segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

[1265] Concurso 27 do Praia de Bote, em latim, para quem frequentou o seminário-liceu de São Nicolau

E ainda toda a gente fala na Rua de Lisboa e no resto da morada e bairros periféricos do Mindelo (até em zonas mais afastadas da ilha, como Baía das Gatas, Calhau, Salamansa e São Pedro) do sucesso da recém-chegada a este mundo hostil dos concursos do Praia de Bote, eis que o blogue lança novo desafio.

Pergunta única: Em que sítio exacto de São Vicente está esta frase? 

labor omnia vincit improbus

Ou seja, não basta dizer que é na casa de nha Justina Dadinha Fortes. É preciso dizer que é por cima do móvel onde ela ainda guarda o serviço dito chinês comprado na Casa Serradas na diazá, quando se casou com Naise Pina, pescador da Praia de Bote... Contudo, desde já afianço que não é na cadeia de Ribeirinha, ahahahaha. E, já agora, também não na Escola Técnica, nem no que resta das oficinas de Mestre Cunco. Aberto até amanhã, pelas 22h00 de Lisboa. Ah! E qualquer um pode vê-la, embora não durante todo o dia... E um conselho: Bsot spiá drete!


[1264] Comemorando o 100.º post de Janeiro... Concurso n.º 26 do Pd'B

Continuamos a rebentar records, aqui no Praia de Bote. Nunca, até hoje, um Janeiro tinha sido tão produtivo no blogue (no de 2014, o até aqui mais recheado, houve apenas 59). 100 posts, muito trabalhinho, feito em simultâneo com outras aventuras escritas e faladas. Para comemorar o feito, aqui está em jogo mais um ramo de acácia, este vindo da Rubera d'Juliom. Há que acertar nas duas respostas para obter um ramo inteiro. Cada uma vale meio ramo. Concurso bem fácil (nem sempre somos maus), aberto até amanhã, pelas 22h00 de Lisboa.

Pergunta 1 - Qual é o livro cabo-verdiano, qual é ele, que tem bico, garganta e olha para uma enormiííííííííssimooooooo recipiente cheio de água salgada?

Pergunta 2 - Qual é o livro cabo-verdiano, qual é ele, que embora tendo a ver com algo que existe entre São Vicente e Santo Antão, anda sempre metido em problemas e brigas mas tem conteúdo num local mais quente e mais tremelicante e muito mais a sul que o das duas ilhas antes citadas?



[1263] "Voz de Cabo Verde", ei-los (ver post anterior)

[1262] Ontem, na RTP 2, "Voz de Cabo Verde", programa que ainda pode ser visto por quem tem sistema de cabo e box (e acesso à RTP2)

Tive convite para a estreia em Lisboa. Mas por vários motivos que infelizemente se conjugaram na data prevista, não me foi possível assistir à apresentação de "Voz de Cabo Verde" na capital portuguesa.

E agora, foi por mero acaso (e uma grande sorte) que dei com este trabalho logo no início da sua transmissão. Não o tinha visto na RTP África a 10 de Janeiro mas desta feita calhou acertar e de facto foi uma maravilha. Trata-se do historial do conjunto "Voz de Cabo Verde" passado na RTP 2 pelas 23h05 de ontem (domingo, 25 de Janeiro de 2015). Lá surgem o nosso amigo Morgadinho e todo o resto da rapaziada antiga e mais moderna que integrou a banda (como Tito Paris, derradeiro e fugaz componente).

É um interessantíssimo filme, para o qual forneci algum material do meu arquivo (lá vem o simpático agradecimento na ficha final) que vale a pena ver - o que para quem tem cabo e box ainda é possível, com os dados que aqui indico. Aparece muita gente conhecida, incluindo o inevitável Djibla que fotografou diversas vezes os músicos. E histórias divertidas como aquela de em digressão os outros componentes roubarem ao Bana os bolos que a esposa lhe fazia para ele ir comendo em viagem... E Djosinha ta rasgá sê camisa na concerte. Vejam que terão uma hora de Cabo Verde... em grande!


domingo, 25 de janeiro de 2015

[1261] Hoje, às 22h19

Há poucos minutos, estavam 51 pessoas a ver o Pd'B, sendo que 32 estavam MESMO a observar-nos a partir de Cabo Verde. Animador... E até um cliente na Alemanha e quatro russos, estes suspeitos, fora os 15 de Portugal, se calhar todos eles arquipelágicos.


[1260] Encontrada a vencedora do concurso 25 do Pd'B (ver post 1251 e comentários)

Com duas vitórias consecutivas no seu palmarés (e só agora começou a auspiciosa carreira de participante nos concursos do Praia de Bote), a concorrente Ondina Ferreira arrebatou mais um ramo de acácia (este, rapinado por mim de uma árvore da Praça Nova com consequente perseguição pelo pliça nhô Djom Firmino que ainda me acertou na carola com o manduco). Era facílimo, bastava estar atento às pistas que fui dando, embora sempre dizendo que não dava nenhuma.


[1259] Longa entrevista do Presidente da Câmara Municipal de São Vicente ao "Expresso das Ilhas"

Ver AQUI

[1258] Eis a verdadeira mistura lusófona: Ildo Lobo a cantar Zeca Afonso, em "Venham mais cinco" (e umas adendas, de bónus)

[1257] Reportagem de 5 de Janeiro mas de modo nenhum descavalizada... perdão, desactualizada


[1256] No dia 22, dia de São Vicente, a festa religiosa no Mindelo foi assim

[1255] Felgueiras coopera com o Mindelo ou a velha amizade Portugal-Cabo Verde em acção

[1254] Boas notícias do Mindelo: calcetamento avança


[1253] Cabo Verde agradece a Angola o apoio prestado durante a crise vulcânica no Fogo

Ver AQUI

[1252] Dôs vitória pa mnis d'Praia d'Bote - Campeonato de São Vicente, 1.ª divisão: Mindelense, em segunda vitória consecutiva, derrota Derby por 2-0

Ver AQUI

sábado, 24 de janeiro de 2015

[1251] Concurso n.º 25 do Pd'B: pergunta simples e directa

Porque vai ser importante para Cabo Verde, o próximo dia 14 de Fevereiro de 2015? Vai ser inaugurado o aeroporto internacional de Santa Luzia? Não! Vai ser aberta ao público a ponte entre o Porto Novo e Nova Sintra? Não! Vai ser reiniciada a exploração de purgueira destinada a exportação para 145 países? Não! Então?...

Não damos pistas, claro que não, era o que faltava... Em jogo, um ramo de acácia.

Concurso encerra amanhã, 25 de Janeiro, pelas 22h00.

[1250] Um Mindelo talvez mais Ribeira de Julião ou... que outro sítio?

Apela-se ao sábio Valdemar, pois ele é o único capaz de deslindar que sítio é este, dito "Mindelo pitoresco". Eu faço pontaria para a Ribeira de Julião, mas posso enganar-me...


[1249] Em primeira mão, no Praia de Bote: novo cabeçalho do "Terra Nova", no âmbito das iniciativas do 40.º aniversário do jornal


[1248] Jogo Portugal-Cabo Verde (em Portugal), em Março, a favor das vítimas do vulcão do Fogo

Ver AQUI

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

[1244] Cabo Verde empata com o Congo em jogo do CAN

0-0 com o Congo, novo empate de Cabo Verde, tal como no anterior jogo com a Tunísia. Não perdemos mas também não ganhámos. Kidiaba, o excelente guarda-redes congolês, defendeu com bravura todos os remates dos cabo-verdianos, Caso para dizer "Que Diabo...". Há que meter a bola na baliza, caros Tubarões Azuis. Vamos a isso. Próximo jogo é com a Zâmbia. Vamos zambiá-los? Vamos! Fica o slogan: "Vamos zambiá-los, vamos zambiá-los, vamos zambiá-los!!!"


[1243] Em dia de São Vicente, pela primeira vez (que tenhamos dado por isso), o Praia de Bote ultrapassa o número das 500 visualizações

Foi há poucos minutos que o milagre aconteceu. Pela primeira vez (obrigado Senhor São Vicente), ultrapassámos a fasquia das 500 visualizações. Até à meia noite de hoje outras surgirão, o que deve dar umas 520, 530 ou até mais. O anterior record tinha acontecido a 15 de Janeiro, com 486.  A data de hoje não surge ali, porque o dia ainda não terminou. Amanhã diremos quantas visualizações conseguimos.

522 às 21h47
533 às 22h01
551 às 23h03


[1242] Em cima do acontecimento: fotos de Zeca Soares sobre a procissão do Senhor São Vicente, hoje no Mindelo

Um grande ubrigadim ao nosso fotógrafo de serviço. E um grande braça. A procissão teve início pelas 18h00 (hora de Cabo Verde) e no momento em que colocamos as fotos aqui, ainda está a decorrer pelas ruas do Mindelo.





[1241] Rosto cabo-verdiano

Fotografia enviada pelo nosso amigo e colaborador José Fortes Lopes, sem indicação de autoria. Face genuína de nôs terra, como conhecemos muitas. Vem catalogada como "rosto tibetano" e de facto tem um vago ar orientalizante mas mantém aquele misto de alegria, sabedoria cultural e dignidade de antanho que foi (e em muitos casos ainda é) apanágio das gentes das ilhas. Até as arrecadas com pendente de "figa" nos trazem memórias de infância que não se perderam.


[1240] Prestes a acontecer um milagre no Pd'B, em dia de São Vicente. Esperemos até mais logo

Não comente, por agora. Faça-o, se o desejar, apenas após a meia noite de hoje ou amanhã, durante o dia, dependendo do que acontecer nas próximas quatro horas e tal. Depois, falamos.

[1239] ÚLTIMA HORA - Presidente da República oferece excelente notícia ao povo da sua ilha, no dia de São Vicente: Palácio do Povo passa a ser "de facto" do Mindelo


 Ver AQUI
Palácio do Governo, antes da ampliação
Palácio do Governo / Palácio do Povo, versão actual

[1238] Quem estava a ver o Praia de Bote às 15h33 de hoje (há cinco minutos, mais ou menos)

Se estes 15 cabo-verdianos (em Cabo Verde) tivessem comentado o blogue, teria sido bem simpático. Mas...


[1237] O abraço português do Praia de Bote a São Vicente, no dia da ilha: o guitarrista luso Joel Xavier e "Morabeza"


quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

[1236] O "São Vicente" que foi motivo da adivinha do post 1234

Trata-se do primeiro exemplar que mostramos proveniente do espólio fotográfico do comandante da Armada Guilherme Conceição e Silva, temporariamente na nossa posse e que estamos a digitalizar. A mesma foi-nos cedida pelo filho Filipe, hoje em São Vicente (ou já a caminho de Santo Antão), numa visita às duas ilhas começada no passado domingo e que terminará no próximo. Para comemorar o dia de São Vicente (amanhã), nada melhor que esta foto inédita do cutter "São Vicente". Repare-se na grafia do nome na proa, "S. Vecente". À direita vislumbra-se a popa do "Carvalho", com a balaustrada inconfundível na amurada.




[1235] Bana na Mindelo ("esse país") e (claro!) na Soncente


[1234] Cize ta cantá "São Vicente di Longe"


[1233] Concurso n.º 24 do Pd'B: em véspera de dia de São Vicente, adivinha são-vicentina

Qual foi a coisa, qual foi ela, com nome de dez letras, que apontava sempre para o céu apenas com um dedo, tinha o dorso molhado, a barriga sempre cheia, apresentava escadinhas, passava a vida numa roda-viva e que só não podia estar no altar de Nossa Senhora da Luz porque não cabia lá? Prazo para resposta termina no dia de São Vicente, pelas 22h00, e haverá um ramo de acácia para o vencedor.

[1232] "Bote" deseja bom feriado a São Vicente

"Bote", o cão mais famoso da praia, deseja a todos os são-vicentinos, na ilha ou na diáspora um feliz dia de São Vicente, ao lado de amigos e familiares e à frente de uma boa cachupa, ornamentada com um copo de manecom do Fogo e depois um cafizim e um grogue de Sintantom, para rebater. E, claro, com uma caminhada na marginal ou uma passeata de 300 voltas ta rudiá Praça Nova.

[1231] Em São Vicente...

Em São Vicente havia festadores, trabalhadores (não se diz ali mas topa-se que é gente que laborava para as companhias carvoeiras, basta ver os carris por detrás deles), creadas e camponezes... E funcionários públicos? E músicos? E rocegadores? E marinheiros? E pescadores? E caixeiros? E...? Estes ingleses da Hastings, a fazer postais ilustrados eram uma desgraça. Ainda por cima esse cusa li é fei.


[1230] Tal como o Gouveia Pinto, Praia de Bote também "chega" a Soncente, mas... na véspera do dia do dito



[1229] Amanhã, dia de São Vicente

Há 553 anos, neste dia 21 de Janeiro, os rapazes de pêlo hirsuto que constituíam a guarnição de uma minúscula caravela perdida no nada atlântico ainda não sabiam que no dia seguinte iriam chegar à nossa ilha. Mas assim aconteceu a 22, de facto.

Uns dizem hoje que eram os homens de Diogo Gomes, outros afirmam a pés juntos que foram os de Diogo Afonso. A coisa não interessa para este particular de nome do citado grãozinho de terra, o do santo padroeiro de Lisboa, esse Vicente que acabou por unir para sempre a capital de Portugal e a ilha do Porto Grande. 

22, data da chegada à nova terra, era dia de São Vicente e isso deu toponímico bonito que a sabura crioula transmutou noutro mais doce, Soncente. Honra seja feita, portanto, a esses ignotos homens de quatrocentos que acharam a terra de que tanto gostamos.

Ele aqui está, em foto de autoria desconhecida, eventualmente de máquina Melo, no pedestal da igreja de Nossa Senhora da Luz (Mindelo) com os habituais atributos: a palma e a caravela (neste caso, parece mais um barco de cabotagem, talvez uma barca). E na segunda imagem lá o vemos ao longe, junto ao altar, do lado da Epístola, em foto que fizemos em 1999.

Foto Joaquim Saial, 1999

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

[1227] Na véspera do Dia dos Heróis Nacionais de Cabo Verde, eis Cesária, outra grande heroína das ilhas (ver post anterior), na companhia da grega Eleftheria Arvanitaki, mostrando a vocação universalista da terra da morabeza e dos seus filhos


[1226] Amanhã, 20 de Janeiro, Dia dos Heróis Nacionais de Cabo Verde. Praia de Bote relembra Roberto Duarte Silva, um herói cabo-verdiano da ciência

O presente estexto foi escrito em 11 de Janeiro de 2007 para o jornal electrónico "Liberal". Na véspera do Dia dos Heróis Nacionais de Cabo Verde, Praia de Bote relembra através dele essa figura ímpar de cientista cabo-verdiano, um dos melhores entre os melhores das ilhas.

ROBERTO DUARTE SILVA, GRANDE CIENTISTA CABO-VERDIANO

Roberto Duarte Silva
É um facto inegável, embora caricato. Os cabo-verdianos são sobretudo conhecidos no exterior por três características profissionais ou culturais essenciais: há entre eles hábeis marinheiros (esta hoje algo esbatida), excelentes trabalhadores de construção civil e fabulosos músicos ou cantores. É óbvio que as ilhas têm entre os seus filhos categorizados docente universitários, escritores, médicos, investigadores de toda a ordem e peritos em muitas mais áreas do saber, mas as três que de início citámos são de certo modo aquelas que ainda perduram no conhecimento do homem comum de outras origens. Ora nesse sentido nunca será despiciendo chamar à colação nomes de ilhéus que se destacaram na área científica, não só no arquipélago como entre os seus pares estrangeiros. Um deles é sem dúvida o santantonense Roberto Duarte Silva, químico prestigiadíssimo do seu tempo, a nível internacional.

Veio-me a ideia para a presente prosa de um documento cedido pelo meu amigo Arcádio Monteiro, também ele natural de Santo Antão (Coculi), há muito a viver na cidade da Praia. Perguntei-lhe na altura de onde lhe tinha vindo aquela folha que me estava a oferecer, mas nem ele já o sabia. Trata-se pelo aspecto, de fotocópia de segunda ou terceira geração, feita a partir da página 11 de livro antigo, eventualmente almanaque ou compilação de biografias, encimada pela palavra Cabo Verde em topo de página e com o título “Vultos de Cabo Verde – Roberto Duarte Silva”. Finalizando o texto, que vem apresentado a duas colunas e se ilustra com desenho-retrato do biografado assinado por “Lumo”, encontramos a frase “extraído de diversas fontes”. É esse relato que aqui reproduzo na íntegra e na grafia original (que contém alguns erros aos olhos de hoje), com notas minhas e imagens que consegui obter aqui e além.

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A vida do sábio português Roberto Duarte Silva, natural de Cabo Verde, é um notável exemplo de quanto se pode conseguir à custa de Trabalho e de força de Vontade.

Nascido em Santo Antão (1), Duarte Silva depois de alguns anos passados na China (2) e em Portugal continental, resolveu ir estudar para Paris, onde através de muitos sacrifícios, acabou por se formar em ciências físicas. Terminados os estudos, começou a trabalhar em vários laboratórios, num dos quais – o de Wurtz (3) – no decorrer de uma experiência cegou do olho esquerdo, em consequência de uma explosão.

Duarte Silva ficou doente e sem recursos. Um procurador, traindo a sua confiança, desbaratara-lhe todas as economias amealhadas em Hong Kong, onde teve uma farmácia. Vale-lhe, então, a amizade e admiração dos grandes químicos Friedel (4) e J. Dumas (5) que conseguem colocá-lo, como professor de química na escola central de Artes e manufacturas de Paris.

Esta nomeação marca o princípio de uma linha ascendente feita de triunfos a par de triunfos. Continua estudando e os cientistas franceses não ocultam o seu apreço pelos notáveis trabalhos de Duarte Silva que, devido à sua competência e profundo saber, desprezando-se as circunstâncias de ser um estrangeiro, acaba por ser nomeado, entre grande número de candidatos, professor da Escola de Química e Física de Paris, onde trabalhou com Pierre Curie (6) e Albert Levy (7).

Como recompensa dos altos serviços prestados à causa da Ciência, o Governo francês concede-lhe a Legião de Honra, a mais alta distinção honorífica de França. Além de comendador da ordem de Santiago, foi também presidente da Sociedade Química de Paris e laureado do Instituto Francês que lhe concedeu em 1885, o Prémio Joker (8), um galardão ambicionado por todos os cientistas.

Figura altamente científica, humana, patriótica e familiar, que pertence a Cabo Verde pelo nascimento e pela idiosincrasia, a Portugal pela nacionalidade e origem e dedicação, à França pelo reconhecimento e pela cultura eminentemente superior, e ao Universo pela sua inexcedível consagração à Ciência, Roberto Duarte Silva, ao cabo de longos anos de trabalho, não resiste à fadiga e morre, em 9 de Fevereiro de 1889, vítima de uma implacável doença do estômago, complicada com a ruína do pulmão esquerdo, deixando como herança um nome que é um título de orgulho para Cabo Verde.

Roberto Duarte Silva tem no cemitério de Montparnasse o seu monumento fúnebre. Está bem acompanhado. Acamarada no mesmo bairro de Baudelaire e Henri Haine (9). Uma inscrição elucida os que por lá passam: «A Roberto Duarte Silva, ses élèves, ses coligues, ses amis, la Société Chimique de Paris».

Cabo Verde, onde Duarte Silva «quereria ter larangeiras, alguns pés de café, muitas bananeiras que lhe lembrassem uma pequena parte da sua mocidade», foi uma recordação que nunca abandonou os pensamentos do sábio, durante os 35 anos que decorreram desde a sua abalada para Lisboa, até à noite fria de Fevereiro em que, na casita da Rue La Harpe (10), a morte que há muito o espreitava o levou.

Rue de La Harpe

Todo o arquipélago tem uma dívida para com Duarte Silva. A Santo Antão, altar votivo da sua Saudade, compete saldá-la. Estamos informados que, em tempos, se fez uma subscrição naquela ilha para erigir uma estátua ao filho ilustre. Nunca á tarde para se cumprir um dever. E Santo Antão não deixará de o cumprir.

Mercearia, na casa onde Roberto Duarte Silva nasceu - Foto Joaquim Saial, 1999
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NOTAS AO TEXTO:

(1) 1837.
(2) Após ter perdido o pai, com 14 anos, RDS tornou-se aprendiz de farmácia, tirocínio que completou na conhecida lisboeta Farmácia Azevedo, ao mesmo tempo que se formava na Escola de Farmácia da capital portuguesa. Foi na sequência desta actividade que o enviaram para Macau, a fim de ali montar um estabelecimento da sua especialidade. Pouco depois abria em Hong Kong farmácia própria, tendo sido entretanto nomeado fornecedor oficial dos militares franceses estacionados na China no decorrer da 2.ª Guerra do Ópio. É influenciado por este convívio que decide fixar-se em França a partir de 1862.
(3) Charles Adolphe Wurtz (Estrasburo, 1817 - Paris, 1884) – Consagrou-se sobretudo ao estudo dos compostos orgânicos do azoto e dos hidrocarbonetos.
(4) Charles Friedl (Estrasburgo, 1832 – Montauban, 1899) – Aluno de Wurtz, foi mineralogista e químico, conservador dos minerais da Escola de Minas e professor na Sorbonne.
(5) Jean Baptiste André Dumas (Alès – Gard, 1800 – Cannes, 1884) – Fundou a École Centrale de Paris e foi professor de Química na Escola Politécnica e na Faculdade de Medicina. Formulou os princípios da Química Geral e determinou de modo preciso a composição da água, do ar e do gás carbono. 
(6) Pierre Curie (Paris, 1859 – Paris, 1906) – Pioneiro do estudo da cristalografia, do magnetismo, piezoelectricidade e radioactividade. Juntamente com a esposa, Marie Curie, obteve o Prémio Nobel da Física, em 1903.
(7) Auguste Michel-Levy (1844-1911) – Engenheiro de minas, aplicou à geologia os seus conhecimentos da física. Foi o fundador da mineralogia micfrográfica.
(8) Trata-se do Jecker Prize da Académie de Sciences de Paris, que recebeu pelas suas investigações em Química Orgânica.
(9) Entre muitas outras figuras importantes da política, da ciência e da cultura, também ali estão sepultados Samuel Beckett, Camille Saint-Saëns, Guy de Maupassant e o escultor César.
(10) A Rue de La Harpe, com 220 metros, situa-se no Quartier Latin; começa na Rue de La Huchette, n.º 31, e termina no n.º 98 do Boulevard Saint-Germain.

OUTRAS NOTAS:

- A casa onde RDS nasceu em Ribeira Grande, que fotografei em 1999, estava na altura a servir de mercearia; ao que parece, havia a ideia de a transformar num centro cultural ou pequeno memorial dedicado ao ilustre sábio.
-  Existem pelo menos duas ruas com o nome de RDS: na cidade da Praia e em Lisboa.
- Em Ribeira Grande, Santo Antão, há ou houve uma escola primária com o nome de RDS.
- Foi por influência de RDS e de outro químico, José Júlio Rodrigues, que o famoso Charles Lepierre se instalou em Lisboa, em 1888.
- Em «O Império Português», de Jorge Azevedo Correia, publicado pelo CIARI (Centro de Investigação e Análise em relações Internacionais), RDS é dado como são-tomense.
- Entre a muita bibliografia dedicada a RDS, são de ler as seguintes obras:
Lepierre, Charles. «Os grandes homens da ciência: Roberto Duarte Silva», ‘Técnica’, n.º 13, 1928.
Silva, António Joaquim Ferreira da Silva. «A Obra Científica e a Vida do Químico Português Roberto Duarte Silva», Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1906.
A biografia de RDS, publicada pela Sociedade Portuguesa de Química, da autoria de Ana Carneiro e Bernardo J. Herold.