domingo, 12 de fevereiro de 2017

[2861] Em memória do nosso amigo Zito Azevedo, o Requiem de Fauré - Ensemble Orchestral de Paris - Choeur Accentus

[2860] José "Zito" Azevedo, português de nascimento e cabo-verdiano e mindelense pelo coração, faleceu hoje, pelas 10h00

Nestes casos, as palavras devem ser poucas, mas sentidas.

Morreu o nosso amigo e colega bloguista Zito Azevedo. Muito nos ensinou (ou relembrou) sobre Cabo Verde, terra para sempre amada, apesar das patifarias que alguns dos filhos menores das ilhas lhe fizeram. Deixa imensas saudades, bem como o seu Arrozcatum, parceiro do Pd'B de mais de meia década. Um braça d'ratchá osse para ele, nesta viagem sem retorno, desejando-lhe que lá onde ele estiver se possam ouvir mornas e coladeras e se comam boas cachupas e, obviamente... arrozcatum. Um grande viva ao Zito, dito do alto do Monte Cara: VIVA O ZITO, SEMPRE!!! 

Praia de Bote encerra até ao próximo domingo, em homenagem ao amigo desaparecido.

Juntamos um poema de Baltasar Lopes / Osvaldo Alcântara que fomos buscar à última página do n.º 9 de Claridade, último da revista, adequado ao dia.

Foto Joaquim Saial - Largo de São Domingos, Lisboa, 11.Julho.2016
Foto Joaquim Saial - Restaurante da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, 11.Julho.2016

[2859] Através do jornal português "Público", ficamos a saber que as mulheres cabo-verdianas também gostam de dar murros...

Excepcionalmente em domingo, mas dada a raridade da coisa...
Ver AQUI

sábado, 11 de fevereiro de 2017

[2858] Aos sábados, uma capa de disco (3)

São os Africa Star, à inglesa ou à americana, nada de cabo-verdianices ou portuguesices no nome, mas música toda ela das ilhas. Rapazes com cabelo afro (que dispensam gravata, segundo dizem no título da obra), cenário quase de certeza português mas que não conseguimos identificar.

A gravação efectuou-se nos míticos Estúdios Valentim de Carvalho de Paço de Arcos (ver AQUI), e a edição foi da Electromóvel, no n.º 78 da muito cabo-verdiana Rua de São Bento, Lisboa. Mostramos o aspecto actual do edifício onde essa empresa discográfica se situou. Não há agora número na porta mas se aquela de alumínio cinzento é o 74, o 78 será o da segunda a contar da esquina. Na altura da foto, o local era habitado por uma pastelaria ou similar.

Desconhece-se o ano de saída, mas deve rondar os meados da década de 70, ou os primórdios dos anos 80. Um quinteto para a história da música de Cabo Verde, em disco de capa pouco ambiciosa mas razoavelmente documentada. Não se percebe é o facto estranho de terem colocado as idades (afirmação de maturidade?) nem o de na capa e contracapa serem  AFRICA STAR e na ficha técnica da contracapa serem ÁFRIKA STAR. Indecisões alupekikas, antes de tempo...



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

[2857] Cabo Verde pede apoio para a elevação do Campo de Concentração do Tarrafal a Património Mundial

E Praia de Bote apoia! Como já apoiámos a bem sucedida elevação da Ribeira Grande de Santiago ao mesmo galardão. A propósito, aqui fica uma notícia de Maio de 1936 (expedida da origem a 24 de Abril desse ano...), de muito má memória. Mas, sem memória, que seria da História?
Ver AQUI

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

[2856] Um cabo-verdiano a publicar em Itália, na revista da FAO



[2855] Uma curiosa novidade do jornal "Artiletra"


[2854] Ele não era só romancista...

Sim, já o sabemos, Teixeira de Sousa também era médico. E conseguiu conciliar o estetoscópio com as teclas da máquina de escrever, como poucos, como um Namora, como um Torga, por exemplo. E ainda foi autarca, e bom, para desanuviar.

Em 1 de Maio de 1957, que fez ele? Uma palestra no são-vicentino Liceu Gil Eanes, sobre alimentação e saúde nas ilhas da sua terra. Era então médico-adjunto da Missão Permanente de Estudo e Combate de Endemias em Cabo Verde e Presidente da Comissão Provincial de Nutrição.

Acaba assim a saborosíssima obra que fala de milho e de feijão, entre muitas outras coisas: 

Ora, o nosso objectivo positivo deve ser o de criar condições de vida necessárias para a população em crescimento normal e fisiológico. Temos de defender a terra de molde  a evitar o êxodo cabo-verdiano para longe do seu meio legítimo porque, como disse algures um chefe indígen africano, "a terra do nosso país pertence a um grupo de homens dos quais muitos já morreram, alguns estão vivos e a maioria está por nascer."

Tem o opúsculo 20 páginas, foi obra das Edições Propaganda, de Cabo Verde e... é de ler!

[2853] Prometido é devido

Aqui está uma amostra do folheto editado no Mindelo em Maio de 1913, assinado por grandes figuras das "forças vivas" locais, sobre a candente questão Blandy. Note-se que, para além do inicial Ex.mo Snr. (o ministro das Colónias, Artur Rodrigues de Almeida Ribeiro, 1865-1943, ministro de 9.1.1913 a 9.2.1914), a única palavra a negrito é o final fóme (sic). Isto era num tempo de homens de barba rija, comos quais não se brincava e que defendiam a sua terra contra tudo e contra todos, internos e externos.



terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

[2852] Baltasar Lopes/"Chiquinho", em Almada, em 2017

Foto do acervo de Valdemar Pereira

E, JÁ AGORA, QUE NINGUÉM NOS OUVE, SABIA QUE "CHIQUINHO" É, NEM MAIS NEM MENOS QUE UM LIVRO "INFANTIL"? SE NÃO SABIA, FICA A SABER...


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

[2851] E para encerrar as comemorações dos seis anos do Praia de Bote, ca tem medjor q'um ctchada d'muzga de Cize

[2850] Seis anos de vida, entrando pelo sétimo...



[2849] Para além da rocha...


[2848] Na Baía das Gatas


O pontão da Baía das Gatas, foto de José Carlos Marques, Setembro.2013

[2847] A escuna "John R. Manta", barco da carreira de Cabo Verde, motivo de mais um (longo) trabalho em capítulos, no âmbito das "Crónicas do Norte tlântico"


Cabeçalho de notícia de 1935

[2846] Nos primórdios da Foto Melo, fundada em 1890 por João Henriques de Melo "Djindjon", filho de cabo-verdiana e português


Notícia de "A Voz de Cabo Verde", de 12 de Agosto de 1912

[2845] "Praia de Bote", seis anos ao serviço do Mindelo, de São Vicente e de Cabo Verde. E aí vem o sétimo!...

Quase 3000 posts
Quase 350.000 visitas

[2844] Costumes antigos de Cabo Verde. No caso, do interior de Santiago e de 1884 ou antes

Pesquisa de Artur Mendes que ofereceu este material ao Praia de Bote. Trata-se de um artigo de Frederico de Barros, inserido no Vol. III (1855-1886), n.º 5/6, da "Revista de Estudos Livres". Ver AQUI mais informação sobre esta revista.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

[2843] O processo de Arsénio de Pina no arquivo da ex-PIDE-DGS (2/2) - [ver post anterior]

Esta é a segunda e última parte do texto escrito por Arsénio de Pina em Janeiro do presente ano sobre o seu processo existente na Torre do Tombo, Lisboa (arquivos da ex-PIDE-DGS), gentilmente disponibilizado pelo autor para publicação no Praia de Bote. Um obrigado em nome do blogue e dos leitores que com ele aprendem ou relembram as patifarias de uma organização que fez parte da nossa história comum, portuguesa e cabo-verdiana.

NACOS DA HISTÓRIA COLONIAL RECUPERADOS NO MEU PROCESSO NA PIDE (2/2)

Foto de Joaquim Saial

A minha proposta de plano sanitário para a cidade do Mindelo transcrita mais adiante, apresentada à Câmara Municipal (CM), foi trabalho em colaboração com o enfermeiro do Serviço de Endemias, Rui Pélico Neto, já falecido, companheiro da minha infância em S. Nicolau. Percorremos a cidade e arredores de lés-a-lés, no meu carro pessoal (a Delegacia de Saúde não dispunha de carro) e fomos fazendo a desinfestação dos bairros de lata com insecticidas das Endemias. Entrementes, fui convocado pelo governador Brigadeiro Lopes dos Santos, na sua primeira visita à ilha, por se ter escandalizado com a falta de saneamento da cidade, a saber o que pensava disso como delegado de saúde. Informei-o de que estava a ultimar uma proposta para o saneamento da cidade, que apresentaria brevemente à C.M. Felicitou-me pela iniciativa rematando que iria dar o seu contributo, caso a CM não dispusesse de verba suficiente. Apresentada a proposta, fui chamado para a sua apresentação, que não se fez por ter havido assuntos mais importantes (!!) durante a reunião. Ficou o Presidente da CM (Dr. João Quirino Spencer) de me chamar, proximamente, para o efeito, o que nunca aconteceu, o que me intrigou, por não entender a razão, que veremos mais adiante.

Veja-se a proposta e a opinião da PIDE. No ofício enviado ao Presidente da Câmara Municipal – omitida pela polícia política – definia a cidade do Mindelo da época, parafraseando a definição de ilha, como um aglomerado de casas e ruas rodeado de esterco por todos os lados:

… "Em 2 de Setembro do ano findo, foi endereçado à Câmara Municipal de S. Vicente, pelo D. Arsénio Daniel Fermino de Pina, um ofício, cujo conteúdo a seguir se transcreve:

“Até ao momento (Setembro de 1970), o lixo tem sido incinerado (o da cidade), e o dos bairros periféricos, incluindo os bairros de lata, de difícil acesso para os carros da CM, vazados em qualquer local, enterrado ou recolhido periodicamente – melhor dizendo – esporadicamente. O processo de incineração exige que se estabeleça uma temperatura apreciável, pois, com baixas temperaturas, além de se provocarem maus cheiros, não se incineram todos os constituintes do lixo. Como o lixo da cidade e arredores é heterogéneo, contendo muita matéria orgânica, não parece recomendável tal processo de tratamento. De apoiar o plano de remoção do lixo para valas abertas por Buldozer ou a sua descarga em desníveis de terreno, eliminando-se assim zomas baixas potencialmente pantanosas, fazendo-se o que chama de ´colmatagem sanitária´; no fim de cada dia, o depósito deve ser coberto com uma camada de terra ou areia de 20 a 30 cm de espessura para impedir os maus cheiros, as moscas, os ratos e os corvos, isto para os bairros periféricos de difícil acesso pois, para o lixo da cidade, o ideal seria o despejo no mar, como adiante se explica.
Visitada a lixeira junto ao cemitério municipal, foram encontradas crianças a revolver o lixo à procura de coisas imprestáveis mas, para elas, aproveitáveis: latas, garrafas, cartões e restos de comida. E o que aí se passava repete-se em outros locais com graves prejuízos para a saúde dessas e outras crianças…

Estudada a costa marítima, foi fácil constactar a existência de um local, entre o Lazareto e o Morro Branco, mesmo defronte do barco grego encalhado (Markar), que oferece as melhores condições para o efeito. A Câmara teria, simplesmente de fazer um pequeno desvio na estrada, de menos de 50 metros, para os carros de lixo vazarem, directamente, no mar, o seu conteúdo. Nesse local, o terreno cai a pique sobre o mar e o sentido do vento impede que o lixo flutuante seja arrastado para a Baía.

Por outro lado, constacta-se que os três carros de que a CM dispõe para a remoção de lixo são manifestamente insuficientes, mormente porque dois deles são já velhos e estafados. A aquisição de mais três unidades de tal tipo torna-se imperativa para a tarefa a empreender.

A experiência levada a cabo de recolha de lixo em recipientes volumosos – os célebres bidons – colocados em determinados locais da cidade, foi mal sucedida devido à falta de carros, não selecção de lixo e à acção de alguns díscolos da cidade. De sugerir, portanto, recipientes com um terço da capacidade dos bidons, com tampa, de um tipo estandardizado, para cada lar, à semelhança do que se faz noutras cidades. Estes recipientes seriam obrigatórios para os inquilinos, vendidos pela CM ou outra entidade escolhida por esta, e recolhidos diariamente, de manhã, pelos carros da Municipalidade. Desse modo poder-se-ia responsabilizar cada inquilino pelo tipo de lixo vazado em tais recipientes.

Igualmente de aconselhar a criação de um corpo de guarda-nocturnos para vigilância das ruas (como freio até para os díscolos citadinos que entornam ou roubam os recipientes de lixo), dos prédios, etc. Esses guardas seriam remunerados pelos próprios inquilinos beneficiados, como acontece, por exemplo, em Lisboa, em que cada inquilino paga dez escudos mensais por tal benefício. A CM providenciaria no sentido de conceder algumas regalias a esses guardas e a polícia poderia dar-lhes preferência nos seus concursos de recrutamento de pessoal.

Vejamos, agora, a situação dos poços e balneários públicos: nos sítios da Bela Vista e Ribeira Bote há alguns poços secos sem protecção que constituem perigo para crianças e adultos. Alguns estão ao lado de locais de despejo de lixo e é bem provável que, à noite, sejam utilizados como fossas improvisadas pelos moradores vizinhos. Os poços particulares com água e balneários anexos da Bela Vista necessitam de beneficiação. Crê-se que o lucro arrecadado pelos proprietários deve bastar para a sua protecção e melhor arranjo das zonas circundantes.

O tanque construído pela CM defronte do fontenário de Monte Sossego, actualmente transformado em retrete clandestina, por o poço que o abastece ter secado, deve ser aproveitado para uma sentina pública com balneário, por beneficiar da proximidade do fontenário e do hábito já clandestinamente condicionado.

Vejamos outro aspecto: as sentinas públicas e latrinas. As sentinas municipais com balneários existentes em bairros periféricos são excelentes. É de desejar a construção de algumas na cidade, passando as dos bairros a ser gratuitas no tocante à retrete. Há ainda que instruir os condutores dos auto-tanques no sentido de darem incondicional preferência às sentinas municipais. A única coisa que se pode sugerir como remendo higiénico (um remendo que não encontra roupagem para o sustentar) são latrinas de fossa profunda. Construídas como mandam os cânones, são um sistema praticamente inodoro, económico e que dura muito tempo.

Os bairros de lata devem desaparecer a todo o custo, até porque um bairro chama outro e não é possível aos seus habitantes o mínimo de condições higiénicas. Por mais onerosa que seja a sua extinção, tudo deve ser tentado nesse sentido o mais cedo possível para evitar uma maior extensão do mal, visto ser a saúde pública o capital mais precioso na economia de uma nação. Resolvido o problema de esgoto e de abastecimento de água à cidade, há que mobilizar todos os esforços no sentido de fazer desaparecer esses abortos de habitações e esse tipo de vida tão degradante.

E somos chegados a um dos mais incomodativos problemas que se rodeiam a higiene pública: as moscas. Encarando a eliminação de moscas nas habitações, independentemente do combate generalizado ao insecto, parece de todo aconselhável seguir a política adoptada, por exemplo, em Moçambique, de tornar obrigatório o uso de redes anti moscas em todos os edifícios em construção ou em reparação. As janelas seriam providas de uma armação de madeira com rede fixada do lado de fora e as portas duplas, uma delas com rede, provida de mola, para fechar automaticamente. Sobre este pormenor, interessará frisar que o art. 100º do Regulamento Geral de Construção Urbana de Cabo Verde (parágrafo 4º) exige as citadas redes anti moscas, mas parece poder afirmar-se que nunca tal disposição legal foi aplicada…

Vejamos a situação dos mercados. Um mercado de peixe numa região tropical de clima propício à proliferação de moscas e de hábitos higiénicos por adquirir – dir-se-ia melhor – sem condições que estimulem a criação de bons hábitos de higiene, teria que ser totalmente protegido com redes e apertadamente vigiado. Tais mercados, pode-se assegurar, deveriam mesmo desaparecer, criando-se, no seu lugar, peixarias pequenas com frigorífico, dispersas pela cidade que facilitariam o abastecimento e diminuiriam o aglomerado de gente e de imundice. Teria de haver, certamente, um armazém frigorífico e carros para a distribuição do peixe. O mercado de peixe de S. Vicente é um exemplo flagrante do que não deve ser um mercado de peixe.

No que toca ao mercado municipal agrícola, antes de mais nada, é necessário um fiscal permanente e actuante, por ser difícil vê-lo ou encontra-lo quando dele se precisa, para além de ser difícil percorrer o mercado no meio de caixotes e cestos vazios. Aliás, ver vendedeiras de doces com o produto exposto às moscas é vulgar, o que desrespeita a legislação em vigor. Assim, atravancado de coisas supérfluas e sem vigilância, é impossível mantê-lo limpo e transitável. Seria, pois, de aproveitar os armazéns dos oito cantos do mercado para recolher os sacos, caixas e caixotes com mercadoria. Os continentes vazios não devem ter lugar no mercado. As caixas, mandadas construir pela Câmara, na melhor das intenções, transformaram-se em ninhos de ratazanas por ser difícil a sua limpeza a estarem a ser utilizadas para esconder tudo quanto fira a sensibilidade dos clientes. A substituição da parte anterior das mesmas por uma armação com rede talvez resolvesse o assunto.

Por outro lado, não se vislumbra explicação para o não funcionamento dos sanitários do mercado. Um mercado com tal movimento não pode dispensá-los por razões que nem é necessário aduzir.

Antigamente – lembro-me disso – havia um auto-tanque que regava as ruas da cidade. Deixou boas recordações. Porque não arranjar outro para o efeito (com água do mar que é gratuita e desinfectante), a fim de fixar a poeira, refrescar as ruas nos dias de canícula e vento? Serviria, igualmente, para a rega das árvores com água doce, o que impediria a corrosão do tanque e acessórios pela água salgada”.

Estas foram as questões abordadas pelo Senhor Dr. Arsénio Daniel Fermino de Pina, em Setembro do ano findo, perante a Câmara Municipal e na sua qualidade de Delegado de Saúde de Barlavento.

Mais informo V. Exa, que o conteúdo deste ofício era para ser difundido na “REVISTA SONORA”, semanário de actualidades da Rádio Barlavento, em 11 do corrente, e só o não foi, por a Comissão de Censura achar tal divulgação inconveniente.

A bem da Nação,
Mindelo e Posto da DGS, em 16 de Março de 1971
O CHEFE DO POSTO
Miguel Henriques Nunes"

Foi essa, afinal, a razão de não me terem chamado para expor o assunto na CM, e ninguém teve a coragem de mo dizer, embora alguns conhecedores do facto fossem “amigos”. 

Depois da independência, contactou-me o representante do Partido na ilha, Nelson Atanásio, que acumulava as funções de presidente da CM, para o ajudar a elaborar um plano sanitário para a cidade, por saber que tinha formação em Saúde Pública. Contei-lhe a história da minha proposta no tempo colonial, aconselhando-o a procura-la no caixote de antiguidades da Câmara, dado que ainda não tinha desencaixotado todos os livros e outros dossiers, por haver pouco tempo que regressara a S. Vicente. Dias depois informou-me de que tinha encontrado a minha proposta, e, mais tarde, declarou publicamente que o meu documento o tinha ajudado muito e guiado na elaboração do Plano Sanitário do Mindelo.


Por uma questão de pudor não cito os nomes dos elementos nacionais da Comissão de Censura. Realmente a divulgação da minha proposta seria não só inconveniente como uma vergonha para aqueles elementos da CM, Administração Civil e delegados de saúde anteriores, que nunca se preocuparam com o assunto, face a uma proposta bem fundamentada de um jovem delegado de saúde.                                                          

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

[2842] O processo de Arsénio de Pina no arquivo da ex-PIDE-DGS (1/2)

Não se assuste, não se assuste! Pode comentar este post. A PIDE-DGS já acabou. 

Coloque as suas impressões no local respectivo, sem medo, pois não será preso/a!...


O longo mas substancial texto que se segue é uma gentileza do nosso amigo e colaborador Arsénio de Pina, em primeira mão para os leitores do Praia de Bote, tanto para aqueles que dão a cara e participam com os seus comentários como para aqueles que aqui vêm gatchóde (parece que com medo de serem reconhecidos). Pd'B agradece e publica a primeira parte, deixando o produto a fermentar, para depois então também aqui se revelar a segunda.

NACOS DA HISTÓRIA COLONIAL RECUPERADOS NO MEU PROCESSO NA PIDE (1/2)

Fotos de Joaquim Saial

Resolvi ir à Torre do Tombo [arquivo português (Lisboa), onde estão os documentos mais importantes do País, entre os quais os do espólio da ex-PIDE-DGS] vasculhar o meu processo da PIDE e tive surpresas insuspeitadas que me deram uma visão do trabalho daquela organização e da malha dos seus informadores. As primeiras informações iniciaram-se em Coimbra, enquanto estudante universitário, devido ao meu interesse e compromisso com a luta de libertação nacional, pelo que me catalogaram como elemento afecto ao PAIGC, e com a movimentação estudantil anti governo fascista, pelo que me consideraram da esquerda. Assinalado por ter assinado o Protesto, em Maio de 1961, contra a declaração de algumas colegas que condenaram a publicação, na Via Latina, de Carta a Uma Jovem Portuguesa, do colega Marinha de Campos, e destacada a minha prisão e identificação pela PIDE e PSP aquando da última ocupação da sede da Associação Académica de Coimbra em 1962, de onde fomos retirados pela Polícia de Choque, ida do Porto. Com isso passei a figurar na lista da PIDE e perdi o direito à isenção de pagamento de propinas.

Foram-me seguindo em Lisboa nos meus contactos com amigos de Cabo Verde (Jorge Querido, Arlindo Vicente, Vieira Lopes, Caldeira Marques, entre outros) e de outras colónias, no Café Mimo e Casa dos Estudantes do Império, situados no Arco do Cego, assinalando saber, ainda sem provas cabais, que tinha ligações com o PAIGC. Não há nenhuma referência à minha viagem de curso em 1965 a vários países europeus, em que, no regresso, o último país foi a França, por dois dias, à nossa custa, onde contactei elementos do PAIGC (Olívio Pires, a quem tinha escrito ao atravessar a fronteira da Espanha e me foi esperar na estação de chegada, Joaquim Monteiro, Pedro Pires e António St Aubyn) para transmitir mensagens das nossas actividades em Portugal e saber das directrizes do Partido, tendo pernoitado numa casa de passagem de elementos vindos da Holanda e Bélgica a caminho de Argel para treino militar. A mensagem do Partido foi que todos os elementos formados de confiança deveriam regressar a Cabo Verde. Comprei dois livros proibidos em Portugal – um de Gramsci e outro de Franz Fanon (Les Damnés de la Terre), que depois andaram de mão em mão em Cabo Verde, incluindo o Mestre Baltasar Lopes.

Bem quis convencer dois colegas amigos a ir comigo para Cabo Verde, mas, no Ministério do Ultramar, face à diferença de vencimentos preferiram inscrever-se para Angola e Moçambique, onde se ganhava quase o dobro do praticado em Cabo Verde.

No meu processo há um relatório escrito em Paris, com a data de 1967, por um militante (?), ao líder A. Cabral, na altura na Guiné Conacry ou Argélia, onde se citam vários nomes, incluindo o meu, particularmente comprometedor, cujo nome do autor foi riscado, que intriga ser do conhecimento da PIDE.

Em Cabo Verde, todas as minhas passadas foram seguidas, sempre com o aviso, quando mudava de ilha, que devia ser vigiado de perto por ser desafecto ao governo e elemento favorável ao PAIGC. Detectaram que tinha recebido, em 1971, um embrulho do estrangeiro (Dakar) com material subversivo, que não cheguei a distribuir, entregue por um marinheiro, na mesma altura em que o mesmo marinheiro entregara outro ao Eng. Jorge Querido. Realmente recebi um embrulho com um manancial de panfletos e jornais, entregue por um marinheiro, acompanhado por um servente do Hospital da Praia suspeito de ser informador da PIDE. Reparei que o mesmo tinha sido violado, e eu e a minha mulher tivemos um trabalhão para fazer desaparecer tudo, retirando alguns exemplares que cedi ao amigo da juventude Cardoso, que ainda se lembra dessa história. O mesmo marinheiro foi, no dia seguinte, saber se a encomenda tinha chegado sem problemas. Como não estava em casa, a minha mulher encarregou-se de lhe dar uma corrida, ameaçando-o, se voltasse com outra encomenda, que chamaria a polícia, e o homem desapareceu a sete pés. Obviamente que a PIDE aguardava que algum desses panfletos aparecesse para me deitar a mão.

A PIDE local quis prender-me, mais ao meu irmão Viriato e outros suspeitos, mas de Lisboa aconselharam a não o fazer por não terem provas reais das nossas actividades. Os outros – vêm os nomes deles: Fernando dos Reis Tavares e Ilídio Marinho Figueiredo Ramos -, sim, deveriam ser detidos e interrogados. Eu e o Viriato vigiados de perto.

No meu processo encontrei cartas que nunca recebi, ou nunca chegaram aos destinos,  minhas, dos meus pais e irmãos, de amigos, de l´Étudiant, Seara Nova, do administrador Francisco Dias, que estava de licença disciplinar, vinda da África do Sul, com recortes de jornais ingleses que falavam da ditadura portuguesa.

Comigo em S. Vicente, como delegado e guarda-mor de saúde, fui solicitado pelo tribunal a fazer uma perícia médico-legal a três réus de um processo político – Fernando dos Reis Tavares, José Maria Ferreira Querido e Gil Querido Varela. Os réus foram levados à Delegacia de Saúde por três militares armados que quiseram estar presentes durante o exame médico pedido. Recusei-me a aceitar isso, explicando-lhes que o exame era confidencial. Teimaram em ficar. Peguei então no telefone e liguei para o procurador da república (Dr. Simões) informando-o de que não podia fazer o exame por os militares se recusarem a abandonar o gabinete médico. Pediu-me que passasse o telefone ao cabo que comandava o grupo, e eles tiveram de meter o rabo entre as pernas e sair. Não conhecia pessoalmente nenhum dos réus, mas sabia do processo, e, pelos nomes, deduzi serem parentes do Jorge Querido. Identifiquei-me, pu-los à vontade dizendo-lhes ser amigo do Jorge Querido e passei longo tempo conversando com eles, ouvindo-os e examinando. Feito o exame, regressaram à cadeia e produzi os relatórios dos exames médicos que enviei ao tribunal. A PIDE definiu os meus relatórios do modo seguinte em ofício enviado ao Director-Geral de Segurança em Lisboa : … “recentemente estiveram a ser julgados no T.M.T desta Província e entregue no mesmo pelo médico Dr. Arsénio Daniel Firmino de Pina, já referenciado e identificado, onde descreve que as alterações visuais do réu Tavares foram consequência dum foco luminoso intenso, versão apresentada pelo referido réu em Tribunal e referente à forma como esta D.G.S. terá conseguido as suas confissões, o que não é verdade, visto que tal foco nunca existiu nesta Delegação. (...) Informo V. Exa que o supracitado Gil Querido Varela foi considerado inibido de responsabilidade criminal devido à apresentação do referido exame, no qual afirma que os sintomas são anteriores à prisão. (...) Dado conhecimento a Sua Exa o Governador, foi de parecer que o médico em causa deve ser processado em Tribunal”.

Há um outro relatório que diz eu ter afirmado categoricamente que as lesões foram provocadas pelo tal oco luminoso. Como há cópia dos meus relatórios, constata-se a falsidade da afirmação, porque afirmei que presumia que as lesões pudessem ter sido provocadas por um foco luminoso intenso como declarara o réu. O advogado (Felisberto Vieira Lopes) é que teve a habilidade de dar a volta ao meu relatório valorizando o que aí descrevia.

A PIDE também descobriu que fui visitado pelos três réus julgados no processo, em Santa Catarina, na minha primeira visita médica, quando fazia a cobertura sanitária desse concelho com consultas semanais, em 1971, na delegacia de saúde, e ainda que visitei o administrador Francisco Dias e esposa, que conhecera na Brava quando aí exerci, durante três anos, a função de delegado de saúde.

(Continua no próximo post)

[2841] "Cartas das Ilhas de Cabo Verde de Valentim Fernandes - 1506-1508", libertas...

Ainda antes de apresentarmos as prometidas e muitíssimo substanciais notas sobre o processo de Arsénio de Pina nos arquivos da extinta PIDE-DGS, informamos os nossos visitantes que tivemos ontem autorização do proprietário de "Cartas das Ilhas de Cabo Verde de Valentim Fernandes - 1506-1508" (ver post 2839) para o abrirmos (como dissemos, este livro de 1939 estava há 78 anos por abrir).

Assim, segue um abraço ao nosso amigo Manuel que generosamente desvaloriza este petisco bibliográfico para servir os colaboradores e visitantes o Praia de Bote (tanto os faladores como os mudos).

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

[2840] Um luxo de conteúdo, para muito breve, no Pd'B


[2839] Directamente de Roma para o Praia de Bote

O nosso amigo Manuel Amante da Rosa tinha prometido e cumpriu. O livro "Cartas das Ilhas de Cabo Verde de Valentim Fernandes / 1506-1508", em edição da Divisão de Publicações e Biblioteca da Agência Geral das Colónias (Lisboa, 1939), chegou hoje, emprestado ao Praia de Bote, para divulgação junto dos visitantes do blogue. É legado de um dos governadores de Cabo Verde, muitos dos quais amaram o território como terra sua. Trata-se do comandante Abel Fontoura da Costa (exerceu as funções governativas entre 1915 e 1918), prestigiado oficial da Armada (ver AQUI), de bibliografia longa e variada, no âmbito da Marinha e da história naval. É também de ver a recente tese "Obra Náutica do Comandante Fontoura da Costa" de Joana Canas Costa (2015, ver AQUI) para obtenção do grau de mestrado em Ciências Militares Navais, especialidade de Marinha.

O livro tem a capa algo cansada (lombada rachada na vertical) e apresenta muitos picos de acidez, tanto nesta como no miolo. Para compensar e aumentar o valor, apresenta-se por abrir. Um petisco digno de bibliófilos amantes de livros relacionados com as ilhas verdianas, como nós somos. A pouco e pouco, iremos dando sinal de algumas partes desta saborosa obra.