terça-feira, 11 de setembro de 2012

[0245] MAIS UM ARTIGO DE JOSÉ FORTES LOPES

A SITUAÇÃO E O ESTATUTO DA LÍNGUA PORTUGUESA EM CABO VERDE: a regionalização e o debate sobre o crioulo (2.ª parte)

José Fortes Lopes

Luís de Camões
Na primeira parte deste artigo, dissertei sobre a alienação e a dúvida generalizada que rodeiam o processo anti-democrático (no sentido abrangente, ou seja, associando os principais interessados, as ilhas e os seus falantes) que subjaz à oficialização do crioulo, onde são omitidas as suas sérias implicações na vida do país. Tudo decorrendo no segredo dos deuses, na ausência de diálogo com a sociedade, parece evidente o propósito de silenciar os cabo-verdianos e perpetrar, custe o que custar, uma reforma/revolução mental em Cabo Verde, a pedido de ninguém, mas como reflexo do ego dos seus promotores e apoiantes políticos e associados, sob os auspícios de um desígnio em que não se revê, como se tem visto, a maioria esmagadora do país.

Mostrei que é um direito inquestionável e inalienável o de os habitantes de cada ilha exprimirem-se no seu crioulo materno, que negar este facto poderá conduzir a uma situação de consequências imprevisíveis e sempre perigosas, configurando um acto de violência cometido pelo Estado a unificação dos crioulos por via legislativa e através de “engenharia linguística” e a escolha do crioulo padrão por motivos meramente políticos ou eleitoralistas. Em suma, esta aventura, a concretizar-se no seu pleno, seria a “facies” reveladora de uma política abusiva e autoritária de matriz claramente centralizadora. Tendo em conta estas premissas, julgo que é legítimo que o Estado de Cabo Verde reconheça a diversidade linguística do país e acate as reivindicações dos seus habitantes, perante uma realidade inquestionável: a existência de crioulos de Cabo Verde e o carácter regional do país.

Poeta José Luís Tavares (CV)
Daí que a Regionalização seja o ponto de partida e de chegada deste complexo processo. As eventuais negociações, a decorrerem no âmbito da regionalização, deverão consagrar aquele acervo de direitos em matéria linguística, um requisito que deverá ficar plasmado na futura e revista Constituição de Cabo Verde. Também referi os perigos de lançar Cabo Verde na aventura de uma precipitada adopção do uso do crioulo como futura ferramenta de trabalho e do simultâneo desincentivo do uso corrente do Português no país. Existem riscos de ordem diversa que os poderes políticos, e designadamente quem pensa e decide neste país, deveriam ponderar antes de decidirem em matéria tão delicada e fulcral para o futuro do país e para a harmonia e o bem-estar psicológico do nosso povo.

Com efeito, bem mais perigoso é ainda o risco de uma alienação ou de um cada vez maior afastamento de Cabo Verde da língua portuguesa. Como anotei, num país já por si mal falante desta língua, o mesmo equivaleria a votar a maioria da população a uma situação real de “indigenato”, com pessoas incapazes de se exprimirem correctamente em nenhuma língua, ao passo que as elites minoritárias continuarão cada vez mais a ter acesso e contacto constante com o Português, a única língua estruturada e com uma riqueza léxica suficiente (pelo menos na presente conjuntura linguística), capaz de proporcionar actualmente produção intelectual, literária, científica e um pensamento abstracto estruturado, para além de permitir e facilitar a ponte para as línguas dominantes como o francês, o inglês ou o espanhol. Por motivos diversos, induziu-se na sociedade a sensação, se não o medo, de que usar o português como língua corrente seria como cometer um crime de lesa-língua e lesa-pátria. Na questão do português é importante denunciar o enorme logro em que os cabo-verdianos podem cair, mercê de desinformação ou de uma pedagogia baseada num nacionalismo bacoco, uma vez que não passa pela cabeça de ninguém ser contra a dignificação do crioulo ou negar o seu lugar na matriz identitária das nossas ilhas. Mas quem poderia ser contra os crioulos falados no arquipélago de Cabo Verde? Haverá inimigos do crioulo ou de Cabo Verde, como pretendem os Fundamentalistas? Esta visão maniqueísta de um mundo dividido entre bons e maus não é boa para um debate que se quer sereno.

Poeta Jorge Barbosa (CV)
É neste contexto do debate sobre o crioulo que em Novembro de 2011 o Primeiro-Ministro (PM) de Cabo Verde, José Maria Neves, “fez história”, ao proferir um discurso perante a 66ª plenária da Assembleia Geral das Nações Unidas, na sua “língua materna”, ou seja, no seu “crioulo materno”. Os ditos Fundamentalistas só podem ter-se regozijado com esse gesto na medida em que poderão ter visto nele um sinal positivo para a realização definitiva dos anseios: a oficialização do “crioulo”  e o fim aparente do domínio do português como língua de expressão oficial em Cabo Verde. Esse acontecimento é para eles, sem dúvida, um “marco histórico”. Todavia, não deixou, certamente, de constituir uma forte mensagem política “urbi et orbi” para destinatários bem definidos: a comunidade lusófona e “certos crioulos” (como se diz em crioulo de S. Vicente, “quêls que sons”). Estaria o PM com esse discurso a anunciar o nascimento de um “novo” Cabo Verde, o seu, na  refundação linguística da sua  visão fundamentalista?; terá ele discursado no dito crioulo oficial ou numa variante do crioulo?  Ou será que o discurso não passou de “fogo de vista ”, de um acto de pura propaganda para “crioulo ver”, ou mesmo um recado para dentro do seu país? Estas perguntas são legítimas para os cabo-verdianos e merecem esclarecimentos. Como ninguém sabe ou percebe em que consiste e para que serve a oficialização do crioulo, desconhecendo-se o que está a passar-se nos bastidores deste processo, a dúvida paira no ar. Mas não deixa de ser intrigante que num preciso momento em que se fala do reforço da língua portuguesa no mundo, nomeadamente na área diplomática, o PM apareça com semelhante tirada pouco diplomática. Este discurso deverá ter apanhado de surpresa os diplomatas da lusofonia presentes nas Nações Unidas, mas também poderá ter sido visto como simples exibicionismo pacóvio não merecedor de atenção.

Escritor Baltasar Lopes (CV)
É que é no mínimo estranho e contraditório que Cabo Verde se pretenda disponível para iniciativas globais ou ofensivas diplomáticas de rosto lusófono e transmita num fórum internacional como a Assembleia das Nações Unidas um sinal de ruptura ou demarcação face ao elemento fundamental agregador do espaço lusófono: a língua portuguesa. Pois a questão que se coloca é se a comunidade lusófona, de que pretende Cabo Verde fazer parte, terá levado a sério a atitude do chefe do governo cabo-verdiano, quando se sabe, a acreditar nas notícias e comunicados circulando na imprensa, que Cabo Verde está fortemente associado a estratégias, às vezes mesmo “liderando” diplomaticamente iniciativas, de afirmação da lusofonia no mundo, que já não é só defendida por Portugal e Brasil, como também por todos os países da CPLP, principalmente Angola. Certamente não passará pela cabeça do mundo lusófono ver o Eduardo dos Santos a discursar naquela assembleia em umbundu ou o Armando Guebuza a fazê-lo em emakhuwa, respectivamente suas línguas nacionais maioritárias. Esta é a questão. Estas contradições são flagrantes e só podem levar ao descrédito da voz Cabo Verde no mundo. Convém também realçar que neste aspecto o PM não foi seguido nem pelos diplomatas cabo-verdianos, nem pelo Presidente da República, que continuam todos a discursar na língua de Camões, como se nada tivesse acontecido. Por outro lado, se com a sua patética epifania nacionalista o PM pretendeu estimular o orgulho dos cabo-verdianos, o efeito foi o inverso por dois erros graves em que incorreu: esqueceu-se de que, ao falar na língua da sua ilha natal, que não é a de grande parte da nação cabo-verdiana, lançou a discórdia e a divisão no seio desta, até porque não está ainda definido o crioulo padrão e o PM não foi mandatado em circunstância alguma para fazer unilateralmente essa escolha; cobriu-se de ridículo ao patentear naquela assembleia uma atitude de paroquialismo bacoco e contrário ao espírito que se pretende fortalecer no seio da lusofonia.

Escritor Germano Almeida (CV)
Com efeito, é preciso recordar que os angolanos, por exemplo, e conforme se aduziu nos exemplos atrás citados, apesar de terem todos os seus dialectos nacionais, não se envergonham de o português ser a sua língua oficial e ferramenta indispensável e incontornável para a comunicação. O resultado da atitude aleatória cabo-verdiana é, hoje em dia, a língua portuguesa quase ter desaparecido do quotidiano do país, transformando-se numa língua desconhecida da maioria, mal dominada mesmo por pessoas altamente escolarizadas, ficando reservada a elites cultas, diplomatas, e usada exclusivamente na representação política de topo ou em festividades oficiais. Esta é a realidade de um país, dito lusófono ou de língua oficial portuguesa, onde não há acesso à literatura, a jornais, a programas televisivos de qualidade, e onde a cultura está ainda num estado incipiente. 

 Constitui na verdade, e sem dúvida, um problema gravíssimo, um impedimento ao desenvolvimento da nossa terra, o péssimo domínio pelos cabo-verdianos do português (e talvez de outras línguas), o que pode ser imputado a um deficiente sistema de ensino (colonial e nacional, ou ambos). Todavia, se antes da independência podia-se considerar que pessoas minimamente escolarizadas e as elites falavam correntemente o português, é um facto evidente que com a independência o domínio desta língua veio a degradar-se continuamente, chegando a uma situação crítica. Aqui deve-se destacar o papel das políticas contraditórias. É possível que se esteja a pagar os excessos de um radicalismo assistido no pós 25 de Abril, e que durou tempo suficiente para produzir efeitos maléficos. Ninguém saberá ao certo. Mas outra coisa não era de esperar quando, ao longo de 35 anos, se olhou de soslaio para o português, encarando-o como língua opressora de dominação colonial, e se continuou, no entanto, a usá-lo em todos os actos oficiais, ao mesmo tempo que se elegia o crioulo como o instrumento, por excelência, de libertação de um “povo dominado linguisticamente”, mas que paradoxalmente continua oprimido linguisticamente pelos seus “libertadores”. Esta ambivalência, tendo durado todo este tempo, não podia ter conduzido senão a resultados catastróficos. É triste ter de reconhecer que Cabo Verde é hoje dos países dos PALOP onde o desempenho da língua portuguesa é o pior de todos, comparando populações da mesma categoria socioprofissional. É um problema cuja análise e resolução não podem ser negligenciadas, pois as implicações serão muito sérias no futuro do país.

Em próximo artigo intitulado “A importância da língua nos desafios do mundo global”, concluiremos as nossas reflexões sobre este tema.

                                                                
 



segunda-feira, 10 de setembro de 2012

[0244] AINDA E SEMPRE, A ÁGUA EM CABO VERDE - NESTE CASO, NA ILHA DE S. VICENTE, EM 1954

Depois da chuva e de muitas conversas através do gmail de colaboradores do PB entre si e com amigos sobre o quase inexistente aproveitamento do precioso líquido em S. Vicente, aqui vai este texto do nosso arquivo sobre o tema (Diário Popular, 27.Abril.1954, p. 9). Quanto ao resto, valha-nos S. Alhinho!...

O texto é longo (não valia reproduzi-lo todo para o efeito) e nele até se compara o caminho para a Baía das Gatas com S. Martinho do Porto... Ficará para outra ocasião.




NA ILHA DE S. VICENTE
Turismo e água potável
Problemas que requerem estudo sério e iniciativa consciente
(...)
S. Vicente, ilha sem água - A opinião de um técnico americano

A propósito de Turismo: a água potável. É fama, na ilha, que, além do Madeiral e de um ponto situado a norte de S. Vicente [?] não tem água potável; de aí, a necessidade de a trazer de Santo Antão. Mas será verdade que a ilha não pode viver sem água salinizada?

Em 1932, esteve em Cabo Verde, durante seis meses, um técnico americano (o dr. Alexander Lvowich Zemliakoff) que, depois de executar vários trabalhos de exploração na ilha de Santiago, por incumbência do Governo da Província [Amadeu Gomes de Figueiredo, nota do PB] - com resultados «muito apreciados», segundo confirmou o chefe de gabinete do Governador - foi a S. Vicente, com o mesmo encargo, chegando «à conclusão de que há água de boa qualidade» na ilha, «na proporção de 100 por cento de água pura, suficiente para abastecer a cidade e aplicar a outros fins de utilidade pública».

Um dos terrenos em que o dr. Zemliakoff localizou água é conhecido pelo nome de «Floresta Negra» [o PB nunca ouviu falar deste local... será apenas nome de propriedade?] cujo proprietário, senhor Joaquim João de Morais tem procurado, embora baldadamente, conseguir a exploração das nascentes, o que, representando benefício para si, não o seria menos para toda a ilha.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

[0243] TCHUBA NA MINDEL

As fotos chegaram-nos através do "cônsul" oficioso de Cabo Verde em Tours, o nosso amigo e colaborador Valdemar Pereira; a ele, chegaram-lhe pela mão do trompetista cabo-verdiano Joaquim Soares Almeida "Morgadinho"; e a este vieram de alguém com as iniciais ABS. As fotos são muito recentes. Cortámos algumas, por se ver parte do automóvel de onde foram tiradas (parte da porta e do retrovisor) e endireitámos meia dúzia delas. Por outro lado, não publicamos aquelas onde se reconhecem rostos de pessoas. Há uma ou outra que não parece ser de S. Vicente, mas... Aqui fica, portanto, esta reportagem de mais um dia de água no Mindelo. Agradeçamos ao Deus cristão ou aos da mitologia a graça concedida e ao autor (cujo nome indicaremos, se ele se acusar), ao Morgadinho e ao Valdemar, também.

















quarta-feira, 5 de setembro de 2012

[0242] CRIOULO, CRIOULOS E A RECUSA DA CANGA CENTRALISTA, bases de mais um interessante texto de José Fortes Lopes

A Situação e o Estatuto dos Crioulos de Cabo Verde: A REGIONALIZAÇÃO E O DEBATE SOBRE O CRIOULO - 1.ª Parte

José Fortes Lopes


Faleceu no passado mês de Julho o nosso muito estimado Zizim (José Figueira Júnior), esse grande mindelense que dedicou a parte final da sua vida em defesa de um Crioulo democrático e tolerante, escrevendo e publicando na imprensa contos em Crioulo na versão mindelense, e usando um alfabeto etimológico em vez do ALUPEC, que é o alfabeto do pacote da “Oficialização do Crioulo” que o actual poder pretende impor aos cabo-verdianos de todas as ilhas do arquipélago. O Zizim teria apreciado saber que um debate sobre a Regionalização, e eventualmente sobre o Crioulo, foi anunciado e poderá vir a ocorrer em Cabo Verde.

O debate sobre o Crioulo tem sido uma constante nos últimos 50 anos, desde o tempo da administração portuguesa, passando pelo regime de partido único, até se chegar à actual democracia pluripartidária. Neste momento em que a Regionalização está na agenda nacional, faz todo o sentido trazer à colação a problemática do Crioulo, quiçá incluindo-a no mesmo pacote, como elemento indissociável daquela reforma do Estado em vista. Anteriormente, durante o regime colonial, esse debate era passível de arrostar sempre uma certa carga ideológica, causando constrangimento se não político pelo menos ao nível de possíveis ressonâncias culturais indesejáveis para o poder então vigente. De facto, por hipótese alguma se daria aval à projecção de uma língua que concorresse com a língua oficial e de Estado. O resgate do Crioulo para a luz da ribalta, no pós-independência, em clima festivo de total liberdade de expressão e pensamento e de extravasamento efusivo de tudo o que era recalcado, aparece associado à visão de um Crioulo como instrumento de libertação.

Todavia, é com o advento da democracia que o debate sobre a língua toma um cariz mais técnico, com o pressuposto da necessidade de compreender e estudar a sua génese, desde logo associando-a àquilo que os sucessivos regimes consideram essência da nação cabo-verdiana. E é então que se prevêem dispositivos institucionais para a sua protecção, dentro de um sistema bilingue, onde o Português ficou, no entanto, definido como a língua de comunicação oficial, possivelmente até ulteriores etapas para a consagração plena da chamada “língua materna”, numa situação de bilinguismo assumido, onde o papel da língua portuguesa, por questões práticas, não poderia nem deveria ser posto em causa. Porém, nos últimos 10 anos, sob a batuta do PAICV, ressurge o debate sobre o Crioulo numa perspectiva marcadamente ideológica, desta vez sob uma bandeira identitária santiaguense, com o Crioulo a ser apresentado como um instrumento de libertação de um “povo dominado linguisticamente”. Tese surrealista muito cara ao que resta de uma certa elite maniqueísta cabo-verdiana saída do esquerdismo do 25 de Abril, bem como a certos sectores ligados ao actual poder e ainda muito presos a algum radicalismo mental, para quem uma ruptura total com a considerada “língua de domínio colonial” seria uma maneira de enterrar traumas ainda não resolvidos, ainda que usando um discurso ambivalente ou ambíguo para ocultar o seu verdadeiro íntimo.

Se a instauração de um processo de estudo dos Crioulos de Cabo Vede parece louvável, já a oficialização prematura e apressada do Crioulo aparece, todavia, mais como um “coup de force”desses grupos Fundamentalistas, como Onésimo Silveira os caracteriza, apoiados e financiados pelo Governo, apanhando de surpresa muitos cabo-verdianos que andavam mergulhados no sono da sua apatia e demissão cívica. Talvez porque ninguém imaginasse semelhante ousadia, súbito despontou nos espíritos uma apreensão generalizada sobre as consequências de uma aventura que pode ser desastrosa por significar o fecho umbilical linguístico de Cabo Verde, medida por certo encarada como essencial para um utópico e irrealista retorno às “origens”, isto na perspectiva dos Fundamentalistas, o que só pode acarretar um retrocesso do país face aos padrões culturais a que se moldara. O regime, para satisfazer a sua base de sustentação sociológica ou mesmo étnica, e em coerência com uma matriz ideológica que remonta aos tempos da luta de libertação, onde o sonho e a utopia não tinham limites, lançaria assim o país numa perigosa aventura, mediante uma precipitada adopção do uso do Crioulo como futura ferramenta de trabalho, ao mesmo tempo que desincentivando o uso corrente do Português, relegando-o para o plano de uma mera língua estrangeira, numa altura em que não existem condições para que tal ocorra.

Aquilo que devia representar um lento e gradual processo de maturação e experimentação, ao longo de décadas, lustres ou mesmo séculos, envolvendo investigação e estudo académicos sérios, com investigadores experimentados e a elaboração de estudos e análise de cenários prováveis, que poderiam apontar inclusivamente para a sua ineficácia, aparece apressadamente como um processo acabado, um prato pronto a ser servido friamente a Cabo Verde e aos cabo-verdianos. Nunca se vira tanta ligeireza em Cabo-Verde, quando, numa questão de semelhante delicadeza, seria de esperar muita cautela e bom senso, a “sagesse” e, necessariamente, o diálogo. E isto quando Cabo Verde continua bastante vulnerável e confrontado com questões inerentes à sua viabilidade: o país não tem recursos, está ainda totalmente dependente da ajuda externa financeira da comunidade internacional para a sua sobrevivência e o seu desenvolvimento, incluindo a garantia dos instrumentos básicos para a afirmação da sua soberania. Sendo inquestionável a intenção que subjaz à defesa e dignificação do Crioulo, o processo da sua oficialização poderá obviamente ser aprovado em sede democrática, mercê de uma maioria unicamente de base numérica, mas nunca o será com a legitimidade que só pode ser conferida por um escrutínio alargado, qualificado e diversificado, como impõe uma questão de tamanha delicadeza e importância para o futuro do país. Mas claro que não foi assim nem parece haver preocupação de agir de outra maneira. Primeiro, tentou-se iludir os cabo-verdianos com o anúncio de que oficialização da versão, dita, badia do Crioulo, estava apenas circunscrita à chamada “República de Santiago”, como símbolo de uma assumida identificação sociológica e cultural com o que se considera a “origem”. Tal atitude confunde abusivamente as pessoas, que “naivement” tenderiam a convencer-se de que se está oficializando os “Crioulos”, como denuncia com toda a razão Onésimo Silveira nos seus recentes artigos. Mas como pedir bom senso num país em que a corrida desenfreada ao “progresso e desenvolvimento” induzido de fora e assente na assistência internacional, não dá tempo para pensar em todas ou diferentes opções sobre importantes matérias de interesse nacional? Com efeito, esta marcha forçada e apressada é intencional para que as pessoas não reflictam nas suas sérias implicações, pois o que se pretende é recriar o paradigma do Estado-Nação, Unitário e Homogéneo, típico do século XX, mediante a fusão genética num único povo, o cabo-verdiano idealizado, injectando-lhe a fusão linguística dos Crioulos numa Língua Unitária, a língua cabo-verdiana idealizada e utópica, e com uma Administração Política e Económica Unitária e Centralizada na Praia (configurando assim assim o ideal do Estado, napoleónico, jacobino, centralista e burocrático). Compreende-se esta atitude como sendo a tendência normal dos Estados em processo iniciático de consolidação, mas, como diz o ditado, não se podem fazer omeletes sem se quebrarem ovos. Porém, o busílis da questão reside na circunstância concreta de nem todos os ovos serem propriedade do cozinheiro-mor, pois não é possível iludir o carácter arquipelágico e regionalista de Cabo Verde, sendo de todo impossível fazer desaparecer os Crioulos e a ‘biodiversidade’, no sentido lato, do país. Relativamente a este aspecto, Onésimo vem lembrar ‘Aqui D’el Rei’ que no Arquipélago de Cabo Verde existem formalmente Crioulos e não um Crioulo como pretendem. Nenhum teórico, por mais brilhante que seja, pode convencer alguém do contrário. Nesta situação, é legítimo que se re-instaure um debate sobre os Crioulos de Cabo Verde. E não adianta lançar acusações de anti-patriotismo e de inimigo do Crioulo aos que propugnam pela racionalidade da solução do problema. Um confronto levado a este extremo fica completamente poluído por emoções nocivas. E aí reside precisamente o grande pomo de discórdia que tem assombrado uma discussão que só pode pautar-se por clarividência e serenidade. E o governo em vez de serenar os ânimos, suspendendo o processo, acrescenta ainda mais confusão com os diversos anúncios que vem lançando em matéria de Oficialização do Crioulo.

No seu último artigo, Onésimo Silveira refere-se ao debate sobre os Crioulos: “Para eles, não há ilhas, mas sim uma ilha-continente; não há sociedades cabo-verdianas, mas sim a sociedade da sua ilha; não há Crioulos, mas sim um Crioulo, o seu, que a “língua materna” tem de impor às ilhas periféricas.” O mesmo autor adverte os chamados Fundamentalistas para o erro de olhar para a democracia como exclusivamente legitimada pela aritmética eleitoral, esquecendo que ela pode vir a ganhar os mesmos germes de permissividade e violência psicológica de um regime de ditadura. Mas neste preciso domínio nos encontramos felizmente resguardados pelo constitucionalismo democrático que garante um sistema eficaz de freios à acção do governo. Infelizmente, Cabo Verde continua a ser um campo de experimentação de uma certa esquerda sonhadora, nomeadamente no campo da cultura, que se converteu na chamada “gauche caviar”, que, no entanto, quando lida com o poder e o dinheiro se revela de um pragmatismo a raiar a hipocrisia e a negação dos valores e princípios por que devia propugnar. É esse mesmo sector da nossa sociedade que, mandando às urtigas os seus engulhos e complexos mal resolvidos, não abdica de cultivar o Português erudito e de tentar obter nacionalidade portuguesa. Onde está a coerência? A advertência de Onésimo vem mesmo a propósito, colocando os pontos nos ‘is’: Em cada ilha deste arquipélago existe uma realidade concreta e objectiva: pessoas de carne e osso, não meros eleitores, falando quotidianamente os seus Crioulos, não havendo lugar para um Crioulo Oficial, Imaginário e Utópico. Nenhuma medida política ou administrativa pode redesenhar esta realidade.

Mas num país onde o amadorismo floresce e ganha terreno cada dia (ver o debate que tem ocorrido na sociedade civil sobre proliferação de universidades e escolas sem conteúdo, projectos insustentáveis), é fácil revender banha da cobra e requentar várias vezes pratos pré-cozinhados. Acostumados a comer gato por lebre, ou a pôr óculos verdes às cabras para poderem comer pedra, muitos cabo-verdianos rejubilam-se na unanimidade do discurso politicamente correcto sobre o Crioulo libertador, sem se perspectivar os problemas decorrentes de uma oficialização precipitada do Crioulo e da eliminação do Português do quotidiano cabo-verdiano e a enorme ratoeira em que o resto de Cabo Verde se mete. Nunca se debateu nem se apresentou os prós e os contras, os riscos desta opção, numa sociedade onde o debate de ideias e discussões públicas sobre o futuro de Cabo Verde são incipientes ou inexistentes. O Governo ainda não explicou como vai resolver a problemática dos Crioulos, deixando tudo para improvisação e a batata quente para outros, pois alguém terá de, consciente e responsavelmente, escolher uma das três soluções. Ou se tende para Crioulo-Esperanto, fusão artificial e utópica de todos os Crioulos, fazendo desaparecer as outras versões do Crioulo; ou se oficializa todos os Crioulos de uma vez e em todas as ilhas, o que corresponde a uma situação insustentável, típica de Torre de Babel; ou se oficializa simplesmente o badio, como via experimental para o Crioulo padrão a oficializar (é sabido de antemão que oficiosamente o governo vem experimentando a implementação do badio como Crioulo oficial, apesar de pretenderem o contrário. Os sinais exteriores denunciam essa atitude dúbia). As três soluções sobre a mesa são, portanto, e a priori, inviáveis ou inaceitáveis. (A problemática da língua portuguesa, outro assunto bicudo, será discutida na 2ª Parte deste artigo).

O primeiro risco da oficialização do Crioulo-badio tem a ver com o reforço do efeito centrípeto desta medida, com incidências inevitáveis no centralismo, desta feita em termos linguísticos. Mas pergunta-se se o mindelense ou o santantonense abandonarão os seus Crioulos para abraçarem o badio ou o Crioulo-Esperanto? É bom que os governos, e quaisquer que eles sejam, tenham em atenção a gravidade que reveste a deliberada e programada extinção do património linguístico e cultural das ilhas do arquipélago, com a imposição de um Crioulo eleito como padrão e a tentativa de extinção, não natural, das outras versões. Para além de ilegítima, seria um atentado à diversidade cultural cabo-verdiana. É bom que saibam que podem ter de responder tanto perante os cabo-verdianos como perante a comunidade internacional. (Continua: A Situação e o Estatuto da Língua Portuguesa em Cabo Verde: A REGIONALIZAÇÃO E O DEBATE SOBRE O CRIOULO)

sábado, 1 de setembro de 2012

[0241] UM MISERÁVEL E CHOCANTE DESPREZO PELA HISTÓRIA...

Lomb D'jom (Alto Bomba) Monte Sossego, dias actuais. Restos de artilharia da época colonial, destinada a defender a ilha de S. Vicente de eventuais investidas alemãs durante a II Guerra Mundial. C. anos 40 do século XX.

Sem comentários nossos, porque eles não são necessários... excepto este, para os que ainda não perceberam a coisa: isto também é a História de Cabo Verde!!!

Elucidativas fotografias enviadas pelo nosso colaborador Zeca Soares. Copiá-las e divulgá-las é um imperativo cultural tendente a contrariar a inércia, o laxismo, o desinteresse...



[0240] REGIONALIZAÇÃO PARA CABO VERDE EM DISCUSSÃO

Pelo seu inegável interesse para a ilha de S. Vicente, o PRAIA DE BOTE publica hoje este longo texto de José Fortes Lopes.
  
Arrancou o debate sobre Regionalização de Cabo Verde?

José Fortes Lopes

O Primeiro-Ministro de Cabo Verde reconheceu pela primeira vez, no passado mês de Agosto, após tergiversar tempo demais, que um amplo debate sobre a Regionalização é necessário, anunciando a realização para um futuro, embora incerto, de um fórum alargado à diáspora e a abertura de um Livro Branco sobre o tema.

Do MPD, apesar de se conhecer a posição oficial deste partido favorável à Regionalização, expressa na pessoa do seu líder Carlos Veiga, Mário Silva, deputado e líder santiaguense do MpD, em recente entrevista, tenta refrear o debate para que o processo possa ser mais uma vez enviado para as calendas gregas, tão ancorado é o centralismo e o imobilismo na visão de alguns santiaguenses. A um dado passo da sua entrevista, ele afirma: “Isto só para demonstrar que no estado em que as coisas estão não estou muito preocupado porque a regionalização vai demorar décadas a ser concretizada. Aliás, já desafiei colegas meus, defensores acérrimos da regionalização, a apresentarem projectos, mas ainda estou à espera…”. Esta é a posição, mais ou menos encapotada, dos que defendem o centralismo ou pretendem uma simples reforma administrativa ou mesmo um adiamento sine die da Regionalização, como aliás aconteceu com o fiasco do Atelier sobre a Regionalização de 2007. Mário Silva parece assim na retranca do seu partido sobre esta matéria, a avaliar pelas intervenções públicas feitas pelo seu líder e outros correligionários.

Com efeito, 10 anos, o tempo de duas legislaturas em Cabo Verde, correspondem a uma eternidade em política, e o tempo encarregar-se-ia de matar pura e simplesmente o debate. Dentro de 10 anos, Onésimo Silveira, um dos protagonistas da luta pela Regionalização, o “enfant terrible” dos poderes da Praia será octogenário e é muito natural que venha a ter menos vigor nos combates; Mindelo e o resto de Cabo Verde, de certeza, estarão soçobrados numa profunda e irreversível crise provocada pelo centralismo, que se dissemina subtil e inexoravelmente pelo país dentro. Os centralizadores poderão contemplar a acção de desgaste do tempo, recolhendo os dividendos da desmoralização e da desmobilização em torno das ideias de Regionalização: S. Vicente de joelhos, e Cabo Verde rendido por fim aos seus pés, exangue, sem alma e sem rumo. Não se mostrando assim um grande defensor da Regionalização, para não se dizer céptico, o deputado do MpD coloca mesmo assim questões pertinentes para o debate e para o Livro Branco sobre a Regionalização: “quantas regiões vamos ter em Cabo Verde? Qual é a delimitação de cada região? Que atribuições? Que competências? Quantos órgãos? De onde vem o financiamento para o funcionamento destes órgãos? Que estatuto para os titulares dos órgãos regionais? A regionalização terá de implicar uma grande reforma do Estado, mas desse ponto de vista ainda nada foi discutido…”

Efectivamente, a Regionalização não será uma simples reforma mas sim um complexo processo de transformação do país, que deve ser encarado com todo o rigor e seriedade, pois em muitos processos de transformação os principais actores não se apercebem da dimensão dos acontecimentos e das suas implicações no quadro das mudanças operadas. Luiz XVI, aquando da tomada de Bastilha em Paris, em 1789, no fim na monarquia em França, tentando compreender os acontecimentos de Paris, perguntou ao seu mordomo: “S'agit-il d'une révolte?” Recebeu um balde de água fria inesperado : “Non Sire, ce n'est pas une révolte, c'est une révolution”. A França estava prenhe para uma das maiores transformações que abalariam as fundações políticas e sociais da Europa e do Mundo. A ser tomada com seriedade, a Regionalização poderá ser, não uma mera cosmética administrativa, para aparentemente mudar algumas coisas e deixar o essencial do sistema centralista burocrático intacto, como muitos pretendem, mas sim uma nova oportunidade para o país, uma nova partida, e uma das mais importantes reformas políticas e administrativas desde a Independência, libertando energias refreadas pelo centralismo político e económico vigente no país.

A Regionalização deverá ser política, administrativa, financeira, económica, etc, englobando todos os sectores da vida do país. Só se pode responder às questões postas pelo deputado Mário Silva com uma profunda reforma do funcionamento do Estado: “Qual é a delimitação de cada região? Que atribuições? Que competências? Quantos órgãos? De onde vem o financiamento para o funcionamento destes órgãos? Que estatuto para os titulares dos órgãos regionais? A regionalização terá de implicar uma grande reforma do Estado.” Ajustamentos e correcções necessárias à organização do Estado de Cabo Verde, e condizentes com a realidade arquipelágica e regional do país, serão indispensáveis. Será necessário repensar profundamente o funcionamento e o papel do Estado nesta nova realidade, o que implicará, de facto, uma profunda reforma constitucional. Com a Regionalização, grande parte do aparelho do Estado terá que ser transferido para as Regiões, aquele ficando confinado aos Macro-Sectores do país e às principais funções inerentes à Soberania: Diplomacia, Defesa, Planificação Financeira Macroeconónica, etc. Serão as Regiões detentoras do grosso das competências outrora polarizadas no Estado Central, limitando-se assim a intromissão na vida dos cidadãos da rede tentacular, toda poderosa, de um estado burocratizado e até hoje fortemente partidarizado. Como os franceses dizem “Il y aura du pain sur la planche”, ou seja, para além da necessária reforma do Estado, será preciso reformular o seu papel no quadro da nova realidade, a Regionalização. Modelos de Regionalização bem rodados já existem em várias partes do Mundo e não adianta aqui pretender inventar a roda. O Livro Branco sobre a Regionalização permitirá, sim, recolher contributos a partir de estudos e pesquisas efectuados em diferentes realidades para depois, mercê de reflexões e debates, adaptá-los à realidade do país, de forma a construir o modelo de Regionalização que reflicta as nossas especificidades geográficas, económicas e sociais. 

Neste aspecto, como já tinha sublinhado noutros artigos, a Regionalização Alemã pode ser um exemplo a seguir, sobretudo tratando-se de um país com quem Cabo Verde tem boas relações, embora os modelos das Autonomias Espanholas ou da Regionalização Francesa mereçam uma atenção muito particular. Com este modelo, o Estado de Cabo Verde transitaria de um velho Estado napoleónico, jacobino, centralista, para um Estado democrático e descentralizado, compatível com os grandes desafios da modernidade e do Sec. XXI. A Alemanha é uma Federação onde o poder político e administrativo está descentralizado através de uma ampla rede de instituições de carácter estadual, regional e local. Uma organização e uma articulação entre o Estado Central (Bund), as 16 Regiões (Länder) e as autarquias (Gemeinde), cada um com as suas assembleias eleitas. Segundo Carneiro e Dill, os Länders constituem a Cintura da Federação Alemã: ao funcionarem como “autarquias” estaduais e, simultaneamente, ao realizarem tarefas públicas que ultrapassam as fronteiras dos municípios, sob a delegação dos mesmos, o Länders exercem, assim, uma “dupla função” muito importante. Trata-se de facto (e de direito) de uma “articulação” robusta entre as esferas de poder local e estadual. Os poderes dos Länders são importantes, podendo até celebrar tratados com Estados terceiros, desde que disponham de competência exclusiva para o efeito e do acordo do Governo Federal. Se o tratado tiver consequências para a legislação do Länder em causa, a transposição do tratado para o direito interno é feita através da sua aprovação pelo parlamento desse Länder, em conformidade com a respectiva Constituição. Além disso, os Länders podem celebrar tratados nos domínios em quais os respectivos governos estejam habilitados a adoptar diplomas de carácter regulamentar. Este aspecto é muito importante no caso de Cabo Verde, permitindo que as Ilhas Regiões tenham um dinamismo a nível internacional e na Diáspora. Segundo Tomio e Ortolan, o sistema de repartição de competências alemão inovou ao criar e privilegiar novas formas de cooperação legislativas e administrativas, entre a União e os Estados. Já o constitucionalista espanhol Enoch Rovira destaca alguns institutos introduzidos na Lei Fundamental responsáveis pelo sucesso do federalismo de cooperação alemão:

• a cláusula de presunção geral de competência em favor dos Länders para o exercício dos poderes estatais e funções públicas ;
• na distribuição das competências legislativas, a preponderância de formas de concorrência legislativa entre Bund e Länder (como a legislação de marco e a legislação de princípios);
• na distribuição de competências administrativas, sobretudo, o modelo de execução das leis federais pelos Länders, comportando fiscalização e direito de emitir prescrições administrativas pelo Bund;
• as tarefas comuns (Gemeinschaftsaufgaben) que corresponderiam a formas institucionalizadas de cooperação administrativa entre Bund e Länder.

Carneiro e Dill põem em evidência um princípio bastante importante na arquitectura nacional alemã, sem o qual o modelo não poderia funcionar: o da subsidiariedade e da autonomia na arquitectura nacional alemã, segundo o qual as entidades estatais superiores (micro-Região, Estados e União) nunca devem assumir tarefas que os Órgãos Menores, comparados ao Estado Central, possam cumprir de maneira eficaz. Em outras palavras, os Órgãos Menores têm, em conjunto, as prerrogativas de realizarem as políticas públicas de interesse local e regional. Somente quando esgotadas as suas capacidades político-administrativas as demais esferas de governo, ou seja, o Estados Central, podem e devem entrar em cena, porém de forma subsidiária. No caso alemão, a autonomia municipal está prevista e garantida com base no artigo XXVIII (II) da Lei Fundamental de 1949 na redacção de um princípio constitucional chamado de Kommunale Selbstverwaltung, que quer dizer Autonomia Administrativa Municipal. Tal autonomia pressupõe três dimensões: política, financeira e administrativa, propriamente dita.
   
Para além desta estrutura, Carneiro e Dill ainda ressaltam o papel dos Consórcios Inter-Länders e Inter-Municipais na Alemanha, actuando em vários sectores para superação da ideia de rivalidade inter-regional ou intermunicipal em favor da cooperação das partes envolvidas tendo em vista os benefícios comuns (como referi num dos meus artigos em que denominava os Consórcios de Clusters Regionais). A primeira razão para a existência dos consórcios prende-se com motivos de ordem financeira, já que muitos municípios não conseguem a autonomia de recursos desejável quando operam de forma isolada; intimamente ligada à primeira, temos os imperativos práticos quando se trata de realizar tarefas que podem ser mais eficientes quando feitas em colectivos intermunicipais; um terceiro aspecto diz respeito à matriz energética e à economia de recursos associada à expansão de oferta com melhor relação custo-benefício para os cidadãos; finalmente, a cooperação regional se coloca como meio para se conseguir ganhos de escala em qualquer política pública, no mesmo espírito, no caso alemão, que inspira a integração europeia em nível supra-nacional.

Como vemos, a Regionalização em Cabo Verde terá profundas implicações no aparelho de Estado, exigindo uma profunda Revisão constitucional e a sua inscrição numa Constituição actualizada, como um antídoto a eventuais derivas ou derrapagens burocráticas e centralizadoras do Estado de Cabo Verde. Assim, em vez do Livro Branco sobre o tema da Regionalização, a intelligentzia política do país deveria pensar em abrir um Livro Branco sobre o Futuro de Cabo Verde, para repensar o país, 35 anos após a Independência.

Na frente do combate para a Regionalização, pelas bandas de S. Vicente e do Norte de Cabo Verde, aparece Onésimo Silveira cada vez mais como um interlocutor credível na condução desse processo, o qual não será de todo linear uma vez que os interesses do Estado centralizador estão hoje associados ao poder económico e financeiro concentrado na Capital e numa única Ilha. Por outro lado, os restantes intelectuais e a classe política mindelenses e nortenha, tirando alguns casos pontuais (entrevista de Eva Caldeira Marques, Augusto Neves e António Monteiro, onde exprimem convicções declaradamente pró Regionalização, assim como Júlio César Alves, um corajoso mindelense que deu a cara para o Movimento para a Regionalização), têm-se mantido numa situação de baixo perfil ou ausentes do debate. Há um ditado em francês que diz ‘les absents ont toujours torts’. Muito mais é legítimo esperar desta sociedade mindelense cansada, desiludida, mergulhada numa apatia generalizada e com níveis de participação cívica muito baixos, deixando fugir como areia entre os dedos os valores de cidadania que outrora lhe eram caros. Por isso, é de saudar o reaparecimento em cena de Onésimo Silveira, homem de sete vidas, com um vigor anímico renovado, pronto a protagonizar esta justa causa de várias décadas. Dando a cara desassombradamente, como é o seu estilo, ele é o porta-estandarte das revindicações mindelenses, o cidadão que melhor se coloca como intérprete dos nossos anseios e sentimentos. Não obstante os erros e as derivas políticas de que é acusado, é justo reconhecer o estofo intelectual, cultural e científico deste homem político de dimensão internacional, que muitas vezes parece pregando num deserto.

Além disso, os mindelenses sabem que podem contar com a Diáspora, que soube, em momento próprio lançar em 2011 o apelo através do “Manifesto para um S. Vicente Melhor”, e o “Movimento para a Regionalização de Cabo-Verde”, cujo núcleo duro da diáspora foi constituído por mim, Adriano Lima, Arsénio de Pina, Valdemar Pereira, Luiz Silva, o falecido Zizim Figueira, Joaquim de Almeida (Morgadinho), Veladimir Cruz, tendo-se juntado a nós recentemente Vladimir Koenig. Vários artigos sobre a Regionalização e a Descentralização foram publicados pelo grupo, sendo de destacar o papel crucial no debate jogado por Adriano Lima e Arsénio de Pina. Para além disso, conseguiu-se disseminar o debate através de uma enorme rede de relações e de amizades em Cabo Verde e na diáspora (sem a internet tal não seria possível), assim como através dos contactos de elementos signatários das diferentes petições que o Movimento promoveu.

Voltando a Onésimo Silveira, no seu último artigo, aflora de maneira corajosa o que será provavelmente nos próximos anos um tema quente ao lado da Regionalização: O debate sobre o crioulo. Sabendo da necessidade de adopção de medidas imediatas para travar a queda de S. Vicente, que só podem ser efectuadas no âmbito de uma larga Autonomia Política Económica e Administrativa, e estando Onésimo Silveira em condições de participar ou dinamizar uma larga frente nacional e apartidária para exigir a abertura imediata do processo de Regionalização, o momento é de acção para se desencadear iniciativas urgentes tendo em vista a sua calendarização, nas suas múltiplas etapas até à sua concretização.

(Continua em próximo artigo com o título: “A Regionalização e o Debate sobre o Crioulo”).

Referências bibliográficas
1-Enoch Alberti Rovira, Federalismo y Cooperacion en la Republica Federal Alemana / Madrid : Centro de Estudios Constitucionales, XXIII, 575 p.1986.
2-Fabrício Ricardo de Limas Tomio & Marcelo Augusto Biehl Ortolan. O sistema de repartições das competências legislativas da Lei Fundamental Alemã após a reforma federativa de 2006 em perspectiva comparada com o Estado Federal Brasileiro,   http://direitoestadosociedade.jur.puc-rio.br/media/02-Tomio-Ortolan.pdf.
3-José Mario Brasiliense Carneiro & Günter Dill. Arranjos federativos regionais na Alemanha e o papel articulador dos Landkreise http://www.kas.de/wf/doc/6758-1442-5-30.pdf.
4- Modelos de Regionalização Implementados no mundo. In S. Vicente: um case study para um possível modelo de regionalização e autonomia em Cabo Verde (II) - A regionalização ou um novo modelo de ordenamento do território nacional (SECÇÃO B), Liberal Online e Notícias do Norte, Fevereiro de 2012.
5- As regiões de Cabo Verde e o Modelo de Regionalização: Os Clusters Regionais In S. Vicente: um case study para um possível modelo de regionalização e autonomia em Cabo Verde (II) - A regionalização ou um novo modelo de ordenamento do território nacional (SECÇÃO C), Liberal Online e Notícias do Norte, Janeiro de 2012.

domingo, 19 de agosto de 2012

[0239] LIVRO "MORNAS - CANTIGAS CRIOULAS" DE EUGÉNIO TAVARES (4 - NÁ, Ó MENINO, NÁ...)

Ná, ó menino, ná...
À alma do malogrado comandante Adelino de Oliveira

Ó rosto doce de ojo maguado,
Es bo cudado
Botal pa traz!
Nhor Des ta dano um bida de paz,
Ó nha Pecado
De ojo maguado!

Ná, ó menino, ná,
Sobra rum fugi de li!
Ná, ó menino, ná,
Dixa nha fijo dormi...

Sono de bida, sonho de amor,
Ou graça, ou dor,
Es é nós sorte...
Se Deus, más logo, mandano morte,
Quem que tem medo
Ta morrê cedo.

Toma nha ombro, encosta cabeça,
Ja'n dabo peto,
Amá ragaz!
Ó esprito doce, ca bo tem pressa:
Deta co geto,
Dormi na paz...

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

[0238] CONCURSO 11

 Adriano Miranda Lima  venceu esta edição do concurso do PRAIA DE BOTE. Parabéns ao "winner"! Marcos Soares merece um prémio de consolação (uma folha de acácia) porque também lá chegou - só que um pouco atrasado (apenas três minutos). Mas antes atrasado que a zero. Parabéns para os dois.

A "boa vida com música" era a Praça Nova, obviamente; a "guerra" era o antigo quartel, acho que ainda hoje com a televisão de Cabo Verde lá instalada. A escola fica entre ambos, do lado esquerdo quando se sobe. Os algarismos 1, 2, 3 e 4 eram as classes da escola e o "acesso ao Gil" era o facto de depois da 4.ª classe se ir para o Gil (ou para a Escola Técnica próxima). Cabe dizer que foi aqui que fiz o meu exame da 4.ª classe (apenas o exame, pois frequentei a escola do Lombo, na Rua do Sol, com vista para o Hospital). Ao contrário de outros escudos portugueses, este, tal como o do Palácio, foi modificado mas talvez por mero acaso manteve as cores verde e vermelha.


Prémio para AML


Prémio para Marcos Soares

Pergunta: a que edifício pertenceu (e ainda pertence) este escudo alterado (mas curiosamente mantendo as cores verde e vermelha)?

Ajudas: O edifício ficava (e ainda fica) entre a boa vida com música e a guerra;  tinha a ver com os algarismos 1, 2, 3 e 4. Servia para saltar para o Gil.

Está a ser difícil mas é facílimo. O edifício situa-se entre a "boa vida com música" e a "guerra". A "boa vida com música" continua desde tempos ancestrais; a guerra mudou de lugar, acho eu mas esteve muito tempo no anterior sítio. O 1, 2, 3 e 4 é simplicíssimo e merecia "orelhas de burro" para quem não acertou (atenção que não estou a chamar burro a ninguém - apenas falei em ORELHAS DE BURRO). Ainda por cima, por dar acesso ao Gil...  


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

[0237] CONCURSO 10

 Fernando Frusoni  estreia-se como vencedor da 10.ª edição do Concurso do Praia de Bote. Tratava-se de facto de uma porta do mítico Café Royal (Royal - não era republicano) onde havia grandes pianadas (teclas) pelas mãos mágicas de D. Tututa (nominha parecido com Tuta do Parque Miramar) que fazia ginástica aos dedos, claro, tocando.


Foi assim desvendado com enorme rapidez o enigma e aqui fica não só o ramo de acácia para o cabo-verdiano-genovense como a foto do café, nos anos terminais (1999), com o então proprietário à porta, Sr. Tchuna. É quase certo que esta foto irá aparecer no filme sobre D. Tututa que estreará em breve, bem como outra documentação saída do arquivo do PRAIA DE BOTE. Esperemos para ver. A expectativa é enorme, pois os excertos já divulgados são de óptima qualidade.


Pergunta: a que edifício e estabelecimento icónico do Mindelo pertenceu esta porta?

Ajudas: não era republicano, havia lá teclas e tinha sabores finos. Ali brilhava alguém que tinha nominha parecido com um proprietário da 7.ª arte mindelense e fazia ginástica aos dedos.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

[0236] POST ALUSIVO AO COMENTÁRIO DE ADRIANO MIRANDA LIMA NO POST ANTERIOR

De facto, não só o médico-escritor Henrique Teixeira de Sousa nutriu um grande gosto por escrever no "Terra Nova" (colaborou nele por dez anos consecutivos) como o jornal retribuiu esse interesse, dedicando-lhe no seu número 349 de Março de 2006 (à época do seu trágico desaparecimento) uma sentida homenagem de que aqui vemos parte, em exemplar fotocopiado oferecido na altura pelo AML que conservamos com muito gosto.

Para além de um longo editorial de Frei António Fidalgo de Barros, pode ler-se o último texto de Teixeira de Sousa para o jornal "Latim, língua morta?" (talvez o derradeiro da sua vida) e textos de Gilda Barbosa ("O meu primeiro andar") e Ondina Ferreira ("Lembrando o Dr. Henrique Teixeira de Sousa no "Terra Nova"). O texto "Selô, Selô, senhor Dr. Teixeira de Sousa", anunciado na p. 1, não surge nas fotocópias, o que é esquisito, porque pensamos que será de AML. Grande mistério que só o nosso amigo poderá resolver...


[0235] TEXTO NO "TERRA NOVA" DE JULHO.2012


Na página 6 do "Terra Nova" de Julho saiu "A verdadeira, celestial-terrena e até agora desconhecida história do nascimento do Colá Sanjom, na Ribeira de Julião", texto nosso que oscila entre o histórico e o fantasioso-humorístico.

A partir de Setembro, a página passará a ser de publicação regular, com o título "Crónicas do Norte Atlântico", já aqui divulgado. O texto inicial será alusivo ao primeiro dia da árvore que se comemorou em Cabo Verde. Esse trabalho será divulgado no PRAIA DE BOTE em Outubro.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

[0234] A HISTÓRIA DA ÁGUA EM SÃO VICENTE, UM VALIOSO PATRIMÓNIO DE ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL DESPREZADO

Do nosso estimado colaborador Zeca Soares (já o podemos considerar assim, em virtude de alguns muito bons materiais que nos tem enviado), recebemos estas fotos e o texto que se segue. Ao Zeca, o nosso agradecimento, em nome dos que amam o Mindelo e São Vicente.



«O abastecimento de água à ilha de São Vicente sempre teve uma história, mas existem pessoas que insistem em apagá-la, ou a minimizá-la, não lhe dando o seu divido valor. Quem não recorda das filas de mulheres da Vascónia e do Madeiral, da Ferro & Companhia, dos fontenários espalhados pelos subúrbios de Mindelo, da JAIDA?


A cidade do Mindelo foi pioneira na história da dessalinização em Cabo Verde. As fotos aqui apresentadas são dos dois "monstros" que fazem parte integrante dessa História. Vemos as duas caldeiras, agora sem as respectivas chaminés, componentes principais da primeira Instalação de Dessalinização de Água, instalada na Matiota há 40 anos, e que estão a ser ou já foram vendidos como ferro velho.Tanta falta de dinheiro!!! Deixo ao Praia de Bote, Campeão da História desta Ilha, a sua consideração.»

É de facto lamentável este desprezo pela arqueologia industrial e pela história da água, um dos bens mais raros em Cabo Verde e em São Vicente. Assim se vai perdendo um património insubstituível que, sendo estimado, poderia produzir dividendos em termos de turismo. Juntamos três imagens, já divulgadas no PRAIA DE BOTE, que ajudam a relembrar a história da água na nossa ilha: duas da medalha comemorativa do nascimento da dessalinização; e uma da fila de mulheres que iam adquirir água na Vascónia da Ferro & Companhia aqui pertinho da nossa PRAIA DE BOTE.

Foto eBay


Foto eBay
Foto de Narciso Silva. Só se vislumbra um pedaço da parede da Ferro & Companhia mas vê-se toda a fachada da "Staçon" e ao fundo a Shell. À direita não podemos observar o "plurim d'pêxe" mas nota-se parte da antiga serração de um madeirense.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

[0233] QUANDO A ARTILHARIA ANTI-AÉREA VIGIAVA OS CÉUS DO PORTO GRANDE, por Adriano Miranda Lima

Adriano Miranda Lima
Como diz o título, à época da segunda Guerra Mundial, a artilharia anti-aérea  vigiava o Porto Grande. E a nossa “Praia de Bote” estava, implicitamente, sob o chapéu protector, claro está. Que isto fique desde já assegurado, ou não tivesse a dita Praia sobrevivido até agora, vivinha da silva.

Ora, esta antiga peça de artilharia anti-aérea de calibre 9,4 cm presente nas fotos pertencia, entre outras, a uma das baterias (unidade táctica elementar de artilharia comandada por um capitão) instaladas no cimo do Monte de Sossego. A outra bateria era equipada com peças de 4 cm. Fazia também parte desse dispositivo artilheiro uma unidade de referenciação, constituída por projectores (holofotes), fonolocalizadores, preditores de tiro (1) e seguidores visuais. Desconheço se integrava também radares tácticos e de tiro.  Uma vez que este conjunto integrava duas baterias, de comando de capitão, é de supor que o conjunto justificasse o comando de um major. A ser assim, aquelas duas unidades constituiriam um Grupo de Artilharia, embora reduzido nas suas componentes orgânicas, que é sempre de comando de oficial superior (major ou tenente-coronel). Mas admite-se que o conjunto pudesse estar sob o comando apenas de um capitão, já que nessa altura não havia grande abundância  de oficiais superiores e o posto de capitão se mantinha até idade bem madura (mais de 40 anos), o que conferia um saber de experiência acumulada ao longo de anos.

Peça de 9,4 cm de uma das duas antigas baterias de artilharia anti-aérea de Monte de Sossego (Foto oferecida pelo filho de um antigo oficial que serviu, à época, em Cabo Verde)
Este dispositivo e outros disseminados pela ilha de S. Vicente fazia parte das Forças Expedicionárias Portuguesas a Cabo Verde durante a Segunda Guerra Mundial (activadas entre 1941 e 1945).
                                        
Quem for ao cimo do Monte de Sossego encontra ainda quase intactas as estruturas entrincheiradas, tipo bunker, desse antigo dispositivo militar, construídas então pela engenharia militar portuguesa. E tem também oportunidade de reparar em algumas peças enferrujadas (só se mantiveram as de calibre 9,4 cm) e amputadas de alguns componentes.

  Foto colhida no blogue de Luís Graça
Eu fui lá em 2003, e pela primeira vez na minha vida. Não estavam lá soldados nem equipamentos, à excepção das referidas peças enferrujadas. Estavam, sim, pessoas a viver no que resta daquelas instalações construídas em subsolo. Disseram-me que eram pessoas de S. Antão que chegavam a S. Vicente à procura de trabalho e não tinham outra hipótese de abrigo senão os bunkers. Mas penso que actualmente essas instalações estão desocupadas, conforme parecem demonstrar fotos de data mais recente que tive oportunidade de ver mas que não possuo. Tenho de dizer que me impressionou o estado deplorável em que vivia aquela gente. Cheguei ao local acompanhado de um tio e de um primo e fomos imediatamente rodeados  por um rancho de crianças, que nos olhavam como se fôssemos extra-terrestres.

Foto colhida no blogue de Luís Graça
Como afirmei atrás, eu nunca tinha ido ao local, mas ao longo da minha meninice algumas manifestações da existência desse dispositivo artilheiro chagavam até mim de vez em quando. Sim, porque alguma coisa ainda lá se manteve depois da saída das Forças Expedicionárias. Lembro-me, nos anos da década de 1950, dos ensaios nocturnos dos projectores (holofotes). Iluminavam tudo em redor e até a distâncias consideráveis. Morava em Fonte Cónego e era uma festa, para a meninada, quando os focos de luz atingiam as casas e mesmo os nossos corpos. Interrompíamos as brincadeiras de “mangatchada” (brincar às escondidas) para nos deliciarmos com o espectáculo de luz que subitamente quebrava a rotina.

Mas voltarei em breve a escrever sobre este e outros factos relacionados com as Forças Expedicionárias a Cabo Verde durante a Segunda Guerra Mundial.

(1) Aparelho que calcula a posição futura do alvo aéreo

Tomar, Agosto de 2012
Adriano Miranda Lima

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

[0232] CONCURSO 9

Não tendo havido desta vez uma resposta explícita ao nosso concurso, houve porém uma que teremos de considerar certa: a do  Valdemar Pereira  que assim se junta aos três vencedores que já contam cada um com duas sessões premiadas. Como é sabido, ele entra em pânico quando se trata de ramo de acácia e por isso temos sempre disponível para as vitórias do nosso amigo um talo de alho francês.


Tratava-se, tal como ele deixou adivinhar,do Joaquim Stoessel de Sousa (nhô Juquinha ou Djuquinha), chefe da secretaria da Capitania dos Portos que ali trabalhava (daí o "navegava em terra") juntamente com outro excelente profissional, o Sr. Manuel Ferreira Lima.

Mas melhor que aqui o PRAIA DE BOTE, o vencedor Valdemar poderá dar preciosas achegas, sobretudo em relação aos filhos cantantes.

Já agora, sem confirmação, tenho quase a certeza de que a Caixa Postal n.º 7 era a da Capitania dos Portos.  É que tenho as cartas que nos foram dirigidas para Cabo Verde noutro local que não aqui em casa. Mas logo que possível tirarei isso a limpo.


Mais um cartão de visita e novo desafio, neste concurso extraordinário, feito mais ou menos a meio da semana. Parece-me que será talvez o enigma mais difícil de desvendar, de todos os já aqui apresentados. Mesmo assim, há gente capaz de lá chegar, entre as hostes amigas do PRAIA DE BOTE. Isso sei eu...


Pergunta: quem é este Joaquim?

Ajudas: trabalhava com papéis, era competentíssimo, pessoa muito estimada e navegava em terra. Posso estar um pouco equivocado, mas acho que morava num prédio de primeiro andar que dava para a Praça Estrela, na mesma faceira da antiga casa do Firrim - ou seja, a que partia da Praia de Bote e ia percorrendo os terminais de várias ruas: Matijim, São João, Sá da Bandeira (hoje acho que de Moçambique) Luz, Moeda e Suburbana. Fui a casa dele despedir-me, quando me vim embora, e penso que era mesmo aí.