terça-feira, 8 de janeiro de 2013

[0309] “Capitania”, o livro circulante, ou uma quase tragédia em dois actos



Quando se é um escritor de alto gabarito, ao nível de um Eça ou de um Camilo, os livros do dito cujo são avidamente requestados por tudo que é leitor fanático. Mas quando se está no mesmo patamar de um Hemingway ou de um García Marquez (ou Saramago, este menos, por causa daquel stóra de pontuaçom) que é o mesmo que dizer na linha do Nobel, então tudo fica ainda mais complicado. É o que acontece agora com o prestigiadíssimo livro (152 edições em 86 países) que no momento é sujeito de feroz disputa no Mindelo e fora dele, embora sempre entre mnine de lá.

Ora o autor, que desses milhões publicados apenas conserva dois exemplares intactos e um com a lombada rota, não pode abdicar deles. E foi assim que empreendendo voltas internetais deu com um pertencente a amiga desaparecida posto à venda. Claro que o comprou logo, sem deixar acabar o gosto da sucrinha compróde lá na Rua d'Matijim que estava a deglutir e contou o estranho caso aos amigos do Porto Grande.

Foi aí que estragou tudo! Em segundos, começando pelo radialista Zito, continuando pelo monsieur le consule Valdêmarrrr e terminando (talvez) no presidente da junta de freguesia de Tchã d’Sumtere, todos demonstraram querer a propriedade do dito relato capitaneal. “Ó da guarda!”, gritou o autor (que é o mesmo que dizer “Ó d’staçom!!!”), aflitíssimo, sem saber como descalçar a bota…

Mas como um mnine de Soncente nunca se deixa ir abaixo, ele meteu-se no “Gavião do Mares” (perdão, foi no “Manelica”) desatou a navegar na Internet e depois de superar algumas ondas mais fortes do Mar d’Canal deu com outra "Capitania", desta feita à venda em Aveiro. Sem autógrafo e mais barata (7 euros), aí estava a salvação e a possibilidade de evitar uma guerra fratricida entre a Chã de Cemitério e aquela zona chique, mais ou menos indefinida entre o Palácio do Governo e a Farmácia Nena, com a ponta cimeira da Rua de Lisboa pela frente.

Os livros estão pagos, o autor espera que cheguem esta semana e se tudo der certo o general radialista receberá o autografado (foi o primeiro a avançar no pedido) no próximo sábado em Carnide durante a palestra público-artística e o almirante cemiterial recebê-lo-á em Março, em mão própria (não pelo correio porque os portes de um livro de Portugal para Cabo Verde são mais caros que os do custo de uma viagem da Terra a Marte).

Quanto ao monsieur Valdêmarrrr, como já tem livro, será condecorado com uma maravilhosa garrafa de Borba pelos seus esforçados serviços em prol da causa da PRAIA DE BOTE da próxima vez que vier até ao país desgraçado.

Ora digam lá, se aqueles sujeitos da ONU resolvessem as coisas assim, haveria tonte guerra nesse munde?...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

[0308] "Capitania - Romance de S. Vicente de Cabo Verde", ainda anda por aí...

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Já tenho encontrado este meu único romance cabo-verdiano nos sítios mais inesperados da Internet. Na Biblioteca do Paraíso (!) da Universidade Católica do Porto, na Biblioteca João Paulo II da Universidade Católica de Lisboa, na Biblioteca Municipal Lídia Jorge da Câmara Municipal de Albufeira, na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, obviamente na Biblioteca Nacional de Lisboa, na New York Public Library (!!!), à venda em sebos brasileiros, em alfarrabistas portugueses, enfim, um pouco por todo o lado – talvez mais do que a modesta obrinha de principiante ficcionista de facto mereça – para não falar noutro local também óbvio, a Biblioteca Nacional de Cabo Verde.

Ontem mesmo, fui dar com ele à venda no sítio www.leiloes.net E como sempre, fui investigar a coisa. Qual não foi o meu espanto quando vi que para influenciar possíveis compradores, se aliciava os mesmos com a frase: “C/ dedicatória do autor”. E para culminar, lá estava ela própria fotografada, a dita dedicatória à vista do mundo…

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Reconhecida a pessoa a quem o livro era dedicado, a minha antiga amiga e poetisa popular Ada Tavares, pensei de imediato que alguma coisa lhe teria acontecido, pois não a via a vender um livro meu (ainda por cima autografado), ela que já fora amiga de minha mãe, ambas correligionárias de poesias e associações de poetas, com livros pessoais também trocados entre si. E que comigo fora membro de júri em prémios literários durante vários anos, em associação de que ambos fazíamos parte em simpática camaradagem que meteu também gente como Galopim de Carvalho, Urbano Tavares Rodrigues, Francisco Moita Flores e até o cantor Vitorino.

Hoje de manhã vim a saber através de amigo comum – que também só ontem teve conhecimento do desenlace – que ela faleceu recentemente, como desde início suspeitei. As pessoas morrem, as famílias desmancham as suas casas, conservam alguns trastes, vendem outros e assim se apagam as vidas. Não tanto no caso da Ada que deixou obra assaz interessante e assim, através dela se perpetuará.

Quanto ao livro que alguém vendeu, já dei ordem de compra (quase ao mesmo preço de capa de há 10 anos, ligeiramente mais baixo) e hei-de oferecê-lo reautografado a alguém… que não o venda...

domingo, 6 de janeiro de 2013

[0307] Ainda a regionalização em Cabo Verde. Mais uma colaboração de José Fortes Lopes

José Fortes Lopes


Artigo/Entrevista-Perguntas/Respostas resultante de um conjunto de questões levantadas a José Fortes Lopes, sem complacência e com muita acuidade, por jornalistas e cidadãos em conversas de café e também em entrevista radiofónica,  demonstrando o interesse que há pelo tema da Regionalização, no rescaldo da Mesa Redonda de Novembro 2011 no Mindelo: o porquê, em que consiste e os desenvolvimentos ocorridos em 2012. O artigo deverá estar brevemente no jornais online em Cabo Verde assim como no blogue do Movimento:
http://movimentoparaaregionalizaoeautonomias.blogspot.pt/


1ª Parte- A Regionalização, um movimento da sociedade civil.
Nesta primeira parte incidiremos sobre as razões da Regionalização o papel da sociedade civil e dos intelectuais.

P- Que balanço faz da Mesa Redonda que ocorreu em Mindelo no mês de Novembro de 2012?
R- Positivo, e até ultrapassou as expectativas. Cumpriu-se a meta que correspondeu em colocar o debate sobre a Regionalização e a Reforma do Estado na sociedade civil. Agora está-se no arranque de uma fase importante, a de mobilização da sociedade civil mindelense, porque, como sempre, é ela a puxar a pesada carroça que é Cabo Verde. Participaram activamente no debate pessoas de todos os quadrantes políticos e sociais, nomeadamente das forças vivas da ilha. Teve o mérito de aproximar as posições de membros dos diferentes partidos do xadrez mindelense. Se a Reforma só dependesse deles, a Regionalizado já teria começado. Todavia, não se pode descurar um facto importante: o poder dos centralistas nos principais partidos políticos é hoje dominante, os interesses das elites da capital, incluindo o dos mindelesense aí instalados, é muito forte. Não é com a boa vontade dos nossos bravos que as coisas avançarão e que chegaremos lá, mas sim com muito esforço e suor. As coisas não cairão do céu, espero que os que estão agora a militar nesta causa fiquem convencidos. A Regionalização do país vai exigir empenho, dedicação e paciência. O país mudou muito, já não é o mesmo dos anos 70, 80 ou 90, onde S. Vicente contava muito, dava cartas políticas, como nos lembram com toda a razão alguns cínicos. Com efeito, o centro da gravidade de Cabo Verde está hoje entre a Praia e a Assomada. Mas para quem ainda tenha dúvidas, que se desengane de vez, a Regionalização é um projecto que une uma larga franja da sociedade mindelense, extravasa as clivagens políticas, ideológicas e sociais da ilha.
Para quem tinha algumas dúvidas sobre a nossa motivação, elas vêm sendo progressivamente esclarecidas. Portanto é um assunto a ser tomado com muita seriedade pelos partidos na Praia e pelo governo. Quando Mindelo se põe em marcha as coisas ficam sérias.

P - Qual é o papel do movimento da sociedade civil em torno deste tema, que já extravasa o âmbito dos partidos pelo menos em S. Vicente?
R - Importantíssimo. A sociedade civil de S. Vicente sempre jogou um papel importante nas transformações no arquipélago. Julgo que ela vai ser determinante no processo de Regionalização. Constatei que estão a soprar em S. Vicente novos ventos de cidadania, com a criação de núcleos de reflexão sobre a problemática específica da Regionalização, outros sobre a Cultura, a Democracia, o Desenvolvimento etc. A Ilha inteira está a movimentar-se em torno desses debates, com vários movimentos de cidadania. Ela está prenhe para um potente desabrochar da sociedade civil em torno de projectos dinamizadores. A Regionalização está sendo encarada com muita motivação e parece que estamos naqueles momentos em que os mindelenses ficam entusiasmados e confiantes e começam a juntar-se todos, acreditando no futuro. Acredito também que é nesta ilha, S. Vicente, que o futuro de um Cabo Verde renovado, moderno e democrático vai ser mais uma vez decidido.

P - Qual é o papel que o intelectual e político Onésimo Silveira tem jogado e jogará neste movimento. Os outros intelectuais, a elite mindelense? Temos ouvido falar de um movimento de cidadania activo no Mindelo e as restantes ilhas?
R - Onésimo é na minha opinião um cidadão incontornável tanto em S. Vicente como em Cabo Verde. Tem desempenhado um papel galvanizador neste debate sobre a Regionalização, de que tem sido desde os anos 90 um grande protagonista e defensor. Acredito que ele consiga ainda mobilizar uma larga franja da população mindelense. Tem escrito textos denunciando o estado de abandono de S. Vicente. Os temas que trata têm sensibilizado e mobilizado muita gente. Ele é um grande intelectual e pensador cabo-verdiano, e, como todos os mindelenses que se prezam, defende acerrimamente a ilha. Esperemos que se dedique mais à investigação da sociedade mindelense e cabo-verdiana, que publique o seu pensamento, para deixar um legado à ilha e ao país. Achamos que o trabalho que vem fazendo é extremamente importante e esperemos que estimule outros a fazer o mesmo.
Afinal onde param os intelectuais, a elite, os pensadores do resto de Cabo Verde?. O estado actual da sociedade cabo-verdiana é caracterizado mutismo é ensurdecedor: é preciso regressar da Pasárgada, e sair do círculo vicioso da choraminguice passadista e nostálgica, ou da auto-bajulação por conquistas ilusórias do presente, para começar a pensar a sociedade e a ser mais crítico, criativo e produtivo, no sentido da melhoria do país. Acho que para a saúde da sociedade, é preciso que a inteligentzia (a intelectualidade) cabo-verdiana se descole, se autonomize e se distancie dos partidos, se aproxime mais da sociedade, e se produza reflexão com conteúdo e valor acrescentado. Julgo que é esta a missão dos intelectuais. Se a Regionalização tem incomodado uma certa elite, que vive do status quo de interesses e privilégios instalados e do conforto da capital, no que concerne ao movimento, tudo o que se espera dos intelectuais é que se envolvam no debate da Regionalização e da Reforma do Estado, este desafio para renovação do país.

P - Tem-se falado nestes últimos meses da Regionalização, que é uma Reforma Política e Administrativa para o país. Razões desta Reforma e em que é que consiste? Porquê agora?
R - Vou começar respondendo à segunda parte da sua questão. A história do Centralismo coincide com a do nascimento deste país e resulta de uma concepção ideológica ou de uma leitura errada da sociedade cabo-verdiana. Porquê agora? É agora que o Centralismo se manifesta com a maior acuidade e gravidade, pelo que é urgentíssimo a correcção das distorções e dos males de que sofre o actual sistema cabo-verdiano, excessivamente centralizado e burocratizado. S. Vicente está a decair e à míngua por causa do Centralismo. É preciso lembrar que antes da independência, Cabo Verde contava com dois grandes pólos urbanos autónomos, a Praia, por possuir o governo central da colónia, e S. Vicente, por ter uma classe comercial e empresarial dinâmica, que vivia em torno do Porto Grande e que atraía a maior parte dos intelectuais do país. S. Vicente, com o seu peso económico e a sua intelectualidade, contava tanto para o governo da Praia como para o de Lisboa. A partir de 1975, optou-se por não utilizar a estrutura já montada do tempo colonial em S. Vicente, deixando a cidade decair, criando tudo de novo (o famoso Novo), de raiz, na capital colonial, transferindo e concentrando tudo na Praia, uma tendência que foi em crescendo até aos nossos dias. Esta concentração humana na Praia poderá ter sido o maior erro na construção do jovem Estado, pelo qual S. Vicente e o próprio Cabo Verde pagam caro hoje. E hoje em dia há já muitos mindelenses a questionarem abertamente “quais foram, afinal, os benefícios da Independência para S. Vicente”, uma vez que, embora a ilha tenha tido algum crescimento económico, o seu estatuto regrediu em vários aspectos. Esta ilha de onde o Estado “fugiu a sete pés” já não é pujante, não respira dinamismo, modernidade e cultura, e sobretudo está falida como projecto económico. Esta verdade dói, sobretudo para quem apostou e acreditou muito na independência como uma alavanca para a ilha e para o país. É claro que há muitos mindelenses a ocupar lugares cimeiros e chaves no Estado Central na Praia. Mas uma coisa é evidente, a capital do país, Praia, e a Ilha de Santiago são beneficiários nítidos de uma independência centralizadora. Portanto, as coisas poderiam ter seguido um rumo bem diferente após a independência. Como diria Dumond, analisando as independências africanas nos anos 70-80, “L’Afrique est mal partie”. Temos que dar respostas a estas inquietações mindelenses e cabo-verdianas, de modo a devolver a esperança às populações e a acreditar no futuro do país. Este caminho não é fácil mas tem que ser trilhado.
Por outro lado, já estamos a ver os problemas criados: a Praia é a própria vítima do Centralismo. Esta política já está a trazer à capital do país problemas graves que agora estão a extravasar para a periferia e o resto do país: crescimento da insegurança, urbanismo caótico e desordenado, problemas básicos de infra-estrutura, carências crónicas de energia e água, custos galopantes dos bens e serviços, desestruturação do modo de vida tradicional do interior da ilha de Santigo, fuga do campo para a cidade, migração económica das outras ilhas para a capital. A situação actual da Praia é, portanto, inconfortável e complexa, começando a pôr em perigo a própria segurança e o bem-estar das populações na capital e no país. Estamos, por isso, também preocupados com a Praia e a ilha de Santiago, pois queremos também uma Praia melhor, um Santiago melhor, que se viva bem nelas e sejam um orgulho para Cabo Verde. Libertar os centros urbanos das tensões criadas pelo crescimento e a concentração é um dos objectivos do debate, que extravasará de certeza o âmbito do debate da Regionalização e da Reforma do Estado. A Regionalização será também uma oportunidade para a Praia, caso o entenda, atacar os problemas atrás focados. Não se pode fazer finca-pé de vantagens e privilégios fortuitos ou ocasionais, quase sempre transitórios, sobretudo quando resultantes de situações injustas. Encontrar-se-ão sempre novos equilíbrios resultantes das mudanças ditadas pelo tempo e pela história.
(Continua)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

[0305] "Terra Nova", na hora da mudança


O mensário "Terra Nova" dos irmãos Capuchinhos é uma referência na imprensa cabo-verdiana e sanvicentina.  Ao longo dos últimos 38 anos exerceu intensa pedagogia de teor cristão  e cívico e muitas das suas páginas ficam para a memória das ilhas como estrénuas defensoras da democracia. História a fazer, que não compete ao PRAIA DE BOTE. 

Frei António Fidalgo Barros - Foto "Expresso das Ilhas"
O grande obreiro do jornal e longo director do mesmo é Frei António Fidalgo Barros - que para sempre a ele ficará ligado pela sua sabedoria e "pagamento" que teve de prestar pela convicção das suas ideias... Mais uma vez, não cabe ao PB fazer esse historial. Mas aqui fica o registo...

Chegou entretanto a hora da mudança. A Frei António Fidalgo Barros estão reservadas outras missões e para o seu lugar entra agora uma figura de jovem promissor, Frei Gilson Frede Barros, foguense ordenado em Julho de 2011. E com ele vêm as inevitáveis alterações de quem chega. Quase sempre assim acontece e isso é bom, se se mantiver a matriz original - o que se prevê. Passagem de 8 para 12 páginas, capa e contracapa a cores e inclusão de publicidade (que contribuirá para assegurar a sustentabilidade do periódico) são algumas das inovações de bom augúrio.

Frei Gilson Frede Barros - Foto "Terra Nova"
O PRAIA DE BOTE deseja a Frei António Fidalgo Barros o maior sucesso nas tarefas que doravante irá desenvolver. No que nos diz respeito, a colaboração continuará com ambicioso projecto que temos entre mãos - o qual será desvendado em altura oportuna mas que desde já afiançamos muito honrará as letras cabo-verdianas.

Ao novel director do "Terra Nova", Frei Gilson, oferecemos a nossa colaboração com as CRÓNICAS DO NORTE ATLÂNTICO e o que mais for preciso e estiver dentro das nossas possibilidades. 


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

[0304] As ilhas de Cabo Verde vistas por um repórter do jornal espanhol "El Sol", em 1936

A nota é do jornal madrileno "El Sol", de 17 de Abril de 1936. E é escrita pelo repórter Fernando Ortiz Echagu que se encontra numa viagem de ida e volta ao Brasil, em dirigível. Lá de cima vê as cabo-verdianas ilhas num momento em que é hora do pequeno-almoço. E chama-lhes ilhas desoladas e esquecidas por Deus e pelos homens. Diz, enganado, que raramente tropeçam nelas os barcos. E refere que o repórter do "Berliner Illustrirter", que tira fotografias a tudo, aqui apenas se dignou fazer uma chapa... A Guerra Civil espanhola estava para começar em meados de Julho desse ano, o nazismo crescia na Alemanha e por Portugal era o que sabemos...

O Zeppelin que sobrevoou as ilhas de Cabo Verde era um dos primeiros a fazer a luxuosa carreira inaugurada em 30 de Março. Podemos vê-lo aqui, quase em cima da Praia de Bote, em foto do blogue "Luís Graça e camaradas da Guiné" Mas isso já se sabia, através de blogues e fotologues (um dos quais o do Djô Martins). O que não se sabia era que o patife do alemão apenas tinha tirado uma foto lá de cima. Só que aqui o PRAIA DE BOTE vasculha tudo e não perdoa a malandros desse calibre. Caso para dizer ao sujeito: "Große Bandit, fahren Sie Strahlen, nie um hier zu kommen".








[0303] Uma imagem, um texto; a mesma imagem, outro texto...

Algures no início do século XX, a rapariguita carrega um provável irmão às costas, atado a ela à moda de São Vicente. Editado pelo "Bon Marché" do Mindelo, o postal ilustrado ainda é a preto e branco. Em inglês, a legenda refere que a jovem carregadora é uma "pequena enfermeira"... ou seja, vai a carregar um doente...
Na segunda imagem, a mesma mas colorida e igualmente legendada em inglês, o texto diz que a miúda está "a adormecer o bebé". Então, em que ficamos?... Não se pode confiar nestes publicitários...

NOTA: veja no post anterior uma foto fresquinha de Zeca Soares, da Praia de Bote.




quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

[0302] A Praia de Bote. Foto de 31.12.2012, de Zeca Soares, que muito se agradece

Clique na imagem para a ver bem ampliada

[0301] Relembrando: para breve, em Lisboa


Dia 12 de Janeiro, Joaquim Saial levará os participantes nesta aventura através de uma viagem ilustrada e falada pela arte pública do Cabo Verde colonial. Depois de ter tido lugar no Centro InterculturaCidade, em Lisboa, agora repete-se a receita, com algumas adendas, na Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde, também na capital portuguesa.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

[0300] Meio século (exacto!) depois...



Hoje de manhã, acordei ao som de música viva. Não a habitual, da Rádio Barlavento ou da Rádio Clube do Mindelo, mas outra igualmente boa, de filarmónica, alegre e cristalina, saída dos instrumentos da Banda Municipal de S. Vicente e das gargantas dos seus intérpretes, treinadas por nhô Reis, o mestre. Sim, abri ali a segunda janela dos anexos da Capitania, aquela onde vai o homem com o saco branco na mão, que é a do meu quarto, e deliciei-me com uma marcha cujo nome infelizmente já não recordo - afinal de contas, a coisa passou-se há 50 anos... Entretanto, apareceu a minha gente: o meu pai (a quem de facto se destinava no momento a homenagem), a minha mãe e a minha tia-bisavó - que deram o ar da sua graça acenando e agradecendo ao conjunto que assim nos prendava com aquela melodia inesperada.


O meu pai foi buscar uma nota de vinte escudos (ou terão sido dez paus?) que deu a um dos excutantes, eles agradeceram, a banda seguiu para o lado da Praia de Bote, parou junto à Casa Figueira, onde se repetiu a cena, e por ali adiante, até à Alfândega, de onde deve ter seguido para a Rua de Lisboa ou para a do Telégrafo... 


Do momento, sobraram a foto e o cartão que hoje se divulga pela primeira vez, ao contrário daquela, já conhecida mas que vem sempre a propósito em dias "1 de Janeiro", sobretudo neste em que se perfaz meio século do cartão e da foto... revelada na Foto Melo, obviamente...

sábado, 29 de dezembro de 2012

[0299] 299 despedidas de 2012...


681 dias e 299 posts depois, o PRAIA DE BOTE  deseja a todos os seus leitores, colaboradores e amigos, uma boa noite de S. Silvestre e um 2013 com muita saúde e livre de maus governantes de todas as cores políticas, em todas as latitudes e longitudes do Universo.

Segue inevitavelmente um abraço para todos os moradores da sanvicentina Praia de Bote, sejam os das casas que a bordejam, sejam os que se esconderão debaixo dos botes onde serão evaporados de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro alguns litros de bom grogue cabo-verdiano.

Em 2013, cá estaremos, todos nós, na mais maravilhosa praia do mundo, para uma boa conversa e para divulgar o que se passa e passou nas suas areias. Sempre com novidades, algumas bem antigas, diligentemente tiradas do nosso profundo e inesgotável baú.

E já que nos últimos posts se falou no Café Royal (embora não no Royalzin - não esquecer este, criado para a classe do pé descalço que assim também podia ter o seu Royal e ali beber um grogue ao invés do gin que se bebia no outro) aqui vai um postal editado pelo famoso café assassinado. A Matiota, praia também ela assassinada, aqui fica para lembrar na noite de S. Silvestre - em imagem de há 98 anos.



[0298] Posts recentes, ainda a ver... E mergulhos por moedas de turistas

Neste post, à beira da noite de S. Silvestre, o PRAIA DE BOTE oferece aos seus leitores uma cena que ainda todos temos na memória, em quatro versões, a preto e branco e a cores.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

[0297] Documentário sobre a grande pianista D. Tututa estreia em breve

Do blogue parceiro "ESQUINA DO TEMPO"...


"Dona Tututa" vai ter antestreia mundial no Sal no dia 6 de Janeiro de 2013

Epifânia Évora ama a música e o piano, tanto quanto é possível alguém o fazer. Ao longo da sua vida, transformou dor e alegria em melodias e cantou-as, rompendo convenções. Para esta nonagenária cabo-verdiana,  filha do "inventor da coladera" e mãe 14 vezes, a vida só faz sentido com aplausos. Terá ouvido todos os que merece?

Das noites quentes e gloriosas do Café Royal no Mindelo de outrora, à vida familiar na inóspita Ilha do Sal, vamos viajar pela biografia - ora coladera, ora morna - desta apaixonante mulher e celebrar com ela a cultura singular de um país de músicos, que carinhosamente a trata por "Dona Tututa”.

Realizado por: João Alves da Veiga
Produzido por: Pedro Canavilhas
Filmado por: Leandro Ferrão, Miguel Figueiredo, Pedro Canavilhas
Editado por: Miguel Figueiredo

PRAIA DE BOTE participou marginalmente neste documentário com oferta de um documento do seu arquivo que aqui se reproduz (Diário Popular de 25 de Abril de 1952) e duas fotos do velho Café Royal (uma das quais também se publica). Contributo modesto mas sentido, em homenagem à grande diva do piano mindelense.


Foto Joaquim Saial - Antigo Café Royal. À porta, o último dono, Sr. Tchuna, já falecido

[0296] Memorando...

Para que conste, aqui vai, directamente da PRAIA DE BOTE e do Parlamento português, para os curiosos, para os distraídos, para os que não querem ver e, já agora, para os ignorantes.

A figura é importante, ao nível das melhores de Cabo Verde (que são muitas), todas elas merecendo tratamento igual.


ADRIANO DUARTE SILVA

Data de nascimento
12.Janeiro.1898
Localidade
S. Vicente / Cabo Verde.
Data da morte
1961
Habilitações literárias
Licenciatura em Direito.
Profissão
- Professor do ensino secundário
- Conservador do Registo Predial
Carreira profissional
Conservador do Registo Predial em Barlavento e Moçâmedes.

Carreira político-administrativa
Presidente da Comissão da União Nacional de Cabo Verde.

Carreira parlamentar
Legislaturas
Círculo
Comissões
IV
Cabo Verde
Colónias.
V
Cabo Verde
Colónias.
VI
Cabo Verde
Ultramar.
VII
Cabo Verde
Ultramar.

Intervenções parlamentares 

IV Legislatura (1945-1949)
1.ª Sessão Legislativa (1945-1946)
- Fala sobre assuntos que interessam à colónia de Cabo Verde e aos seus naturais.
- Refere-se ao que se passa em Cabo Verde com os concursos para segundos e terceiros verificadores aduaneiros.
- Entra no debate acerca da proposta de lei relativa a alterações à Carta Orgânica do Império Colonial Português.
2.ª Sessão Legislativa (1946-1947)
- Refere-se a um parecer do Conselho do Império Colonial, inserto no Diário das Sessões, relativo a subvenções coloniais a funcionários.
- Refere-se de novo, quanto a subvenções, ao caso das diferenças entre funcionários metropolitanos e naturais das colónias.
- Refere-se à questão da crise de Cabo Verde e medidas a tomar para a debelar.
3.ª Sessão Legislativa (1947-1948)
- Não regista intervenções.
4.ª Sessão Legislativa (1948-1949)
- Fala nas dificuldades do transporte de passageiros entre o continente e as ilhas de Cabo Verde.
- Exprime o seu sentimento pelo grande desastre sucedido em Cabo Verde com o desabamento de um muro, que causou muitas vítimas.
- Refere-se à necessidade de apetrechar o Porto Grande de S. Vicente e de resolver a questão administrativa.
- Refere-se, com palavras do elogio, à contribuição das nossas colónias com a quantia do 16:000 contos para acudir à crise de Cabo Verde.

V Legislatura (1949-1953)
1.ª Sessão Legislativa (1949-1950)
- Lamenta as vítimas que houve num naufrágio ocorrido nas águas de Cabo Verde, como o emprego ainda de veleiros no transporte de ilha para ilha, expondo o que acontece nesse arquipélago acerca de comunicações.
2.ª Sessão Legislativa (1950-1951)
- Refere-se à supressão no funcionalismo do ultramar da subvenção colonial e as pensões de aposentação dos funcionários coloniais.
- Refere-se à necessidade de se apetrechar o porto grande de S. Vicente.
- Discute na generalidade a proposta de lei de revisão da Constituição e do Acto Colonial.
3.ª Sessão Legislativa (1951-1952)
- Fala sobre o apetrechamento do porto Grande de S. Vicente é as comunicações marítimas entre as diversas ilhas.
- Esclarece a sua intervenção acerca da situação do porto Grande.
- Refere-se à expressão «indígena» referida a uma unidade militar de Cabo Verde, que, perante a actual legislação, deve ser banida quanto à população daquela província.
- Refere-se ao Decreto-Lei n.º 38.704, sobre o aproveitamento reprodutivo da sobrevalorização de alguns produtos ultramarinos.
4.ª Sessão Legislativa (1952-1953)
- Discute na generalidade a proposta de lei relativa ao Plano de Fomento.
- Requer, pelo Ministério do Ultramar, informações respeitantes a serviçais contratados, em Cabo Verde para S. Tomé e Príncipe.
- Discute na generalidade a proposta da Lei Orgânica do Ultramar.
- Agradece o interesse da Assembleia Nacional pelas considerações que fez acerca da mesma proposta de lei.

VI Legislatura (1953-1957)
1.ª Sessão Legislativa (1953-1954)
Refere-se ao problema da erosão e arborização de Cabo Verde e à aplicação de novas disposições sobre funcionalismo ultramarino.
- Congratula-se pela concordância do pensamento do Governo da província de Cabo Verde com o seu, acerca do desenvolvimento da arborização e defesa do solo.
- Pede a protecção para as pozolanas de Cabo Verde.
2.ª Sessão Legislativa (1954-1955)
- Faz considerações acerca da isenção de direitos de importação das pozolanas do Cabo Verde nas outras províncias ultramarinas e de problemas relacionados com a exportação da banana de Cabo Verde.
- Refere-se à próxima visita do Chefe do Estado às províncias ultramarinas da Guiné e Gabo Verde.
3.ª Sessão Legislativa (1955-1956)
- Congratula-se com a adjudicação das obras do porto grande de S. Vicente.
- Agradece a manifestação de pesar da Assembleia pelo falecimento de sua mãe.
- Discute a Conta Geral do Estado, as contas da Junta do Crédito Público e as contas das províncias ultramarinas relativas ao ano de 1954.
4.ª Sessão Legislativa (1956-1957)
- Agradece ao Governo os subsídios atribuídos ao Aeroclube de Cabo Verde, Rádio Clube de Cabo Verde e ao Rádio Barlavento.
- Refere-se ao problema das estradas em Cabo Verde.

VII Legislatura (1957-1961)
1.ª Sessão Legislativa (1957-1958)
- Discute na generalidade a proposta de lei relativa ao II Plano de Fomento.
2.ª Sessão Legislativa (1958-1959)
- Pede aos Srs. Ministros das Obras Públicas e do Ultramar que sejam cumpridos os despachos que recomendam o emprego da pozolana de Cabo Verde nas obras do porto do Lobito.
- Discute na generalidade a proposta e os projectos de lei de alteração à Constituição Política.
3.ª Sessão Legislativa (1959-1960)
- Faz referência à situação de crise em que Cabo Verde se encontra mercê da falta de chuvas.
- Comenta uma notícia de jornal segundo a qual se teria formado em Dacar um movimento denominado «Frente de Libertação das Ilhas de Cabo Verde».
4.ª Sessão Legislativa (1960-1961)
- Refere-se à campanha anti-colonialista.

[0295] Resultado do CONCURSO 13




Concurso 13 sem vencedores! Tratava-se da medalha comemorativa da inauguração do cais acostável de Porto Novo, aqui em frente da Praia de Bote, depois do cais acostável do Porto Grande e do Djéu.

A ajuda estava mesmo a pedir resposta, mas os respondentes não apareceram, excepto o Valdemar, único herói que arrostou com as dificuldades. Chegou perto  e assim ganha uma folha de alho francês (como sabemos, ele odeia acácias...) como prémio de consolação.

Ora vejamos:

Mete água mas não é barco: há agua à volta dos cais que de facto não são barcos,
Tem cabos e paz e sossego temporários: os cabos (cordas) dos navios e nos cais há paz e sossego temporários, quando não há barcos a atracar ou a desatracar ou a carregar ou a descarregar. Coisa temporária, realmente.
A seguir regressa o perigo: depois de desatracar, ao reiniciar o seu percurso, o barco regressa ao perigo do mar.
Nem é preto nem é branco: em geral é cinzento, em cimento armado.
De noite vazio, de dia cheio (embora  nem sempre): de noite, quase não há gente nos cais, ao contrário do dia, quando há movimento. Se não há movimento, também de dia há pouca gente nos cais.
Coisa de abrigo... coisa de carga... coisa nova...: ABRIGO, os cais servem de abrigo aos navios; CARGA, a carga que lá chega; NOVA, de Porto Novo, inaugurado em 1962 por Adriano Moreira, então ministro do Ultramar.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

[0294] O "Monte Washington", no texto jornalístico mais antigo que conhecemos sobre essa designação

In "Hyannis Patriot" (EUA) de 15 de Janeiro de 1917
Para registo, aqui fica a mais antiga alusão ao Monte Washington que conhecemos, publicada em jornal. Temos outras mais remotas, em postais ilustrados e livros, que oportunamente serão divulgadas noutro local. Depois, foi o Monte  Cara... mas também outro rapaz famoso deu nome ao monte mais famoso de São Vicente e de Cabo Verde... A coisa está a ser escrita. Não desanime o leitor, após ter lido este aperitivo.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

[0293] Trabalho e mantimentos, polémica cabo-verdiana em 1948



Crónica de Outubro.2012
 
CRISE DE TRABALHO E MANTIMENTOS EM CABO VERDE: UMA POLÉMICA EM 1948

Nos finais dos anos 40, Cabo Verde tinha 180.000 habitantes, a fazermos fé no número divulgado pelo Diário Popular de 23 de Janeiro de 1948. Substancial parte dessa população debatia-se então com séria crise de trabalho e grande aumento do custo de vida, devidos a três anos sucessivos de seca – drama que, na Assembleia Nacional lisboeta, o deputado pelas ilhas, Dr. Adriano Duarte Silva, fazia cruamente saber aos seus confrades. Mas ao mesmo tempo o tribuno afiançava que a crise não era devida à falta de mantimentos, pois, segundo ele, os Governos local e nacional tinham sabido orientar as «correntes comerciais no sentido de se abastecer convenientemente o arquipélago». Nesse aspecto, afirmava, fora determinante a acção do governador João de Figueiredo (que exerceu entre 1943-49), o qual «teve de lutar com o egoísmo de uma minoria de intermediários traficantes, que costumavam enriquecer quando morriam aos milhares os seus compatriotas.» Afirmação grave, que não personaliza, mas que amplia ao dizer que o governador «teve de assegurar o aprovisionamento e por isso adoptar as medidas necessárias, demonstrando assim que o interesse comum não [podia] ser lesado pelos interesses particulares monetários dos que exploravam a desgraça dos portugueses de Cabo Verde».

Dr. Adriano Duarte Silva
Digamos portanto que, ao que parece, as instâncias governativas de Lisboa e da Praia se tinham portado mais ou menos bem desta vez mas que era preciso ir mais longe. Urgia arranjar trabalho para o exército de desempregados que deambulava pelas ilhas, à procura de ocupação. É que desemprego e fome andam sempre de mãos dadas e aqui não se fugia à regra. Para Duarte Silva, havia sobretudo falta de poder de compra, devida à crise de trabalho. Por isso, embora agradecendo a ajuda que tinha vindo de Lisboa, considerava ser absolutamente necessário aumentar a mesma. E a notícia concluía com sintomática frase: «Esperemos igualmente que além do Estado se lembrem daqueles infelizes os que enriqueceram à sua custa nas crises anteriores, em especial, e de uma maneira geral todos os portugueses para quem a caridade não é um metal que tine ou um sino que soa».

No dia seguinte, no mesmo jornal, liam-se alguns esclarecimentos de Adriano Duarte Silva que dizia que na Assembleia Nacional afirmara sobretudo que o excesso de mortalidade verificado até ao Outubro anterior, quando viera de Cabo Verde para Lisboa, ficava muito aquém do que se tinha registado em ocasiões semelhantes e que esse facto se devia a ter-se gasto até então a verba de 17.000 contos tirados dos recursos da colónia e provenientes da ajuda metropolitana. Na mesma coluna reproduzia-se uma carta de José Inocêncio da Silva, funcionário dos correios e escritor – curiosamente próximo do regime salazarista – ao director do jornal, sobre o mesmo assunto. Ali, felicitava o periódico por ser «o primeiro jornal do País que se ocupou da situação de Cabo Verde, tão desassombrada e carinhosamente nos seus largos comentários, ressaltando as verdades com todas as letras»…

E a 25, no DP, ainda se insistia no assunto. Respiguemos dali algumas das frases mais significativas, relacionadas com a ajuda concedida anos antes: «Simplesmente, em virtude do mau arranjo das correntes comerciais de importação e distribuição essa ajuda foi anulada, revertendo as vantagens em benefício dos escassos poderosos e egoístas traficantes que enriqueciam com a miséria dos cabo-verdianos. Agora o caso mudou de figura. O auxílio da Metrópole é profícuo porque se modificou patriótica e sadiamente a estrutura habitual (mas errada e nociva em tempo de crise!) do comércio de importação e da distribuição. Esta é a opinião geral e de quem conhece o assunto. É aliás, a conclusão lógica do que se diz: ‘Não há crise de mantimentos’. Não há, é evidente, porque desta vez as autoridades centrais e locais conseguiram vencer o sórdido egoísmo dos especuladores.»

Mas a polémica só se instalaria verdadeiramente, quando a 23 de Fevereiro o jornal publicou uma carta de [Júlio] Smith Benoliel de Carvalho (1899-1982), sócio e gerente da Sociedade Luso-Africana, Lda., com sede em Lisboa e que se dedicava ao grande comércio de importação e exportação da colónia. Escrevia ele que a sua classe fora «tão rude quanto injustamente visada nas colunas do jornal», embora recebesse de braços abertos e aplaudia «entusiástica e gratamente tudo quanto o Governo central [tinha] feito e [prometia] fazer em socorro da colónia.» E fazia ao autor dos artigos do DP três perguntas: 1 – Em que consistiu aquela «patriótica e sadia modificação da estrutura habitual do comércio de importação e distribuição»? 2 – Quais os «intermediários traficantes», os que «exploravam a desgraça», «os beneficiários egoístas das crises», «os escassos poderosos e egoístas traficantes»? 3 – Quais os casos de especulação havidos na colónia? É que, conforme expressava, as modificações feitas até ali em Cabo Verde na estrutura do comércio de importação haviam consistido em determinações locais sempre tendentes a impedir o mesmo comércio de importar mantimentos o qual apenas [pedia] que, pelo menos, o [deixassem] contribuir com essas importações, trazendo assim para a colónia maiores quantidades de géneros alimentícios e aceitando de boa mente tabelamentos, bem como toda a fiscalização que se [entendesse] necessária e dando-se por satisfeito com margens de lucro que [eram] das mais pequenas de todo o território português. Finalizava, perguntando como poderia haver especulação se houvesse abundância de produtos.

Como resposta a esta carta, o jornal revelava a seguir que em Abril do ano anterior, a uma reunião de comerciantes de S. Vicente, apenas haviam faltado a própria Sociedade Luso-Africana, João Benoliel de Carvalho e António Miguel de Carvalho, irmãos do autor da carta e Aguinaldo Vera-Cruz, seu cunhado, facto que merecera o reparo do presidente da Associação Comercial e que aqui reproduzimos quase integralmente, dado o seu interesse histórico: «O que se pretende, a meu ver, como ao de alguns aqui presentes, é acabar com a “Saga” – tratava-se do Serviço de Aquisição de Géneros Alimentícios, criado para defesa da vida dos habitantes de Cabo Verde em 1942 e depois melhorado com geral benefício, explicava o jornal – para surgir uma  outra que julgo mais perniciosa para todos nós, suponho.» E continuava o presidente da AC: «Não nos devemos esquecer de que estivemos durante alguns anos, à mercê da Casa Khan (a Sociedade Luso-Africana, Lda., de que era sócio e poderoso elemento o sr. Heinrich Khan, conforme voltava a esclarecer o jornal, para facilitar a compreensão do texto pelos leitores), a qual só vendia a quem queria e depois de atender quem bem entendesse e, para cúmulo, dava-nos cinco centavos de lucro em quilo de açúcar. Deve tudo isto estar ainda bem presente na mente de todos os presentes… Vê-se, claro, o que se pretende: monopolizar em benefício de alguns a importação de um artigo que só por si mantém uma casa em desafogo, atento o volume do negócio.» Mas também lembrava o presidente que os comerciantes eram culpados da situação, por desentendimentos vários entre si. Se tinha de haver monopólio, antes este fosse da “Saga”. E rematava com uma frase significativa: «Não somos nós os únicos sacrificados… Nós ainda vivemos e alguns muito bem; e lembremo-nos de que na nossa terra muita gente, mesmo muita, não vive, vegeta, quando não morre de fome por falta de trabalho em que possa angariar um mínimo para viver.»

Numa era de enormes dificuldades para Cabo Verde, como foi parte substancial dos anos 40, é nítido que, para além da insignificante assistência estatal, sempre parca ou atrasada, havia internamente quem, segundo parece, prosperava no comércio local, apesar do ambiente de miséria que grassava nas ilhas. Para o relembrar, aqui ficam estas notas bebidas num bem informado e considerado vespertino lisbonense da altura. E também o sinal de alguma desunião, pois na contra-corrente do sentir dos comerciantes de Barlavento, a Associação Comercial e Agrícola de Sotavento apoiava a carta de Benoliel de Carvalho, da qual tivera conhecimento antecipado… Porém, estes dados históricos não nos impedem de sentirmos admiração pela firma de grande prestígio que foi e ainda é a Sociedade Luso Africana, Lda. Longeva de mais de meio século, recordamos por fim que teve entre os seus gerentes Filinto Jóia Martins, pessoa respeitada em São Vicente, que também foi presidente da Associação Comercial e Agrícola de Barlavento – o que, pelo menos, demonstra posterior pacificação entre as duas entidades mindelenses.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

[0292] Ainda o CONCURSO 13

O PRAIA DE BOTE não desiste e relança o CONCURSO 13 

PERCEBIDO, Ó SENHORES CONCORRENTES?


Pergunta: a que alude esta medalha?

Ajuda: mete água mas não é barco; tem cabos e paz e sossego temporários -  a seguir, regressa o perigo; nem é preto nem é branco; de noite vazio, de dia cheio (embora nem sempre). Coisa de abrigo... coisa de carga... coisa nova...

sábado, 22 de dezembro de 2012

[0290] Ruy Cinatti - Poema "Memórias de um furriel miliciano expedicionário "

Em final de ano, um poema sobre o tema mais em evidência neste 2012 no PRAIA DE BOTE. De Ruy Cinatti (sob pseudónimo de Júlio César Delgado), poeta, antropólogo e agrónomo português (Londres, 8 de Março de 1915 - Lisboa, 12 de Outubro de 1986).


Memórias de um furriel miliciano expedicionário

Mar afogado nas trevas
Um navio…
Outros partindo.
No cais, um sabor a óleo.

Volto, cabisbaixo,
Triste,
De não ser eu.

Na praceta iluminada encontrei uns camaradas.

Não podia ser ninguém.
Um navio…
Outro chegando,
Sem trazer notícias tuas,
Mãe…

Havia amigos
Dávamos grandes passeios.

O correio é demorado
Para mim,
Em S. Vicente,
Cabo Verde.

in Crónica Cabo-verdiana, 1967

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

[0289] Mais uma colaboração de Zeca Soares

Estas são fotos recentes (finais do ano de 2012) para efeitos de provocação e comparação. No documento em referência há uma foto do Hospital de São Vicente em que se vê apenas o Cemitério, algumas casas no lombo e, possivelmente a escola de Chã de Cemitério. Fiquei impressionado ao ver aquele descampado, pois na minha infância ir ao cemitério era uma autêntica aventura, apesar de existirem o campo de jogos, a Favorita de Manel Matos, o cemitério dos Ingleses, a arborização do Chã de Monte Sossego e um ou outro quintalão e nada mais. Igualmente  também a oficina do Sr. Cunque, estaleiro onde foi construído o iate oferecido ao Dr. Baptista de Sousa. É de se lamentar a forma como o progresso na nossa terra está a CANIBALIZAR o pouco que nos resta do nosso passado. Ninguém é contra o progresso mas acho que é preciso divulgar mais estas ipois magens do passado, talvez elas possam sensibilizar para que se cuide amanhã aquilo que estamos a fazer hoje.

Ao Praia de Bote os meus cumprimentos e votos dum BOM NATAL  E UM ANO NOVO REPLETO DE PROSPERIDADES.

PRAIA DE BOTE agradece reconhecida a colaboração fotográfica fresquinha feita pelo nosso amigo e colaborador Zeca Soares, sempre bem-vinda, de nôs terra Soncente.    







quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

[0288] Há um concurso sem vencedor ali no post 284...

Quem, se habilita ao ramo de acácia do CONCURSO 13? Pelas indicações dadas, a coisa é facílima. Coisa de abrigo... coisa de carga... coisa nova...

Enquanto todo o povo do universo medita sobre o assunto, o PRAIA DE BOTE mostra que já houve um árvore tão grande no Mindelo que merecia honras de postal ilustrado. Ao fundo, as antenas do velho posto rádio-telegráfico de S. Vicente.