O presente estexto foi escrito em 11 de Janeiro de 2007 para o jornal electrónico "Liberal". Na véspera do Dia dos Heróis Nacionais de Cabo Verde, Praia de Bote relembra através dele essa figura ímpar de cientista cabo-verdiano, um dos melhores entre os melhores das ilhas.
ROBERTO DUARTE SILVA, GRANDE CIENTISTA CABO-VERDIANO
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| Roberto Duarte Silva |
É um facto inegável, embora caricato. Os cabo-verdianos são sobretudo conhecidos no exterior por três características profissionais ou culturais essenciais: há entre eles hábeis marinheiros (esta hoje algo esbatida), excelentes trabalhadores de construção civil e fabulosos músicos ou cantores. É óbvio que as ilhas têm entre os seus filhos categorizados docente universitários, escritores, médicos, investigadores de toda a ordem e peritos em muitas mais áreas do saber, mas as três que de início citámos são de certo modo aquelas que ainda perduram no conhecimento do homem comum de outras origens. Ora nesse sentido nunca será despiciendo chamar à colação nomes de ilhéus que se destacaram na área científica, não só no arquipélago como entre os seus pares estrangeiros. Um deles é sem dúvida o santantonense Roberto Duarte Silva, químico prestigiadíssimo do seu tempo, a nível internacional.

Veio-me a ideia para a presente prosa de um documento cedido pelo meu amigo Arcádio Monteiro, também ele natural de Santo Antão (Coculi), há muito a viver na cidade da Praia. Perguntei-lhe na altura de onde lhe tinha vindo aquela folha que me estava a oferecer, mas nem ele já o sabia. Trata-se pelo aspecto, de fotocópia de segunda ou terceira geração, feita a partir da página 11 de livro antigo, eventualmente almanaque ou compilação de biografias, encimada pela palavra Cabo Verde em topo de página e com o título “Vultos de Cabo Verde – Roberto Duarte Silva”. Finalizando o texto, que vem apresentado a duas colunas e se ilustra com desenho-retrato do biografado assinado por “Lumo”, encontramos a frase “extraído de diversas fontes”. É esse relato que aqui reproduzo na íntegra e na grafia original (que contém alguns erros aos olhos de hoje), com notas minhas e imagens que consegui obter aqui e além.
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A vida do sábio português Roberto Duarte Silva, natural de Cabo Verde, é um notável exemplo de quanto se pode conseguir à custa de Trabalho e de força de Vontade.
Nascido em Santo Antão (1), Duarte Silva depois de alguns anos passados na China (2) e em Portugal continental, resolveu ir estudar para Paris, onde através de muitos sacrifícios, acabou por se formar em ciências físicas. Terminados os estudos, começou a trabalhar em vários laboratórios, num dos quais – o de Wurtz (3) – no decorrer de uma experiência cegou do olho esquerdo, em consequência de uma explosão.

Duarte Silva ficou doente e sem recursos. Um procurador, traindo a sua confiança, desbaratara-lhe todas as economias amealhadas em Hong Kong, onde teve uma farmácia. Vale-lhe, então, a amizade e admiração dos grandes químicos Friedel (4) e J. Dumas (5) que conseguem colocá-lo, como professor de química na escola central de Artes e manufacturas de Paris.
Esta nomeação marca o princípio de uma linha ascendente feita de triunfos a par de triunfos. Continua estudando e os cientistas franceses não ocultam o seu apreço pelos notáveis trabalhos de Duarte Silva que, devido à sua competência e profundo saber, desprezando-se as circunstâncias de ser um estrangeiro, acaba por ser nomeado, entre grande número de candidatos, professor da Escola de Química e Física de Paris, onde trabalhou com Pierre Curie (6) e Albert Levy (7).
Como recompensa dos altos serviços prestados à causa da Ciência, o Governo francês concede-lhe a Legião de Honra, a mais alta distinção honorífica de França. Além de comendador da ordem de Santiago, foi também presidente da Sociedade Química de Paris e laureado do Instituto Francês que lhe concedeu em 1885, o Prémio Joker (8), um galardão ambicionado por todos os cientistas.
Figura altamente científica, humana, patriótica e familiar, que pertence a Cabo Verde pelo nascimento e pela idiosincrasia, a Portugal pela nacionalidade e origem e dedicação, à França pelo reconhecimento e pela cultura eminentemente superior, e ao Universo pela sua inexcedível consagração à Ciência, Roberto Duarte Silva, ao cabo de longos anos de trabalho, não resiste à fadiga e morre, em 9 de Fevereiro de 1889, vítima de uma implacável doença do estômago, complicada com a ruína do pulmão esquerdo, deixando como herança um nome que é um título de orgulho para Cabo Verde.
Roberto Duarte Silva tem no cemitério de Montparnasse o seu monumento fúnebre. Está bem acompanhado. Acamarada no mesmo bairro de Baudelaire e Henri Haine (9). Uma inscrição elucida os que por lá passam: «A Roberto Duarte Silva, ses élèves, ses coligues, ses amis, la Société Chimique de Paris».
Cabo Verde, onde Duarte Silva «quereria ter larangeiras, alguns pés de café, muitas bananeiras que lhe lembrassem uma pequena parte da sua mocidade», foi uma recordação que nunca abandonou os pensamentos do sábio, durante os 35 anos que decorreram desde a sua abalada para Lisboa, até à noite fria de Fevereiro em que, na casita da Rue La Harpe (10), a morte que há muito o espreitava o levou.
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| Rue de La Harpe |
Todo o arquipélago tem uma dívida para com Duarte Silva. A Santo Antão, altar votivo da sua Saudade, compete saldá-la. Estamos informados que, em tempos, se fez uma subscrição naquela ilha para erigir uma estátua ao filho ilustre. Nunca á tarde para se cumprir um dever. E Santo Antão não deixará de o cumprir.
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| Mercearia, na casa onde Roberto Duarte Silva nasceu - Foto Joaquim Saial, 1999 |
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NOTAS AO TEXTO:
(1) 1837.
(2) Após ter perdido o pai, com 14 anos, RDS tornou-se aprendiz de farmácia, tirocínio que completou na conhecida lisboeta Farmácia Azevedo, ao mesmo tempo que se formava na Escola de Farmácia da capital portuguesa. Foi na sequência desta actividade que o enviaram para Macau, a fim de ali montar um estabelecimento da sua especialidade. Pouco depois abria em Hong Kong farmácia própria, tendo sido entretanto nomeado fornecedor oficial dos militares franceses estacionados na China no decorrer da 2.ª Guerra do Ópio. É influenciado por este convívio que decide fixar-se em França a partir de 1862.
(3) Charles Adolphe Wurtz (Estrasburo, 1817 - Paris, 1884) – Consagrou-se sobretudo ao estudo dos compostos orgânicos do azoto e dos hidrocarbonetos.
(4) Charles Friedl (Estrasburgo, 1832 – Montauban, 1899) – Aluno de Wurtz, foi mineralogista e químico, conservador dos minerais da Escola de Minas e professor na Sorbonne.
(5) Jean Baptiste André Dumas (Alès – Gard, 1800 – Cannes, 1884) – Fundou a École Centrale de Paris e foi professor de Química na Escola Politécnica e na Faculdade de Medicina. Formulou os princípios da Química Geral e determinou de modo preciso a composição da água, do ar e do gás carbono.
(6) Pierre Curie (Paris, 1859 – Paris, 1906) – Pioneiro do estudo da cristalografia, do magnetismo, piezoelectricidade e radioactividade. Juntamente com a esposa, Marie Curie, obteve o Prémio Nobel da Física, em 1903.
(7) Auguste Michel-Levy (1844-1911) – Engenheiro de minas, aplicou à geologia os seus conhecimentos da física. Foi o fundador da mineralogia micfrográfica.
(8) Trata-se do Jecker Prize da Académie de Sciences de Paris, que recebeu pelas suas investigações em Química Orgânica.
(9) Entre muitas outras figuras importantes da política, da ciência e da cultura, também ali estão sepultados Samuel Beckett, Camille Saint-Saëns, Guy de Maupassant e o escultor César.
(10) A Rue de La Harpe, com 220 metros, situa-se no Quartier Latin; começa na Rue de La Huchette, n.º 31, e termina no n.º 98 do Boulevard Saint-Germain.
OUTRAS NOTAS:
- A casa onde RDS nasceu em Ribeira Grande, que fotografei em 1999, estava na altura a servir de mercearia; ao que parece, havia a ideia de a transformar num centro cultural ou pequeno memorial dedicado ao ilustre sábio.
- Existem pelo menos duas ruas com o nome de RDS: na cidade da Praia e em Lisboa.
- Em Ribeira Grande, Santo Antão, há ou houve uma escola primária com o nome de RDS.
- Foi por influência de RDS e de outro químico, José Júlio Rodrigues, que o famoso Charles Lepierre se instalou em Lisboa, em 1888.
- Em «O Império Português», de Jorge Azevedo Correia, publicado pelo CIARI (Centro de Investigação e Análise em relações Internacionais), RDS é dado como são-tomense.
- Entre a muita bibliografia dedicada a RDS, são de ler as seguintes obras:
Lepierre, Charles. «Os grandes homens da ciência: Roberto Duarte Silva», ‘Técnica’, n.º 13, 1928.
Silva, António Joaquim Ferreira da Silva. «A Obra Científica e a Vida do Químico Português Roberto Duarte Silva», Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1906.
A biografia de RDS, publicada pela Sociedade Portuguesa de Química, da autoria de Ana Carneiro e Bernardo J. Herold.