sexta-feira, 7 de julho de 2017

[3052] "Claridade", nhô Balta, os sempre "corajosos heróis d'pli squina" e a censura

Ele, Baltasar Lopes, o diz em depoimento à edição fac-similada de "Claridade" de Março de 1986, por altura das comemorações do 50.º aniversário da saída do primeiro número da mítica revista de arte e letras de Cabo Verde:

 "(...) O curioso é que alguns censuraram Claridade, acusando-a de, durante a sua vigência, no regime colonial, não ter assumido uma atitude mais concretamente combativa, mais polemicamente expressa, no sentido da independência política do nosso arquipélago. (...) Que vistam a pele do lobo os opositores de Claridade, que imediatamente se veriam in mente a caminho, pelo menos, do presídio do Tarrafal... (...)

Praia de Bote mostra aqui os sinais evidentes de como era "fácil" publicar esta revista que hoje é um marco dos mais importantes da cabo-verdianidade e da sua cultura.

N.º 1 - Por algum motivo, o n.º 1, de Março de 1936, não apresenta sinal de ter passado pela censura. Por quase coincidência, a 14 de Maio desse mesmo ano regulava-se a fundação de jornais (também de revistas?) em Portugal.

N.º 2 - A negra e famosa frase vem no final da penúltima página (este número da revista teve 10), sob um trabalho de Manuel Lopes.


N.º 3 - A frase, de grafia idêntica, vem no final da última página, a 10, novamente sob texto de Manuel Lopes.


N.º 4 - A frase passou a estar enquadrada por linhas paralelas, duas em cima e outras tantas em baixo. Vem mais uma vez no final na última página, desta feita a 40, sob trabalho de recolha de conto popular, feita por Baltasar Lopes.


N.º 5 - Este número tem 44 páginas e a indicação vem, como antes, no final da última página, agora sob poema de Nuno de Miranda, separada deste por uma linha.


N.º 6 - Número com 42 páginas. Na última, a frase, sob poema de Pedro Corsino Azevedo. O tipo de letra deixou de ser bold, como sempre fora antes, mas o tamanho é maior. Há enquadramento de linhas, uma em cima e outra em baixo, tudo separado por uma terceira em relação ao nome de Nuno de Miranda.


N.º 7 - Não há sinal da passagem deste número da revista pelo crivo da censura. Isto, apesar de por exemplo em poema de Aguinaldo Brito Fonseca se ler: "O povo gritou de fome (...) O povo caiu na lama (...) O povo martirizado, etc."

N.º 8 - 76 páginas. A frase, que surge na última, é desta vez de tamanho mínimo, mal se dando por ela.


N.º 9  - 84 páginas, o número com mais páginas de sempre. A situação e dimensão da frase são idênticas às da do número anterior, aqui sob poema de Baltasar Lopes/Osvaldo Alcântara.


[3051] A diocese de Cabo Verde e a sua obra

O documento da Liga de Beneficência e de Acção Social da Diocese de Cabo Verde, cidade da Praia, ilha de Santiago, é mesmo muito interessante e talvez da primeira metade ou meados do século passado. São 14 pontos, dos quais aqui mostramos apenas os cinco primeiros. No final, há espaços para assinalar a data da oferta, bem como o endereço e a assinatura do ofertante. Os nossos visitantes que desejarem conhecer o documento completo que o indiquem aqui nos comentários, mas só se forem comentadores habituais dos posts do Praia de Bote.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

[3050] Ontem, 5 de Julho, dia da independência de Cabo Verde. Pd'B comemora-o hoje, c'morna prop antigo

"Atlantic Memories", de Vasco Martins
Ontem, não nos foi possível dar aqui um braça aos cabo-verdianos pelo seu dia da independência. Mas fazemo-lo hoje, com algo que é sinal de que Cabo Verde "é", de que Cabo Verde existe. E que existe MESMO desde 1460 - ou 62, se preferirmos, coisa que pode notar-se de muitas maneiras. Uma delas é através da morna, a canção (e dança) nacional. Morna essa que pouco depois de nascida já invadia as salas finas de Portugal, onde as meninas casadoiras sabiam tocar piano e falar francês. Praia de Bote mostra hoje uma pauta musical que, embora não datada, é de certeza do início do século XX, anos 10, anos 20, por aí. Sendo comummente aceite que a morna "Brada Maria" é a mais antiga (de Vuca Pinheiro/José Bernardo Alfama/Eugénio Tavares... ver AQUI), esta "Maria Adelaide" é uma das mais antigas. Há muitas versões, de Travadinha (no seu lendário disco gravado no Hot Club de Portugal, ali grafada como "Marê'Dlaid"), de Tété Alhinho, em "De-Cor-A-Som", e de Vasco Martins em "Atlantic Memories" (neste, até se diz que "Maria Adelaide" é a mais antiga). Infelizmente, não conseguimos encontrar nenhuma delas passível de aqui ser colocada, mas como temos o disco do Travadinha poderemos oferecer a versão do ilustre e saudoso violinista a quem no-la solicitar, com todo o gosto.

Quanto ao papel, tem quatro páginas em tamanho mais ou menos A3: a da capa, duas de partitura (mostramos apenas um pequeno excerto) e a quarta em branco. E até ensina esta gente bronc da Metrópole a bailar a "nova dança" em qualquer salão burguês de Freixo de Espada à Cinta, de Lisboa ou de Borba...



quarta-feira, 5 de julho de 2017

[3049] São Vicente: saltou a rolha à garrafa de champanhe. Será desta q'Monte Cara ta cordá?

[3048] Só erros, só erros, desgraça total

Eu gostava igualmente de fazer compras nas duas papelarias mais importantes do Mindelo: a do Leão (na altura, em 1962-65, situada na Rua de Lisboa) e a do Tói Pombinha (num espaço entre o plurim d'virdura e a Câmara Municipal). Ambas tinham artigos que me interessavam. A do Leão, cromos (que ainda guardo), canetas, esferográficas, minas para lapiseiras, livros escolares (também ainda conservo os meus dois pequenos mas excelentes dicionários de Português-Francês e Francês-Português lá adquiridos); a do Sr. António Ramos Gomes (más cunxide por Tói Pombinha), pelos romances policiais, de far-west e de Júlio Dinis, tinta-da-china e sobretudo pelo seu inigualável papel cavalinho. Parecia-me sempre que o comprado no Pombinha era melhor, quando o tira-linhas o sulcava ou o lápis de carvão o enchia de riscos, vá-se lá saber porquê.

Pois hoje, enquanto esperamos pelo Adriano que anda por fora (ele merece a espera, pelo seu militantismo colaborativo), divulgo não só um anúncio do Tói Pombinha existente num programa do Eden Park de Novembro de 1943 que o nosso amigo teve a generosidade de me oferecer, como um desenho meu, por acaso feito num papel que descobri hoje aqui no arquivo e que de imediato reconheci não ser do meu fornecedor. É folha pouco espessa, de papel inferior, decerto rapinada no gabinete do Patrão-mor, das usadas para ofícios ou cópias feitas a papel químico.

Lembro-me perfeitamente de estar a realizar esta "bela" obra, numa prancheta, no pátio da Capitania /Torre de Belém, a olhar directamente para o motivo que aqui se vê, o veleiro "Senador Vera-Cruz", de saudosa memória e, se não estou em erro, feito na Brava. Mas, ó miséria das misérias, o Djack que até tinha bastante jeito para o desenho, nesse dia só fez asneiras. Oa vejamos:

1 - O Monte Cara está ao contrário.
2 - Em pleno dia, com o Sol a brilhar no céu, o farol do Djéu está a acender e a apagar.
3 - O vento do Mindelo é completamente doido, mas não consta que enfune as velas dos veleiros para um lado e remeta as bandeiras dos mesmos para o outro.
4 - Aquele erro em Cruz...
5 - Santo Antão eclipsou-se ou então... afundou-se.
6 - Salva-se o DC3 que devo ter visto nalguma revista mas que nunca vi sobrevoar a baía.

Só asneiras, portanto... Mas que a silhueta do "Vera" era assim, era. E que era branquinho com uma lista verde junto ao mar, também. Perdoem-me o senador o erro do apelido e os visitantes a desgraça que lhes mostro e terá entre 52 e 55 anos. Mas stóra é stóra...

[3047] MestiÇos para cá, mestiZos para lá... E a cachupa de Cabo Verde?

Ver como a grande, nobre e jamais igualada cachupada crioula foi esquecida num novo restaurante "mestiço" de Lisboa. Ou estará para entrar, em próxima leva de ementa? Veremos! Entretanto, nesse particular, vamos ficando pela Tia Bé. Não é, Val?
Ver AQUI

terça-feira, 4 de julho de 2017

[3046] Arquitecto Nuno Portas (autor de projecto de legislação urbanística para Cabo Verde), homenageado ontem em Lisboa pela Ordem dos Arquitectos

Para comemorar o Dia do Arquitecto, a Ordem da classe homenegeou ontem o seu confrade Nuno Portas, natural de Vila Viçosa, na sala D. João VI do Palácio da Ajuda.

O seguinte texto foi copiado do site da OA

O Saber e a Curiosidade 

O saber e a curiosidade intelectual de Nuno Portas permitem-lhe navegar com segurança e conforto, numa multiplicidade de espaços, onde procura oportunidades para descobrir novos caminhos. 

Esta curiosidade, aliada a um certo sentido de aventura, levaram-no da crítica da arquitectura e do cinema à história e teoria da arquitectura, do urbanismo e da cidade; do exercício projectual à prática do planeamento, passando pelo desenho da cidade; do centro histórico à cidade explodida; da consciência social à intervenção política; de Lisboa a Madrid; do Porto a Milão; de Paris ao Rio de Janeiro; de Cabo Verde ao Japão; de Bruxelas ao Vale do Ave. 

Entendendo as diferentes realidades e contextos sabe intervir com oportunidade, no local e no tempo certo, produzindo obra e material científico inovador. 

Este percurso, apoiado por uma grande capacidade de trabalho, um saber profundo e obsessivamente actualizado e por uma generosidade, frontalidade e solidariedade com os seus companheiros de aventura, marcou indelevelmente a arquitectura e o urbanismo português e internacional, a partir do início dos anos 60. 

Apesar desta complexidade e riqueza temática pode-se subdividir este percurso em três períodos relativamente distintos. 

A partir dos finais dos anos 50, desenvolve uma acção pioneira na crítica da arquitectura e funda o Núcleo de Pesquisa de Arquitectura, Habitação e Urbanismo do Laboratório Nacional de Engenharia Civil onde desenvolve, de forma inovadora, estudos sociológicos e métodos computadorizados de suporte à investigação e produção urbanística e arquitectónica. Inicia a carreira docente propondo abordagens projectuais interdisciplinares e tem um contributo decisivo na divulgação internacional dos arquitectos portugueses da geração de 60. 

Após o 25 de Abril de 1974 assumiu o cargo de Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, instituindo políticas de habitação que valorizavam o processo de participação pública e o direito à cidade. Criou o programa SAAL (Serviço Ambulatório de Apoio Local), fomentou o desenvolvimento das cooperativas de habitação e contribuiu para a formação de Gabinetes de Apoio Local, em particular dos centros históricos. Iniciou o processo de revisão da legislação urbanística portuguesa. Após esta experiência política, parte para Madrid onde foi consultor urbanístico e coordenou o processo de planeamento dos 25 municípios que constituem a sua Área Metropolitana. 

Em 1983, regressou a Portugal, como professor de Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, sendo presidente do seu Conselho Científico até à sua jubilação. Em 1990, regressa à política e foi eleito para uma autarquia onde desenvolveu um processo urbanístico que combina a gestão urbana com o planeamento territorial. 

Estas experiências estão patentes na produção de diversos textos e intervenções que visam a inovação da prática do planeamento e do projecto urbano, com ressonância em várias instâncias e publicações europeias. Simultaneamente, tem investigado a cidade difusa do Noroeste Português contribuindo de uma forma decisiva para a interpretação e definição de políticas adequadas ao ordenamento deste complexo sistema territorial. 

Manuel Fernandes de Sá 

in Nuno Portas, Prémio Sir Patrick Abercrombie UIA 2005. Lisboa: Ordem dos Arquitectos e Caleidoscópio, 2005 

Em 20.10.2012, com o pintor e escultor Espiga Pinto, também natural da sua terra, na Câmara Municipal de Vila Viçosa, onde foram ambos agraciados com a Medalha de Mérito Cultural





Nuno Portas 
(Vila Viçosa, 1934) 

Frequentou o curso de Arquitectura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa (ESBAL), obtendo o seu diploma na Escola Superior de Belas-Artes do Porto (ESBAP) em 1959. 

Na qualidade de professor, leccionou “Projecto” na ESBAL e, em 1983, transferiu-se para o curso de Arquitectura da ESBAP, tendo participado na fundação da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde viria a assumir funções como Professor Catedrático a partir de 1989. Actualmente é Professor Jubilado. 

Tem regido cursos em Universidades Europeias e Latino-Americanas, desde 1965. 

Trabalhou com Nuno Teotónio Pereira no Atelier da Rua da Alegria de 1957 até 1974, ano em que assume o cargo de Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo. 

Foi distinguido com os títulos de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro (1998), pelo Instituto Politécnico de Milão (2005) e pela Universidade do Minho (2012), foi elevado a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (2004), recebeu o Prémio Sir Patrick Abercrombie de Urbanismo da União Internacional de Arquitectos (2005) e a Medalha de Mérito Cultural (2013). 

É, desde 2010, membro honorário da Ordem dos Arquitectos.

Já publicada no Pd'B, foto de Espiga Pinto e Cesária foi feita em Paris. Só para se ver que "isto" anda tudo ligado...

[3045] África, África, África... (ver post anterior)

Mas Portugal também utilizava selos de um grande "país" chamado África. E de igual modo uma boa dose desses remediou a falta de selos em Cabo Verde nos primeiros anos do novo regime: carimbo "República - Cabo Verde" para cima e pronto.




[3044] Quando Macau era em Cabo Verde


A 5 de Outubro de 1910, com uns tirinhos pelo meio, chegou a República a Portugal. Logo, também, às suas colónias. Mas e agora arranjar selos para tanto lado? Parece que em Macau não se gastava muito selo, havia-os de sobra e faltavam em Cabo Verde. Toca então de carimbar uns quantos milhares com a palavra mágica do novo regime e o nome da colónia mais próxima da mãe-pátria. Estava o assunto arrumado... Há la povo mais desenrascado que o português... Qunto às datas, são a da descoberta do caminho marítimo para a Índia e a comemorativa dos 400 anos do feito.

[3043] Uma bandeira da lusofonia

Tito Paris é um dos nossos cantores preferidos, mesmo descontando o facto de ser cabo-verdiano - o que já de si é uma boa medalha. Lançou agora o álbum "Mim ê bô", após um interregno de vários anos sem gravar. A propósito desse facto, foi entrevistado pelo jornal electrónico "Observador" que em título lança uma frase do entrevistado, referindo que Tito Paris gostava de ver uma bandeira da lusofonia. É claro que o Tito não tem de saber que já há uma bandeira da lusofonia (a da CPLP). Nem sequer quem o entrevista. Nem sequer quem escreve estas linhas no Pd'B. Mas não custava nada por precaução ir dar uma volta ao éter internético e descobrir que essa bandeira já existe... e referi-lo em nota de rodapé Ver AQUI. Quanto à entrevista, é muito interessante e por isso aqui fica. Finalmente, uma salva de palmas para o Tito pelo seu ódio visceral aos vistos entre falantes de português, ódio que nós partilhamos e de aqui já deixámos sinal pelo menos umas duas vezes. 
Ver AQUI a entevista e AQUI outra, do "Público"

[3042] Zica foge de Cabo Verde, mas não deitemos foguetes antes da "festa". E a "festa" é a das próximas azágua...

Ver AQUI

[3041] Apesar da derrota com o Ultramarina, Mindelense está na final do campeonato de Cabo Verde

Apesr das peripécias da desaparição da chave do campo em São Nicolau e apesar da derrota com  o Ultramarina, o Mindelense está na final do campeonato de Cabo Verde. A final vai ser com o Sporting da Praia, num leão contra leão, mais a jeito de Benfica-Sporting... Praia de Bote torce pelo seu clube. Viva o Praia de Bote, viva a Praia de Bote e viva o Mindelense!!!
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[3040] Grog é bom, mas só quando bebido com moderação. "Menos álcool, mais vida"

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domingo, 2 de julho de 2017

[3039] Da Visita a Soncente

Depois do que dissemos no post 3022 sobre colocação no  Pd'B de textos a pedido, vamos abrir uma excepção excepcionalíssima e última, relativamente ao que hoje aqui se mostra. Solicitamos pois que não nos enviem mais textos até ao início do novo ano e que aqueles que o querem fazer se tornem DE FACTO colaboradores/comentadores do Pd'BVer post 3022, AQUI


Arsénio Fermino de Pina
Apraz-me reconhecer que a cidade do Mindelo está fisicamente muito melhor, desde a minha última visita, há dois anos: algumas ruas alcatroadas – interessante constatar que os buracos maiores no alcatrão estão sendo remendados com calçada, muito provavelmente por falta de alcatrão e de máquinas para o efeito, quando o bom senso recomendava calçada e não alcatrão, que não produzimos e temos de importar, nas ruas -, muitas com calçada chamada portuguesa a substituir as antigas, que até contemplam bairros periféricos, calcetamento que prossegue a bom ritmo, passeios em locais onde não existiam, outros restaurados, um passeio cimentado largo, do Campinho até Lazareto, permitindo, em segurança, a marcha de muitos residentes das zonas limítrofes, melhoria dos mercados agrícolas da Praça Estrela, número significativo de casas pintadas beneficiando de um empréstimo bancário para o efeito, fazendo desaparecer o aspecto cinzento de cimento de muitas construções mais ou menos recentes, sobretudo do bairro de Monte Sossego, três belíssimas esplanadas restaurante, duas com boite, na Lajinha, onde dá gosto estar com uma boa vista panorâmica do Porto Grande e da Nova Lajinha transformada em Lajona.

Há um empresário, largos anos emigrante, de regresso ao país, presidente da Unitel Tmais, que vem investindo em S. Vicente, e promete inauguração de cinema, restaurantes com gastronomia para todos os bolsos, desejando engrandecer o cosmopolitismo do Mindelo, o que é louvável e poderá ser imitado por outros argentários com experiência adquirida no exterior que desejem dar contributos à terra de nascença. Duas patrícias emigrantes que viveram na Holanda, de regresso ao país, também decidiram investir numa empresa que fornece empregadas domésticas e funcionárias – Agência de Prestação de Serviços – na qual as candidatas são sujeitas à formação em várias tarefas e no modo de lidar com clientes, que é uma garantia de seriedade e segurança para quem necessitar de empregadas de vários ramos. Outro bom exemplo de como utilizar conhecimentos e fundos em benefício pessoal e da sociedade, quando o poder central não atrapalha com burocracia as iniciativas produtivas e de serviço de nacionais e estrangeiros.

A Associação Amigos da Natureza (AAN), a Organização Nacional da Diáspora Solidária (ONDS) no Centro de Formação do Mestre Cunco e a Oficina de Formação do Padre Filipe Pereira, com o seu mestre Ti Nené, têm desenvolvido acções notórias louváveis em benefício das populações, na formação em artes, ofícios e outro ramos, na adução de água e construção de redes de esgoto nos bairros periféricos, além da arborização da ilha que já se vê até nos montes, e outras actividades dos respectivos pelouros, em colaboração e parceria com a CM, ADEI, ISCEE, MAA e a União Europeia em acções de Capacitação para Associações Rurais e Comunitárias, pelo que mereciam mais apoios por parte do Estado, dos sócios e da população. A Cabnave vai laborando e há um projecto em marcha para criação de camarões no Calhau. De promessas de projectos não falo, dado que a quase totalidade dos anteriores foi conversa fiada eleitoral do governo anterior.

Há que reconhecer o trabalho do actual Presidente da Câmara Municipal, Augusto Neves e sua equipa camarária, pessoa com quem tive excelente relacionamento quando desempenhou o cargo de director administrativo do Hospital Baptista de Sousa, onde fez uma administração reconhecidamente meritória. Apontam-lhe, no entanto, algumas falhas: é muito difícil obter uma audiência com ele, muito raramente aparece nos bairros periféricos de lata para ouvir os residentes, é de ideias fixas e não atende às opiniões dos outros. Acusam-no de ter passado, após a eleição para o cargo, a tratar amigos na terceira pessoa, arrogante com gente da arraia-miúda para manter a distância e diminuir a acessibilidade, ostentando ar de superioridade. Aceito não ser fácil receber toda a gente que pretenda falar com ele. Porém, para assuntos não confidenciais, nem urgentes, poderia (deveria) elaborar um calendário de visitas aos bairros periféricos e aldeias do interior para reuniões periódicas com a população onde assuntos gerais seriam discutidos com os moradores, respondendo e delegando nos vogais de vários pelouros e outros elementos da Câmara que o acompanham. Com esse procedimento esvaziaria a má impressão geral daqueles que não conseguem audiência com o Presidente da Câmara para lhe expor as suas queixas. O contacto com as populações e a simpatia não podem limitar-se às épocas eleitorais, em que os políticos são de uma simpatia hipócrita cativante e abertura total.

A Câmara Municipal da Praia detectou 6000 casas com riscos de derrocada, após a derrocada recente em que morreu um pedreiro, havendo cinco feridos. No Mindelo, a situação não deve ser muito melhor, embora não tão extensa, havendo pardieiros no centro da cidade que são focos de doenças e um perigo para a Saúde Pública, por serem vazadouros de lixo de toda a espécie e até retretes. Em tempos sugeri à CM legislar no sentido de estabelecer um prazo, cinco a dez anos após o abandono do prédio, para a resolução do problema de pardieiros no centro da cidade, geralmente motivado por questões de herança, findo o qual, o prédio iria à praça pública para venda, depositando-se o produto da venda no banco à ordem dos herdeiros definidos pelo tribunal. Presumo que isso, além de resolver o problema, facilitaria a celeridade na resolução das questões de herança. Intrigante o facto de alguns desses pardieiros serem do Estado ou da Autarquia que não abrem mãos de nenhum para sede de ONG como, por exemplo, a Adeco, ou a AECCOM, tendo perdido, com esta última, tudo quanto o Prof. João Manuel Varela queria legar à Academia e S. Vicente, um espólio soberbo que está a deteriorar-se numa garagem do irmão.

Causou-me grande tristeza ver o Eden Park entaipado com obras em curso de uma torre babélica em construção que fará desaparecer para sempre essa autêntica universidade popular que, juntamente com o Porto Grande e as companhias carvoeiras inglesas, deu uma característica cosmopolita sui generis à Ilha, a qual se vai esbatendo desde a independência, por o poder central ter posto a ilha de quarentena frenando o seu desenvolvimento, sabendo-se que, S. Vicente, segundo João Augusto Martins foi “o pulmão por onde respira e o cofre d´onde se alimenta a província inteira”.

Finalmente iniciaram-se as obras no velho e famoso Liceu Gil Eanes, permitindo-lhe festejar o centenário pelo menos com a cara lavada.

Sob o ponto de vista social, S. Vicente está muito pior, o que não é de admirar e se vai, seguramente, agravando com o rombo sofrido pelo orçamento destinado à ilha para 2017, quando muita população de ilhas vizinhas – S. Nicolau e Santo Antão – veio engrossar a da ilha: desemprego aumentado, mendigos pelas ruas à porta de mini-mercados, cafés, restaurantes e hotéis, sentados nas soleiras das portas de casas na Rua Lisboa, bancos e empresas, estendendo a mão à caridade, havendo um número significativo de crianças pedintes às portas dos mesmos locais pedinchando dinheiro, não obstante haver várias instituições dedicadas à protecção da criança e adolescentes – ICCA, Centro Juvenil Nhô Djunga, CEI, Irmãos Unidos, Aldeias SOS, CMS, etc. - que funcionam mal por falta coordenação de esforços, de pessoal qualificado, de orçamento diminuto e, por vezes, falta de matéria-prima para as oficinas trabalharem, falta de resposta do ministério de tutela a propostas pertinentes de solução. O número de alienados mentais também aumentou nas ruas, o que é intrigante por haver, na Ribeira de Vinha, serviço especializado com pessoal qualificado onde, em princípio, deveriam estar e seriam medicados, apoiados e controlados. Roubos frequentes, devido à falta de empregos, miséria, e os desempregados quererem também participar em festas e regabofes, o que leva alguns, incluindo crianças, algumas viciadas em jogos de video, a pedir dinheiro e a roubar, não obstante a maioria das casas ter grades nas janelas e portas reforçadas, não se impressionando alguns com a hipótese de cadeia por aí terem garantia de comida e dormida, tal o seu desânimo e miséria a substituir a pobreza anterior. Quem nada tem arrisca tudo, não se importando com as consequências. Não obstante a miséria visível, vemos mulheres-a-dias, vendedeiras de fruta e de drops manejando telemóveis sofisticados, pessoas com vencimentos baixos em carros de luxo e outras incongruências de difícil entendimento.

A poluição sonora tem aumentado, bem como o desrespeito das normas e leis referentes à utilização de automóveis e motos e à produção de barulho depois das dez horas da noite. A Avenida Prof. Alberto Leite, por exemplo, foi transformada em pista de corrida e para piruetas de motas, havendo um energúmeno que a percorre diariamente a alta velocidade, de dia, noite e madrugada, com um ruído infernal que acorda todos os moradores da avenida, passando, em velocidade, à frente do Comando Regional da Polícia sem nenhuma reacção deste. Bares e boîtes barulhentos funcionam a altas horas da noite e madrugada perturbando o sono dos moradores sem nenhuma consequência para os respectivos donos. Cadê as posturas camarárias e leis que regulamentam isso? Serão abusos de gente acima da lei ou é a Polícia que se desleixou ou perdeu autoridade?

É triste e condenável a existência de bairros de lata e cartão sem as mínimas condições de habitabilidade, sem água nem luz, sem esgoto nem evacuação de lixo, quando se propagandeou o Programa Casas para Todos, a custo zero, previstas 8500, construídas ou em construção avançada 4596 - construções de qualidade algumas ainda inacabadas por falta de fundos, somente ao alcance de uns poucos com meios para comprar ou pagar renda -, quando os miseráveis dos bairros de lata poderiam ter sido beneficiados com esse Programa, se as construções tivessem sido modestas e funcionais, como se esperava. Preferiu-se a demagogia eleitoral, e o dinheiro não chegou para o luxo, ficando as casas a deteriorarem-se, inacabadas e sujeitas a vandalismos, como aconteceu no Sal; chama-se a isso má governação e desperdício do erário público. Entre nós, os autores de tais asnidades, não são responsabilizados quando pertencem ao governo, o que não abona a favor da nossa justiça e confirma a existência de gente acima da lei.

Intrigou-me ver poucos cães vadios na cidade, afinal não por mérito de acção da CM e Delegacia de Saúde, mas por mimetismo, isto é, imitação da moda portuguesa de as mulheres, mesmo homens, andarem na rua com cães à trela. A moda, a princípio, é sempre um ridículo, mas com o tempo, banaliza-se e aceita-se o ridículo como normal, à semelhança das rachas nos joelhos de jeans, em mulheres, agora avançando para as coxas e prometendo seguir para o traseiro, não sendo de descartar a possibilidade de avançar para a frente, evoluindo, portanto para a pornografia. Em questão de moda as previsões são falíveis. É só ver os cortes de cabelo de rapazes a imitar algum jogador de futebol famoso com pouca massa cinzenta cerebral que teve a ideia de imitar o cocuruto do peru, que se tornaram moda naqueles com falta de personalidade.

S. Vicente, Junho de 2017
Arsénio Fermino de Pina

sexta-feira, 30 de junho de 2017

[3037] Prestes a cumprir o sonho da sua vida, o nosso amigo Adri está a caminho de São Vicente

Caros amigos, companheiros, colaboradores e comentadores. O nosso comum amigo Adri pediu-me para anunciar na melhor gazeta de São Vicente (o Praia de Bote, claro!...) que levantou todo o dinheiro que possui em bancos portugueses, suíços e americanos e que está de malas aviadas para cumprir o maior sonho da sua vida: ter um veleiro (se possível com motor), ainda por cima matriculado em São Vicente.

É que tendo eu descoberto este anúncio que entretanto lhe enviei, e que está de acordo com o que pretende, ele não pensou nem um minuto, pegou na massa, despediu-se da família e está já no aeroporto de Lisboa à espera de voo para São Pedro. Na pressa, esqueceu-se de adquirir um boné de pala com emblema com duas âncoras cruzadas, absolutamente necessário para comandar um vaso daquela categoria. Mas o Pd'B vai comprar um no Costa da Rua das Portas de Santo Antão que seguirá por correio expresso e talvez chegue ao Porto Grande antes dele. Em contrapartida, queremos uma viagem de borla de Cacilhas até às Berlengas... e volta!...

Pd'B deseja uma boa viagem ao valente marinheiro de Infantaria e cá o aguardamos para o mês que vem, em Cascais, por altura da sua entrada triunfal no Tejo com um carregamento de mangas, bananas, papaias, café do Fogo e grogue de Santo Antão. Uma salva de palmas para o grande nauta!!!!! Clap, clap, clap!!!

Diga-se ainda que o "Santa Maria" é o ex-"Bita", muito conhecido de outro excelso navegante das nossas relações, monsieur le vice-amiral Val de Tours que nele viajou diazá na munde "incognitus" de Cabo Verde para Cape Vert... (mas que falta de imaginação) Mas ele que fale que ele é que sabe contar bem a stóra.

O "Santa Maria" (ver nome junto à popa), ex-"Bita", aguarda o seu novo dono, atracado ao cais acostável de São Vicente

[3036] Golfe, golfe, golfe!!!

Um verdadeiro green...
Manhã cedo, era ver aquele pessoal partir de carro, mota ou bicicleta para o green de São Vicente que afinal era brown, por ser careca de relva - logo, único. Ricos, remediados e pobres participavam, de um modo ou de outro, com maior ou menor luxo de tacos e outros apetrechos, que o desporto, "infiltrado" na ilha pelos bifes da Western Telegraph e por outros que tais era democrático como ainda hoje é, mais ali talvez que noutras paragens mundiais. E com direito a campeonatos, torneios e notícias de jornal (como este torneio da Páscoa de 1971). Assina, Evandrita, "nominha" de Evandro de Matos. Ver AQUI a sua biografia e ver AQUI outro artigo seu no Pd'B.

Deixemos pois a notícia no ar, com tonte gente cunxide. Entre ela, dois amigos inesquecíveis, o marceneiro Cláudio Freitas e o conhecedor piloto da capitania e futebolista do Micá, Américo Medina, mais chegados estes que outros que também conhecemos. É de 18 de Março de 1971 e de "O Arquipélago", o recorte. Divirtam-se a ler e relembrem esses tempos mais ou menos felizes.

[3035] Merecida homenagem ao "homem" do Eden Park

Eis mais uma nota enviada pelo nosso amigo Valdemar Pereira, relacionada com a homenagem que o Presidente da República de Cabo Verde vai prestar em breve a César Marques da Silva, o "homem" do Eden Park. A coisa ainda mete o nome de outro amigo nosso que raramente por aqui aparece e que também teve influência na homengem, mas ele que se acuse que nós não gostamos de ser abelhudos... Ver post 3032, AQUI

Prezado Amigo [trata-se de Valdemar Pereira], 

Serve esta mensagem para lhe dar a boa noticia de que César Marques da Silva será distinguido, a título póstumo, no dia 5 de Julho, com a  medalha de Mérito pelo Presidente da República, por tudo o que ele significou para a sociedade mindelense e Cabo Verde, enquanto excelente empreendedor e cidadão, que no início do século XX ousou sonhar e criar o que criou. Muito obrigada pela sua luta constante em fazer o mundo conhecer a obra desse cabo-verdiano que muito nos honra, por tudo o que tem escrito e feito pela família Marques da Silva. Em boa hora chegou a proposta! 
Os parabéns a todos nós!

Forte abraço, 

Jaqui 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

[3034] No n.º 6 de "Claridade"... e na Rua de Matijim do Mindelo e também com nhô Balta. Ou seja, com ele, enquanto Osvaldo Alcântara

Apesar da promessa de hoje não colocarmos nenhum post, ao tomarmos posse deste material (no caso, digitalizado) que foi o n.º 6 da "Claridade", não resistimos a uma excepção... E ela aqui vai:


Estava-se no Mindelo, em Julho de 1948, na Rua de Santo António, vulgo "de Matijim", por nela ter tido negócio de géneros (sabemos que, entre outros produtos, por exemplo, vendia vinho) o senhor Mateus (Mateuzinho = no crioulo, Matijm). Neste mês havia ali grande azáfama, não só pelo facto de a característica artéria de morada ser já de si muito movimentada, devido a comércio de toda a ordem - dede botequins a lojas de aprestos marítimos -, incluindo o informal, mas por outro motivo. É que num impreciso número da rua, situava-se a Sociedade de Tipografia e Publicidade, Lda. E nas suas instalações (ou seria ali apenas a redacção da publicação de que falaremos a seguir?) entravam a toda a hora o João Lopes e o Nuno de Miranda, respectivamente editor e director da "Claridade", revista que estava a dar à estampa o n.º 6. E, diga-se, os dois intelectuais não davam sossego aos operários da gráfica, sempre interessados em indicar-lhes como melhorar este pormenor, aquela localização de título, aquele tipo de letra…

Em data também desconhecida desse mês, à beira da época de as-águas, lá saiu o 6.º número da revista que teria mais três, sendo que o último veria a luz do dia em Dezembro de 1960, ainda com Lopes por director mas já sem Nuno de Miranda, entretanto substituído por Joaquim Tolentino e agora com endereço na Travessa Brites de Almeida…

Na capa do 6, o poema "O Rapaz Torpedeado", de Baltasar Lopes/Osvaldo Alcântara, escritor/poeta recordado da guerra a que Cabo Verde escapou por um triz, não sem que tivesse havido alguns episódios tristes que roçaram o território, nomeadamente no Atlântico (como no caso do poema). 

No miolo, colaborações de Jorge Barbosa, Aguinaldo Brito Fonseca, Félix Monteiro, Osvaldo Alcântara (de novo), António Aurélio Gonçalves, Gabriel Mariano e Manuel Serra… 

Bem, quase estivemos lá, não foi? Como teria sido interessante se assim tivesse acontecido…

Deixamos aqui a capa, com o "Poema do Rapaz Torpedeado", para os que não o conhecem e que com toda esta conversa ficaram pela certa com água na boca.

E viva nhô Balta, sempre nhô Balta, claro!!!

quarta-feira, 28 de junho de 2017

[3033] Tanta coisa se pode sacar de um simples postal...

Dado que alguns dos posts hoje colocados são algo extensos (por exemplo a entrevista a Nuno de Miranda e o recorte da "Capital"), amanhã não haverá posts, para os nossos visitantes poderem "mastigar" melhor o que hoje aqui deixámos. 

Para rematar, fica o verso de um postal ilustrado curioso. Yvonne escreve para madame Cempez (?), a partir de São Vicente, em 1 de Outubro de 1916, dizendo-lhe que está a ter uma boa e bela viagem e dirigindo-lhe um beijo. O carimbo de São Vicente coincide com o do paquete onde ela estaria em trânsito e o postalinho é "carimbado em alto mar", como ali se pode ler. 

A Royal Mail Steam Packet Company "The RMSPcoy" refere-se ao navio "Araguaya" que fazia a carreira Southampton-Buenos Aires. Era carimbar a correspondência bordo e depois despejar a mala em São Vicente. Daí, lá iam cartas e postais para o mundo...

Quanto à parisiense Rue de Flandre, passou depois a avenida em... 1994 Ver AQUI

Quanto ao veículo da mensagem, era editado pelo Costa da Rua do Ouro, 295, Lisboa. Às tantas, alguém do Mindelo subiu a bordo com uma colecção de postais, com a qual deve ter feito bom negócio. Se, pelo contrário, a menina (ou senhora) Yvonne o comprasse em terra, não levaria o carimbo do navio. Achamos nós... Pode ser tudo ao contrário, claro.

Esqueci-me de aludir ao selo inglês, mais um sinal de que o postal partiu mesmo de bordo para o Mindelo e daí então para o destino.

Já viu o nosso visitante, o que se pode tirar de um simples postal?


[3032] Empresário César "nhô Cesa" Marques da Silva, fundador do cine-teatro Eden Park, homenageado pela Presidência da República de Cabo Verde

César Marques da Silva (foto Manuel Brito-Semedo)
Nota enviada pelo nosso amigo e colaborador Valdemar Pereira, com mensagem que recebeu hoje:

Caro Amigo Djack:

Tenho o imenso prazer de transcrever parte de uma carta do meu "chefe de turma" Manuel Marques da Silva com uma inesperada noticia que muito nos alegra.

"... ontem, à noite, fui contactado pela minha simpática e querida sobrinha Jaqui,comunicando-me que foi decidido homenagearem o meu pai, Cesar Marques da Silva, e que S. Exa. o Presidente da Republica de Cabo Verde convida um membro da família do mesmo a estar presente no dia 5 de Julho próximo, aniversário da Independência do nosso País, na Praia.

Por vários motivos, saúde, idade e pelo curto espaço de tempo que falta para as cerimónias, depois de falar com os meus familiares, decidi delegar na minha sobrinha Dr.ª Carla Marques da Silva, residente na Praia, neta e filha do primeiro filho do meu pai, o meu irmão Luis Filipe Marques da Silva, a representação da família Marques da Silva no acto e na honrosa decisão, que agradeço, até por que bem sei e tenho provas de que o homenageado foi um bom, sincero e verdadeiro amigo de S. Vicente, nunca esquecendo a sua ilha natal, S. Nicolau, em particular, e de Cabo Verde e dos cabo-verdianos, em geral."

Muitos lutámos por isto e parece que é desta vez... na Praia. E Soncente fica vendo navios a passar.

Braça pa tude bocês

V/
Ver também AQUI

[3031] Nuno de Miranda, em entrevista de 2013 para o jornal "A Semana"

Na preparação de textos para a exposição que comemorará no concelho de Almada os 70 anos de "Chiquinho", fomos dar a uma saborosa entrevista de Otília Leitão a um dos claridosos, primo do grande frequentador da Praia de Bote, Adriano Miranda Lima. Trata-se do escritor e poeta Nuno de Miranda, entre muitos outros trabalhos, autor de "Cais de Pedra". Leia-se, com gosto.

OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro diário caboverdiano em linha

Postal de Lisboa 04 Abril 2013

Otília Leitão
Sobre a secretária do seu escritório, onde se resume uma vida, Nuno de Miranda, um cabo-verdiano sobrevivente da revista “Certeza” de que foi co-fundador (1944) e editor do movimento “Claridade” (1936), mostra-me um livro pronto a editar, “Fogo e Alimento” (notas ensaístas), enquanto burila as palavras de um novo romance que começa em Bragança, uma cidade transmontana de que gosta muito e, inevitavelmente, como aliás toda a obra, vai perpassar Cabo Verde.

De Otília Leitão

O escritor, natural de S. Vicente, e que viveu um dos períodos mais agitados da política portuguesa como chefe do protocolo e do gabinete de imprensa do Conselho da Revolução (1976 /79), segue o fio da História, numa conversa que, pela sua sabedoria e lucidez, esmaga os sinais da cronologia do tempo sobre a matéria humana - nasceu em 1924.

Deixa transparecer uma frescura romântica quando, esboçando um sorriso, me aponta na estante: “esta pedrinha (com uma flor em estanho gravada) pertencia ao espólio do antigo jornal “O Século” que comprei à jovem que o vendia e por ela me apaixonei”. Ela é hoje Natércia Miranda, uma distinta médica de saúde pública e que tem também obra escrita na sua área profissional.

Na sua casa, num local calmo da cidade de Lisboa apenas perturbado quando em dias de euforia do futebol no Estádio do Benfica, ali perto, o poeta aceita o desafio de me levar ao imaginário do seu mundo, pela palavra. É português de nacionalidade, a mesma que o arquipélago cabo-verdiano possuía na sua época colonial mas, Nuno Álvares de Miranda, que conviveu numa elite do regime do Estado Novo e prosseguiu na Democracia, é uma evidência de que um ser humano tem múltiplas pertenças.

E é na simbiose de vivências que o poeta revela em toda a sua obra e na sua postura actual a transparência da alma cabo-verdiana, ou seja, a raiz ao espaço telúrico onde está enterrado o seu umbigo. Desde logo, quando se lê “Cais de Ver Partir”, Lisboa, Orion, 1960, o livro que um seu amigo, Alfredo Margarido, levou à editora de Orlando Gonçalves, dono do jornal “Notícias da Amadora” - e o apresentou já publicado, de surpresa. Com esta obra ganhou o prémio literário Camilo Pessanha em 1961.

Nuno de Miranda
Deste, por me parecer profundo e significativo, transcrevo: “Os homens estão cansados/ das suas graves amarras/ são estáticos barqueiros, no seus mares decifrados. Os homens estão cativos/ sem qualquer explicação/ tensos de riba da onda/ vinda rolar do mais longe. Os homens estão ancorados/ em sua nave incorpórea/ o rio ao largo a lembrar/ falas de amor e segredo”.

Voltou a ganhar o mesmo prémio, em 1964, com “Cancioneiro da Ilha”, Braga, Ed. Pax, em paralelo com José Hermano Saraiva, o famoso professor que já então se notabilizava em História, distinguido com o prémio “João de Barros” pelo livro “Formação do Espaço Português” (Boletim Geral do Ultramar, Fevereiro de 1964).

Nuno de Miranda foi condecorado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, pelos “serviços culturais” prestados e também pelo Instituto brasileiro de Antropologia da Amazónia. Foi também distinguido pela Academia Brasileira de Letras, pela sua participação na “Palavra de Poeta- África”, um projecto que englobou a faceta “Palavra de Poeta-Portugal” e “Palavra de Poeta-Brasil”.

Considera-se “um conservador” para quem escrever um romance em crioulo é “uma aberração”, pois “apenas será lido a nível interno”, diz. As suas obras são em português, língua que a sua mãe, professora, cultivava com exigência e rigor, proibindo que falasse o crioulo em casa, mas “não na rua”, sorri.

Além da ficção “Cais de Pedra” (1989) e do primeiro romance “Caminho Longe” (1974), o autor possui ainda outras obras, quer em prosa, quer em poesia, sempre incluindo elementos da cabo-verdianidade: “Gente da Ilha”, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1961; “Poema”, in Sul, Florianópolis, 1954; “Recado”, in Cabo Verde, Praia, 1958; “Um poema do Cais de Ver Partir”, in Cabo Verde, 1959; “Crepuscular” in Garcia de Orta, Lisboa, 1961; “O Chá”, in Cabo Verde, 1962.

Ao longo da sua carreira, em cargos destacados do funcionalismo público - talvez o cabo-verdiano que mais alto tenha subido durante o regime do Estado Novo - o poeta sempre escreveu artigos na imprensa portuguesa e brasileira onde enaltecia a cultura cabo-verdiana. Tal se pode apreciar em “A propósito do Pilão”, S. Paulo, 1941, e “A propósito da Hospitalidade cabo-verdiana”, 1961.

Destaca-se um curioso artigo “sobre educação e desenvolvimento em Cabo Verde” (1961) onde o autor dava conta do número de alunos que frequentavam a universidade em Lisboa (34) e criticava o “marcante predomínio pelas profissões ditas clássicas” (Direito e Letras). “Será esta a propensão, aconselhada para o caso de Cabo Verde”, (...) na hora em que se conjugam esforços de realizações que nos dizem serem adequadas para subtrair a nossa terra e o nosso povo aos círculos tradicionais que trazem a marca do flagelo?”, instava, ao mesmo tempo que concluía: “tudo indica que não e o bom senso preconiza o desvio da referida propensão”.

Não contive uma gargalhada quando, desfiando a memória, Nuno de Miranda “me transportou” ao Cais do Sodré lisboeta onde, nos anos 50, vindo de Cabo Verde, foi comprar seis lagostas para oferecer à pessoa que o haveria de encaminhar (Castro Fernandes, administrador do BNU), à sua chegada à então Metrópole, com vista a prosseguir os estudos universitários e arranjar emprego: “trouxe de Cabo Verde esta lembrança do meu tio António, o médico, seu amigo...”, recorda, rindo-se do próprio episódio.

Instalado na capital portuguesa, aqui se licenciou em Letras pela Universidade Clássica de Lisboa, áreas de Filosofia e História, além de cursos de Visualização Artística, na ARCO e de Animação Cultural, em França.

Foi numa das manhãs em que habitualmente passava pelo Palácio Foz, na baixa pombalina, local onde à época se tomava café e lia os jornais, que Nuno de Miranda se apercebeu da importância da sua poesia, através de um homem, que mais tarde soube ser o jornalista e crítico literário Luís Forjaz Trigueiros, que lhe terá perguntado: “Conhece Nuno de Miranda? É que desde 1945 que procuro saber dele, pois Maria Barroso (mulher do ex-presidente Mário Soares, naquela época declamadora) diz poemas dele!”. “Fiquei surpreendido ao saber que sou o primeiro poeta cabo-verdiano a ser declamado e disse: Sou eu!”.

E foi nesse deambular pelos centros de tertúlia da cidade que conheceu personalidades com relevância em diversas áreas do saber. E foi através do professor Almeida Lessa que chega ao professor Adriano Moreira e este o admitiu na Junta de Investigação Científica do Ultramar onde esteve entre 1958 a 1973.

Na sua sala de estar, de onde se avistam verdes campos de ténis, e onde passa grande parte do dia, pela melhor acessibilidade à musica e à televisão, são visíveis as fotos de família do casal. Dos seus ancestrais, lá está a sua mãe, Maria Amélia (em honra da Rainha D. Amélia), neta do seu bisavó originário de Loulé, Algarve.

Foi dela que herdou uma cultura pela qual sempre se sentiu fascinado. “Um dia, lá em S. Vicente, o Eduíno Brito Silva, chamou-me, aos gritos, para ver umas coisas que tinham chegado de barco... Fiquei deslumbrado quando ele me pôs a ouvir as fadistas Amália Rodrigues e Fernanda Baptista. “Decidi que queria viver em Lisboa...”, mas tinha apenas o sexto ano e para prosseguir os estudos universitários era preciso o sétimo ano, recorda o escritor, cuja força anímica o fez completar o grau necessário, em apenas quatro meses. E, quando pensava estar pronto para viajar para Lisboa, a família colocou-o no Banco Nacional Ultramarino, no Mindelo, em Cabo Verde.

Do seu pai, João Baptista, que veio para Lisboa aos nove anos para estudar e mais tarde foi para a Guiné, Nuno de Miranda guarda a herança crioula. “Vivíamos bem em Cabo Verde, mas o sonho era Lisboa e isso só foi conseguido, um tempo depois, mediante uma troca com outro funcionário”.

Com uma vida muito preenchida ao longo da história, ingressou na Direcção Geral de Comunicação Social como consultor em 1966, na qual, três anos depois, foi Chefe de Secção de Realizações Artísticas, lugar de grande satisfação por se relacionar com a arte através de congressos e exposições que organizava.

Em 1984 foi a Mindelo e Praia para apresentar a 1ª exposição de Gravura Portuguesa Contemporânea, em que pela primeira vez Cabo Verde pôde ver trabalhos de Júlio Pomar, António Quadros, Maria Keil, Nikias Skapinakis, Júlio Resende, Grechem Wohlwill, Sá Nogueira, Maria Velez, entre outros. Para assinalar o doutoramento Honoris Causa do então ex-presidente senegalês Léopold Sédar Senghor, na Universidade de Évora, organizou a exposição de Literatura afro-lusa.

Nuno de Miranda organizou colóquios com estudantes cabo-verdianos e lê-se no Boletim de Cabo Verde de Março de 1960 que “aproveitando a passagem por Lisboa a caminho de Angola do Dr. Júlio Monteiro, para assumir o cargo de Intendente Administrativo, Nuno Miranda fez reunir a 23 de Fevereiro desse ano, num dos anexos do centro de Estudos Políticos e Sociais (...) estudantes universitários e mais elementos da colónia cabo-verdiana, para serem informados de alguns aspectos da vida actual do Arquipélago”.

Jornalista na televisão e Emissora nacional, foi demitido de redactor do Telejornal (1973) tendo a PIDE (polícia política do regime de Salazar) posto um carimbo no despacho de demissão: “inconveniente o seu ingresso nos quadros”.

O poeta soube do “25 de Abril”, revolução que derrubou o regime ditatorial em 1974, quando vinha da sua casa em Cascais para o Palácio Foz, percurso que estranhou nessa manhã estar deserto. À sua chegada, num carro Mercedes, foi surpreendido com gritos chamando-lhe “fascista!”. Lá dentro foi informado pelo director de que tinha havido um golpe de estado.

Depois da designada “revolução dos cravos”, - pelos milhares de cravos vermelhos que circulavam de mão em mão, símbolo da liberdade - Nuno de Miranda foi chamado, em 1976, para o Conselho da Revolução, a convite de Almeida Santos para trabalhar com o capitão Sousa e Castro, que era na altura chefe dos serviços de extinção da PIDE, e em comissão de serviço, foi Chefe do Gabinete de Imprensa e do Protocolo até 1979. Reformou-se do Palácio Foz, de que era quadro da Direcção Geral de Comunicação Social, no início dos anos 90.

Nuno de Miranda nunca faltou ao trabalho e, de 1984 a 1989, obteve cada ano, como funcionário público, a qualificação de “Muito Bom”. Hoje continua apaixonado pela escrita.

No final de uma conversa pela tarde dentro, na Sexta-feira Santa, aceitando um chá preparado pela sua mulher, fiquei a saber que a filha Joana e o genro do casal, estavam a aprender crioulo. Achei curioso e exclamei: uma herança do pai, provavelmente! Fixei, nesse momento, o poeta e li-lhe aquiescência no brilho do seu olhar!

[3030] Ca tem tchave, ca tem jogue

Ultramarina de São Nicolau - Mindelense: jogo da liga cabo-verdiana não se realizou, porque ninguém apareceu para abrir portas do estádio
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Após as comemorações do Sanjom, em São Vicente, chave do estádio de São Nicolau surge espetada no solo da Rubera de Jiliom. Pensa-se que o porteiro esteve nos festejos e que após 16 grogues e uma sessão d'umbigada a deixou cair sem ter notado...