terça-feira, 11 de julho de 2017

[3057] Praia de Bote, mais uma vez, em cima do acontecimento: discurso de Jorge Santos, hoje, na Assembleia Parlamentar da Francofonia, Luxemburgo

BREVE ALOCUÇÃO DO PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA NACIONAL, JORGE SANTOS, NA SESSÃO PLENÁRIA DA ASSEMBLEIA PARLAMENTAR DA FRANCOFONIA

Luxemburgo, 11 de Julho de 2017

Senhor Presidente da Câmara dos Deputados do Luxemburgo, Mars de Bartolomeo
Senhora Secretária Geral da Francofonia, Michaëlle Jean
Senhor Presidente da Assembleia Geral da Francofonia, Aubin Minaku
Senhores Presidentes dos Parlamentos Nacionais
Caros colegas parlamentares
Caros jovens parlamentares
Caros participantes desta Assembleia
Minhas senhoras e meus senhores

Constitui motivo de orgulho para mim e para a Assembleia Nacional de Cabo Verde que aqui tenho a honra em representar, participar nesta 43ª Sessão da Assembleia Parlamentar da Francofonia, que coincide justamente com os 50 anos da criação da APF no Grão Ducado do Luxemburgo.

Confesso-vos, que nos sentimos em casa. Luxemburgo tem sido casa de milhares de cabo-verdianos, há já varias décadas, têm tido uma adequada integração nesta comunidade, com impactos positivos na contribuição que têm dado no processo de desenvolvimento do nosso país. 

Somos um país diaspórico. Temos cerca de 550 mil habitantes a residir em nove das dez ilhas do nosso arquipélago, mas temos ainda, aproximadamente o dobro a residir em várias paragens do mundo, como Estados Unidos da América, Brasil, Argentina, Senegal, Costa do Marfim, Angola ou São Tomé e Príncipe e no continente europeu temos significativas e importantes comunidades aqui no Luxemburgo, Alemanha, Suécia, Noruega, Reino Unido, Suíça, Holanda, França, Bélgica, Itália, Espanha e Portugal.

Fomos e continuamos a ser um país aberto ao mundo. Temos mais de 500 anos de história, feita de sacrifícios e esperanças. Hoje, malgrado as naturais vicissitudes de um país insular e de parcos recursos naturais, somos uma referência em África e no mundo a nível da boa governação e do desenvolvimento humano.

Somos um Estado soberano de Direito Democrático desde 1991, com uma Constituição moderna, com estabilidade social e política, alternância de poder, poder local próximo das populações, indicadores apreciáveis de educação e saúde, comprometido com a equidade e igualdade de género e com a segurança e paz mundiais. 

Não obstante, séculos de dominação e de desesperança, lutámos sempre para a preservação da nossa identidade cultural, atitude evidenciada por várias gerações de cabo-verdianos, que fizeram sempre questão de afirmar a cabo-verdianidade.

Somos um povo que resultou do cruzamento e confluência de várias culturas, que hoje enforma o nosso mosaico identitário. Mais do que qualquer outra coisa somos acima de tudo cabo-verdianos. 

Falamos a nossa língua materna, o crioulo, veículo de comunicação da maioria da população, convivendo naturalmente com a língua oficial, o português. Foi através das mornas escritas por ilustres escritores e poetas crioulos, que a nossa diva Cesária Évora encantou os franceses e milhares de apreciadores em todo o mundo e sobretudo junto de países francófonos.

Mas, o que estará aqui a fazer um país lusófono? 

Cabo Verde tem orgulho do seu passado. Um passado de abertura às civilizações, ao diálogo e interculturalidade. Temos relações históricas indestrutíveis com países que fazem parte do espaço da Francofonia, seja na Europa como em África, onde fazemos parte da organização política regional, a CEDEAO, com forte presença de países francófonos e, onde Cabo Verde reafirma crescentemente a sua vontade de integração política, económica, social e cultural.

Desde muito cedo, a Língua Francesa, fez parte do currículo escolar das nossas crianças e adolescentes, que sempre mostraram interesse, abertura e sensibilidade para com a língua e cultura francesas.

O espaço da Francofonia, pelas suas caraterísticas especiais, cujos membros estão espalhados por todos os continentes, tem todas as condições históricas e geoestratégicas, para se afirmar cada vez mais como um espaço de diálogo e convivência intercultural, de promoção da solidariedade, da tolerância, do respeito e da integração das minorias e de promoção da paz mundial.

Após vários anos de alguma ausência nas sessões da Assembleia Parlamentar da Francofonia, reafirmamos a nossa firme vontade em relançar a nossa participação, com sentido de pertença e de responsabilidade, perante os ingentes desafios, que temos que enfrentar em comum. Aliás, muitos dos problemas que hoje enfrentamos à escala global, derivam da ausência dos valores civilizacionais como a tolerância, o diálogo intercultural e a solidariedade.

Participámos, muito recentemente, no Reino dos Marrocos na 25ª Assembleia Regional da Francofonia, donde saiu a feliz decisão da realização da 26ª APF-África, em Cabo Verde, onde teremos o imenso prazer em receber as delegações dos nossos países irmãos francófonos. Irmãos pela história, irmãos pela cultura e irmãos pelos desígnios comuns.

Muito obrigado pela vossa atenção.






Com o Grão-Duque

sábado, 8 de julho de 2017

[3056] Ah ah ah ah ah! É preciso ser ignorante!... Sim, em Cabo Verde é só zagaias e flechas por todo o lado, fora elefantes e rinocerontes, cubatas e imbondeiros...


Estamos algures nos anos 10 do século XX e há um marmanjo (cujo nome conhecemos) que dá esta linda resposta a jornalista de um periódico lisboeta. Claro que levou dias depois valorosa reprimenda de um cabo-verdiano daqueles que comentavam sem medo o que lhes cheirava a pupu... (longo comentário que temos e de autoria também nossa conhecida). Hoje, embora com uma ou outra excepção, já não há comentadores com esta categoria. Veja-se o post em que há dias divulgámos a partitura de uma morna esquecida, documento raro, até porque ensina como ela podia ser dançada e verifique-se quantos comentários ele teve. Não estamos a falar de visitantes, obviamente, no caso, centenas... Mas olhem, olhem, fujam, vem um leão a descer a Rua de Lisboa... Ah! Desculpem, é só um adepto do Mindelense...

Ver AQUI

Assim, guardamos a sabedoria para nós, bem guardadinha, que nos fará falta tê-la, noutra ocasião mais "rentável"... E deixemos de novo aqui a Cize (em cartaz que em tempos realizámos), a maior embaixadora de sempre, da morna e das ilhas verdianas.

[3055] A medalha póstuma recentemente atribuída pela Presidência da República de Cabo Verde ao empresário César Marques da Silva

Não fazemos nenhuma indicação suplementar - que reservamos para familiares seus, se assim o desejarem. Agradecemos ao "efectivo praiabotista" Valdemar Pereira o envio das imagens.



sexta-feira, 7 de julho de 2017

[3054] Comemorações dos 70 anos da 1.ª edição de "Chiquinho" de Baltasar Lopes, em Almada



Confirmadas as datas das comemorações em Almada (Portugal) dos 70 anos do lançamento da 1.ª edição em livro de "Chiquinho", de Baltasar Lopes, talvez a obra mais conhecida de toda a literatura cabo-verdiana. 

É sabido que os primeiros excertos conhecidos do romance saíram em Março de 1936, na revista "Claridade" n.º 1 (duas páginas e meia, sob o título "Bibia, excerto do romance inédito 'Chiquinho'") e depois no n.º 3, de Março de 1937 (três páginas, intituladas "Infância"), mas o livro só foi publicado em Outubro de 1947, em Lisboa.

Pretendendo comemorar a data em Portugal, mais precisamente em Almada, terra de acolhimento de muitos cabo-verdianos, o administrador deste blogue, juntamente com o poeta e jornalista Fernando Fitas e a professora Dina Dourado propuseram em altura oportuna esta actividade à Câmara Municipal de Almada que desde logo a abraçou, o mesmo tendo acontecido com a Embaixada de Cabo Verde em Lisboa. Lembremos que já assim tinha acontecido com as bem sucedidas comemorações relacionadas com Jorge Barbosa, em Junho de 2013 e aqui relatadas.

Estamos portanto em condições de informar que as comemorações se desenrolarão entre 2 e 16 de Dezembro próximo, em Almada, em princípio no Forum Cultural Romeu Correia. Em ambos os dias haverá palestras relacionadas com Baltasar Lopes e a "Claridade", bem como uma exposição de 40 livros "claridosos" que decorrerá durante as duas semanas. Pormenores serão fornecidos, logo que possível.

[3053] Homenagem a Manuel Ferreira nas Caldas da Rainha: convite aceite

Praia de Bote tem todo o gosto em aceitar o convite para estar presente nesta merecidíssima homenagem ao escritor de "Hora di Bai" e lá estará, dia 22, no Museu de José Malhoa (Caldas da Rainha), para a inevitável reportagem.

Ex.mo Senhor
Professor Joaquim Saial

Venho por este meio convidar V. Exa. a participar no acto comemorativo do centenário do escritor Manuel Ferreira, que terá lugar nesta cidade, no Museu José Malhoa, no próximo dia 22 de Julho, às 15 horas.

Manuel Ferreira
Esta cerimónia constará da abertura de uma exposição intitulada Manuel Ferreira: Capitão de Longo Curso, seguida de uma mesa-redonda designada Manuel Ferreira, quem és?, com a presença dos professores Fátima Mendonça (Universidade Eduardo Mondlane, Maputo), Ana Paula Tavares (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras de Lisboa) e Mário Tavares (Instituto Politécnico de Leiria). Este programa tem como comissário o Professor João B. Serra, docente do Instituto Politécnico de Leiria, antigo Chefe da Casa Civil do Presidente da República Jorge Sampaio.

Manuel Ferreira, que nasceu em 18 de Julho de 1917 no concelho de Leiria, residiu nas Caldas da Rainha entre 1954 e 1958, tendo nesta cidade desenvolvido intensa actividade no domínio cultural.
Foi, como será do vosso conhecimento, um escritor e investigador que, em muitos aspectos, foi pioneiro no estudo e divulgação das literaturas africanas de língua portuguesa.

O seu contacto com a identidade cultural das antigas colónias portuguesas teve início durante a Segunda Guerra, quando integrou o exército expedicionário destacado para Cabo Verde. Estacionado em S. Vicente, ali veio a casar com a jovem estudante Orlanda Amarílis, futura professora e escritora.

Manuel Ferreira, que fora incorporado pela primeira vez em 1933, com dezasseis anos, veio a ter uma extensa carreira militar, de soldado ao posto de capitão, no decurso da qual, prestou serviço também na Índia e em Angola.

Tem uma obra de ficcionista, inspirado pelo movimento neo-realista, na qual o lugar de destaque vai para os livros de temática cabo-verdiana (Morna, 1948, Hora di Bai, 1962, Voz de Prisão, 1971). Em 1967, publicou A Aventura Crioula, um longo ensaio sobre a história da cultura cabo-verdiana. 

Em 1974, foi convidado para leccionar a cadeira de “Literatura Africana de Expressão Portuguesa” na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, iniciando então uma intensa carreira académica, ao longo da qual formou e orientou estudantes de licenciatura, mestrado e doutoramento, investigou e fez conferências pela Europa, África, Brasil e Estados Unidos.

Do seu trabalho de investigação resultaram trabalhos como Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, 1977; 50 Poetas Africanos, 1989, No Reino de Caliban, 3 vols. 1972, 1976, 1986; uma revista, África, com catorze números editados entre 1978 e 1986.

Na expectativa de poder contar com a honrosa presença de V. Exa. no dia 22 de Julho, nas actividades referidas, subscrevo-me com os melhores cumprimentos,

Fernando Tinta Ferreira
Presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha

[3052] "Claridade", nhô Balta, os sempre "corajosos heróis d'pli squina" e a censura

Ele, Baltasar Lopes, o diz em depoimento à edição fac-similada de "Claridade" de Março de 1986, por altura das comemorações do 50.º aniversário da saída do primeiro número da mítica revista de arte e letras de Cabo Verde:

 "(...) O curioso é que alguns censuraram Claridade, acusando-a de, durante a sua vigência, no regime colonial, não ter assumido uma atitude mais concretamente combativa, mais polemicamente expressa, no sentido da independência política do nosso arquipélago. (...) Que vistam a pele do lobo os opositores de Claridade, que imediatamente se veriam in mente a caminho, pelo menos, do presídio do Tarrafal... (...)

Praia de Bote mostra aqui os sinais evidentes de como era "fácil" publicar esta revista que hoje é um marco dos mais importantes da cabo-verdianidade e da sua cultura.

N.º 1 - Por algum motivo, o n.º 1, de Março de 1936, não apresenta sinal de ter passado pela censura. Por quase coincidência, a 14 de Maio desse mesmo ano regulava-se a fundação de jornais (também de revistas?) em Portugal.

N.º 2 - A negra e famosa frase vem no final da penúltima página (este número da revista teve 10), sob um trabalho de Manuel Lopes.


N.º 3 - A frase, de grafia idêntica, vem no final da última página, a 10, novamente sob texto de Manuel Lopes.


N.º 4 - A frase passou a estar enquadrada por linhas paralelas, duas em cima e outras tantas em baixo. Vem mais uma vez no final na última página, desta feita a 40, sob trabalho de recolha de conto popular, feita por Baltasar Lopes.


N.º 5 - Este número tem 44 páginas e a indicação vem, como antes, no final da última página, agora sob poema de Nuno de Miranda, separada deste por uma linha.


N.º 6 - Número com 42 páginas. Na última, a frase, sob poema de Pedro Corsino Azevedo. O tipo de letra deixou de ser bold, como sempre fora antes, mas o tamanho é maior. Há enquadramento de linhas, uma em cima e outra em baixo, tudo separado por uma terceira em relação ao nome de Nuno de Miranda.


N.º 7 - Não há sinal da passagem deste número da revista pelo crivo da censura. Isto, apesar de por exemplo em poema de Aguinaldo Brito Fonseca se ler: "O povo gritou de fome (...) O povo caiu na lama (...) O povo martirizado, etc."

N.º 8 - 76 páginas. A frase, que surge na última, é desta vez de tamanho mínimo, mal se dando por ela.


N.º 9  - 84 páginas, o número com mais páginas de sempre. A situação e dimensão da frase são idênticas às da do número anterior, aqui sob poema de Baltasar Lopes/Osvaldo Alcântara.


[3051] A diocese de Cabo Verde e a sua obra

O documento da Liga de Beneficência e de Acção Social da Diocese de Cabo Verde, cidade da Praia, ilha de Santiago, é mesmo muito interessante e talvez da primeira metade ou meados do século passado. São 14 pontos, dos quais aqui mostramos apenas os cinco primeiros. No final, há espaços para assinalar a data da oferta, bem como o endereço e a assinatura do ofertante. Os nossos visitantes que desejarem conhecer o documento completo que o indiquem aqui nos comentários, mas só se forem comentadores habituais dos posts do Praia de Bote.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

[3050] Ontem, 5 de Julho, dia da independência de Cabo Verde. Pd'B comemora-o hoje, c'morna prop antigo

"Atlantic Memories", de Vasco Martins
Ontem, não nos foi possível dar aqui um braça aos cabo-verdianos pelo seu dia da independência. Mas fazemo-lo hoje, com algo que é sinal de que Cabo Verde "é", de que Cabo Verde existe. E que existe MESMO desde 1460 - ou 62, se preferirmos, coisa que pode notar-se de muitas maneiras. Uma delas é através da morna, a canção (e dança) nacional. Morna essa que pouco depois de nascida já invadia as salas finas de Portugal, onde as meninas casadoiras sabiam tocar piano e falar francês. Praia de Bote mostra hoje uma pauta musical que, embora não datada, é de certeza do início do século XX, anos 10, anos 20, por aí. Sendo comummente aceite que a morna "Brada Maria" é a mais antiga (de Vuca Pinheiro/José Bernardo Alfama/Eugénio Tavares... ver AQUI), esta "Maria Adelaide" é uma das mais antigas. Há muitas versões, de Travadinha (no seu lendário disco gravado no Hot Club de Portugal, ali grafada como "Marê'Dlaid"), de Tété Alhinho, em "De-Cor-A-Som", e de Vasco Martins em "Atlantic Memories" (neste, até se diz que "Maria Adelaide" é a mais antiga). Infelizmente, não conseguimos encontrar nenhuma delas passível de aqui ser colocada, mas como temos o disco do Travadinha poderemos oferecer a versão do ilustre e saudoso violinista a quem no-la solicitar, com todo o gosto.

Quanto ao papel, tem quatro páginas em tamanho mais ou menos A3: a da capa, duas de partitura (mostramos apenas um pequeno excerto) e a quarta em branco. E até ensina esta gente bronc da Metrópole a bailar a "nova dança" em qualquer salão burguês de Freixo de Espada à Cinta, de Lisboa ou de Borba...



quarta-feira, 5 de julho de 2017

[3049] São Vicente: saltou a rolha à garrafa de champanhe. Será desta q'Monte Cara ta cordá?

[3048] Só erros, só erros, desgraça total

Eu gostava igualmente de fazer compras nas duas papelarias mais importantes do Mindelo: a do Leão (na altura, em 1962-65, situada na Rua de Lisboa) e a do Tói Pombinha (num espaço entre o plurim d'virdura e a Câmara Municipal). Ambas tinham artigos que me interessavam. A do Leão, cromos (que ainda guardo), canetas, esferográficas, minas para lapiseiras, livros escolares (também ainda conservo os meus dois pequenos mas excelentes dicionários de Português-Francês e Francês-Português lá adquiridos); a do Sr. António Ramos Gomes (más cunxide por Tói Pombinha), pelos romances policiais, de far-west e de Júlio Dinis, tinta-da-china e sobretudo pelo seu inigualável papel cavalinho. Parecia-me sempre que o comprado no Pombinha era melhor, quando o tira-linhas o sulcava ou o lápis de carvão o enchia de riscos, vá-se lá saber porquê.

Pois hoje, enquanto esperamos pelo Adriano que anda por fora (ele merece a espera, pelo seu militantismo colaborativo), divulgo não só um anúncio do Tói Pombinha existente num programa do Eden Park de Novembro de 1943 que o nosso amigo teve a generosidade de me oferecer, como um desenho meu, por acaso feito num papel que descobri hoje aqui no arquivo e que de imediato reconheci não ser do meu fornecedor. É folha pouco espessa, de papel inferior, decerto rapinada no gabinete do Patrão-mor, das usadas para ofícios ou cópias feitas a papel químico.

Lembro-me perfeitamente de estar a realizar esta "bela" obra, numa prancheta, no pátio da Capitania /Torre de Belém, a olhar directamente para o motivo que aqui se vê, o veleiro "Senador Vera-Cruz", de saudosa memória e, se não estou em erro, feito na Brava. Mas, ó miséria das misérias, o Djack que até tinha bastante jeito para o desenho, nesse dia só fez asneiras. Oa vejamos:

1 - O Monte Cara está ao contrário.
2 - Em pleno dia, com o Sol a brilhar no céu, o farol do Djéu está a acender e a apagar.
3 - O vento do Mindelo é completamente doido, mas não consta que enfune as velas dos veleiros para um lado e remeta as bandeiras dos mesmos para o outro.
4 - Aquele erro em Cruz...
5 - Santo Antão eclipsou-se ou então... afundou-se.
6 - Salva-se o DC3 que devo ter visto nalguma revista mas que nunca vi sobrevoar a baía.

Só asneiras, portanto... Mas que a silhueta do "Vera" era assim, era. E que era branquinho com uma lista verde junto ao mar, também. Perdoem-me o senador o erro do apelido e os visitantes a desgraça que lhes mostro e terá entre 52 e 55 anos. Mas stóra é stóra...

[3047] MestiÇos para cá, mestiZos para lá... E a cachupa de Cabo Verde?

Ver como a grande, nobre e jamais igualada cachupada crioula foi esquecida num novo restaurante "mestiço" de Lisboa. Ou estará para entrar, em próxima leva de ementa? Veremos! Entretanto, nesse particular, vamos ficando pela Tia Bé. Não é, Val?
Ver AQUI

terça-feira, 4 de julho de 2017

[3046] Arquitecto Nuno Portas (autor de projecto de legislação urbanística para Cabo Verde), homenageado ontem em Lisboa pela Ordem dos Arquitectos

Para comemorar o Dia do Arquitecto, a Ordem da classe homenegeou ontem o seu confrade Nuno Portas, natural de Vila Viçosa, na sala D. João VI do Palácio da Ajuda.

O seguinte texto foi copiado do site da OA

O Saber e a Curiosidade 

O saber e a curiosidade intelectual de Nuno Portas permitem-lhe navegar com segurança e conforto, numa multiplicidade de espaços, onde procura oportunidades para descobrir novos caminhos. 

Esta curiosidade, aliada a um certo sentido de aventura, levaram-no da crítica da arquitectura e do cinema à história e teoria da arquitectura, do urbanismo e da cidade; do exercício projectual à prática do planeamento, passando pelo desenho da cidade; do centro histórico à cidade explodida; da consciência social à intervenção política; de Lisboa a Madrid; do Porto a Milão; de Paris ao Rio de Janeiro; de Cabo Verde ao Japão; de Bruxelas ao Vale do Ave. 

Entendendo as diferentes realidades e contextos sabe intervir com oportunidade, no local e no tempo certo, produzindo obra e material científico inovador. 

Este percurso, apoiado por uma grande capacidade de trabalho, um saber profundo e obsessivamente actualizado e por uma generosidade, frontalidade e solidariedade com os seus companheiros de aventura, marcou indelevelmente a arquitectura e o urbanismo português e internacional, a partir do início dos anos 60. 

Apesar desta complexidade e riqueza temática pode-se subdividir este percurso em três períodos relativamente distintos. 

A partir dos finais dos anos 50, desenvolve uma acção pioneira na crítica da arquitectura e funda o Núcleo de Pesquisa de Arquitectura, Habitação e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil onde desenvolve, de forma inovadora, estudos sociológicos e métodos computadorizados de suporte à investigação e produção urbanística e arquitectónica. Inicia a carreira docente propondo abordagens projectuais interdisciplinares e tem um contributo decisivo na divulgação internacional dos arquitectos portugueses da geração de 60. 

Após o 25 de Abril de 1974 assumiu o cargo de Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, instituindo políticas de habitação que valorizavam o processo de participação pública e o direito à cidade. Criou o programa SAAL (Serviço Ambulatório de Apoio Local), fomentou o desenvolvimento das cooperativas de habitação e contribuiu para a formação de Gabinetes de Apoio Local, em particular dos centros históricos. Iniciou o processo de revisão da legislação urbanística portuguesa. Após esta experiência política, parte para Madrid onde foi consultor urbanístico e coordenou o processo de planeamento dos 25 municípios que constituem a sua Área Metropolitana. 

Em 1983, regressou a Portugal, como professor de Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, sendo presidente do seu Conselho Científico até à sua jubilação. Em 1990, regressa à política e foi eleito para uma autarquia onde desenvolveu um processo urbanístico que combina a gestão urbana com o planeamento territorial. 

Estas experiências estão patentes na produção de diversos textos e intervenções que visam a inovação da prática do planeamento e do projecto urbano, com ressonância em várias instâncias e publicações europeias. Simultaneamente, tem investigado a cidade difusa do Noroeste Português contribuindo de uma forma decisiva para a interpretação e definição de políticas adequadas ao ordenamento deste complexo sistema territorial. 

Manuel Fernandes de Sá 

in Nuno Portas, Prémio Sir Patrick Abercrombie UIA 2005. Lisboa: Ordem dos Arquitectos e Caleidoscópio, 2005 

Em 20.10.2012, com o pintor e escultor Espiga Pinto, também natural da sua terra, na Câmara Municipal de Vila Viçosa, onde foram ambos agraciados com a Medalha de Mérito Cultural





Nuno Portas 
(Vila Viçosa, 1934) 

Frequentou o curso de Arquitectura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa (ESBAL), obtendo o seu diploma na Escola Superior de Belas-Artes do Porto (ESBAP) em 1959. 

Na qualidade de professor, leccionou “Projecto” na ESBAL e, em 1983, transferiu-se para o curso de Arquitectura da ESBAP, tendo participado na fundação da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde viria a assumir funções como Professor Catedrático a partir de 1989. Actualmente é Professor Jubilado. 

Tem regido cursos em Universidades Europeias e Latino-Americanas, desde 1965. 

Trabalhou com Nuno Teotónio Pereira no Atelier da Rua da Alegria de 1957 até 1974, ano em que assume o cargo de Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo. 

Foi distinguido com os títulos de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro (1998), pelo Instituto Politécnico de Milão (2005) e pela Universidade do Minho (2012), foi elevado a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (2004), recebeu o Prémio Sir Patrick Abercrombie de Urbanismo da União Internacional de Arquitectos (2005) e a Medalha de Mérito Cultural (2013). 

É, desde 2010, membro honorário da Ordem dos Arquitectos.

Já publicada no Pd'B, foto de Espiga Pinto e Cesária foi feita em Paris. Só para se ver que "isto" anda tudo ligado...

[3045] África, África, África... (ver post anterior)

Mas Portugal também utilizava selos de um grande "país" chamado África. E de igual modo uma boa dose desses remediou a falta de selos em Cabo Verde nos primeiros anos do novo regime: carimbo "República - Cabo Verde" para cima e pronto.




[3044] Quando Macau era em Cabo Verde


A 5 de Outubro de 1910, com uns tirinhos pelo meio, chegou a República a Portugal. Logo, também, às suas colónias. Mas e agora arranjar selos para tanto lado? Parece que em Macau não se gastava muito selo, havia-os de sobra e faltavam em Cabo Verde. Toca então de carimbar uns quantos milhares com a palavra mágica do novo regime e o nome da colónia mais próxima da mãe-pátria. Estava o assunto arrumado... Há la povo mais desenrascado que o português... Qunto às datas, são a da descoberta do caminho marítimo para a Índia e a comemorativa dos 400 anos do feito.

[3043] Uma bandeira da lusofonia

Tito Paris é um dos nossos cantores preferidos, mesmo descontando o facto de ser cabo-verdiano - o que já de si é uma boa medalha. Lançou agora o álbum "Mim ê bô", após um interregno de vários anos sem gravar. A propósito desse facto, foi entrevistado pelo jornal electrónico "Observador" que em título lança uma frase do entrevistado, referindo que Tito Paris gostava de ver uma bandeira da lusofonia. É claro que o Tito não tem de saber que já há uma bandeira da lusofonia (a da CPLP). Nem sequer quem o entrevista. Nem sequer quem escreve estas linhas no Pd'B. Mas não custava nada por precaução ir dar uma volta ao éter internético e descobrir que essa bandeira já existe... e referi-lo em nota de rodapé Ver AQUI. Quanto à entrevista, é muito interessante e por isso aqui fica. Finalmente, uma salva de palmas para o Tito pelo seu ódio visceral aos vistos entre falantes de português, ódio que nós partilhamos e de aqui já deixámos sinal pelo menos umas duas vezes. 
Ver AQUI a entevista e AQUI outra, do "Público"

[3042] Zica foge de Cabo Verde, mas não deitemos foguetes antes da "festa". E a "festa" é a das próximas azágua...

Ver AQUI

[3041] Apesar da derrota com o Ultramarina, Mindelense está na final do campeonato de Cabo Verde

Apesr das peripécias da desaparição da chave do campo em São Nicolau e apesar da derrota com  o Ultramarina, o Mindelense está na final do campeonato de Cabo Verde. A final vai ser com o Sporting da Praia, num leão contra leão, mais a jeito de Benfica-Sporting... Praia de Bote torce pelo seu clube. Viva o Praia de Bote, viva a Praia de Bote e viva o Mindelense!!!
Ver AQUI

[3040] Grog é bom, mas só quando bebido com moderação. "Menos álcool, mais vida"

Ver AQUI

domingo, 2 de julho de 2017

[3039] Da Visita a Soncente

Depois do que dissemos no post 3022 sobre colocação no  Pd'B de textos a pedido, vamos abrir uma excepção excepcionalíssima e última, relativamente ao que hoje aqui se mostra. Solicitamos pois que não nos enviem mais textos até ao início do novo ano e que aqueles que o querem fazer se tornem DE FACTO colaboradores/comentadores do Pd'BVer post 3022, AQUI


Arsénio Fermino de Pina
Apraz-me reconhecer que a cidade do Mindelo está fisicamente muito melhor, desde a minha última visita, há dois anos: algumas ruas alcatroadas – interessante constatar que os buracos maiores no alcatrão estão sendo remendados com calçada, muito provavelmente por falta de alcatrão e de máquinas para o efeito, quando o bom senso recomendava calçada e não alcatrão, que não produzimos e temos de importar, nas ruas -, muitas com calçada chamada portuguesa a substituir as antigas, que até contemplam bairros periféricos, calcetamento que prossegue a bom ritmo, passeios em locais onde não existiam, outros restaurados, um passeio cimentado largo, do Campinho até Lazareto, permitindo, em segurança, a marcha de muitos residentes das zonas limítrofes, melhoria dos mercados agrícolas da Praça Estrela, número significativo de casas pintadas beneficiando de um empréstimo bancário para o efeito, fazendo desaparecer o aspecto cinzento de cimento de muitas construções mais ou menos recentes, sobretudo do bairro de Monte Sossego, três belíssimas esplanadas restaurante, duas com boite, na Lajinha, onde dá gosto estar com uma boa vista panorâmica do Porto Grande e da Nova Lajinha transformada em Lajona.

Há um empresário, largos anos emigrante, de regresso ao país, presidente da Unitel Tmais, que vem investindo em S. Vicente, e promete inauguração de cinema, restaurantes com gastronomia para todos os bolsos, desejando engrandecer o cosmopolitismo do Mindelo, o que é louvável e poderá ser imitado por outros argentários com experiência adquirida no exterior que desejem dar contributos à terra de nascença. Duas patrícias emigrantes que viveram na Holanda, de regresso ao país, também decidiram investir numa empresa que fornece empregadas domésticas e funcionárias – Agência de Prestação de Serviços – na qual as candidatas são sujeitas à formação em várias tarefas e no modo de lidar com clientes, que é uma garantia de seriedade e segurança para quem necessitar de empregadas de vários ramos. Outro bom exemplo de como utilizar conhecimentos e fundos em benefício pessoal e da sociedade, quando o poder central não atrapalha com burocracia as iniciativas produtivas e de serviço de nacionais e estrangeiros.

A Associação Amigos da Natureza (AAN), a Organização Nacional da Diáspora Solidária (ONDS) no Centro de Formação do Mestre Cunco e a Oficina de Formação do Padre Filipe Pereira, com o seu mestre Ti Nené, têm desenvolvido acções notórias louváveis em benefício das populações, na formação em artes, ofícios e outro ramos, na adução de água e construção de redes de esgoto nos bairros periféricos, além da arborização da ilha que já se vê até nos montes, e outras actividades dos respectivos pelouros, em colaboração e parceria com a CM, ADEI, ISCEE, MAA e a União Europeia em acções de Capacitação para Associações Rurais e Comunitárias, pelo que mereciam mais apoios por parte do Estado, dos sócios e da população. A Cabnave vai laborando e há um projecto em marcha para criação de camarões no Calhau. De promessas de projectos não falo, dado que a quase totalidade dos anteriores foi conversa fiada eleitoral do governo anterior.

Há que reconhecer o trabalho do actual Presidente da Câmara Municipal, Augusto Neves e sua equipa camarária, pessoa com quem tive excelente relacionamento quando desempenhou o cargo de director administrativo do Hospital Baptista de Sousa, onde fez uma administração reconhecidamente meritória. Apontam-lhe, no entanto, algumas falhas: é muito difícil obter uma audiência com ele, muito raramente aparece nos bairros periféricos de lata para ouvir os residentes, é de ideias fixas e não atende às opiniões dos outros. Acusam-no de ter passado, após a eleição para o cargo, a tratar amigos na terceira pessoa, arrogante com gente da arraia-miúda para manter a distância e diminuir a acessibilidade, ostentando ar de superioridade. Aceito não ser fácil receber toda a gente que pretenda falar com ele. Porém, para assuntos não confidenciais, nem urgentes, poderia (deveria) elaborar um calendário de visitas aos bairros periféricos e aldeias do interior para reuniões periódicas com a população onde assuntos gerais seriam discutidos com os moradores, respondendo e delegando nos vogais de vários pelouros e outros elementos da Câmara que o acompanham. Com esse procedimento esvaziaria a má impressão geral daqueles que não conseguem audiência com o Presidente da Câmara para lhe expor as suas queixas. O contacto com as populações e a simpatia não podem limitar-se às épocas eleitorais, em que os políticos são de uma simpatia hipócrita cativante e abertura total.

A Câmara Municipal da Praia detectou 6000 casas com riscos de derrocada, após a derrocada recente em que morreu um pedreiro, havendo cinco feridos. No Mindelo, a situação não deve ser muito melhor, embora não tão extensa, havendo pardieiros no centro da cidade que são focos de doenças e um perigo para a Saúde Pública, por serem vazadouros de lixo de toda a espécie e até retretes. Em tempos sugeri à CM legislar no sentido de estabelecer um prazo, cinco a dez anos após o abandono do prédio, para a resolução do problema de pardieiros no centro da cidade, geralmente motivado por questões de herança, findo o qual, o prédio iria à praça pública para venda, depositando-se o produto da venda no banco à ordem dos herdeiros definidos pelo tribunal. Presumo que isso, além de resolver o problema, facilitaria a celeridade na resolução das questões de herança. Intrigante o facto de alguns desses pardieiros serem do Estado ou da Autarquia que não abrem mãos de nenhum para sede de ONG como, por exemplo, a Adeco, ou a AECCOM, tendo perdido, com esta última, tudo quanto o Prof. João Manuel Varela queria legar à Academia e S. Vicente, um espólio soberbo que está a deteriorar-se numa garagem do irmão.

Causou-me grande tristeza ver o Eden Park entaipado com obras em curso de uma torre babélica em construção que fará desaparecer para sempre essa autêntica universidade popular que, juntamente com o Porto Grande e as companhias carvoeiras inglesas, deu uma característica cosmopolita sui generis à Ilha, a qual se vai esbatendo desde a independência, por o poder central ter posto a ilha de quarentena frenando o seu desenvolvimento, sabendo-se que, S. Vicente, segundo João Augusto Martins foi “o pulmão por onde respira e o cofre d´onde se alimenta a província inteira”.

Finalmente iniciaram-se as obras no velho e famoso Liceu Gil Eanes, permitindo-lhe festejar o centenário pelo menos com a cara lavada.

Sob o ponto de vista social, S. Vicente está muito pior, o que não é de admirar e se vai, seguramente, agravando com o rombo sofrido pelo orçamento destinado à ilha para 2017, quando muita população de ilhas vizinhas – S. Nicolau e Santo Antão – veio engrossar a da ilha: desemprego aumentado, mendigos pelas ruas à porta de mini-mercados, cafés, restaurantes e hotéis, sentados nas soleiras das portas de casas na Rua Lisboa, bancos e empresas, estendendo a mão à caridade, havendo um número significativo de crianças pedintes às portas dos mesmos locais pedinchando dinheiro, não obstante haver várias instituições dedicadas à protecção da criança e adolescentes – ICCA, Centro Juvenil Nhô Djunga, CEI, Irmãos Unidos, Aldeias SOS, CMS, etc. - que funcionam mal por falta coordenação de esforços, de pessoal qualificado, de orçamento diminuto e, por vezes, falta de matéria-prima para as oficinas trabalharem, falta de resposta do ministério de tutela a propostas pertinentes de solução. O número de alienados mentais também aumentou nas ruas, o que é intrigante por haver, na Ribeira de Vinha, serviço especializado com pessoal qualificado onde, em princípio, deveriam estar e seriam medicados, apoiados e controlados. Roubos frequentes, devido à falta de empregos, miséria, e os desempregados quererem também participar em festas e regabofes, o que leva alguns, incluindo crianças, algumas viciadas em jogos de video, a pedir dinheiro e a roubar, não obstante a maioria das casas ter grades nas janelas e portas reforçadas, não se impressionando alguns com a hipótese de cadeia por aí terem garantia de comida e dormida, tal o seu desânimo e miséria a substituir a pobreza anterior. Quem nada tem arrisca tudo, não se importando com as consequências. Não obstante a miséria visível, vemos mulheres-a-dias, vendedeiras de fruta e de drops manejando telemóveis sofisticados, pessoas com vencimentos baixos em carros de luxo e outras incongruências de difícil entendimento.

A poluição sonora tem aumentado, bem como o desrespeito das normas e leis referentes à utilização de automóveis e motos e à produção de barulho depois das dez horas da noite. A Avenida Prof. Alberto Leite, por exemplo, foi transformada em pista de corrida e para piruetas de motas, havendo um energúmeno que a percorre diariamente a alta velocidade, de dia, noite e madrugada, com um ruído infernal que acorda todos os moradores da avenida, passando, em velocidade, à frente do Comando Regional da Polícia sem nenhuma reacção deste. Bares e boîtes barulhentos funcionam a altas horas da noite e madrugada perturbando o sono dos moradores sem nenhuma consequência para os respectivos donos. Cadê as posturas camarárias e leis que regulamentam isso? Serão abusos de gente acima da lei ou é a Polícia que se desleixou ou perdeu autoridade?

É triste e condenável a existência de bairros de lata e cartão sem as mínimas condições de habitabilidade, sem água nem luz, sem esgoto nem evacuação de lixo, quando se propagandeou o Programa Casas para Todos, a custo zero, previstas 8500, construídas ou em construção avançada 4596 - construções de qualidade algumas ainda inacabadas por falta de fundos, somente ao alcance de uns poucos com meios para comprar ou pagar renda -, quando os miseráveis dos bairros de lata poderiam ter sido beneficiados com esse Programa, se as construções tivessem sido modestas e funcionais, como se esperava. Preferiu-se a demagogia eleitoral, e o dinheiro não chegou para o luxo, ficando as casas a deteriorarem-se, inacabadas e sujeitas a vandalismos, como aconteceu no Sal; chama-se a isso má governação e desperdício do erário público. Entre nós, os autores de tais asnidades, não são responsabilizados quando pertencem ao governo, o que não abona a favor da nossa justiça e confirma a existência de gente acima da lei.

Intrigou-me ver poucos cães vadios na cidade, afinal não por mérito de acção da CM e Delegacia de Saúde, mas por mimetismo, isto é, imitação da moda portuguesa de as mulheres, mesmo homens, andarem na rua com cães à trela. A moda, a princípio, é sempre um ridículo, mas com o tempo, banaliza-se e aceita-se o ridículo como normal, à semelhança das rachas nos joelhos de jeans, em mulheres, agora avançando para as coxas e prometendo seguir para o traseiro, não sendo de descartar a possibilidade de avançar para a frente, evoluindo, portanto para a pornografia. Em questão de moda as previsões são falíveis. É só ver os cortes de cabelo de rapazes a imitar algum jogador de futebol famoso com pouca massa cinzenta cerebral que teve a ideia de imitar o cocuruto do peru, que se tornaram moda naqueles com falta de personalidade.

S. Vicente, Junho de 2017
Arsénio Fermino de Pina