domingo, 12 de janeiro de 2014

[0681] Os postais são-vicentinos de Miss Boden

Quem era Miss Boden? É difícil sabê-lo, embora não impossível, até porque conhecemos o número da Calçada da Estrela (Lisboa, Portugal) do endereço que apagámos nos postalinhos. O que é certo é que a senhora, inglesa ou de apelido inglês, recebeu regularmente do Mindelo por 1906/1908 postais com textos telegráficos de um/uma correspondente da dita nacionalidade ou que, pelo menos, lhe escrevia em inglês - que, sendo português, dificilmente falharia três vezes a cedilha de "calçada". 

No já nosso conhecido de Fonte de Cutu, o remetente exagera, dizendo que eram as únicas (quatro) árvores da ilha. O segundo aqui mostrado, diverte-nos pela designação de "Julian Valley", escamoteando que era sítio de "umbigade" (pronunciemos em inglês a falsa palavra britânica)... E o terceiro, do Djéu e etc., parece responder a outro que Miss Boden enviara para o Mindelo.  Coisas do final da monarquia que cheiram a carvão e a cabo submarino que tresandam...









sábado, 11 de janeiro de 2014

[0680] Ontem na Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, Portugal) foi tempo de Cabo Verde

Aspecto do público - Foto Joaquim Saial

A tarde estava fria em Lisboa e cerca das 18h00 as luzes acesas em todo o edifício da Fundação convidavam à entrada. Numa sala do piso inferior, preparava-se o lançamento do livro de 792 páginas "Entre África e a Europa - Nação, Estado e Democracia em Cabo Verde" (29,90€), organizado por Cristina Montalvão Sarmento (portuguesa, doutorada em Ciência Política) e Suzano Costa (cabo-verdiano que está a fazer o seu doutoramento na mesma área na Universidade Nova de Lisboa). Publicado por Edições Almedina (Coimbra) com o apoio da FCG, da Fundação Millennium e do Observatório Político, o trabalho compila o contributo de 25 autores cabo-verdianos (ou que fazem investigação sobre o país), residentes nas ilhas ou na diáspora. Eis a lista dos seus nomes e respectivos contributos:

Prefácio - Adriano Moreira
Introdução - Cristina Montalvão e Suzano Costa

Gabriel Fernandes - Nação e Dupla Inclusão: entre o Pragmatismo e o Saudosismo
José Luís Hopffer Almada - Cabo Verde - Regime de Partido Único e Consolidação Democrática
José Carlos Gomes dos Anjos - De Políticos-literários a Políticos-técnicos: a Perda da Imaginação Política e o Mimetismo Estatal Pós-Colonial em Cabo Verde
Victor Barros - Cabo Verde: os Avatares dos Discursos Identitários e a Imaginação dos Espaços de Pertença
Odair Bartolomeu Varela - Cabo Verde: A Máquina Burocrática Estattal da Modernidade (1614-1990)
Daniel dos Santos - Cabo Verde: uma Vaga, duas Transições Políticas
Roselma Évora - Cabo Verde: Democracia e Sistema de Governo
Edalina Rodrigues Sanches - Institucionalização do Sistema Partidário e Democratização em Cabo Verde (1991-2011)
Suzano Costa - Sociedade Civil, Estado e Qualidade da Democracia em Cabo Verde: Entre a Letargia Cívica e a Omnipresença do Leviathã
Leão Jesus de Pina - Tendências de Cultura Política, Democratização e Esfera Pública
Ângela Sofia Benoliel Coutinho - O Recrutamento Ministerial em Cabo Verde (1975-2006)
Crisanto Barros - Notas Sobre o Recrutamento da èlite Político-Administrativa Cabo-Verdiana Após a Independência
Eurídice Furtado Monteiro - Quem Governa? Da Ausência à Emergência de Mulheres no Campo Político em Cabo Verde
Silvino Lopes Évora - Liberdade de Imprensa e Pluralismo Democrático em Cabo Verde:Galgando Margens e Fronteiras
Daniel Medina - Os Media e a Comunicação Política em Cabo Verde
Aquilino Évora - A Literartura coomo Estética de Demarcação e Estratégia de Afirmação Diplomática em Cabo Verde
José Pina Delgado - Os Cruzamentos entre a Política Migratória Cabo-Verdiana para a Europa e a Política Migratória para a África Ocidental: Racionalidade, Incoerência ou Inevitabilidade de uma Democracia em Consolidação?
Alena Vysitskaya Guedes Vieira e Laura C. Ferreira-Pereira - Cape Verde and the European Union: The Role of Portugal in the Creation of a Special Partnership
Abel Djassi Amado - Cape Verde: The Illegible State and Lack of Democratoc Control
André Corsino Tolentino - A Difícil Integração Africana
Cláudio Alves Furtado - Cabo Verde e a Integração Regional na África do Oeste: Diossonâncias Discursivas e Identitárias
Maurino Évora - Regimes de Segurança e Estados Virtuais: uma Incursão ao Regionalismo Securitário Oeste-Africano
João Estêvão - Cabo Verde entre a Integração Económica Internacional e a Integração Regional: Dilemas e Conradições
João Resende-Santos - Developement as Managing Vulnerability: Cape Verde in the World Economy
Djalita Fialho - Cape Verde's LDC Trajectory: From Admission to Graduation (1970-2007)

Paula Valente, Editora Almedina - Foto Joaquim Saial
A sessão iniciou-se com a intervenção de Paula Valente, da Editora Almedina, que fez a apresentação dos organizadores e uma pequena abordagem ao livro. Frisou nomeadamente o facto de o Dr. Adriano Moreira ser um investigador várias vezes publicado pela editora e o agrado da mesma pela elevada qualidade dos textos que a presente compilação apresenta, sobretudo de jovens investigadores das ilhas.

Eduardo Vera-Cruz Pinto - Foto Joaquim Saial
Seguiu-se o Professor Doutor Eduardo Vera-Cruz Pinto (nascido em Angola mas descendente do famoso senador cabo-verdiano do mesmo apelido), director da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa que com o seu habitual à-vontade dissertou sobre as relações internacionais de Cabo Verde, país charneira entre a África e a Europa, do encanto das duas línguas das ilhas que não se anulam e pelo contrário se completam, do facto de o ensino ter vindo a ser uma métrica da identidade cabo-verdiana e também do orgulho que a faculdade que dirige possui em ter tido como alunos alguns dos principais políticos cabo-verdianos, entre os quais o actual Presidente da República, Dr. Jorge Carlos Fonseca. Eduardo Vera-Cruz Pinto protagonizou dois dos momentos mais divertidos da cerimónia. Num deles, exemplificando a simpatia dos cabo-verdianos e os seus fortes abraços ("quel braça", como se diz em crioulo) revelou que por usar os seus óculos no bolso do casaco já ficou com alguns inutilizados quando patrícios o envolveram em fortes amplexos de cumprimento... Noutro caso, para demonstrar que no tempo de partido único apesar de tudo se protestava, contou uma stóra que alguém lhe referiu sobre um funcionário dos correios do Mindelo que indo devagar no seu automóvel pela velha Rua do Telégrafo viu uma velhota que estava a atravessar uma passadeira de peões, recentemente implantada. Ao fim de muito tempo, com a senhora quase no mesmo sítio e na contingência de chegar tarde ao trabalho, o homem perguntou-lhe porque não apressava um pouco o passo. Retorquiu ela: "A culpa é do Governo que pôs aqui esta passadeira mas se esqueceu do corrimão..."

Adriano Moreira - Foto Joaquim Saial
Foi então a vez do Professor Dr. Adriano Moreira que começou por enaltecer a figura do Dr.  Almerindo Lessa e sua dedicação científica e pessoal a Cabo Verde. Lembrou depois a sua viagem a todas as ilhas, em Agosto e Setembro de 1962, na qualidade de ministro do Ultramar, inclusive a de Santa Luzia onde chegou quase à deriva por o barco que o transportava se ter avariado antes da chegada. Tal como Eduardo Vera-Cruz havia referido, lembrou o facto de em Cabo Verde a noção de Nação ter precedido a de Estado. No resto do seu discurso acentuou a tónica de um Cabo Verde capaz de ser o elo entre a África e a Europa, numa comunhão com Portugal, decerto benéfica para ambos os países, na procura de uma Euráfrica que poderia por exemplo ter reflexos na articulação entre os países do Atlântico Norte e Sul no combate à criminalidade marítima.

Suzano Costa - Foto Joaquim Saial
Por fim, Suzano Costa e Cristina Montalvão Sarmento explicaram sinteticamente o livro e fizeram os agradecimentos da praxe, em particular aos patrocinadores do livro e à FCG que cedeu a título gracioso a sala que se encontrava completamente cheia de público. Ali se podiam ver, entre muitas outras figuras conhecidas de Portugal e Cabo Verde, Maria Barroso, Almeida Santos, a embaixadora de Cabo Verde, Dr.ª Madalena Neves, Moacyr Rodrigues (que fez companhia ao Praia de Bote), Celina Pereira, Filinto Elísio, Carlota de Barros, Helena Benrós, Rui Machado, Gumercindo Chantre, Guilherme Chantre e António Castilho Semedo.

Cristina Montalvão Sarmento - Foto Joaquim Saial

Foi de facto um final de dia sabe comunhão cabo-verdiana em que os aptos oradores intercalaram a erudição de circunstância com a boa disposição, em sala repleta (o que, diga-se, não é muito habitual, no que concerne a obras do género). E ainda por cima numa sessão que começou a horas (outra raridade) e acabou no momento certo, cerca de uma hora depois. Seguiram-se os cumprimentos e os autógrafos do uso, mas a reportagem do Praia de Bote teve de sair porque ainda ia assistir a uma palestra sobre arte sacra em Almada. Contudo, parece-nos que os nossos leitores, em Cabo Verde, Portugal e noutras partes do éter internético ficam com uma imagem aproximada no que ali se passou.

Terminamos com a stóra desconhecida do dia. Como dissemos acima, o livro custa 29,90€. O nosso amigo António Castilho Semedo está a pagar e diz para o lado: "Bô ta dá 30 euro e bô ta recebê deztom..."

Embaixadora de Cabo Verde. Dr.ª Madalena Neves - Foto Joaquim Saial

Membros da Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde e Celina Pereira - Foto Joaquim Saial

Adriano Moreira à conversa com Almeida Santos - Foto Joaquim Saial

Aspecto da mesa - Foto Joaquim Saial

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

[0679] A cara que guarda o Porto Grande

Foto José Carlos Marques
É o "monte". Não há outro como ele. Se o Monte Cara se desmoronasse, o melhor era o Mindelo mudar-se para Santa Luzia que a cidade perdia toda a graça e já não valia a pena existir ali. É a ultra-hiper-suprema maravilha cabo-verdiana (imediatamente abaixo dela está a Praia de Bote, claro!...), deixando a milhas (marítimas ou terrestres, como se queira) todas as outras que o país tem. Guarda do Porto Grande e seu deus protector, é motivo de bastos souvenirs e variadas mornas. Enfim, os mindelenses amam-no, fazendo parte de todas as famílias da ilha, espécie de avô sábio ao qual se pede conselho ou para o qual se olha em momentos de aflição. Mas ponto final nos elogios que o leitor se começa a fartar de tanto encómio...

Almirante Horatio Nelson
Praia de Bote, que já estava a par do seu nominha de "Monte Washington" (designação que em 1917 ainda aparece no jornal americano "Hyannis Patriot" de Massachusetts e até mais tarde em postais ilustrados como no que abaixo se pode ver, de 1922), acaba de descobrir que o britânico e heróico almirante Nelson também foi achado parecido com a horizontal face. E portanto aqui fica a frase sobre a "montanha Cara". Está a coisa na revista "Occidente" de 1 de Março de 1891, em longo artigo alusivo à nossa ilha, da autoria de Manuel Barradas.



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

[0678] "Dois séculos de história de corsários na Ribeira Grande de Santiago", colaboração inédita de Nuno Rebocho - VEJA E COMENTE TEXTO ANTERIOR, DE ARSÉNIO DE PINA

Nuno Rebocho
Nuno Rebocho ofereceu ao Praia de Bote este seu texto inédito e muito recente, início de mais longo trabalho sobre a pirataria em Cabo Verde, nomeadamente na Cidade Velha, Ribeira Grande de Santiago, na ilha deste nome. O texto está também publicado no blogue CIDADE VELHA 1462. As imagens de corsários foram colocadas por Pd'B.


Na história da Cidade Velha, antiga Ribeira Grande (cidade da ilha de Santiago, Cabo Verde), registam-se pelo menos 18 ataques de corsários (ou piratas) de diferentes nacionalidades: franceses, ingleses, holandeses, turcos, mas também castelhanos (espanhóis) e portugueses.

O abrir destas “hostilidades”, justificadas pela importante riqueza acumulada na cidade de Santiago nos séculos XVI e XVII, coube aos castelhanos, que intentavam pressionar a coroa de Lisboa a entregar-lhes o arquipélago das Canárias: em 1475, atacaram a Ribeira Grande, aprisionando o seu primeiro capitão-donatário, António da Noli, levado para a Andaluzia.

Francis Drake
Os próprios portugueses não se coibiram de participar na sequência de pilhagens, a pretexto de um duvidoso irredentismo: em Janeiro de 1583, forças supostamente fiéis a D. António, Prior do Crato (que se reclamava herdeiro da coroa de Portugal e, como tal, a disputava a Filipe II de Castela), desembarcaram na ilha de Santiago e pilharam a Ribeira Grande – logo depois da ilha de Fogo, que ocuparam durante algum tempo. Do saque nada, ou quase nada, resultou em benefício do pretendente da coroa – os homens, comandados por Emanuel Serradas, apoderaram-se de quanto podiam.

É no período entre 1560 e 1585, no espaço de 25 anos, que se situam os mais insistentes ataques à cidade de Santiago – 7 ataques, perpetrados principalmente por franceses e ingleses, que sobretudo afrontavam o império hispânico, as também houve de turcos e holandeses. É nesse quadro que surgem as acções de Drake (El Draque, lhe chamavam os castelhanos). Em parte em consequência das sucessivas incursões corsárias – que portugueses e espanhóis chamavam de “piratas”, embora também por seu turno as cometessem contra os domínios das coroas francesa e britânica – a riqueza e importância da Ribeira Grande foram minguando. E por completo desaparecem em 1712, quando a velha cidade foi incendiada e arrasada por Cassard. Depois dessa data, a Ribeira Grande deixou de ter qualquer interesse para os corsários, pelo que praticamente deixou de ser um alvo.

Jacques Cassard
O que atraiu os corsários a Santiago foi o tráfico negreiro – a Ribeira Grande ficou ligada por esta via aos começos do negócio de escravos em Inglaterra, facto que em geral é silenciado pela púdica historiografia britânica, que procura minimizar o envolvimento inglês no tráfico de escravos. Para os corsários britânicos, o rapto de escravos era tão valioso como o saque do ouro que os atraiu aos mares das Índias Ocidentais. 

Os corsários, que recebiam dos seus soberanos a “carta” que os legitimava para o ataque e pilhagem de embarcações com bandeira de nações inimigas bem como para a devastação dos seus territórios, tinham espaço de manobra no próprio arquipélago de Cabo Verde, onde algumas ilhas estavam então quase desabitadas e desarmadas. Sobretudo nas ilhas do Maio e de S. Vicente encontravam eles “porto seguro”, onde fundear e fazer aguada e de onde partiam em “raides” sobre as restantes ilhas. Particularmente, no Maio, onde achavam o indispensável sal para a conserva de carnes e para a curtimenta, sobretudo os ingleses tiveram uma base corsária que fez desta ilha a “Tortuga” da costa africana. Ali ancoraram Drake, Lovell, Hawkins, Shirley, entre outros.

Anthony Sherley
Também consequência da acção corsária, jazem nos fundos marítimos centenas de naus, fragatas, corvetas, patachos e urcas, metidos a pique pelos flibusteiros, muitas vezes levando no bojo os escravos acorrentados que neles eram transportados.

A importância da ilha do Maio e a defensão de Ribeira Grande  

Estrategicamente, a ilha de Maio servia de base para a ação corsária. Chegaram a contar-se aí (há documentos históricos ilustrativos) 56 velas! Buscavam aguada em Maio, que dispunha de sal abundante (chegou a pensar-se em entulhar as suas salinas para dificultar o corso), madeirame e carne de reses deixada ao abandono – é essa a origem de uma iguaria gastronómica local típica, a txacina. 

A falta de proteção militar (o seu forte surgiu muito mais tarde) e a pouca população beneficiaram o corso, dando origem ao nome da sua principal localidade: Porto Inglês. A grande proximidade de Santiago em muito contribuía para fazer de Maio a retaguarda dos corsários (que S. Vicente e Sal também foram, mas em muito menor escala).

Jean Fleury
Foi no reinado de Filipe II de Espanha que se realizaram obras de defensão de Ribeira Grande: devido a estudos de Diego Flores de Valdez, importante arquiteto militar gaditano, avançou-se para a construção da imponente Fortaleza Real de S. Felipe, rodeada de um conjunto de fortins e baluartes, enquanto se implantavam facheiros (Monte Facho) para estabelecer um sistema de avisos luminosos (fogueiras) entre Maio-Praia-Cidade Velha-Fogo, sempre que necessário. Ao mesmo tempo, reorganizou-se por um sistema de milícias toda a defesa da ilha de Santiago – este complexo defensivo decaiu nos últimos 30 anos de poder filipino, em particular no reinado de Filipe IV de Espanha.

As defesas terrestres levaram que os corsários, agora ao alcance das colombinas e dos berços (peças de artilharia para o tempo muito avançadas e que obrigaram à utilização de bombardeiros italianos, considerados especialistas nesta artilharia), passassem da pilhagem de barcos feita nos portos para os ataques terrestres a fim de silenciar a Fortaleza. Os desembarques eram especialmente efetuados na Praia e em S. Martinho Grande (Cadjetona), percorrendo as hostes a pé a distância que mediava para Ribeira Grande. Mudou, portanto, a natureza das operações militares.

Ataques corsários a Cabo Verde


Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha)
Quando, em 1580, houve a união da coroa ibérica numa só cabeça (a de Filipe II de Espanha), os ataques corsários a Cabo Verde ganharam novo fôlego, já que a unificação ibérica legitimava os seus ataques, tanto mais que invocavam não se subordinarem ao Papado de Roma para, desse modo, porem em causa o Tratado de Tordesilhas - que então repartia o mundo “descoberto” por Portugal e Espanha, agora unificados. Se até então esses ataques eram esporádicos, a partir dessa data tornaram-se sistemáticos, obrigando o Reinado a profundas reformas militares e levando à decadência e destruição da que foi uma riquíssima metrópole, a Ribeira Grande de Santiago.

A ação dos corsários teve particular incidência nas águas de Cabo Verde nos sécs. XVI e XVII – muito mais do que se verificou nas Caraíbas (Tortuga) –, pois pelo arquipélago cabo-verdiano passava então o grande comércio que rumava tanto para as Américas, como para a Índia, a África e a Europa. Os barcos desse comércio transatlântico atraíam a cobiça e a guerra de corso: Cabo Verde era, por essa época, uma encruzilhada a ter bem presente.

Criou-se - despropositadamente - a fama das Caraíbas por influência do imaginário hollywoodesco, com a utilização de diversos recursos, como seja o cinema, a novela e a BD. Deste modo, aquilo que era historicamente falso, tornou-se uma “realidade” – exemplo de que uma mentira insistentemente repetida se converte em verdade (Karl Marx).

Um dos primeiros ataques, conduzido por Serradas, que até foi desencadeado pelos portugueses, partidários do Prior do Crato, que disputavam o trono de Portugal aos Filipes – em 1582. Houve uma aliança entre as pretensões do Prior do Crato (com base na Ilha Terceira, Açores) com os ingleses, inimigos dos Filipes, que - por intermédio de Francis Drake - atacaram as ilhas de Santiago e do Fogo. No entanto, Drake foi atraído para os mares de Cabo Verde por seu primo (um dos fundadores da frota que derrotou a espanhola “Invencível Armada”), Sir Charles Howard.

Foi a ação de corso, verdadeiro bloqueio dos principais portos insulares, que determinou grandes obras de defesa do arquipélago e levou (em grande medida) à sua decadência, a par da deterioração do comércio nas costas da Mina e da Malagueta e nos Rios da Guiné – desencadeada muito por conveniência dos “levantados” e dos chamados cristãos-novos. Ingleses, franceses, portugueses, holandeses, dinamarqueses e até turcos participaram muito ativamente nesta guerra de corso.

Cronologia dos ataques à Ribeira Grande

1475 – Ataque de uma frota castelhana (25 navios), comandada por Carlos Valera. A coroa de Castela tenta apoderar-se da ilha de Santiago. António da Noli é aprisionado e levado para a Andaluzia. O incidente acaba com a permuta entre as coroas de Portugal e de Castela dos arquipélagos de Cabo Verde e das Canárias.
1524 – Primeira acção conhecida de corsários franceses (Jean Florin, 1) em águas de Cabo Verde.
1542 – Corsários franceses atacam e pilham a cidade da Ribeira Grande.
1544 – Novo ataque de corsários franceses à cidade da Ribeira Grande.
1560 – Primeira acção conhecida de corsários ingleses (John Lovell, 2): Ribeira Grande assaltada e saqueada. No mesmo ano, outro corsário inglês, George Fenner, afronta a cidade de Santiago.
1562 – Outro corsário britânico, John Hawkins (3), ataca ao largo da Ribeira Grande.
1565 – Reaparece John Hawkins nas águas de Santiago.
1566 – John Lovell regressa aos mares do arquipélago.
1567 – Primeiro ataque de Francis Drake (4) em Cabo Verde.
1578 – Acções corsárias de Francis Drake, comandando então cinco navios, no início da sua viagem de circum-navegação à volta do Mundo.
1583 – Em Janeiro desse ano, partidários de D. António, o Prior do Crato, comandados por Emanuel Serradas (5), tomam e saqueiam a Ribeira Grande de Santiago.
1585 – Francis Drake, com uma força de cerca de 1000 homens, desembarca em S.Martinho, durante a noite percorre a distância que separa da Ribeira Grande, atacada na madrugada de 17 de Novembro. A população já abandonara a cidade e o saque não terá sido o que os corsários esperavam: por desforra, tudo rapinam, até os sinos das igrejas, e incendeiam Ribeira Grande.
1596 – Mais outro corsário britânico, Anthony Shirley (6), ataca a cidade de Santiago.
1598 – Primeira acção conhecida de corsários holandeses nas águas de Santiago, atacando e saqueando a Ribeira Grande.
1604 – Corsários franceses atacam de novo a Ribeira Grande.
1628 – Incursão de corsários holandeses na Ribeira Grande – são derrotados.
1673 – Corsários turcos atacam as imediações da Ribeira Grande e roubam gado.
1676 – Nova acção de corsários turcos.
1712 – A 5 de Maio, o corsário francês Jacques Cassard (7), comandando 12 navios, depois de desembarcar na Praia (na baía da Praia Negra) desfere violentíssimo ataque à Ribeira Grande que é totalmente arrasada, quase desaparecendo do mapa. Cassard ocupa uma boa parte da ilha, fugindo o bispo (D. Francisco de S. Agostinho) para o interior, Órgãos, de onde lidera a resistência e incentiva o contra-ataque. Temerosos, os corsários batem em retirada, levando tudo o que podem – até os sinos da sé e relíquias religiosas, mobiliário, tudo. O que não foi levado para bordo, foi incendiado, incluindo a riquíssima biblioteca do bispo.

Notas:

1 - Jean Fleury (ou Florin): corsário do porto de Dieppe, semeou o terror tanto nos mares das Caraíbas como de Cabo Verde: foi ele o primeiro marinheiro com carta de corso a atacar as armadas espanholas – em 1522 apoderou-se do tesouro de Guatimozin, que Cortés enviava do México para Espanha. Capturado pelos espanhóis, foi enforcado em 1527.

2 - John Lovell: armador e também corsário, foi proprietário de uma companhia cuja principal actividade se centrava no corso e suas pilhagens de navios e possessões espanholas. A sua acção estendeu-se de Cabo Verde à Venezuela, onde em 1567 atacou Margarita, em associação com um flibusteiro francês, Jean Bontemps. Em 1572, enquanto Bontemps era morto pelos espanhóis em Curaçao, Lovell atacava Rio de la Hacha.

3 - John Hawkins (ou Hawkyns): nascido em Plymoutth em 1532 de uma família muito próxima do trono britânico (o pai, William Hawkins, foi confidente de Henrique VIII e um dos seus principais comandantes da armada), foi primo segundo de Francis Drake. Construtor naval, mercador e navegador, Hawkins fez três viagens de corso – na primeira, em 1562/63, circulou pelas costas de África (da Serra Leoa a Cabo Verde) e pelas Caraíbas; na segunda, em 1564/65, voltou aos mares de Cabo Verde e devastou armadas espanholas nas Caraíbas e nas costas da Florida; na terceira, 1567/69, não há notícia de ter passado por Cabo Verde, centrando-se então pela América do Sul (principalmente em San Juan de Ulua). Nomeado Almirante pela Rainha Isabel I, foi ele o idealizador da táctica naval que destroçou a “Invencível Armada” espanhola em 1588. Foi Hawkins quem iniciou o tráfico de escravos negros em Inglaterra e também ele quem incentivou Drake a incursões nos mares africanos.

4 - Francis Drake: nascido em 1543 em Travistock, destacou-se na luta da coroa britânica contra a Espanha filipina, sobretudo nas campanhas de corso, e foi o mais célebre corsário inglês. Nomeado cavaleiro por Isabel I de Inglaterra, foi seu vice-almirante: navegador experiente, conduziu a segunda viagem de circum-navegação do Mundo, começada em 1578, precisamente com um ataque a Ribeira Grande. Com seu primo John Hawkins, esteve associado no tráfico negreiro em que se iniciou em 1567, numa viagem corsária por Cabo Verde e Guiné. No regresso, nomeado Mayor de Plymouth, parte daí em 1585 para uma nova campanha de corso contra Espanha, durante a qual, depois de incursões nas costas galegas e nas Canárias, atacou e incendiou Ribeira Grande. As acções de Drake associam-se então às do pretendente D. António à coroa portuguesa. Em 1588, foi um dos estrategos da derrota da Invencível Armada espanhola que procurava derrotar os ingleses. Faleceu em Portobelo, Panamá, em 1596, vítima de disenteria – o seu corpo foi lançado ao mar.

5 - Emanuel Serradas: pouco se conhece da sua vida, além da sua participação nas campanhas ao lado do Prior do Crato – foi um dos poucos portugueses que não foi comprado pelo ouro de Espanha. Terá acompanhado D. António, quando este criou nos Açores (ilha Terceira) uma bolsa de resistência ao domínio filipino – foi daí que Serradas partiu para o ataque às ilhas de Santiago e Fogo. Cavaleiro Hospitalário, terá combatido em Alcácer Kibir. Ignora-se se acompanhou D. António de Portugal para o exílio em França, depois que este foi derrotado por um desembarque castelhano nos Açores, comandado por Álvaro Banzano (ocorrido enquanto Serradas se encontrava em Cabo Verde, o que de certo modo explica o fracasso desta campanha, que de resto se confrontara com a oposição dos senhores da Ribeira Grande, que tomaram partido pelo Rei Filipe).

6 - Anthony Shirley (ou  Sherley): nascido em 1565, foi filho segundo de um nobre britânico (Sir Thomas Shirley) que as circunstâncias de herança atiraram para uma vida aventureira e de viajante, levando-o a combater em diferentes expedições (Países Baixos, Normandia, Navarra, Mediterrâneo) em busca de fortuna. Em 1596, conduziu uma campanha de pilhagens na costa ocidental africana, passando então pela Ribeira Grande, dirigindo-se depois para a América Central – aí, foi surpreendido pelo motim dos seus marinheiros, vendo-se compelido a regressar a Londres apenas com um único dos seus navios. Em 1605, passou para o serviço da coroa de Espanha, tendo sido nomeado almirante – depois de algumas campanhas desastrosas, foi destituído. Morreu em Madrid em 1635.

7 - Jacques Cassard, nascido em Nantes em 1679, destacou-se no corso contra os britânicos no Mar da Mancha. Como comandante, teve grande sucesso nas suas acções, tendo chegado a acumular grande fortuna. Todavia, caiu em desgraça junto da coroa francesa, tendo passado os seus últimos 24 anos na prisão, onde morreu em 1740, em Ham, na região de Somme.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

[0677] A África, no tempo das belas “signares”

Arsénio de Pina
Pd'B agradece a oferta ao autor, certo de que o presente trabalho, embora não inédito, será de grande interesse para os nossos leitores que já o leram ou ainda o desconhecem. As imagens de signares foram colocadas por Pd'B.

Incluído no meu livro Reflexões e Factos Diversos [ed. do autor, Mindelo, 2007 - Nota do Pd'B] pode-se encontrar artigo com este título, que respigo para as páginas de Praia de Bote. Artigo inspirado por outro do historiador Congolês Likia M´Bokolo, com ilustração de Hoa-Qui, sobre as “signares” do Senegal, e, por associação de ideias, veio-me à mente um trabalho recheado de humor Mindelense saudável apresentado no 2º Congresso dos Quadros e Dirigentes Associativos Cabo-verdianos da Diáspora, pelo amigo e colega Dr. Daniel Neves sobre os chamados lançados ou tangomaos no Senegal. Dizia o colega, a certo passo da sua exposição, que “os lançados, por razões diversas e em particular pela concorrência dos Franceses, cada vez em maior número em África, desapareceram no século XVII, mas ficou o termo lançado no nosso crioulo que, na sua acepção de homem temerário teria, aí, talvez, a sua origem semântica”, acrescentando, com sorriso matreiro num cantinho da boca, que rezam crónicas apócrifas que teve a sorte de compulsar nas suas laboriosas pesquisa históricas, que alguns desses lançados teriam frequentado o famoso Liceu Gil Eanes, em S. Vicente de Cabo Verde, citando os nomes de alguns: Nhunha de Bia Gaxa, Tchenta Gomes, Coxim, Nhelas de Ti Pede, Alberto Torres e Bitim Leite.

Mas, deixemos de lado estes e outros lançados da investigação histórica do colega e respiguemos alguns elementos do citado artigo sobre as “signares”, cuja origem e fama deve o Dr. Nhelas de Ti Pede conhecer melhor que eu por viver diazá no Senegal, enroscado a Dakar como moreia anzolada em buraco de rochedo, ingratamente sem dia de regresso ao torrão natal, embora venha prometendo, de longa data e descaradamente, regressar brevemente.

Escreve M´Bokolo que é aos Portugueses que senhoras elegantes dessa época devem o nome de “signares”: a palavra portuguesa senhoras, rapidamente deformada, deu origem a “signares”. De resto, foram eles quem, dos europeus, primeiro pisou terra africana, montou negócios entabulando relações com as suas gentes e, obviamente, como costuma repetir o amigo Neco - a carne é fraca -, os primeiros a ter relações amorosas com mulheres africanas.

Não se sabe, ao certo, embora se presuma que bem cedo, quando começou esse relacionamento horizontal, isto é, ao nível da esteira ou cama, entre europeu e mulher africana. Na crónica da Guiné de Gomes de Zurara (meados do século XV), quase que não se encontra referência a essa aventura amorosa. Foi um pouco mais tarde, na última metade do século, que jovens Portugueses, de espírito aventureiro e sem preconceitos, se ligaram a mulheres africanas, com grande escândalo da chamada boa sociedade branca. No início do século XVI, o Padre Manuel Alvares descreve-os da seguinte maneira: “são tudo que há de mau, idólatras, perjuros, desobedientes do Céu, assassinos, debochados, ladrões… gente sem lei, não respeitando nada a não ser os seus apetites libidinosos, sementes do Inferno”. O padre devia estar danado, muito provavelmente por não poder fazer outro tanto, embora, posteriormente, fosse tolerado, pela hierarquia católica, aos padres Portugueses tomar, sem escândalo, mulher indígena – jamais europeia – nesses climas miasmáticos. Daí nasceram muitos descendentes da Eclesia, à cautela e hipocritamente denominados de afilhados e sobrinhos, raríssimos com apelidos dos respectivos pais. Em Cabo Verde, por exemplo, quase que não se encontra família mais ou menos graúda que não tenha um padre ou cónego progenitor no passado, que viveu maritalmente e sem escândalo com a mãe dos filhos, respeitado na comunidade e sem grandes objecções, nessas épocas, por parte da Igreja Católica.

Todavia, não obstante condenações do tipo do Padre Álvares e atropelos à moral oficial, foi-se tornando hábito entre todos os outros europeus, por imitação dos iniciadores portugueses, viver com mulheres africanas, ao longo de toda a costa africana onde se fazia comércio de produtos preciosos (ouro, marfim, etc.) e, sobretudo, o rendoso e criminoso tráfico de escravos. Foi sobretudo nas ilhas e portos da Senegâmbia – Gorée, Saint-Louis, Portudal e Joal (terra-natal do ex-presidente Senghor, nome derivado de Senhor, que cantou em lindos versos a beleza da mulher africana mas… casou com europeia…) – que as “signares” mais se notabilizaram.

Apesar da proibição de certos oficiais e empregados Franceses de mandarem buscar as respectivas mulheres de França para o Senegal, a Companhia da Senegâmbia e do Senegal decidiram interditar os seus empregados de viver com mulher indígena. O resultado foi que a relação entre europeus e africanas passou a ser, a princípio, de concubinagem, para se transformar, com o decorrer dos anos, numa espécie de política oficiosa, por se ter constatado que os europeus que viviam com mulheres negras resistiam melhor às condições climáticas e sanitárias do meio, isso porque a sua entrada na sociedade indígena permitia-lhes beneficiar dos serviços dos curandeiros que dominavam melhor o tratamento das doenças tropicais que os europeus desconheciam. Tal facto levou a que entre 1728 e 1730 alguns governadores do Senegal tivessem pedido a essas Companhias que amenizassem essa proibição. Disso resultou que, durante cerca de um século, até meados de 1830, os europeus tivessem passado a adotar a prática chamada “casamento à moda do país”, que eram, de facto, uniões reconhecidas: os africanos tomavam-no como tal e os europeus também reconheciam aos filhos dessas uniões um certo número de direitos (herança, direito de uso do apelido paterno, etc.). As beneficiárias desses casamentos obtinham, também, a libertação da escravatura.

As “signares” desempenhavam um importante papel económico e social na sociedade local e como conselheiras dos maridos, e algumas até participavam no rendoso negócio de tráfico de escravos, comprando e vendendo irmãos de raça. Em 1788, assinalam-se três “signares” entre os armadores mais importantes de Saint-Louis (primeira capital do Senegal).

Não admira, pois, que a mestiçagem se intensificasse, constituindo-se, assim, uma pequena comunidade muito influente de mestiços e de “negros franceses”. Até se ouviu falar neles na Revolução Francesa. Em 1789, na véspera da convocatória dos Estados Gerais, os negros e mestiços de Saint-Louis associaram-se aos brancos para redigir as “muito simples queixas e exortações dos habitantes do Senegal aos cidadãos franceses”. Proclamaram, particularmente: “o sangue francês corre nas nossas veias”, e assinaram, orgulhosos da sua componente francesa, “Negros e mestiços, todos franceses”.

É difícil, se não impossível, dizer quando terminou a influência económica e social das “signares”. Custou-lhes cara a ocupação colonial do século XIX, bem como a chegada regular de mulheres europeias em África. Todavia, ainda em 1902, o Dr. Barbot, num livro de conselhos aos europeus que emigravam para África, recomendava o “casamento à moda do país”. De salientar que, até à eleição do primeiro deputado negro Senegalês, Blaise Diagne, em 1914, foram os mestiços, filhos das “signares” que incarnavam, bem ou mal, as confusas aspirações de então das elites africanas.

PRÓXIMO POST

Ataques de piratas à Cidade Velha, em texto inédito de Nuno Rebocho, nos blogues Praia de Bote e Cidade Velha 1462.



[0676] O evitável, aconteceu. Eden Park com princípio de incêndio, devido à flagrante incúria, inércia (e inépcia) de quem de direito

Infopress

Desconhecidos atearam fogo ao antigo cinema Eden-Park

Foto José Carlos Marques

Chamas deflagraram hoje, pouco antes das 14h00, no antigo e agora abandonado cinema Eden-Park, mas pouco depois das 15h00 os bombeiros municipais já haviam extinguido o incêndio.

O comandante dos Bombeiros Municipais, Jorge Leite Rodrigues, fala de fogo posto, embora desconheça ainda a autoria do crime.

Há muito que o edifício tem estado ocupado por grupos de rapazes ditos de rua, que ali cozinham e pernoitam, além de acelerar o processo de degradação do prédio, situado no coração da cidade, junto ao principal jardim público, a Praça Nova.

As chamas tiveram origem numa cisterna, agora feito depósito de lixo, facilmente inflamável, e não passou dali graças à intervenção dos bombeiros.

No local estiveram quatro bombeiros, apoiados por uma viatura de primeira intervenção e um auto-tanque, para além de elementos da Polícia Nacional.

Foram necessárias seis toneladas de água para combater as chamas.


Expresso das Ilhas
Texto de André Amaral

Um incêndio de pequenas dimensões ocorreu hoje numa cisterna do antigo cinema Eden Park.

Segundo Jorge Leite Rodrigues, comandante dos bombeiros de São Vicente, o fogo vai demorar algum tempo até ser completamente extinto.

“É uma cisterna que pertence ao espaço do Eden Park e que está, desde há muito tempo, abandonado”, disse o comandante dos bombeiros de São Vicente à Rádio Morabeza. Segundo aquele responsável “os meninos de rua usam-no como abrigo e havia lá um bocado de lixo”. Apesar de não ser grave, Jorge Leite Rodrigues considera que o incêndio vai demorar algum tempo ate ser declarado como extinto, tudo por causa dos materiais que estavam acumulados no local.

Para o comandante dos bombeiros de São Vicente não há dúvida que o incêndio teve mão criminosa.

“É fogo posto, lá não tem nada que possa dar início ao fogo”, referiu aquele responsável à Rádio Morabeza

De acordo com Jorge Leite Rodrigues não foram registados danos materiais uma vez que dentro da cisterna havia apenas materiais como papeis, madeira, trapos entre outros.

Os bombeiros receberam o alerta do incêndio por volta das 13h30.

domingo, 5 de janeiro de 2014

[0675] A Rua Senador Vera-Cruz e as suas placas toponímicas

Foto Joaquim Saial
Os que por lá passaram e passam, os que lá moraram e os que ainda lá moram, estão fartos de ver as placazinhas de fundo preto com letras brancas, indicando a Rua Senador Vera-Cruz. O lettering das mesmas parece relativamente moderno - quando o dizemos, apontamos no entanto para algumas boas décadas, remontando em princípio a antes da independência. Porém, talvez mais recentes que a da Avenida da República, esmaltada, patente quase em frente à Torre de Belém. Bem, é difícil definir a datação que apenas investigação mais apurada poderia deslindar. O que é certo é que numa das quatro sessões da Câmara Municipal de São Vicente realizadas entre 14 de Maio e 11 de Junho de 1914 foi autorizado  o pedido a Lisboa de três tabuletas com o letreiro "Rua do Senador Vera-Cruz". O "do" não surge nestas que vemos nas imagens, pelo que o mistério mais força dá a ter havido outras antes, encomendadas à capital do Império. Mas, de facto, o senador merecia o gasto.

Foto Joaquim Saial (pormenor da anterior)
E sabiam os nossos leitores que Francico da Silva Marçal (será o da padaria?), com casa ali perto, teve autorização da CMSV, por esta mesma altura, para fazer um segundo andar no seu prédio da Rua de Lisboa? Pois é verdade mas também é verdade que por hoje já chega de "novidades" antigas do Mindelo.

[0674] Finalmente, gelo e electricidade no Mindelo. Já não era sem tempo...

Candeeiro público Kitson
A I Guerra começaria em breve, a 28 de Julho de 1914. Um pouco antes dessa data, no Mindelo, deitava-se abaixo um infecto e decrépito urinol que estava "à entrada da cidade" [não sabemos em qual delas], inaugurava-se a 13 de Junho aquele que terá sido o primeiro frigorífico comercial da urbe e começava-se a pensar na instalação pública de electricidade.

A cerimónia inaugurativa do novo estaminé de frio e gelo, digna de uma cidade cosmopolita e civilizada como era já a cidade são-vicentina, meteu champagne frappé, bolos e hurras! à inglesa - obviamente. E ali, na marginal, frente ao mar, se podia ver a fina flor do Mindelo, incluindo membros do corpo consular, chefes de repartição e representantes do comércio, entre outros. Custava $08 centavos o quilograma do frio sólido, vendido desde as 8 da manhã, neste empreendimento conjunto das firmas Lopes e C.ª e Madeira e C.ª.

Quanto à electricidade pública, ainda não chegara. Não bater na noite escura com o nariz numa esquina ou evitar esbarrar numa acácia (ou num bote) ali à Praia de Bote era na altura obrigação de candeeiros americanos Kitson a fuel, sucessores de outros a acetileno - ao que parece, de má memória. A ideia da inovação era do presidente da Câmara Municipal de São Vicente, Júlio Veiga, e do vereador César Serradas. Assim se procurava seguir o progresso e obter poupança - pois caros 79$32 custara recente factura autorizada pela CMSV para pagar material Kitson degradado...

Estes e outros dados sobre o processo de modernização da nossa cidade estão a ser desenterrados para o próxima "Crónica do Norte Atlântico", entre muito gozo pessoal e a certeza cada vez mais definida de que o Mindelo sempre foi outra loiça...

sábado, 4 de janeiro de 2014

[0673] "Outro lado de São Vicente": talvez o vídeo mais triste de sempre do Praia de Bote...

Por motivo que desconhecemos, não nos foi possível carregar o vídeo, ao contrário do que é habitual, mas o mesmo pode ver-se AQUI


[0672] Uma praia com botes no Porto Novo da ilha de Santo Antão, a sempiterna irmã de São Vicente

Virada à nossa ilha, esta aprazível praia que é prima da Praia de Bote pois também é uma praia com botes, foi fotografada em 1999 aqui pelo Praia de Bote, quando ainda não havia Praia de Bote mas já havia Praia de Bote. Percebido?

Animado jogo de cartas na praia dos botes de Porto Novo - Foto Joaquim Saial

Repousando, à espera do peixe,na praia dos botes de Porto Novo - Foto Joaquim Saial

[0671] Praia de Bote muda-se para Santo Antão, como prometido no post anterior...

Farta de São Vicente, a Praia de Bote muda-se para Santo Antão. E, mais tarde ou mais cedo, correrá todas as ilhas de Cabo Verde, tornando-se assim a primeira praia migrante do arquipélago. Facto inédito no que toca a praias, este "case study" já está a ser apreciado por várias universidades internacionais, estando para ser publicada em Fevereiro deste ano em Yale a primeira tese de doutoramento sobre o tema: "The incredible migrant boat beach of Cape Verde", da autoria do cabo-verdiano descendente nos EUA, Djosa Naise Djunga Lima Semedo da Luz.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

[0667] "Entre África e a Europa", a lançar em 10 de Janeiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, com apresentação dos Professores Adriano Moreira e Eduardo Vera-Cruz Pinto

Praia de Bote recebeu o convite e lá estará, para a reportagem sobre o lançamento deste livro de inegável importância para a compreensão do processo político pós-independência em Cabo Verde. A começar pelo sugestivo título, o tema promete e por isso aqui se divulga com todo o gosto junto dos frequentadores do Pd'B. Para além do interesse da obra em si, há ainda o aliciante da presença dos apresentadores, figuras conhecidas da intelectualidade portuguesa, ambos com fortes ligações a Cabo Verde. Adriano Moreira visitou o arquipélago em viagem de Agosto de 1962, na qualidade de ministro do Ultramar, e foi recentemente feito doutor "honoris causa" pela Universidade de Cabo Verde; Eduardo Vera-Cruz Pinto é um dos mais prestigiados docentes da Faculdade de Direito de Lisboa e seu director, para além de familiar do famoso senador Vera-Cruz.

Eis o texto que nos foi remetido há minutos: 


Adriano Moreira, c. 1961
Após meses de árduo e intenso trabalho editorial, é com imensa honra e satisfação que vimos por este meio convidá-lo, com a devida antecedência atendendo à sua preenchida agenda, a tomar parte na sessão de lançamento da obra intitulada “Entre África e a Europa: Nação, Estado e Democracia em Cabo Verde”, [Edições Almedina], a ter lugar no dia 10 de Janeiro de 2014, Sexta-Feira, às 18h15, na Fundação Calouste Gulbenkian (Sala 1).

A apresentação da obra estará a cargo do Prof. Doutor Adriano Moreira (Academia de Ciências de Lisboa) e do Prof. Doutor Eduardo Vera-Cruz Pinto (Director da Faculdade de Direito de Lisboa), e contará, ainda, com a presença dos autores.
Eduardo Vera-Cruz Pinto
Trata-se, do nosso ponto vista, de uma obra de referência que fornecerá uma leitura global dos fenómenos e dos processos políticos em Cabo Verde, desde os primórdios da independência nacional, passando pelo período da institucionalização do regime autoritário, até o advento da democracia multipartidária, com particular enfoque para questões atinentes às instituições políticas comparadas, ao recrutamento das elites, ao sistema eleitoral e à institucionalização do sistema partidário, à sociedade civil, ao sistema de governo e à dinâmica do poder legislativo, aos padrões de cultura cívica e política, à participação política das mulheres, à comunicação e marketing políticos, não descurando um olhar autocrítico sobre os manejos identitários e as estratégias retórico-discursivas forjados, pela elite política e intelectual, para a imaginação da nação e as dinâmicas da inserção estratégica do arquipélago em múltiplos, e quiçá contrastantes, espaços de cooperação e integração regionais.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

[0666] Fotos de hoje: Banda Municipal de São Vicente mantém tradição de oferecer Boas Festas de Ano Novo às gentes do Mindelo

Fotos frescas de hoje, directamente do Mindelo e da máquina do nosso repórter fotográfico especial Zeca Soares, onde se vê a Banda Municipal de São Vicente dando as Boas Festas à população do Mindelo. Caso para dizer que ainda há tradições que são o que eram. Um muito, mas muito obrigado ao nosso amigo e colaborador, pela oportuníssima oferta. VER E COMENTAR POST ANTERIOR, com este relacionado.

Foto Zeca Soares

Foto Zeca Soares

Foto Zeca Soares

Foto Zeca Soares

Foto Zeca Soares

[0665] 1 de Janeiro, no Praia de Bote, com votos de ano novo CONGELados...

Ele aí está, o novo 2014 que para a generalidade dos Portugueses não transporta nenhuma esperança. Será provavelmente um dos mais dramáticos da nossa vida colectiva, na continuidade dos anteriores próximos. 

Esperemos que mesmo em crise mundial e com as dificuldades conhecidas, derivadas da insularidade e de um clima padrasto, 2014 seja bem melhor para os cabo-verdianos, sobretudo os que habitam a ilha de São Vicente, a cidade do Mindelo e... a Praia de Bote.

Como é costume, o Pd'B lança a velha fotografia de 1 de Janeiro de 1964 (exactos 50 anos passados hoje e agora que são cerca de 9h00 em Lisboa) da Banda Municipal do Mindelo em pose de Boas Festas ao patrão-mor da Capitania dos Portos (actual "Torre de Belém") e junta-lhe um cartão também de Boas Festas, geladinho, tal como o clima de hoje aqui na cara da Europa. Trata-se de uma lembrança da velha, desaparecida mas prestigiadíssima empresa Congel (cujo nome exacto era Companhia de Pesca e Congelação de Cabo Verde S.A.R.L.) fundada por Jorge Fonseca no Mindelo, sobre a qual (e sobre "o" qual) se oferece aos nossos ávidos leitores um apetitoso texto. Ver AQUI.

No canto da esquerda, o Botequim do Faustino (hoje "Boca de Tubarão") e no topo da esquina da direita, da Vascónia, a placa toponímica com o nome da avenida da República (que foi de Portugal e hoje é de Cabo Verde) - Foto NJNS

Em breve, mostraremos o documento que atesta o final da Congel em 1976, com dados sobre como se concretizou a partilha dos despojos da mesma. Por agora, apenas aqui fica o cartãozinho de 4 páginas com que presenteamos visitantes e amigos, neste dia 1 de má cara...

Endereço postal da empresa em São Vicente e, ao que supomos, o dos seus escritórios em Lisboa (numa outra Avenida da República) - Estes dados foram escritos no cartão pela mãe do administrador do  Pd'B, a qual infelizmente já os não pode explicar... Pode ser que algum dos nossos leitores saiba algo sobre o assunto