme. Certa vez, no Parque Mira Mar (cinema do Tuta), lembro-me de que isso aconteceu e ele manifestou o seu protesto em voz bem alta e sonora (tinha uma voz grave e forte), tanto que o Djone (filho do Tuta), que provavelmente estava na cabine de projecção, recorreu à instalação sonora e disse: “Mitchêl, un sabê que foi bô que dá ês bóca pois bô vôz ê cunchid”.  

O “Mitchêl” tinha um especial gosto pelo penteado à Tony Curtis (proeminência capilar a cair sobre a testa), actor americano então em voga, e dedicava também certo cuidado ao seu vestuário à base de jeans bem apertadas e camisa branca dobrada pelos pulsos. Sempre lhe conheci uma atitude correcta para com as pessoas, o que penso lhe granjeava a estima de todos os seus fregueses ambulantes, independentemente da idade ou condição social. Quantas vezes não lhe comprei drops e chocolates, principalmente quando o apanhava a jeito lá para os lados da Praça Nova e da Pracinha da Igreja! A partir de certa altura, no auge do negócio, passou a ter um ou dois “boizim” como auxiliares, cada um com a sua prateleira/expositor dos ditos produtos. Pelo menos, na Praça Nova tive ocasião de o ver com esses jovens ajudantes naquelas noites mais movimentadas que antecediam as sessões de cinema no Eden Park  ou quando a Banda Municipal actuava no Coreto.

Ele era realmente uma figura popular e muito comunicativa e divertida, e recordo-o com certa emoção e simpatia por me levar de volta à minha adolescência. Resta ainda dizer que o “Mitchêl” foi um grande praticante de ping-pong, e, se não estou em erro, era o habitual campeão dos torneios que se realizavam nas sedes dos clubes de futebol. Se não for rigorosamente assim, alguém que corrija. Tenho pena de não ter uma fotografia da pessoa para juntar a este texto.

Há já muitos anos, ouvi dizer que ele faleceu, não sei se na sua terra ou no estrangeiro. Se assim foi, deixou a vida ainda muito novo, ele que aparentava boa saúde e robustez física. Paz à alma do nosso “Mitchêl”!

Tomar, 20 de Fevereiro de 2015
Adriano Miranda Lima




terça-feira, 19 de julho de 2016

[2284] Junta de Freguesia das Margens do Nabão homenageia Adriano Lima pelo seu contributo para o refrescamento dos habitantes da cidade

A espada, com o símbolo Templário na extremidade do punho
No seguimento das notícias que divulgámos no post anterior, soubemos agora mesmo que Adriano Lima acaba de ser agraciado pela Junta de Freguesia das Margens do Nabão com o grau de Cavaleiro Honorário Templário Nabantino e que também recebeu uma espada de honra pela seu contributo para o refrescamento dos habitantes da cidade. Acompanhado de Djosa de nha Bia (nomeado seu escudeiro honorário, este recebeu um corta-unhas em prata) ambos estiveram na sede da junta para a recepção dos títulos que lhes foram outorgados e respectivas prendas. Colaboradores de longa data do Praia de Bote, o blogue felicita-os, regozijado pela honra que de certo modo também lhe cabe. Consta que Tótói Mãozinha terá galardões semelhantes, para além de uma bola do europeu autografada por todos os jogadores que estiveram na final. Um braça pa bsot três. E viva nôs praia.

O nosso colaborador, no acto de investidura

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

[4648] Um livro de Adriano Lima que todos os cabo-verdianos deveriam ter: um padóce de stóra de Portugal e de Cabverde djunte


Estimados amigos,

O livro em título, da minha autoria (edição de autor), foi lançado em S. Vicente e tê-lo-ia sido também na Praia se a Covid-19 não nos tivesse trocado as voltas. Pelo mesmo constrangimento, não se prevê, por enquanto, qualquer lançamento em Portugal. O livro conta a história das Forças Militares metropolitanas em Cabo Verde, durante o período da II Guerra Mundial, descrevendo a actividade militar desenvolvida e a interacção social das tropas com as populações.

O livro tem 240 páginas e a sua capa é a que aqui se mostra.

Para a sua aquisição, basta contactar-me por este meio que accionarei de imediato o seu envio por correio, pelo endereço postal indicado pelo interessado. O preço em Portugal é de 12 euros, portes postais incluídos. Para fora de Portugal é de 14 euros, portes postais incluídos. 

O pagamento será por transferência bancária para a seguinte conta da Caixa Geral de Depósitos:   

003502630000193140059

Porém, os residentes em Cabo Verde  que o queiram adquirir localmente  (preço de 1000 escudos cv) poderão fazê-lo por qualquer das seguintes formas:

- Contactando directamente o meu primo José Carlos Soulé (telefone 002389915472);

- No Centro Cultural do Mindelo;

- Na livraria Terra Nova, Mindelo;

- Nas livrarias "Eugénio Tavares" e "Neves Solutions", ambas na Achada de Santo António, Praia;

- Na Biblioteca Nacional de Cabo Verde, Praia.

Um abraço amigo

Adriano Lima

domingo, 13 de outubro de 2013

[0595] "Tudo trocado", uma grande revista no Eden Park, em 29 e 30 de Novembro de 1943

ACTUALIZADO  TRÊS VEZES, APÓS A PUBLICAÇÃO

O principal motivo do programa oferecido ao Praia de Bote pelo Adriano Lima era divulgar a revista "Tudo Trocado", levada à cena no hoje defunto Eden Park, pelo grupo cénico "Os Sempre Fixes", a 29 e 30 de Novembro de 1943. Aqui vai esse historial, para aqueles a quem, como costumamos dizer, corre o Mindelo nas veias. 

Alguns aspectos curiosos a sublinhar, através das seguintes indicações:

1 - O Administrador do Concelho, capitão Mota Carmo, homem temido nalguns meios do Mindelo, ajudava afinal com afinco a Associação de Caridade de São Vicente, para a qual reverteria a receita dos dois espectáculos.

2 - Os bilhetes marcavam-se na Barbaria Mindelo, de Raul Carvalho.

3 - Havia nada mais nada menos que 30 músicas e 70 pessoas em palco!!!

4 - A música estava a cargo de uma jazz-band com 7 figuras.

5 - Dois militares expedicionários (pelo menos) intervinham nos espectáculo: o Chico da Consertina (que cedeu o programa a Adriano Lima e do qual se falou em post anterior) e o cenógrafo, furriel António Filipe Rodrigues.

6 - Os efeitos de luz eram de Guilherme "Tuta" de Melo, homem do "sonoro" que teve entretanto o outo cinema do Mindelo, o Park Mira-Mar.

7 - A direcção musical pertencia a Jorge Monteiro (1913-1988), vulgo Jotamont ou Jorge Cornetim, que se tornou grande figura da cena musical de Cabo Verde e sobretudo do Mindelo. Ver AQUI.

8 - Sobre Evandro Matos, ver AQUI. Sobre Pedro Afonso, ver AQUI.

Agora, esperamos os comentários a este fantástico evento cultural mindelense de há 70 anos... A propósito, alguém tem aí três paus que me empreste para eu comprar um bilhete para a geral?

Foto José Carlos Marques - Eden Park (Setembro.2013)

Emblema/logótipo do Eden Park ainda existente na fachada do ex-cine-teatro (pormenor da foto de cima)



Leia com mais facilidade nos recortes em baixo

Pormenor

Pormenor
Anúncio da Barbearia Mindelo - Vai uma barba e cabelo?...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

[0712] "Harlem Nocturne" de Earl Hagen (1939), em homenagem ao Adriano Lima e a todos os companheiros de jornada do Pd'B

A pedido do nosso colaborador compulsivo Adriano Lima, aqui vai uma excelentes versão de "Harlem Nocturne" em sessão de estúdio para gravação (Roy Frank Orchestra). Não é o nosso Morgadinho, mas vamos fingir que se trata dele a soprar o metal e a amparar a palheta. Este post é dedicado a todos os que têm acompanhado o Pd'B ao longo destes três anos de vida do blogue (e colocado aqui o seus comentários, enriquecendo-o sobremaneira) e preludia os posts comemorativos da data de nascimento do mesmo, nos dias 6, 7 (data de aniversário) e 8 de Fevereiro.



segunda-feira, 13 de junho de 2011

[0069] Um poema de Adriano Miranda Lima a Nhô Balta

Em comentário ao post n.º 0067, o nosso colaborador Adriano Miranda Lima deixou este poema. Pensamos que não poderá ali ficar escondido e por isso aqui o trazemos mais para a luz - que a memória de Nhô Balta bem o merece e a verve de Miranda Lima também... 


Adriano Miranda Lima












Baltasar
 
Essa fina saudade de Passárgada
que percorreu teus dias
ninguém a entendeu senão tu
como algo entretecido por mãos de anjo
quando o sol, a terra e a chuva fizeram as tréguas

Alguns pensaram que era simples desejo de evasão
fuga contumaz sem rasto de remorso
trancando a porta de regresso

Mas como poderia evadir-se
quem estava preso no ventre de sua mãe?

E depois filho de coração terno
quem poderia mais tarde acalentar a dor de sua mãe
e cuidar-lhe um dia de uma mortalha lavada?

Alguns fingiram não perceber que apenas sonhavas com
um Beijo
um beijo da mãe-água no seio da mamãe-terra
depositado na esquina da eternidade
selando promessa de felicidade

Este poema que o não é
pode ser remissão do meu pecado
ou tardia poção sacrificial
por não ter também compreendido
ou partilhado
a veemência da tua fina saudade

Baltasar

Hoje não é já a Passárgada que nos persegue
nas nossas intermináveis noites de vigília
É esta infinita saudade que nos deixaste.

domingo, 31 de março de 2013

[0405] 3.ª parte do mais recente texto de José Fortes Lopes

O Debate da Regionalização e a renovação política de Onésimo Silveira
3.ª Parte: Da Génese do Centralismo em Cabo Verde ao Debate da Regionalização

José Fortes Lopes
Como vimos precedentemente, há uma tentativa de capturar e desnaturar o debate da regionalização em favor de uma ala centralista e conservadora, que congrega uma agenda etnocentrista ou fundamentalista e uma outra de interesses políticos associados às redes de privilégios sociopolíticos e económicos do país, adversos a qualquer mudança ou reforma. Amilcar Cabral só poderia estar envergonhado com os ditos actuais herdeiros e seguidores.

O conceito de “Regionalização Administrativa” seria assim o denominador comum, a ‘reforma’ mínima aceitável aos olhos dos diferentes grupos que controlam o poder actualmente no país. Esta seria a ‘reforma na continuidade’ de um sistema já cansado e que governa o país há décadas, usando substancialmente variantes do mesmo e esgotado conceito de desenvolvimento, aquilo que é designado hoje eufemisticamente de Pensamento Único, e que em Cabo Verde toma a forma de um supra-partido único transversal à toda sociedade.

Pode dizer-se que o Onésimo Silveira é seguramente um gato político, porquanto já teve várias vidas políticas (costuma-se dizer que os gatos têm sete vidas). Estaremos perante o seu sétimo combate ou o último pulo do gato? A regionalização, uma das suas bandeiras, poderá ser uma excelente oportunidade para o velho nacionalista e político mostrar os seus dotes de combatente, deixando assim uma herança política, com a sua marca, à sua ilha natal e ao país. A ver vamos.

Teria sido interessante a participação conjunta neste debate, de outro velho nacionalista, Leitão da Graça, líder da extinta UPICV, um natural de Santiago, defensor da regionalização, e que acabou de declarar na Inforpress “A regionalização é uma coisa boa e, por isso, sempre fui a favor”, disse, lamentando que até ao momento este facto não tenha ainda acontecido em Cabo Verde. Na sua opinião, o PAIGC (hoje PAICV) sempre teve medo da regionalização. Hoje, gaba-se de ter escrito, em panfletos, apelando à autonomia das ilhas. Para Leitão da Graça, com a regionalização não significa que a unidade do país possa estar em causa.” (In Inforpress) (6).

Onésimo Silveira aparece, assim, quer queira quer não, como figura crucial neste debate, um ‘pivot’ fundamental entre as diferentes tendências e modelos em discussão e o provável interlocutor nas eventuais futuras negociações.

É assim que o Onésimo Silveira é apanhado (involuntariamente?) nesta ratoeira conceptual inventada pelos sectores conservadores do PAICV. Ao fazer questão de vincar, nos últimos artigos, a defesa de uma “Regionalização Administrativa”, em vez da “Regionalização” “tout court” (4), incorreu involuntariamente ou desnecessariamente em contradição com as teses que defendeu no colóquio/“atelier” sobre a Regionalização, de 9 a 11 de Abril de 2007, que serviu para o enterro do projecto. Este evento, segundo a então Ministra da Presidência do Concelho de Ministros, Reforma do Estado e Defesa, Cristina Fontes “visava consensualizar os conceitos em torno da matéria da descentralização, desconcentração, ou até mesmo regionalização”, que “o Governo tinha a sua posição, mas que estava aberto para ouvir as outras opiniões existentes; mas que defendia um “Estado suficiente", não havendo lugar para centralismos ou posições que ponham em causa o Estado unitário em Cabo Verde” (2). Adriano Miranda Lima (2) nos reporta, baseando-se em notícias então publicadas, que Onésimo Silveira ter-se-á mostrado favorável a uma «Região Política», indo assim na altura contra algumas correntes redutoras ou conservadoras do conceito de regionalização. Mais, Silveira, num conceito mais ambicioso, quiçá de ressonâncias futuristas, defendeu «a existência de regiões fora do território nacional, coincidentes com a geografia em que estão inseridas as comunidades emigradas», oferecendo assim um tema de estudo ao companheiro Luiz Silva, sobre o qual se vem debruçando entusiasticamente. Neste mesmo colóquio, José Maria Neves, como se estivesse exorcizando o fantasma de qualquer transformação orgânica no país que atente contra o poder dominante e total concentrado na ilha capital, afirmou aceitar unicamente o reforço do municipalismo. Apontou um conjunto de argumentos que, em sua opinião, desaconselhariam a criação de regiões políticas autónomas, a começar no facto de não haver enquadramento constitucional (2). Imaginem o nível do argumento! Será que os outros países (Marrocos, por exemplo) teriam já esse enquadramento quando realizaram tal reforma (5)? A resposta é obviamente não. Este dilema de causalidade é uma questão clássica, facilmente ultrapassável se houver vontade e determinação política. Na realidade, reformas desta natureza necessitam grandes homens ou homens de carácter (George Washington, James Madison, Charles de Gaulle, François Mitterrand, Nelson Mandela, Rei do Marrocos, etc), um conceito e um projecto novo, como aconteceram nos momentos cruciais e nos países em que elas foram levadas avante (4,5). Portanto, não brinquemos com conceitos e não tentemos separar artificialmente a regionalização em duas componentes, a administrativa e a política, pois estaremos a incorrer em pura manipulação conceptual, com o único intuito de atrair ‘eleitorado’ e enganar os incautos. Pois se ambos os prós e os contra da regionalização, que defendem processos conceptualmente diferentes, ‘desatarem’ a chamar a reforma pelo mesmo nome, regionalização administrativa, no fim, o povo, que queremos esclarecer cabalmente, ficará refém de uma ambiguidade que produzirá um efeito inverso, e a confusão política nesta matéria será total e instalada para muito tempo. Por esta e outras razões é que apontei a inoportunidade da realização, no presente contexto, de um referendo sobre uma matéria tão séria e sensível. Como os franceses dizem “Il faut appeler un chat, un chat”, ou seja, falemos de regionalização ‘tout court’ (4, 5). Isto leva-nos a apelar a realização de estudos consistentes, debates e campanhas diversos para esclarecer as pessoas e separar as águas. Mas não há meio de o PM declarar oficialmente a abertura dos trabalhos e do debate, todo convencido de que anda a ganhar tempo para que tudo acabe em águas de bacalhau. Ou não terá ele coragem nem estofo para liderar este processo!?

Mas foi todavia na Workshop sobre Reforma do Estado, Justiça e Segurança realizada no âmbito da Conferência Nacional do PAICV de 28 a 3 de Setembro 2012, que uma ala do PAICV iniciou uma ofensiva ideológica contra a regionalização, que culminou no recente Conselho de Ministros no Mindelo. O PM assinalou como inaceitável qualquer veleidade política à reforma, apresentando ao país o modelo pré-cozinhado, chamado de Regionalização Administrativa, correspondendo, na visão José Maria Neves e dos sectores mais conservadores do PAICV, simplesmente, ao reforço do municipalismo, ou seja, aquilo que qualificam de “supra-municipalismo”, terminologia bastante ambígua para este debate, e que também Onésimo Silveira resolveu, aparentemente, adoptar.

Mesmo assim, a pobreza do argumentário dos que estão contra a regionalização é aflitiva e resume-se, quando não se recorre a ataques baixos e de carácter pessoal, a afirmações e generalidades de La Palisse, do tipo: “A maioria das pessoas que têm intervindo dizem claramente que a regionalização política é um disparate em Cabo Verde, por ser um país de apenas cerca de 4.033 quilómetros quadrados e menos de meio milhão de habitantes”. Como refere Adriano Miranda Lima (2), “os responsáveis do Governo recorrem normalmente a um discurso circular, feito de generalidades e lugares comuns, sempre que têm de pronunciar-se sobre o assunto, enquanto o centralismo ostenta uma dureza de pedra e cal, o que demonstra que a política, não raras vezes, pode ser a mais perfeita arte de dissimulação. Mas como desde o colóquio realizado na Praia o assunto parece ter arrefecido nos meios oficiais, ou adiado para as calendas gregas, é caso para imaginar que José Maria Neves teria aspergido água benta sobre o retábulo do colóquio, para exorcizar o fantasma de qualquer transformação orgânica no país que atente contra o poder dominante e total concentrado na ilha capital”. E “A verdade é que não se vê uma firme vontade política, da parte do poder, de reformar o modelo organizativo do país, quando as actuais circunstâncias nacionais e internacionais aconselham a repensar o presente” (3). Na realidade, do que JMN e os sectores conservadores da sociedade cabo-verdiana não querem ouvir falar é de reformas do sistema económico e político do país, a que uma verdadeira regionalização forçosamente obrigará, pois como facilmente se compreenderá, ela vai mexer com interesses instalados, das elites, dos grupos de pressão, dos agentes políticos e económicos, todos confortavelmente refastelados na poltrona da centralização. Agarram ao centralismo como um cão ao seu osso. Portanto para eles nada de protagonismo para S. Vicente e outras ilhas. Na realidade, muitos outros que não partilham desta visão centralista estão convencidos que o centralismo é a fonte actual do poder e a mãe de muitos dos problemas actuais de Cabo Verde.

JMN tem-se, portanto, desdobrado em esforços para diluir ou esvaziar o conteúdo do debate sobre a regionalização, após ter prometido a sua realização e a abertura de um Livro Branco. É por estes sinais inquietantes que o leitor comum pode confundir-se com essa insuficiente explicitação do pensamento do Onésimo Silveira, e indo mesmo ao extremo de nelas poder descortinar, quiçá injustamente, uma tentativa de aproximação conciliatória às dúbias intenções do governo, o que, a confirmar-se, voltaria a ser altamente comprometedor da credibilidade daquele político mindelense. Por conseguinte, é de toda a conveniência que o Onésimo Silveira evite esta similitude expressiva entre ele e o JMN em matéria de regionalização, ou que afaste as eventuais suspeitas da existência de uma aliança objectiva ou de um acordo implícito sobre o modelo de regionalização minimalista ou de compromisso, antes de qualquer debate, o que a ser verdade frustraria as pessoas que deram o corpo a este combate de cidadania. Todavia, desenganem-se os opositores se pensam que exista alguma divergência de fundo sobre a regionalização entre a maior parte dos regionalistas, incluindo Onésimo Silveira. Inclusivamente, até se pode conceber que determinados líderes possam vir a concluir que afinal determinado modelo que tinham defendido já não será o mais adaptável ao nosso circunstancialismo, mudando, por isso, de opinião, mas sem abdicar da sua crença na irreversibilidade da reforma. Não devemos ser dogmáticos nem sectários, pois costuma-se dizer que só os burros é que não mudam de opinião, pelo que estaremos abertos ao debate e a eventuais futuros compromissos, desde que haja honestidade intelectual na posição das pessoas.

Na realidade, defender, a priori, uma regionalização minimalista limitada a um formato meramente administrativo, que sintetizasse a linha dos actuais detractores da reforma, tentando assim definir de antemão os contornos do futuro debate, que deveria ser alargado e participativo, constitui uma tentativa de condicioná-lo e de antecipar as conclusões do mesmo, muito ao gosto dos partidos do poder de matriz centralista e autoritária. Esta atitude não facilitará a criação de uma plataforma de entendimento consensual sobre o modelo de descentralização e regionalização mais adequado à realidade cabo-verdiana, para a elaboração de propostas concretas sobre o futuro político, administrativo e económico de Cabo Verde. Pois, embora o aval de experiências bem-sucedidas no Mundo, não existe uma doutrina uniforme sobre a descentralização, nem verdades axiomáticas sobre esta matéria, muito menos teorias dogmáticas, comprovado está que o estudo e o planeamento de uma descentralização/regionalização envolvem uma série de variáveis, que são pertença da substância complexa e multiforme do problema, e que elas são do âmbito político, geográfico, demográfico, económico e histórico-cultural (3).

Sugiro, assim, ao Onésimo que clarifique melhor o seu pensamento, porque, como se costuma dizer, à mulher de César não basta ser séria, tem de parecer ser séria. Isto quer dizer apenas que pode este político estar a incorrer num risco involuntário e absolutamente desnecessário, que levará outros a murmurar: “Naquele país, falar de regionalização (política e administrativa) é quase um crime de lesa-pátria ou um acto de desobediência cívica à doutrina centralista do PAICV, partido que muitas vezes sente-se dono e polícia da consciência do país”.

Em todo o caso, e dando-lhe o benefício da dúvida, quero crer que, contrariamente ao JNM, aquilo que Onésimo propugna para Cabo Verde, em geral, e a ilha de S. Vicente, em particular, é a regionalização no seu significado conceptual mais amplo e mais completo: eleição de órgãos representativos e governativos próprios e certo grau de autonomia financeira e de decisão política. De resto, tem sido por demais evidente em todos os artigos já publicados sobre regionalização (Arsénio de Pina, Adriano Miranda Lima, António Pascoal Santos, Luiz Silva, da minha própria pessoa, e vários outros jovens autores como Aldirley Gomes) e da posição já expressa por vários políticos locais e nacionais, que o conceito envolve um carácter político e simultaneamente administrativo bem como uma autonomia que, citando Adriano Miranda Lima (1), “corresponderá à amplitude que for conferida à transferência de autoridade político-administrativa, que quanto maior é, mais efectiva torna a autonomia. Uma autonomia configura responsabilidades político-administrativas próprias no espaço jurisdicional de um poder local e circunscrita a certas áreas de governação, que excluem normalmente as que têm uma relação directa com a soberania e são da estrita dependência do governo central.”

Voltando ao princípio desta narrativa (1ª parte), vimos que a antiga administração colonial, já na sua fase final, pensou num figurino administrativo diferente para o arquipélago de Cabo Verde e chegou a indigitar um governador para o Grupo Barlavento, o que revela já na altura uma correcta percepção das consequências político-administrativas da descontinuidade territorial da colónia e da necessidade de uma resposta adequada e mais próxima dos interesses daquelas ilhas. O companheiro e conterrâneo Adriano Miranda Lima, que foi vizinho em Tomar do governador então digitado, Dr. Jerónimo Graça (falecido em 2011), confirma que ouviu directamente da sua boca o facto aqui referido.

É verdade que tal solução não corresponderia propriamente ao que hoje defendemos actualmente para o país – a regionalização – mas constituía certamente o primeiro lance de um olhar realista para os problemas do arquipélago. Na realidade, a iniciativa do governo do MPD nos anos 90 seguiu, em certa medida, a lógica subjacente ao projecto da administração colonial, e se não fosse abortada por questões de ordem ideológica, estaríamos hoje a desfrutar em todo o arquipélago do seu impacto socioeconómico e quiçá político. Todavia, na presente conjuntura, essa regionalização minimalista já está fora do contexto, ultrapassada no seu ‘timing’, na medida em que como referi precedentemente, a sua concretização actual só serviria para matar a ideia e o conteúdo da regionalização, servindo exclusivamente os interesses de uma oligarquia política e económica bem instalada no conforto do poder, que tudo fará para abafar qualquer ‘radiografia’ do país, debate e tratamento dos problemas candentes da sociedade cabo-verdiana contemporânea. Ontem como hoje, a solução dos problemas de Cabo Verde requer o equilíbrio entre o factor geoeconómico e o político “tout court”, o primado da racionalidade sobre a obtusidade mental. Nenhuma decisão sobre a regionalização deverá ser tomada sem uma ampla discussão envolvendo os principais actores e a sociedade civil. Tão pouco será possível introduzir esta reforma e as que vêm anexadas, sem as preceder de um debate sobre o acervo de mudanças profundas e necessárias que o país reclama. Pois a regionalização, mormente a minimalista, sendo parte da solução, não será de certeza a panaceia para os muitos problemas graves e crónicos que já assolam o país. (FIM)

PS: A experiência de regionalização em curso em Marrocos (5), da iniciativa e impulsionada pelo próprio rei (que não pode ser acusado de querer dividir o seu país), e já em fase avançada de implementação, prova ser uma reforma natural e que merece a nossa atenção, desmonta as inverdades e fantasmas que, infelizmente, alguns querem construir em torno da problemática. Esta reforma é já prova de maturidade política de um país como o Marrocos.

(1) LIMA, Adriano, “Descentralização Político-Administrativa (Entre a teoria e a realidade prática) – 1ª Parte”, Liberal Online, Fevereiro de 2012
(2) LIMA, Adriano, A Regionalização em Cabo Verde: Recentrar o tema na agenda Nacional. Liberal Online, Fevereiro de 2012
(3) Fortes Lopes, José, “Reacção do Movimento para a Regionalização de Cabo Verde aos recentes desenvolvimentos políticos em Cabo Verde”. Notícias do Norte & Liberal Online, de Outubro de 2012.
(4) La Régionalisation, une histoire de plus d’un demi-siècle. Association des Régions de France (A.R.F.) http://www.arf.asso.fr/histoire-du-fait-regional.
(5) La Commission Consultative de la Régionalisation (CCR), Maroc:
-http://www.regionalisationavancee.ma/PageFR.aspx?id=5;
-http://www.diplomatie.ma/Regionalisationavancee/tabid/220/language/fr-FR/Default.aspx;
-http://www.libe.ma/La-question-de-la-regionalisation-au-Maroc_a9519.html.
(6) http://noticias.sapo.cv/vida/noticias/artigo/1307828.html#showcomment

domingo, 30 de setembro de 2012

[0257] CONTINUAÇÃO DO TRABALHO DE ADRIANO MIRANDA LIMA SOBRE AS TROPAS EXPEDICIONÁRIAS EM CABO VERDE, NOS ANOS 40 DO SÉCULO XX

PRAIA DE BOTE chama a atenção dos leitores para o excepcional interesse histórico do conjunto de textos que teve início do post anterior. O que Adriano Miranda Lima aqui relata, fruto de situação privilegiada junto de antigos expedicionários, dificilmente poderá ser obtido noutro local. Ao amigo e colaborador, PB agradece a oferta que muito honra o blogue.


TROPAS EXPEDICIONÁRIAS PORTUGUESAS A CABO VERDE NO PERÍODO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
 

2 - Totalidade de forças mobilizadas

Adriano Miranda Lima
No post anterior, fizemos uma introdução a este tema, explicando as razões que levaram Portugal a guarnecer com elevados efectivos militares as suas ilhas atlânticas.

Vejamos agora alguns dados constantes da História do Exército Português (1910-1945), obra organizada sob a coordenação do general Arménio Nuno Ramires Oliveira, oficial que, por coincidência, serviu no comando militar de S. Vicente como capitão e major.

A organização militar, que devia ser estabelecida de acordo com o Decreto nº 29686, de 14 de Julho de 1939, acabaria por não ser efectivada em Cabo Verde. Assim, teve-se de recorrer ao envio de forças expedicionárias da metrópole para a sua defesa.

A ocupação das ilhas e a organização das forças foram sofrendo as adaptações que os efectivos iam permitindo. Uma das condicionantes foi a carência de material, em especial de artilharia. Mas em Julho de 1941 encontravam-se prontos a embarcar em Inglaterra com destino a Cabo Verde, 3 peças de artilharia 4,7", 3 jogos para plataformas e 450 munições. (este material diz respeito à artilharia de costa). As autoridades inglesas ofereceram ainda pessoal para instruir e montar estas peças.

Em 1941, foi criada na cidade do Mindelo, em S. Vicente, uma Bateria de Artilharia de Costa.

Em fins de Agosto de 1941, era transferida a título provisório, da cidade da Praia, em Santiago, para a cidade do Mindelo, em S. Vicente, a sede da Repartição Militar.

A evolução da guerra mostrou a urgência de criar um dispositivo defensivo na ilha de S. Vicente, pelo que foi ordenada a mobilização das seguintes forças:

Para a Ilha de S. Vicente:

- Comando Militar de Cabo Verde, sendo comandante o brigadeiro Augusto Martins Nogueira Soares, desde Agosto de 1941 até Dezembro de 1944;
- Comando do Regimento de Infantaria 23, integrando os batalhões seguintes;
- 1.º Batalhão expedicionário do Regimento de Infantaria 5 (Caldas da Rainha);
- 1.º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria 7 (Leiria);
- 1.º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria 15 (Tomar);
- Bataria de Artilharia de Costa 1;
- Bataria de Artilharia de Costa 2;
- Bataria de Artilharia Contra Aeronaves 9,4 cm;
- Bataria de Artilharia Contra Aeronaves 4 cm;
- Bataria de Referenciação;
- 2.ª Companhia de Sapadores Mineiros do Regimento de Engenharia 2;
    Apoiavam estas unidades as formações dos serviços militares seguintes:
- Parque de Engenharia;
- Tribunal Militar;
- Hospital Militar Principal de Cabo Verde;
- Depósito de Subsistência e Material;
- Laboratório de Análise de Águas;
- Depósito Sanitário;
- Secção de Padaria.

O conceito de defesa da ilha de S. Vicente consistia essencialmente numa sólida ocupação e, em caso de emergência, manter a posse a todo o custo das regiões de João Ribeiro e de Morro Branco e a cidade do Mindelo. Para tal, 2 batalhões ocupavam posições de defesa e 1 batalhão, reduzido, encontrava-se em posição de reserva.

O paquete "Colonial" fundeado no Porto Grande. O navio foi um dos que transportaram as forças expedicionárias - Foto fornecida por Luís Graça, filho de um expedicionário do BI 5
Esta imagem parece representar militares a serem transportados numa lancha entre o navio fundeado ao largo e o cais. Naquele tempo não havia cais acostável e do navio para o cais o transbordo era normalmente de bote ou “gasolina”, mas para grandes efectivos militares a opção teria de ser por um meio de maior dimensão como é uma lancha. No caso, seriam lanchas de carga e não lanchas militares de desembarque de forças para operações de lançamento de testa de praia - Foto fornecida por Luís Graça

Para a ilha do Sal:

- 1.º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria 2:
- 1.º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria 11;
- 3.ª Bataria de Artilharia Contra Aeronaves.

O Hospital Militar do Sal apoiava essas unidades.

O conceito de defesa da ilha do Sal, embora previsse a defesa das costas contra acções provenientes do mar, tinha como principal finalidade a defesa do aeródromo e a sua posse a todo o custo.

Na ilha de Santo Antão, a guarnição era constituída por forças destacadas da ilha de S. Vicente, normalmente uma companhia de atiradores reforçada do batalhão em reserva. Tinha por missão ocupar a povoação de Porto Novo, mantendo a posse da água de abastecimento e a vigilância do canal, em especial na zona correspondente ao Porto Grande de S. Vicente.

Na ilha de Santiago, na cidade da Praia, estava uma companhia de caçadores de praças de recrutamento local/regional, podendo eventualmente ser reforçada com meios atribuídos pelo Comando Militar de Cabo Verde, sediado em S. Vicente. Competia-lhe a defesa da cidade da Praia, como capital de Cabo Verde.

Com o fim da guerra mundial, regressaram à metrópole os efectivos expedicionários. O regresso efectuou-se progressivamente, sendo extintas as unidades, comandos e serviços ali criados. O regresso do Comandante Militar, brigadeiro Nogueira Soares, em Janeiro de 1945, e sobretudo a extinção do Comando Militar criado para o efeito, em 30 de Novembro de 1946, marcaram o final do reforço militar de Cabo Verde, embora várias comissões liquidatárias se tenham mantido pelo tempo necessário à conclusão das suas tarefas.

Continua…

Tomar, 26 de Setembro de 2012
Adriano Miranda Lima

sábado, 16 de janeiro de 2016

[1810] Novo livro sobre Santo Antão, da autoria de Silvino de Oliveira Lima

O autor, em foto do jornal "A Semana"
Enviados pelo nosso colaborador Adriano Miranda Lima, Praia de Bote publica o prefácio e os textos das badanas do novo livro de Silvino de Oliveira Lima, engenheiro e antigo ministro das Obras Públicas do primeiro governo da República de Cabo Verde. Silvino Lima, que nasceu em 1937 em Ribeira Grande de Santo Antão, é também autor de "Martinho de Lima Melo e Aniceta Gomes da Fonseca - Uma família antiga em sua teia genealógica". Os textos que ora reproduzimos, podem também ser lidos no blogue "Esquina do Tempo", AQUI

Prefácio de Adriano Miranda Lima

Adriano Miranda Lima
Apesar de eu ser natural de São Vicente, ou talvez por isso mesmo, o autor desta notável publicação encarregou-me de escrever o seu prefácio, alegando que “o meu coração bate forte por Santo Antão”. De facto, o meu coração bate forte, fortíssimo, pela ilha onde nasceu o meu pai e dois dos meus avós, o paterno e a materna, mas seria injusto que o chamamento umbilical fosse a única razão do meu sentimento. É que Santo Antão seduz pelos seus próprios méritos, pelos seus encantos naturais, pela sua beleza imponente, a que ninguém fica indiferente, cabo-verdiano ou visitante estrangeiro. Dir-se-á que a ilha se formou num feliz acaso em que as entranhas da terra aplacaram a sua raiva ígnea para permitir que o caos e a paixão escrevessem, em amoroso dueto, um poema que enche os olhos e cativa a alma. E o poema cósmico é exactamente o cartão-de-visita da ilha, esculpido na pedra com linhas a um tempo duras e majestáticas, suaves e enigmáticas, amorosas e enleantes.

Os seres que povoaram a ilha não demoraram a entrar em sintonia com a natureza envolvente, a sentir o ímpeto da sua força telúrica e o sopro do seu mistério. De rija têmpera e coração generoso, o homem de Santo Antão é de uma singularidade única na terra cabo-verdiana, porventura o intérprete mais perfeito do sentimento que dá pelo nome de morabeza. Assim, a terra e as suas gentes são, pois, um compósito de virtudes integradas que tudo tem para que este torrão cabo-verdiano possa auspiciar um futuro mais próspero e à altura dos seus pergaminhos.

Este livro consiste num exaustivo, abrangente e bem organizado ensaio sobre o que Santo Antão representa, sobre o que no passado lhe frustrou a caminhada para o futuro, e sobre o que é possível empreender para vencer os escolhos da sua trajectória e lançar as linhas estruturantes de uma outra arquitectura do futuro. O autor utiliza na sua exposição uma linguagem de grande requinte literário, com pendor de poesia quando revisita a história da ilha e se enternece com a sua paisagem sublime. Mas a mesma linguagem de roupagem lírica logo se transmuda, sem contudo perder sua musicalidade, em verbo mais rectilíneo e incisivo de objectividade quando analisa a problemática da ilha e aponta um conjunto de soluções para que ela consiga atingir um patamar de desenvolvimento mais consentâneo com as suas potencialidades. Ele nada deixa ao acaso na sua abordagem, e não se coíbe de denunciar os atavismos e erros do passado que impediram Santo Antão de ser peça relevante no tabuleiro em que se jogou o futuro colectivo, quer enquanto colónia quer já no regime soberano. É com esta resolução que alerta para a necessidade de um arrepiar de caminho e convoca todas as pulsões anímicas para o trabalho de mudar a fisionomia da ilha.

Conforme o que é delineado nestas páginas, elevar Santo Antão ao estatuto que merece é tarefa meritória e justa, mas de manifesta exigência e complexidade, porque implica uma autêntica reconfiguração do espaço geográfico, com projecção e diversificação territorial da sua economia a uma escala sem precedentes, acarretando em simultâneo uma importante alteração do dispositivo autárquico. Se tudo isto representa em linhas gerais o eixo da concepção, a roda da respectiva engrenagem, condição imprescindível para que tudo se mova, só poderá configurar-se nas populações a transferir internamente ou a regressar à sua ilha de nascimento mediante o incentivo de novos desafios. Ou seja, o querer das gentes da terra será tão determinante como a própria alavanca financeira.

Ciente de que foram os desequilíbrios estruturais e demográficos que acentuaram o empobrecimento da ilha, o autor entende que, “lançadas as bases para a arquitectura de uma nova e efectiva economia, Santo Antão deixará então de ser um grande problema e passará a constituir, efectivamente, um dos pilares mais consistentes e promissores da economia nacional”. É um facto. Sem dúvida que estamos perante um desafio que ao mesmo tempo estimula e enobrece quem nele se engaje. De resto, é impossível ficar indiferente a esta pérola do pensamento intelectual que o ilustre santantonense nos oferece.

Poderá haver quem considere uma utopia o que aqui se preconiza, dada a grandeza da obra e os custos financeiros que envolve, além do efeito pernicioso de uma inércia que se instalou nos espíritos nas últimas décadas, corroendo o ânimo e gerando o conformismo. Mas o autor confia em que o efeito conjugado das novas tecnologias, a maior qualificação das actuais gerações e os impulsos da modernidade, possa ditar a diferença entre o sonho realizável e a mera utopia. Bom filho da terra, entendeu dever contribuir com este precioso legado de ideias para o futuro da sua ilha, nem que se tenha de procurar “o financiamento à luz do facho”. Sem dúvida que o conceito e a metodologia aqui expressos são por si só um poderoso aliciante para mobilizar as vontades e atrair o investimento.

Cá por mim, o meu estimado primo mete numa garrafa o mapa de um tesouro e lança-a ao mar do tempo, na esperança de que alguém a recolha e lhe dê o devido uso. Comungo inteiramente da sua fé porque acredito que a geografia e o homem podem, em sintonia, conjugar bem a palavra do futuro para tornar grande a felicidade dos cabo-verdianos.

Textos para as badanas do livro

Decorridas as quatro primeiras décadas de história de país soberano, o percurso feito já dá para perceber quanto foi compensadora a mudança de regime tendo em conta os enormes progressos alcançados nos vários campos de actividade, desde o económico ao social. Todas as ilhas com as suas diferenças, mas todas revelando progresso, comparando a situação inicial com o quadro oferecido pela situação actual. Podia-se ter ido mais além? Certamente que podia. Mas exigir mais poderia incorrer na injustiça de ignorar a forte inércia que foi necessário vencer para que se começasse a experimentar as vantagens trazidas pelo novo regime que, progressivamente, foram crescendo à medida da experiência administrativa que foi sendo adquirida e a socialização do conhecimento que, ano a ano, foi aumentando de forma espectacular.

Contudo, agora que a mesma inércia já pouco conta e é exponencial o capital de experiência e conhecimentos adquiridos, da mesma forma como, orgulhosamente, se sente os progressos já alcançados, também, humildemente, se deve colocar esta questão: estará sendo feito tudo ao alcance para levar mais alto o nível das realizações, ou está-se a atropelar o progresso com erros que podem ser evitados? Questão legítima, porque agora a inércia a vencer é outra surgindo num quadro social que evolui rapidamente levantando problemas sérios de gestão para compatibilizá-lo com as necessidades casuísticas do desenvolvimento. E neste caso, como estará cada ilha se comportando para dar resposta aos desafios colocados nesse novo quadro?

Aqui o foco vai estar inteiramente centrado na ilha de Santo Antão que, não obstante a condição de segunda em extensão territorial e terceira em população, está colada à cauda do crescimento por capita com o pior rácio do contexto nacional, quando isso sequer é uma surpresa. E explica-se por várias situações delicadas, como o processo de desenvolvimento baseado na exclusiva exploração dos aquíferos naturais que põe numa relação inversa os avanços na melhoria das condições de vida das comunidades com a degradação das áreas de regadio, denunciando um desenvolvimento insustentável que pode perigar de rotura o estado do meio ambiente. Também, entre muitas outras situações, pode-se ainda relevar a questão da segurança, já que a maior concentração de actividades se encontra numa região muito vulnerável a eventos naturais violentos. O maior desse tipo ocorreu há 65 anos, muito tempo para induzir nas pessoas que aí é irrelevante essa questão, o que complica, sobretudo para gerir a contenção de iniciativas ousadas no domínio da utilização de solos para fins residenciais. Um grande problema? Obviamente que é, porque as ameaças globais que derivam das alterações climáticas tornam imprevisível o pico a alcançar no próximo evento.

Recomenda-se então leitura atenta sobre a visão aqui desenvolvida para melhor responder à construção do futuro em Santo Antão.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

[0160] "Meu falucho", soneto de Adriano Miranda Lima

Adriano Miranda Lima
O PRAIA DE BOTE que, como se sabe é um espaço cabo-verdiano assumido e reivindicativamente marítimo, fica mais que contente quando lhe oferecem petiscos como este que AML lhe enviou para publicação. O sentimento que fez com que o coronel-escritor-poeta tenha tido vontade de escrever o presente poema, teve-a o administrador do blogue quando viu o "Carvalho" jazer no cais acostável em 1999, como cão lazarento votado ao abandono. Será uma história, com contornos políticos nebulosos (ainda por cima britânicos), para contar noutra altura. Limitemo-nos, por enquanto, a ilustrar o "falucho" de Adriano Miranda Lima com a dramática foto de há 12 anos do palhabote que tantas vezes cruzou o Mar d'Canal.



Meu Falucho

Cavername é o que resta de ti, no rochedo a apodrecer,
Navio de outra era, nostálgico veleiro.
Há quanto tempo já as ondas te não embalam inteiro?
Em sonhos ainda te vejo a todo o pano, ao entardecer...

Mas tu também sonhas às vezes, eu sei...
Se o vento sopra de feição, não resistes ao incitamento
Das ondas, das toninhas e das estrelas do firmamento,
E retomas as rotas centenárias do mar da velha grei.

Ainda vives imanente nas pupilas dos meninos da beira-mar,
Herdeiros da genética memória das lides marinheiras,
Agora teus tripulantes no cavername das suas brincadeiras.

E continuas vivo nas histórias do povo insular,
Meu falucho, modesto barquinho de carga e passageiro.
Só eu sei quanto desejas voltar a um estaleiro.


Foto Joaquim Saial - "Carvalho", palhabote do armador Henrique Ferro (clique para ampliar)

segunda-feira, 6 de julho de 2020

[4636] O funeral do Totói, antigo craque do Mindelense e velha glória do União de Tomar, visto por Adriano Miranda Lima

Praia de Bote agradece ao amigo Adriano Miranda Lima este texto sobre uma figura estimável dos nossos dois países que mesmo na morte é mais um motivo para nos unir.

Totói - Foto Rádio Hertz - Tomar (pormenor)
Tendo falecido na noite do passado dia 3 de Julho, aos 81 anos, foi hoje [5 de Julho de 2020] a enterrar o jogador Totói, de seu nome oficial António Eduardo Fortes, antigo craque do Mindelense e velha glória do União de Tomar.

O corpo esteve esta manhã em câmara ardente na Igreja de Santa Maria do Olival, onde foi celebrada missa, com a presença de centenas de tomarenses, dentro e fora do templo, antes do longo cortejo fúnebre que iria organizar-se em direcção ao cemitério local, em Marmelais, arredores da cidade. A cidade não olhou para o intenso calor e esteve significativamente representada na hora do adeus ao seu ídolo.

O pároco foi de exemplar eloquência na exaltação das qualidades humanas, morais e cívicas do falecido, assim como do precioso legado que deixa à cidade como futebolista e como técnico dos vários escalões e camadas de formação do clube local. Interpretando o sentimento geral da cidade, foi de particular veemência na descrição das virtudes do Totói como ser humano, destacando a sua grande capacidade de relacionamento e a simpatia e naturalidade com que tratava toda a gente, independentemente da idade e condição social. Aliás, bastava olhar para os semblantes carregado de quantos assistiram às exéquias fúnebres, para se perceber que o sacerdote não falava em vão.

Durante o acto religioso, a filha mais velha usou da palavra de forma emotiva, recordando o pai extremoso e o dedicado chefe de família, dizendo que até ao fim da sua existência ele será sempre o seu fiel guia, inspirador e companheiro.

O cortejo fúnebre entre a Igreja e o Cemitério levou à frente uma comitiva do União de Tomar, com representação dos vários escalões do clube. O curioso foi ter-se visto, logo no início do percurso, uma camisola da Selecção de Futebol de Cabo Verde aberta e pendurada numa haste ladeando a estrada. Pareceu-me um gesto anónimo, pois não vi que alguém estivesse identificado com a iniciativa, mas interpretei-o como querendo sinalizar que o Totói era um homem de coração grande e ancorado em todos os lugares. De facto, acredito que até ao fim da vida ele nunca deixou de ser um mindelense autêntico, do mesmo modo que soube ser um tomarense dedicado e comunitariamente envolvido e comprometido. A popularidade de que gozava não era produto de qualquer artifício publicitário, resultava simplesmente da sua forma natural e autêntica de ser e de se dar.

No funeral, estiveram presentes, entre outros nomes ligados ao Futebol, o treinador Manuel José, seu compadre e antigo colega no União de Tomar, e também o actual técnico do clube Santa Clara, João Henriques, natural de Tomar. 

Uma imagem que guardarei sempre do Totói reporta-se ao já longínquo ano 1965, quando, numa noite dos princípios de Novembro, pela primeira vez o vi em Tomar, sem, no entanto, ainda o conhecer pessoalmente. Ia na rua Infantaria 15, impecavelmente vestido, trajando um elegante fato e sobretudo. Naquele tempo, havia certo primor com a indumentária. Entretanto, saí de Tomar, com destino a Angola, e só alguns anos volvidos regressaria à cidade, estabelecendo então com ele uma grande amizade, fomentada naturalmente pela nossa dupla condição de mindelenses e adeptos fervorosos do futebol. 

Descansa em paz, Amigo Totói. E até sempre!

Tomar, 5 de Julho de 2020
Adriano Miranda Lima