quinta-feira, 15 de junho de 2017

[3003] Depois do certeiro 3000, a capicua do 3003... com Vila Viçosa (Alto-Alentejo, Portugal) pelo meio

3000, 3001 e 3002 são posts a revisitar, pelo interesse dessa figura de luso-cabo-verdiano que foi o escritor Manuel Ferreira. Aproveitamos o presente momento para agradecer ao João Serra a participação escrita e o envio de fotografias do escritor, uma rara e as outras duas, que saibamos, vistas pela primeira vez no Pd'B.

Logotipo da candidatura de VV a PM_UNESCO
Neste post de capicua, o 3003, fugimos à regra habitual de "só Cabo Verde e nada mais que Cabo Verde" (ou nem tanto, como veremos), para darmos um salto a Vila Viçosa, berço físico do proprietário desta praia, terra que constitui um dos seus principais temas de investigação e escrita. O motivo é que decorre nova fase de tentativa de elevação do burgo a mais que merecido Património Mundial da Unesco e que o dito cujo passou a reintegrar a Comissão Executiva da candidatura. 

A coisa é demorada e trabalhosa, como seria de esperar. Mas cremos que com o necessário esforço o desiderato poderá ter bom remate. Agora, perguntará o leitor: e que relação é que isso tem com Cabo Verde? Nada e alguma coisa...

É que... o primeiro bispo de Cabo Verde nunca lá residiu; o segundo, fez ministério apenas durante um ano; e o terceiro... D. Francisco da Cruz, falecido em 1571, esteve à frente dos destinos religiosos do arquipélago por 20 anos e teve importância  tão considerável que quando morreu, com fama de santidade, dele se dizia que em Cabo Verde "obrou coisas notáveis, tanto que até os animais brutos lhe obedeciam". Algumas dessas "coisas notáveis" foram a Sé e a Misericórdia de Ribeira Grande de Santiago. E o bispo, sepultado na igreja da Misericórdia, junto ao altar de São Francisco, era de... Vila Viçosa. 

Braça para a Cidade Velha (que muito estimamos e onde temos bons amigos) e honra à memória do bispo D. Francisco da Cruz, mais um que sendo oriundo da formosa vila ducal alentejana se dedicou às ilhas de morabeza.

Paço Ducal de Vila Viçosa - Foto Joaquim Saial

[3002] Terceiro e último artigo (por agora) de João Serra sobre as comemorações do centenário do escritor Manuel Ferreira (ver também os dois posts anteriores)

Centenário de Manuel Ferreira

3 - Manuel Ferreira e Cabo Verde

João Serra
Foi a condição militar que levou Manuel Ferreira a Cabo Verde, em finais de 1941. Estávamos em plena II Guerra Mundial e o Governo de Salazar determinara a mobilização de um contingente de expedicionários para a defesa dos arquipélagos atlânticos. Pretendia dissuadir alemães e americanos da tomada pela força daquelas posições estratégicas.

O jovem furriel, como provavelmente a maioria dos milhares de companheiros desembarcados no barlavento cabo-verdiano, começou por estranhar a paisagem com que se deparou. Na evocação que fez na primeira edição de Morabeza (1957) relata o desconforto perante uma natureza agreste e os contrastes entre uma fragilização e degradação da vida humana e alguns artificialismos do ambiente urbano.

Manuel Ferreira e Orlanda Amarílis, anos 80 do séc. XX
O Mindelo, cidade de criação recente e crescimento rápido, associara o seu destino de cidade portuária à navegação a vapor que mudara o tráfego marítimo na segunda metade do século XIX. 

Quando os expedicionários portugueses aportaram ao Mindelo, a situação económica e social da cidade e da região atravessava uma crise de tripla origem: a alteração da tipologia de transporte marítimo e consequentemente das respectivas rotas com a substituição do carvão pelo petróleo; os efeitos das ameaças e bloqueios gerados pela batalha atlântica no quadro da Segunda Guerra Mundial; a persistência de períodos de seca, com o seu cortejo de impactes sobre a vida humana: doença, fome, migrações, morte.

Manuel Ferreira envolveu-se profundamente na vida local. Não foi certamente o único militar a fazê-lo, mas foi talvez dos que revelaram sensibilidade mais apurada para os dramas humanos que eclodiam no arquipélago e particularmente em São Vicente. Mas foi também dos que mais agudamente se aperceberam da extraordinária criatividade cultural cabo-verdianas, de que o Mindelo de alguma forma era na época um farol, com o seu liceu (os seus professores e os seus alunos), os seus escritores, os seus músicos/poetas, os seus intelectuais despertos para as questões da identidade, e com uma língua cuja riqueza se revelava muito superior ao que vulgarmente era admitido.

Em suma, Manuel Ferreira mergulhou num ambiente de uma vitalidade insuspeitada, matriculou-se no liceu, participou nas discussões e projectos dos estudantes do seu tempo, beneficiou do convívio com grandes professores e intelectuais, como Baltasar Lopes e Aurélio Gonçalves, descobriu a sua própria vocação literária, animou uma tentativa de intervenção cultural (a revista Certeza, de 1944). Enfim, conheceu uma jovem aluna do liceu, natural de Assomada, Santa Catarina, a futura escritora Orlanda Amarílis, com quem casou. O primeiro filho do casal, nascido em 1946, é cabo-verdiano.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

[3001] No centenário do escritor Manuel Ferreira (ver também post anterior)

Centenário de Manuel Ferreira

2 - Comemorações

João Serra
Manuel Ferreira nasceu em Gândara dos Olivais, Marrazes, Leiria, a 18 de Julho de 1917. Na sua terra natal a evocação do escritor começou em 28 de Março de 2017, com uma conferência do Professor Pires Laranjeira, docente da Universidade de Coimbra, antigo discípulo de Manuel Ferreira. A conferência teve lugar na Escola Secundária Afonso Lopes Vieira, localizada na Gândara dos Olivais. No passado dia 22, dia do Município, a Câmara de Leiria entregou a Hernâni Ferreira, filho do homenageado, a medalha de ouro da cidade, atribuída a seu pai a título póstumo.

A Câmara de Leiria prepara para 18 de Julho um sarau literário e a organização de uma exposição itinerante sobre a vida e obra de Manuel Ferreira a qual deverá circular pelas escolas do concelho.

Ao microfone do Rádio Clube Port., com Aquilino Ribeiro
Também para 18 de Julho, prepara-se uma exposição para as Caldas da Rainha, no Museu de José Malhoa, sobre a vida e obra de Manuel Ferreira. A Exposição seguirá para Leiria em Setembro. Nessa altura pretende a Câmara de Leiria organizar ma conferencia internacional sobre a obra de Manuel Ferreira.

A 16 de Dezembro, no Centro Cultural de Belém, haverá uma sessão de evocação de Manuel Ferreira, com a presença do escritor cabo-verdiano Filinto Elísio e da escritora angolana Ana Paula Tavares e de Deolinda Barros, antiga aluna daquele professor que lerá passagens da sua obra de ficção. Nessa altura deverá já estar disponível uma biografia de Manuel Ferreira, que será editada pela Rosa de Porcelana, uma editora cabo-verdiana. (termina no próximo post)

terça-feira, 13 de junho de 2017

[3000] No post 3000, em dia de festa, sai para o Mundo um português cabo-verdiano, o escritor Manuel Ferreira, em aparato de centenário


Praia de Bote chega neste dia de Santo António de 2017 ao post 3000. Correr por gosto não cansa, mas que dá trabalho, dá. Na verdade, trabalho que se farta... Pesquisar em profundidade, transformar lettering diverso para uniformizar visulamente (como num jornal digital), encontrar imagens que os textos nem sempre comportam ou arranjar textos para imagens que temos, fazer apresentação dos artigos, quando necessário, "inventar" outros, lutar contra os humores dos filmes que nem sempre se adaptam ao blogue e não querem lá ficar, etc., etc., etc., é coisa para gente de barba dura. Mas é isso que tem sucedido, desde o dia inicial, a 7 de Fevereiro de 2011. E continuará, até termos paciência e tempo para tal. Porque o Mindelo, São Vicente e Cabo Verde o merecem. Sobretudo, por isso. 

João Serra
Neste dia festivo de três milhares cumpridos e como ponto alto do mesmo, iniciamos a publicação de três textos do professor universitário João Serra, nosso recente amigo, também interessado pela res cabo-verdiana, que encabeça as comemorações do centenário de nascimento do escritor Manuel Ferreira aqui em Portugal. Em continuação, Praia de Bote publicará capas dos 13 livros que temos de um dos escritores portugueses mais cabo-verdianos de sempre, dois dos quais com autógrafo e dedicatória a conhecidos seus. Um obrigado ao João Serra pela simpatia, pelos textos e pelas fotos que obviamente protegemos com marca de água, para evitar abusos.

Centenário de Manuel Ferreira

1 - Nota biográfica

Manuel Ferreira, nos anos 70 do século XX
Completa-se no próximo dia 18 de Julho o centenário do escritor Manuel Ferreira. Autor de obras de ficção como Hora Di Bai (1962) e Voz de Prisão (1971), foi também um investigador qualificado da história cultural e literária dos países africanos de expressão portuguesa, tendo editado, prefaciado, antologiado e estudado a produção literária contemporânea de autores cabo-verdianos, angolanos, guineenses, moçambicanos e são-tomenses. Alguns títulos que publicou: Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, 1977; 50 Poetas Africanos, 1989, No Reino de Caliban, 3 vols. 1972, 1976, 1986; revista África, catorze números editados entre 1978 e 1986. Em 1974 foi convidado para leccionar a cadeira de “Literatura Africana de Expressão Portuguesa” na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, iniciando então uma intensa carreira académica no decurso da qual formou e orientou estudantes de licenciatura, mestrado e doutoramento, efectuou e publicou investigação e fez conferências pela Europa, África, Brasil e Estados Unidos.

Menos conhecida é a sua condição de militar. Manuel Ferreira alistou-se no Exército, em 1933, com dezasseis anos, tendo sido colocado em Metralhadoras 2, em Coimbra. Foi afastado em 1938, devido ao envolvimento numa tentativa de revolta. Regressou em 1940, sendo colocado em Infantaria 7, em Leiria (concelho de que era natural). Foi expedicionário em Cabo Verde, na ilha de São Vicente, ente 1941 e 1946. Voltou então para Leiria. E daqui partiu para a Índia, em 1948, ali permanecendo até 1954. Colocado em seguida em Infantaria 5, nas Caldas da Rainha, com o posto de 1º sargento, prestou serviço como chefe da secretaria, em funções de substituição de um oficial, durante quatro anos. Colocado em Lisboa, em 1958 desempenhou funções no serviço de Recrutamento e Mobilização Militar. Promovido ao posto de tenente em 1965, seguiu para Luanda ali permanecendo até 1967. Passou à reserva no posto de capitão em 1974.

Quando ingressou nas forças armadas tinha o curso comercial da Escola Técnica Domingos Sequeira de Leiria. No Liceu Gil Eanes, no Mindelo, concluiu o curso liceal, letras, a que acrescentou ciências, já em Goa, no Liceu Afonso de Albuquerque. Em 1952, licenciou-se em Farmácia, na Escola Médico-Cirúrgica de Goa. Em 1974 concluiu o curso de Ciências Sociais e Politicas no Instituto de Ciências Sociais e Politicas Ultramarinas. (continua)

[2999] Os judeus de Cabo Verde

Ver a partir do post 2997
Neste post 2999, lançamos o link para um interessantíssimo artigo de Ângela Benoliel Coutinho sobre a presença judaica em Cabo Verde. Fala ele de gente que se instalou nas ilhas, descendente do povo de Israel e que nelas singrou, sendo motor de progresso, modernidade e desenvolvimento. Podemos dizer, sem sombra de dúvida, que sem os judeus de Cabo Verde, o país não seria "este" Cabo Verde. A ler, com prazer.

Ver AQUI

segunda-feira, 12 de junho de 2017

[2998] No centenário da Grande Guerra, surpreendemos Eugénio Tavares num jornal de Lisboa

Ver a partir do post 2997
Era a guerra, primeira mundial e Grande, demasiado grande. Nhô Eugénio interessava-se pela coisa e escrevia sobre ela num dos seus opúsculos intititulados "Cartas Caboverdeanas", de que um excerto surgiu a 25 de Maio de 1916, em "A Capital", de Lisboa. Lembremos que tal como no Continente, haviam sido apresados navios alemães em Cabo Verde (72 no total), um dos motivos que levaram os alemães a declarar guerra a Portugal. Encontrado o texto por nós há dias, precisamente no jornal lisboeta, ele aqui fica para os nossos leitores.





[2997] A caminho dos 3000 posts, de João para João, com falta de velas e de petróleo

Praia de Bote está prestes a completar 3000 posts dedicados sobretudo ao Mindelo e a São Vicente, mas também ao restante Cabo Verde. Somos neste momento uma dos mais antigos lugares da Internet alusivos ao arquipélago da morabeza e esperamos adquirir ainda mais bidjiça blogal, sempre com as ilhas no pensamento. Neste sentido, já com alguns últimos posts de superior qualidade, vamos aprimorar os próximos seis (ou sete, contando com este e com o 3000 pelo meio, o da grande festa, alusivo a Manuel Ferreira, português tão ou mais cabo-verdiano que nós). Assim será!...


Estamos em 8 de Abril de 1943, em São Vicente. A ilha está atafulhada de soldados do contingente expedicionário que ali se encontra a defender o território então português de veleidades nazis. A Marinha vai dando conta do recado, reagindo conforme pode. Quando aos homens em terra, cumprem o seu dever com total traquilidade, já que o baixote do bigodinho acabou por nunca sequer tentar invadir o arquipélago, embora vontade não lhe faltasse. 

Mas se por um lado a presença do exército é benéfica para muita gente e mata alguma fome de alimentos, nem tudo eram rosas para os expedicionários, mesmo os de maiores posses, como se pode ver por este postal que é enviado de São Vicente para o Palácio da Anunciada, na então Rua Eugénio dos Santos, hoje das Portas de Santo Antão (ver AQUI e AQUI personalidades que ali nasceram). Fizemos a transcrição, para melhor leitura pelos nossos visitantes (no final do post). O "João" referido, marquês e também 5.º conde de Rio Maior, era de seu nome completo João de Saldanha de Oliveira e Sousa (1878-1970). O postal é datado duas vezes, de 8 de Abril (no final) e de 17 do mesmo mês no início, em espaço que deve ter sido deixado em branco até o remetente o ter podido colocar no correio.

Este post, entre pesquisa, cópias, transcrição e arranjos diversos, demorou cerca de 45 minutos a ser realizado. Esperamos que os nosso leitores correspondam ao esforço com comentários (incluindo os nosso amigos, cujos textos publicamos com regularidade e que assim terão oportunidade de pagar o trabalho que temos com eles).



Meu querido João,
Já deitei no correio uma
carta para ti que registei.
Aqui vai este postal
para te pedir mais
um favor, isto é, se me
mandavas pelo correio
uma ou [duas - palavra que o autor se esqueceu de escrever] dúzias de velas 
que sejam boas e grandes.
……………………………………..
É com  velas que ilumino os meus aposentos
e não há uma só em São Vicente, tendo eu de
fazer uso de lamparinas. Petróleo para can-
deeiros, também não há; uma verdadeira
miséria. Não esqueças.

Um enorme abraço do primo
e amigo
João

[2996] Praia, campo de batalha... há 200 anos

Emanuel "Munaya" d'Oliveira
Uma espessa cortina de fumo tomou conta da baia enquanto se ouvia o som ensurdecedor dos canhões de elevado calibre, tiros de mosquetes, velas queimadas e mastros a caírem. O cheiro da pólvora a misturar-se com o da madeira em chamas, imagino que nesse momento areia ou cascas de ovos eram esmagadas e espalhadas pelo chão para evitar que marinheiros e militares escorregassem no sangue dos colegas mortos ou feridos, o cirurgião de bordo a preparar as suas ferramentas para intervenções mais urgentes, centena e meia de homens movimentam-se ao mesmo tempo, cada um com uma função precisa de usar peças de artilharia, içar ou arriar velas, trepar mastros acima, deitar âncoras, gritar ordens… da terra olhos escancarados dos nossos antepassados não deviam estar a perceber o que se passava, muitos devem ter fugido aterrorizados, pensando poder tratar-se de mais um ataque de piratas ou de alguma invasão…

Os muitos acontecimentos históricos que tiveram lugar nos nossos mares só reforçam a ideia que antes de mais somos uma nação marítima. Em todo o nosso vasto espaço aquático tiveram lugar tantos feitos que ao serem contados e recontados engrandece-nos lembrando que apesar da nossa relativa curta existência, ela é rica.

A batalha, vista por Pierre-Julien Gilbert
Durante vários séculos Praia serviu de ponto de passagem, desembarque de piratas, descanso de armadas, centro de comércio, enfim quase tudo o que se pode imaginar, até de luta entre grandes potencias militares.

Há pouco mais de duzentos anos, a baía da Praia era sacudida por uma violenta batalha entre franceses e ingleses, foi na manhã do dia 16 de Abril de 1781.

Os países da Europa estavam sempre em guerra entre eles, a França e a Inglaterra tinham-se envolvido numa renhida guerra que parecia não ter fim. Nos mares de todo o mundo atacavam-se mutuamente e em certos casos não respeitavam o território em que se encontravam. Cabo Verde, território português, portanto neutro, devia ser respeitado como tal, não foi o que aconteceu. Mas também não era para menos, até barcos de pesca ingleses recusavam-se a reconhecer as autoridades lusas na vizinha ilha do Maio, quando vinham desaforadamente abastecer-se em sal, imaginem se os vasos de guerra o iriam fazer, sendo os melhores armados em todo o mundo naquela época.

Este incidente da baía da Praia aconteceu durante a guerra de independência dos EUA de 1775 a 1783 depois de 13 colónias norte americanas e a coroa inglesa entrarem em rota de colisão. A França aliou-se então aos americanos seguidos dos espanhóis e mais tarde imitados pelos holandeses.

Foi nessa situação de tensão internacional que a armada francesa comandada por Pierre André de Suffren deparou com a esquadra inglesa ancorada em plena baía. Apesar das normas militares proibir ataques nessas circunstâncias, Suffren não hesitou, inclusive em desrespeitar a neutralidade portuguesa. Atrás disso havia igualmente uma rixa pessoal, Pierre André tinha sido igualmente atacado e feito prisioneiro no porto de Lagos na Nigéria em circunstâncias idênticas.

O comboio inglês, estacionado na Praia de Santa Maria da Esperança a descansar, destinava-se a atacar as colónias da Holanda na Africa do Sul, era constituído por oito barcos de guerra, doze que transportavam munições e catorze da marinha mercante que pertenciam à Companhia Inglesa das Índias.

Para além do envolvimento numa guerra declarada, os franceses tinham outra razão bem forte para efectuarem esse ataque.

Tudo indica que surgiram dos lados da Ponta Bicuda com todas as velas içadas, inferior em número e em poder de fogo, conhecido como chefe enérgico, audaz e impaciente, Suffren resolve por em prática uma táctica revolucionária. Em vez de mandar colocar os barcos em linha de combate, resolve destruir a retaguarda ao mesmo tempo que neutraliza o seu comando.

Com "Le Heros" à frente, seguido de "L’Annibal", de "L’Artesien", de "Le Vengeur" e mais atrasado vinha "Le Sphinx", às 10 horas da manhã os vasos de guerra encontravam-se em plena baía da Praia, surpreendendo totalmente os ingleses que eram comandados por George Johnstone. Este encontrava-se nesse preciso momento dentro de um bote a circular entre os barcos que comandava e teve que saltar para o Romney por se encontrar mais à mão.

Os três primeiros barcos franceses passaram tão perto que era impossível falhar um tiro sequer. Primeiro utilizaram canhões de 24 e 36 mm seguidos de peças ligeiras de 8 mm e finalmente até tiros de mosquetes fizeram-se ouvir feitos pelos soldados, varrendo todo o convéns de Monmouth.

Embora desordenadamente os ingleses ripostaram atingindo seriamente "L’Annibal" que saiu da cena rebocado pelo "Sphinx" enquanto na ponte de "L’Artesien" o seu comandante Cardillac tombava, fulminado por uma bala. Instalou-se uma certa confusão após a perda do chefe, o que fez com que não deitassem âncora e o barco saiu derivando quase sem tomar parte na batalha.

Entretanto os dois barcos que se encontravam atrasados não perceberam a táctica inovadora de Suffren, tendo empreendido manobras desajeitadas o que não possibilitou que também participassem na peleja propriamente dita.

Instalado a confusão os dois primeiros navios encontravam-se numa situação de perigo e à mercê da esquadra inglesa que dava sinais de recuperação. Foi então que contra a sua vontade e temendo o pior Pierre André de Suffren, manda cortar os cabos das âncoras e forçar a sua saída do campo da batalha.

Fora da baía, já ao largo os franceses se reagruparam, preparando-se para um contra ataque inglês, que se previa ser devastadora devido à supremacia inglesa. Tal não aconteceu. O Commodore Johnston, intimidado pela determinação do comandante francês, mas certamente ciente da sua principal missão, levantou âncora mas não se aproximou, recolhendo definitivamente ao porto às nove horas da noite. Além de enorme prejuízo material, teve uma baixa de 183 homens, 36 dos quais mortos e 147 feridos. Do lado dos franceses, não se conhece o numero de mortes e feridos.

Placa comemorativa, baía da Praia
O sucesso francês foi de grande valia estratégica. Atrasou os ingleses de tal forma que esses só puderam fazer-se ao largo no dia 2 de Maio após todos os consertos que se mostravam necessários. Entretanto o percurso até ao Cabo da Boa Esperança e para a Índia apresentava-se segura para as frotas francesas e holandesas. Sobretudo possibilitou o reforço dos holandeses que iam ser atacados no Cabo e assim evitou o assalto e conquista daquele território pelos ingleses, saldando-se apenas no aprisionamento de alguns navios.

Para fixar essa data na história, no museu da Marinha francesa existe um quadro de Rossel com a pintura deste confronto militar que teve lugar na nossa capital, um dos submarinos da armada de França foi baptizado com o nome da cidade da Praia, nas proximidades da ponta Temerosa (extremo sudeste da baía) chegou a ser colocada uma placa comemorativa. E, se um dia alguém se lembrar de valorizar os vestígios arqueológicos subaquáticos do nosso país poderá tentar encontrar e identificar uma ou mais âncoras do "Le Heros" e "L’Annibal", enriquecendo assim com mais uma vírgula a nossa história marítima e nacional.

Texto de apoio: Bertrand, Michel, En Plein age d’or de la marine en bois, une campagne de monsieur de Suffren

[2995] Problemas ambientais em São Vicente

Ver AQUI

[2994] Boas notícias para a Reserva Natural de Santa Luzia

Ver AQUI

sábado, 3 de junho de 2017

[2993] Primeiro dos dois anunciados textos de Arsénio de Pina

Conseguido um curto espaço de sossego nas nossas actividades, resolvemos publicar o primeiro de dois prometidos textos de Arsénio de Pina. Ele aqui vai... "incomodamente".

ALGUMAS VERDADES INCÓMODAS

Arsénio de Pina
As verdades incómodas a certos políticos, a mamadores do úbere governamental e a poucos inocentes são o que geralmente se apelida de politicamente incorrecto. Como fazer política é, acima de tudo, mudar a realidade, vou apresentar algumas dessas verdades a políticos consequentes e a inocentes que o queiram fazer.

A expressão cabo-verdianidade pode cheirar a racismo e nacionalismo chauvinista, ou levar a isso, como aconteceu na Costa do Marfim após o falecimento do H. Boigny com o seu sucessor. Talvez seja mais recomendável a expressão Cabo Verde cultural, no sentido lato de cultura, que implica educação, sociologia, política, economia e relação com o outro.

Reduzir Cabo Verde ao crioulo significa confiná-lo ao mutismo, mormente agora quando o português já é língua internacional utilizada na ONU.

O direito à diferença não se encontra consignado em nenhuma constituição, provavelmente porque o outro, isto é, a alteridade, permanece uma abstracção na maioria do espírito de constituições. Esta falha é tanto mais grave quando se observa também na religião, como acontece no Islão.

O monismo de opinião na sociedade não se limita a ser unicamente uma simples servidão política, mas igualmente servidão cultural, económica e social. Subjuga o homem e prolonga a dependência.

À noção de Nação que existia entre nós, em Cabo Verde, de longa data, como escrevi algumas vezes, veio enxertar-se a de Estado aquando da independência, mas subordinada ao Partido, identificando Nação e Estado com Partido. Se estivesses com o Partido, eras cidadão; caso contrário, estavas sujeito à nulidade ou à perseguição. Esta é a prática, aliás, a política do partido único, a que vivemos no chamado Estado Novo e após a independência, mesmo quando chegámos à pluralidade partidária, embora em menor grau, por o vício ter costas largas e nunca termos cultivado a prática da liberdade.

Os militantes partidários políticos são, na sua maioria, formatados às ideias dos líderes.

O diálogo que existiu entre o logos grego e os pensadores muçulmanos, diálogo sobre a metafísica, desde Averróis e Avicena e entre outros sábios da época, deixou de produzir frutos devido ao fundamentalismo religioso e à instrumentalização política e social do Islão.

O equívoco da globalização, que levou à anulação das soberanias nacionais e da regulamentação económica e financeira, apostou na liberalização de tudo (bens, capital, etc.), havendo aumento de tutela do financismo sobre a vontade do poder. Quanto ao prometido crescimento económico, aconteceu o contrário. Só cresceu a disparidade entre os excessivamente ricos e os imensamente pobres e miseráveis. O que hoje se globaliza é precisamente a forma capitalista de exploração.

O que é preocupante no mundo actual é a falta de sentido de serviço público, aquilo a que os ingleses chamam de civil service spirit. O sentido do serviço público, e não apenas funcionar ou gerir o que é público. O que é público é, vezes sem conta, interpretado como um património sem dono e não como um património colectivo, que realmente é. Por outro lado, não haver uma condenação sistemática da corrupção por parte dos colegas dentro de uma instituição, permite que estas práticas e condutas se tornam um modus operandi.

A organização em holding, quer dizer, a possibilidade de um grupo ter um banco a cuja direcção possa confiar as operações financeiras, tem precisamente por objectivo tornar mais fácil a entrada em pleno nas finanças globalizadas.

É preciso chamar as coisas pelos seus nomes como fez, corajosamente, a deputada do PS, Isabel Moreira, no Parlamento Português, despindo o regime angolano: a corrupção que goza da subserviência de quem beneficia da sua característica real, o dinheiro.

Uma das armas mais eficazes da comunicação social subserviente é a maior parte das telenovelas que adormecem a consciência popular e provocam uma verdadeira viciação. São o ópio do povo do mundo de hoje.

O milagre é como um golpe de Estado dado por Deus contra as suas próprias leis.

O abstencionismo que se observa nas eleições é quase sempre provocado por aversão à propaganda. A informação verídica é uma das melhores armas contra a violação psíquica das manipulações.

Quando a política se esvazia da sua dimensão ética e das regras básicas da lealdade humana, estaremos a legitimar o oportunismo, o cinismo e a duplicidade de comportamentos.

Veja-se como foram transformados os nossos tribunais, para deleite dos advogados de negócios e interesses, desespero dos lesados e alegria dos culpados!

A moda é a procura de um novo ridículo. É só ver os jovens com as calças descaídas no traseiro e os fundilhos ao nível dos joelhos para se verem as cuecas, as jovens com jeans rasgados nos joelhos e coxas, e já vi com rachas no traseiro (nos EUA), o que promete rachas também à frente. De ridículo, a moda passou a ser pornográfica. Não obstante os jovens actuais serem mais bem formados do que outrora, nalguns a extensão da ignorância é abissal. Há quem pense que o Levítico é um grupo rock.

Por ora ficamos por aqui, dito de outro jeito, é quanto basta para irritar alguns e agradar àqueles que em Cabo Verde se esforçam por cultivar a sua inteligência, como diria o nosso Mestre Aurélio Gonçalves.

Parede, Dezembro de 2016

sexta-feira, 2 de junho de 2017

[2992] Regresso do Pd'B para breve, com quatro (4!) excelentes colaborações

Praia de Bote regressará mais uma vez ao éter da Internet por volta dos dias 12 ou 13 de Junho, com quatro (4!) textos de três colaboradores, um deles, novo, ao qual damos boas-vindas. A saber, teremos os seguintes materiais...


Arsénio de Pina
- Algumas verdades incómodas
- Será que Soncente já cabá na nada?

Emanuel "Monaya" d'Oliveira
- Praia, campo de batalha

João Serra (Instituto Politécnico de Leiria)
- Texto sobre o escritor Manuel Ferreira, cujo centenário de nascimento se celebra este ano  e cujas comemorações este docente está a coordenar.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

[2991] Intervalo

Assoberbado com três artigos que tem em mãos, mais duas outras actividades falatórias que requerem cuidada preparação, Praia de Bote faz intervalo para mergulho total na papelada e no arquivo. Até breve!


[2990] Não é não, este blogue não é um serviço público!!!


Ao longo dos mais de seis anos que este blogue tem vindo a servir o Mindelo, São Vicente e Cabo Verde (exactamente por esta ordem - que é a que nos interessa), temos recebido pedidos de colaboração de estudantes e professores universitários (de Portugal, Cabo Verde e Brasil) sobre assuntos das ilhas. Não admira, pois os 3000 posts aqui colocados consubstanciam na realidade um manancial de informações extremamente valioso, resultante da nossa contínua pesquisa e de materiais gráficos e escritos e colaborações que três ou quatro amigos (os chamados indefectíveis, um dos quais recentemente falecido) nos oferecem de há muito.

Acontece que com a nossa habitual boa vontade e espírito de corpo (investigador que se preze deve colaborar com os seus parceiros, desde que isso não prejudique o seu próprio trabalho, nomeadamente quando pretende publicá-lo, o que se compreende) temos correspondido a esses pedidos, três dos quais aconteceram nos últimos dois meses e o último hoje (que terá possível participação do Adriano Lima e do Djô Martins, se eles assim o entenderem). 

Acontece também que a generalidade dessas pessoas que nos têm pedido colaboração, todas desconhecidas nossas até aí, depois de apanharem o que pretendem (e quase todas têm levado algo do seu interesse) levantam ferro, zarpam e nunca mais vêm a este porto dar o ar da sua graça. Daí que a partir de agora, com a excepção do de hoje, o Praia de Bote nunca mais responderá a pedidos desta natureza. Quem desejar usufruir dos nossos arquivos, que venha até aqui, que se torne um de nós (é fácil e gratuito...) e depois logo falaremos...

[2989] Morreu um bom mindelense: "Lela" da Casa das Bandeiras

Ver AQUI

quinta-feira, 25 de maio de 2017

[2984] Prometido é devido

Para os efectivos do Pd'B, mesmo que um deles não tenha cumprido a mandança comentarial total - que afinal tem cumprido quase sempre, com raríssimas excepções. Amanhã, para eles, seguirá o documento completo. Para os mudos, fica este excerto bailável. É que quem não trabuca, não manduca... e agora, os grandes posts, de material especial, só vão (completos) para quem é DE FACTO comentador.

[2983] Mais Morgadinho, em "Um Página Voltode" (ver post anterior)


[2982] Morgadinho, em "Flor Formosa"



Em Portugal, o dia está feio, com o tempo armado em tropical, muito calor e chuvadas fortes. Para animar os portugueses e cabo-verdianos que cá vivem, eis Morgadinho a soprar directamente de França para nós. Força ness trumpete, grande criol d'Gália.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

[2981] Mais Jovino. "Mnine de Soncente", de 2016 (com carinha d'gente tchéu cunchide na mei dess muzga)


Pena a gralha "Mnie" no título escrito sobre o filme. Contudo, no título do post do Youtube, a palavra está certa. E, de facto, ser "mnine de Soncente" é algo muito especial. Só quem o é, o compreende.

terça-feira, 23 de maio de 2017

[2980] Novos estudos mostram que afinal a morna não nasceu na Boavista mas sim em Braga. Ou quase...

Confirmaremos esta afirmação por email a quem já tenha comentado ou comente todos os posts até ao 2970, inclusive, até dia 25 (quinta-feira), pelas 22h00. É desnecessário comentar este.

[2979] Um single de Jovino (dos Santos)

O "single" era a categoria mais económica dos discos, apenas com duas canções, uma de cada lado, o A side e o B side. Depois, havia os EP, com duas em cada face e os LP, com bastantes mais. Aqui temos portanto,com selo "Monte Cara" um single de Jovino, cantor a autor de ambas as peças,"Guerra d'casode" e "Viver d'Criol". Ouvir AQUI o lado B



[2878] A Rota dos Escravos, parte 3

[2877] A Rota dos Escravos, parte 2

[2876] A Rota dos Escravos, parte 1

sábado, 20 de maio de 2017

[2970] Afinal...

Ver AQUI e AQUI

[2969] Um fotógrafo gaulês no Mindelo, na transição do século XIX para o XX

O homem estava na cidade há algum tempo, quando fez esta foto em papel de luxo e com um cuidado gráfico que só alguém vindo de lugar bem cosmopolita era capaz de realizar. Dois manos (?) desconhecidos, exactamente em 1900, o ano em que Eça de Queirós morreu, fotografados pelo Maximilien Baumont. Claro que quem mais percebe destas coisas é o Djô Martins, como AQUI se pode ver...


sexta-feira, 19 de maio de 2017

[2968] José Luís Fonseca Soares de Carvalho continua a dar pontos ao Pd'B

José Luís Fonseca Soares de Carvalho, de quem já havíamos falado em tempos, continua na sua solitária missão de dar pontos ao Pd'B. Porém, nunca chegou à fala connosco. Enfim, ele lá sabe... De qualquer modo, agradecemos a militância com que nos vai brindando, embora isso não nos sirva absolutamente para nada. Um bom comentário era muito mais interessante que 100 pontos...


[2967] O Obama de Cabo Verde

Ver AQUI