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sábado, 9 de maio de 2026

[7742] Falemos, enfim, do nosso amigo Valdemar Pereira, falecido a 8 de Março deste ano

Valdemar Pereira, longo colaborador do Pd'B (não se ficava pela observação do blogue, mas participava activamente nele), faleceu em Tours, França, a 8 de Março deste ano. O choque com a notícia não nos deixou divulgá-la aqui durante todo este tempo. Chegou hoje o dia de lembrar este grande cabo-verdiano que, embora muitos anos longe da sua terra (devido a passagens por Dakar, Tananarive, França, com breves deslocações a S. Vicente), nunca a esqueceu. A amizade que nos uniu fazia com que nos encontrássemos sempre que vinha a Portugal, em Lisboa e Almada. E recordamos o inesquecível dia da apresentação do seu livro sobre teatro "O teatro é uma paixão, a vida é uma emoção", na Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde (Carnide, Lisboa), juntamente com o nosso comum amigo coronel Adriano Miranda Lima, em que mais uma vez exibiu a sua enciclopédica memória. Um abraço, amigo Val, e até sempre!


sábado, 6 de janeiro de 2024

[7580] De Adriano Miranda Lima, um poema especial


EVOCAÇÃO DA PRAÇA ESTRELA

(Mindelo, S. Vicente de Cabo Verde)


Viajar à memória da antiga Praça estrela é varar o tempo

à procura de mantras que se dissolveram

mas que permanecem flutuando entre o vazio e o silêncio.

Oscilam entre a pulsão dos astros e os confins da mente,

representam épocas diferentes e exalam reminiscências 

da salsugem proveniente do campo da antiga salina 

onde se disputaram renhidos jogos de cricket entre

equipas de mindelenses e ingleses residentes.


Uma estrela deu-lhe o nome e quem sabe

o signo de libertar a alma do povo mindelense

e de vazar os desvarios ocasionais da gente anónima.

Bela no seu exotismo, tem a sedução da maresia,

o dilecto perfume que a brisa lhe esparge

sobre as palmeiras e acácias da sua vaidade.

Aqui chego precisamente à hora do sol poente,

quando o rebuliço da cidade começa a abrandar.


Os Sokols desfilaram há pouco nas imediações,

perfumando a cidade com a pompa dos seus ideais.

No ar paira ainda a estridência dos seus clarins 

Que espalharam vibrações de alma 

no deserto de fortuna onde florescem utopias. 

A maré começara a vazar nas praias vizinhas

onde os botes repousam o seu cansaço

na ânsia de um chamamento longínquo.


O veludo da noite é cada vez mais espesso 

e nele mergulham fundo os meus sentidos.

Sou refém de uma vertigem indecisa,

animado de urgência para sondar o invisível

e encontrar o veio de luz que tudo trespassa.

O rumor da cidade é um eco já em cadência esmorecida

que doravante só é audível no interior de búzios inertes

espalhados pela ourela do mar e suas proximidades. 


Sinto palpitar ansiosamente o coração da noite, 

que se predispõe a todas as fulgurações da fantasia.

Ouço a espaços gemidos de rabeca sulcando o ar, 

que o vento sacode em perdulária diversão,

como que despeitado pelo virtuosismo alheio.

Há notícias de um baile do clube Amarante,

e para lá caminham raparigas de língua de prata

e saia plissada agitando-se ao sabor da brisa.


Nada surpreende ou frusta a expectativa

de quem percorre os meandros da noite.

Homem embriagado dialoga com a sua sombra 

num esforço inútil para espantar a sua solidão.

Pouca atenção merece de dois namorados 

colados à penumbra de um banco de jardim

sob o olhar cúmplice da lua feiticeira,

testemunha solitária das suas almas cativas.


Na Praça Estrela a noite adormece mas não dorme,

e nela há recantos para todos os devaneios.

Sabem-no os marinheiros que esperam pelas marés

em botequins forrados de recolhimento.

O grogue e a moreia frita estimulam o seu ânimo

e à luz mortiça as suas vozes diluem-se em burburinho. 

Os seus pensamentos vogam na crista das ondas

em demanda de um porto feliz na terralonge.


Um galo da vizinhança acaba de cantar. 

As pontas de cigarro começam a empalidecer 

e já não são os minúsculos faróis das rotas vadias. 

Os gongons da minha meninice esfumam-se 

e são levados sorrateiramente pela brisa do mar 

ficando-me o hálito frio e assustador da sua presença. 

O apito de um vapor quebra bruscamente o meu pasmo 

e a aurora exorciza finalmente o sortilégio da Praça. 


Vultos difusos de trabalhadores do carvão 

atravessam a agora a praça em movimento furtivo,

mal se distinguindo nas suas vestes enfarruscadas.

Nas suas marmitas é avaro o alimento do dia

mas é onde sobra o alento para outras madrugadas.

As estrelas começam a desmaiar no seu leito celestial

despedindo-se com promessa de voltar a incendiar 

o silêncio e sondar os abismos da alma humana.


As sombras extinguiram-se aos primeiros alvores

e tudo em redor retoma o seu contorno real.

O que fora flutuação vaporosa diluída em meia-luz 

transmuda-se agora em figura nítida

das cenas diurnas da hora solar.

Rumores vindos do porto e das ruas próximas 

repercutem-se agora por inteiro no coração da praça

e engrossam a corrente viva do quotidiano.


É hora de me despedir. Faço-o com a nostalgia 

do viajante que deixa o coração ancorado em cada lugar.

A Praça Estrela regurgitou a emoção da noite anterior   

e está de regresso à sua perene realidade. 

É seu destino ser palco de comédias e paixões, 

nem que seja por um breve instante de devaneio. 

Levo no íntimo a emoção da noite estonteante,

filha de uma estrela esculpida na alma do povo. 




segunda-feira, 10 de julho de 2023

[7508] Um conto tomarense do nosso amigo cabo-verdiano (e comentador militante do Pd'B) Adriano Miranda Lima

Joana e o seu tabuleiro 

Adriano Miranda Lima


De repente, a Joana, sabe-se lá porquê, sentiu um profundo remorso por sempre se ter recusado a participar com o marido, Alberto, no desfile da Festa dos Tabuleiros, incorporando a representação da sua freguesia. Esta sensação incómoda começou a assaltá-la quando faltava pouco mais de um ano para a próxima festa. Mas agora era tarde, porque enviuvara há três anos. 

− É como a saúde ou outras coisas boas da vida. Só damos pela sua importância quando deixamos de as ter. Ah, como teria dado os meus últimos anos de vida para ir levar um tabuleiro com o meu Alberto! – pensou ela com os seus botões. 

No dia seguinte, a regar a horta nas traseiras da sua casinha dos arredores da cidade, tomou repentinamente uma firme resolução: − Desta vez, vou, sim senhora, levar um tabuleiro. Custe o que custar. É assunto da minha inteira conta e não preciso comunicar à freguesia. Par já tenho. E vou construir o tabuleiro com os produtos da minha própria lavra.

E assim decidiu semear o próprio trigo com que cozeria os 30 pães no forno do seu quintal. As canas para enfiar os pães iria colhê-las junto ao ribeiro e o vime para a confecção do cesto, base do tabuleiro, também não era problema nenhum. Ela própria construiria o cesto com as suas mãos, assim como arranjaria o metal para moldar a Coroa com a Cruz de Cristo. As flores iria colhê-las, claro, no seu pequeno canteiro do quintal. Teria apenas de se preparar convenientemente e passar decididamente à obra.

Joana não teve dificuldades em aprontar os elementos necessários para o seu tabuleiro. Igualmente, nada lhe custou a sua confecção, tendo sido a tarefa mais meticulosa, a que emprestou especial desvelo, o bordado do pano de linho com que ia cobrir o cesto de vime. Como manda a tradição, o tabuleiro foi montado para que medisse exactamente a sua altura, 1, 65 metros. Faltava costurar o traje, composto pela blusa, a saia comprida e os respectivos enfeites, mas a seu tempo disso se encarregou com as próprias mãos na sua velha máquina Singer. 

Com tudo preparado, em inícios de Junho, começou os ensaios nas imediações da sua casa, normalmente ao fim da tarde, fazendo pequenos percursos com o tabuleiro à cabeça, entre as poucas casas próximas. Intrigados, os vizinhos observavam de longe os ensaios, porque ninguém ignorava que a Joana sempre se mostrara avessa a participar no cortejo com o marido, talvez por não se sentir fisicamente capaz ou por simples timidez… sabe-se lá? Agora que as pernas já lhe pesam aos seus 60 anos é que se vai meter num empreendimento deste? E depois quem seria o seu par? Ninguém sabe, porque se a Joana foi sempre senhora do seu nariz, passou a isolar-se muito depois da morte do Alberto. Estas eram as interrogações silenciosas dos vizinhos, que, no entanto, foram acompanhando com crescente curiosidade as deambulações diárias da Joana por entre as casas. O par que ela tinha em mente para o desfile é que era uma verdadeira incógnita.

Chegou o Dia dos Tabuleiros. Estava um dia normal de Julho, quente e luminoso, mas com uma leve brisa a amenizar de quando em quando a temperatura do ar. Os tabuleiros da freguesia tinham sido na véspera transportados para o espaço habitual da sua concentração – a Mata dos Sete Montes – de onde sai o cortejo. Mas não há notícia de o tabuleiro da Joana ter ido integrado no conjunto, porque nem mesmo o presidente da junta de freguesia teve conhecimento das suas intenções, embora lhe tenham chegado uns rumores aos ouvidos. Por isso, a seguir à hora do almoço, olhos curiosos foram às janelas espreitar quando viram passar uma pequena carrinha de caixa aberta com o tabuleiro da Joana e esta no banco ao lado do condutor, que logo se desconfiou pudesse ser o par masculino.

À hora prevista, o estalejar dos foguetes e as bandas de música anunciaram a saída do cortejo da Mata dos Sete Montes. As avenidas e as ruas estavam pejadas das multidões de centenas de milhares de visitantes que encheram a cidade. O longo cortejo de tabuleiros, com as representações das freguesias e os seus pendões, foi escoando gradualmente ao som da música das várias bandas, sob os aplausos vibrantes das multidões.

Passaram os tabuleiros de todas as freguesias, e no fim do respectivo cortejo, a cerca de dez metros de distância, surpreendentemente, desfilava uma senhora já de certa idade com um tabuleiro à cabeça, sozinha, sem par. Os assistentes olhavam-na com especial curiosidade e não faltou quem sentisse o impulso natural de avançar para a ajudar, ao aperceber-se de que ela não levava o habitual par. O gesto voluntário iria contra o protocolo do desfile, mas seria uma ajuda, nem que fosse por alguns metros de percurso. De resto, era visível que ela já não tinha o vigor físico do comum das raparigas que desfilavam mais à frente. De súbito, alguém a deve ter identificado, porque entre os assistentes junto à Ponte Nova se ouviu gritar, em meio a aplausos sonoros que logo se multiplicaram: − Joana!!! Joana!!! Mas esta, se ouviu, não teve qualquer reacção ou não se deu por isso. 

Apesar da sua notória dificuldade em cumprir a promessa solene que fizera a si mesma, a Joana, com o rosto perlado de suor e as pernas parecendo por vezes quererem vacilar, lá foi desfilando com o seu tabuleiro ao longo das ruas e avenidas, enigmática figura aparentemente autonomizada no gigantesco cortejo. Bem ela jurara a si própria que haveria de desfilar por conta própria. 

O cortejo chegou finalmente ao seu termo, com os conjuntos dos tabuleiros das freguesias recolhendo às suas zonas de reunião para a posterior desconcentração.

Só que a Joana não interrompeu o seu percurso, porque ela o idealizara intérmino e sagrado, como algo imerso no espaço e para lá do tempo. Continuou a caminhar, em passo lento, mas resoluto, rumando em direcção ao sol poente. O tabuleiro já não lhe pesava e as pernas se lhe tornaram penas de ave. Alguém caminhava silenciosamente ao seu lado e ambos levitavam sobre uma estrada de luz.

 (O autor escreve de acordo com a antiga ortografia) 

Tomar, 25 de Junho de 2023

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

[7230] Faleceu ontem Arsénio de Pina, médico pediatra, escritor e interventor social cabo-verdiano

Soubemos hoje, através de amigos e ex-condiscípulos do Liceu Gil Eanes (má notícia corroborada pelo Adriano Lima) da morte do nosso amigo Arsénio de Pina, médico pediatra, escritor, interventor social e colega colunista no jornal "Terra Nova", também algumas vezes comentador do Pd'B. A sua interessante (e importante) história pessoal e profissional está a ser amplamente divulgada na imprensa cabo-verdiana, pelo que nos abstemos de aqui a repetir. Limitamo-nos a divulgar algumas fotos nossas, feitas no dia do lançamento do livro "Crónicas da Terra Longe", do Luiz Silva, em Lisboa (24.Junho.2015). Juntamente com o José Fortes Lopes, Arsénio foi um dos apresentadores da obra. À família e a todos os amigos, os sentidos pêsames do Pd'B, pela perda desta grande figura da cabo-verdianidade.

Na imprensa, Ver AQUI e AQUI

Arsénio de Pina no Pd'B, AQUI e AQUI (há outras colaborações de Arsénio de Pina no Pd'B)

Com o cientista da área da oceanografia José Fortes Lopes - Foto Joaquim Saial
Com o sociólogo Luiz Silva - Foto Joaquim Saial
Foto Joaquim Saial

terça-feira, 13 de setembro de 2022

[7168] Espectáculo encerrou com mornas e declamação de poemas de autores cabo-verdianos (estes, por Regina Correia), que é o mesmo que dizer que fechou com chave de ouro (ver três posts anteriores)

Correspondendo ao comentário do nosso comentador-mor Adriano Lima, aqui vai um poema da Regina Correia, publicado no livro "Literatura e Cultura em Tempos de Pandemia" (ed. UCCLA, Fev. 2021), onde também surgem Germano Almeida, José Luiz Tavares, José Luís Hopffer Almada, Lídia Jorge, Manuel Alegre e Joaquim Saial, entre muitos outros luso-falantes.


MÁSCARAS

Espera-se pouco do miolo que, de
si mesmo cria o vazio vivo da
máscara no centro dos pesadelos,
na vibração dos signos alterados.

Já nada golpeia os laços frouxos
da contemplação. Recentra-se a maré
no tempo que tudo leva. Quem corre
para os arcos detrás dos condenados?

Mais tarde, frente ao sol, novas máscaras.
Um pássaro renova canto e margens
sobre os frutos que emergem minerais.

Diante nas cicatrizes na pedra
sem máscara sucumbe o antílope
ao golpe pleno dos pontos cardeais.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

[5958] Se o blogue fez onze anos e se chama "Praia de Bote"...

Ora tendo feito o blogue onze anos e chamando-se "Praia de Bote", parece-nos que a melhor maneira de o recomeçarmos será com um poema alusivo, desenterrado no blogue irmão "Arrozcatum" do saudoso Zito Azevedo, da autoria do indefectível "praiabotense" Adriano Miranda Lima. E sai com fotos de outro amigo nosso, o José Carlos Marques, condiscípulo do Gil Eanes, que regressou a São Vicente em 2010 para matar as profundas saudades habituais de quem bebeu a água de Vascónia ou do Madeiral... 

Foto José Carlos Marques


REPOUSO DOS BOTES


Os botes são os restos postergados

Da faina tumultuosa de outros tempos.

Sobram, avulsos, ensimesmados,

Na vasta enseada materna

Onde encalham sonhos.

Uns, insepultos, não desesperam

De uma anunciada ressurreição.

Outros, mais desatinados contra o destino,

Aguardam o som do apito longínquo,

Já refeitos do eco enganoso do mar,

Para rumarem ao costado da fortuna.

O lume que alimenta seu sonho

Crepita entre destroços queimados

Da resignação da última espera.


Adriano Miranda Lima

Foto José Carlos Marques



terça-feira, 21 de setembro de 2021

[5401] Janeiro de 1933, um dos grandes explicadores do Mindelo

Esta é uma oferta para o Adriano Lima (já publicada no post 4035, mas nunca é demasiado recordar a figura de que aqui de novo falamos), tal como eu explicando de Ti Fefa, Alfredo da Silva Brito (não confundir com Ti Fefa carpinteiro-marceneiro-músico) - eu em 1962/63, o Adriano algo antes. Ti Fefa foi uma figura de grande prestígio na área da educação mindelense e dele já falámos aqui por várias vezes com grande respeito e admiração. Home de Bubista, dele recebi utilíssimos ensinamentos de Português e Matemática (e oportunas varadas disciplinadoras com as varinhas que trazia da terra natal) no pátio do Sindicato dos Marítimos, em finais de tarde, terminadas as ocupações profissionais que o mestre ali desempenhava. Verifiquei entretanto que antes exerceu o mester explicativo na Rua do Sol, no Lombo - rua onde o Djack fez a sua quarta classe com D. Mariazinha Brito, santantonense, não menos competente (há poucos anos falecida) numa escolinha de fim de rua, à beira da vasta esplanada de terra batida que de um lado terminava no muro direito da avenida do Hospital (quando para ele se ia). Oh que sôdade!...



domingo, 19 de setembro de 2021

[5384] Praia de Bote oferece dois bilhetes no "Marion L. Conrad", de Soncente para a Mérca: um, ao marujo frustrado Adriano Lima (e pastilhas para o enjoo); outro, ao vice-cônsul Valdemar que irá como grumete

Veja-se o percurso da coisa: o anúncio saído num jornal de Cabo Verde em Março de 1932 e depois o anúncio num jornal americano de língua portuguesa, em Julho do mesmo ano. Nesse meio tempo, o apelido do capitão passou de Almada (o verdadeiro) para Almeida (falso). Repare-se também na boa rede de representantes da empresa nas ilhas. E atente-se naquele "muito veleiro"... No segundo caso, o nome do navio também levou com a ablação do "L."... Quem conta um conto, aumenta-lhe (ou troca-lhe, ou trunca-lhe) um ponto...



Sobre o capton Júlio Almada, ver biografia no blogue amigo "Esquina do Tempo", AQUI

Júlio Almada, foto "Esquina do Tempo"

O marujo Adriano, dez minutos depois de embarcar












Garçon de cabine Valdemar, en formation intensive dans le jardin de sa résidence, à l'aide du kit de navigation acheté au Centre E. Leclerc de Tours.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

[5286] Uma memória de Henrique Teixeira de Sousa

Já que o nosso amigo e comentador-mor Adriano Lima falou num comentário ao post anterior em Teixeira de Sousa, aqui fica uma memória do sempre estimado clínico, autarca e autor.

sábado, 10 de julho de 2021

[5001] Continuar o caminho...



10 anos e 5000 posts sobre Cabo Verde, São Vicente e o Mindelo. Não conhecemos caso semelhante (em simultânea longevidade e quantidade de produção). Se ele existir, que no-lo mostrem, para felicitarmos o digno autor.

10 anos e 5000 posts independentes, de tal modo independentes que nunca houve uma palavra de agradecimento oficial - o que obviamente é muito bom e assim deve continuar a ser. Continuem pois a abster-se, os da oficialidade, que nós é que agradecemos.

10 anos e 5000 posts que têm não só a nossa inevitável marca como a de alguns amigos em que é de justiça salientar Adriano Miranda Lima, pela sua persistência de comentador que muito tem engrandecido o blogue. Dos 12.900 comentários feitos nesta década, muitos são nossos, mas muitos (mesmo muitos) mais são dele. Um braça de ratchá osse, Didi.

10 anos e 5000 posts e mais de 621.000 visitas, em que só lamentamos que a maior parte dos que aqui vêm coscuvilhar não deixe sinal, com um mero comentário. Mas percebe-se: no Praia de Bote não há sangue para os vampiros... Se um dia aqui surgisse um post do género "O ministro Djosa Nhelas Évora Semedo Lima deu uma sova na bisavó", choveriam os comentários. Mas, felizmente, é claro que isso não sucederá...

10 anos e 5000 posts que têm servido para divulgar acontecimentos, cultura e história das ilhas que estimamos. E assim continuará a ser.

sábado, 1 de maio de 2021

[4887] Um longo mas importante texto de Adriano Miranda Lima sobre Onésimo Silveira

É da essência dos blogues viverem de textos curtos, para leitura rápida, de preferência acompanhados de imagem/s. Mas há excepções e o presente texto é uma delas. Pela qualidade do autor, Adriano Miranda Lima, e pelo extremo interesse e oportunidade do motivo. Aqui fica ele, portanto, dez anos depois da publicação inicial, em Cabo Verde.

AS BANDEIRAS DE ONÉSIMO SILVEIRA

Ao olhar para a fotografia do palanque do comício eleitoral do Partido do Trabalho e da Solidariedade (PTS), a imagem transmitiu-me a sensação daqueles dias em que o vento agreste fustiga o corpo e endromina o prazer das noites olorosas de Mindelo. Pode ser uma simples impressão minha, só porque corria o mês de Fevereiro, propício a vento e “bruma seca”. 

Onésimo Silveira falava para os adeptos da sua causa, tentando explicar-lhes, com a sua natural veia discursiva, que S. Vicente se perdera na curva assimétrica do destino das ilhas. Postergado pelas políticas dos homens, desviado das rotas antigas, macerado na sua identidade cultural. O extracto sucinto da reportagem jornalística, que me era presente, referia as linhas de força do seu verbo, mas ao jornalista talvez tenha escapado algo de simultaneamente romântico e espectral naquela imagem fotográfica captada na poalha da noite. Provinha talvez das longas barbas brancas do veterano da política, que, só por si, infundiam a magia hipnótica do seu instinto. Convenci-me de que, como sempre, ele estaria ali a jogar com a letra perfeita do léxico de uma arte refinada por muitos anos de caminhada pelos trilhos da política. 

O público ali presente encontraria, ou não, motivos de encantamento nas palavras do político-poeta, ou do poeta-político. Porque a política só ganha se na poesia colher o aroma balsâmico para a aspereza, a agressividade e a incontinência verbal. Mas Silveira deve ter feito a mediação certa entre o lirismo e a retórica política para afinar o tom e o modo na sua crítica a quem achava responsável pelo estado actual da sua ilha. Fiel ao seu passado, e fiando no seu faro político, arvorava a bandeira do inconformismo que o caracteriza, espetando-a no chão das suas sínteses estratégicas. O tempo viria a dizer se ele foi ou não convincente, do alto do púlpito em que fez uso da palavra. 

Mas quem é este veterano da política cabo-verdiana, este homem de barba mefistofélica, que nos faz olhar para a política não apenas como um imperativo cívico mas também como uma romântica aventura humana? Não tenho nem nunca tive qualquer relação pessoal com o Onésimo Silveira, mas, como ele pertence àquela estirpe de seres que saltam facilmente para a luz, conheço-o como todo o cabo-verdiano que se preze, tendo acompanhado os passos mais marcantes do seu percurso. Contudo, a memória pessoal mais impressiva que dele guardo recua a tempos muito antigos, naquela idade em que as meninges infantis recortam e guardam para sempre o que mais impressiona. Era eu ainda menino de escola primária e ele estaria nos últimos anos do liceu. Passava diariamente na minha rua, no trajecto entre a casa e o liceu Gil Eanes, e recordo perfeitamente que o Onésimo despertava nos rapazes mais novos uma curiosidade reverencial, pelo seu ar resoluto e desafiador. Aliás, a personalidade forte e o espírito determinado viriam a determinar o rumo que cedo deu à vida. É assim que, decididamente, deixa Cabo Verde e acaba por rumar à Suécia, onde se licencia, não tardando a ganhar notoriedade como poeta, intelectual e opositor à política colonial, com ligação ao PAIGC. Cerca de 10 títulos literários, entre poesia, conto e prosa do género ensaístico, atestam o vigor da sua cultura. O exercício de um alto cargo na ONU e, posteriormente, como embaixador de Cabo Verde em Portugal, provaram a sua capacidade diplomática e política. Nestas últimas funções, encontraria terreno de eleição para arvorar uma importante bandeira, talvez das que lhe são mais queridas – a da solidariedade humana.

Como quase toda a figura pública, Onésimo tem um lado complexo e controverso da sua personalidade, e não faltará quem lhe aponte defeitos, em meio aos atributos que o exornam como ser humano e como político. Mas o amor à terra natal é seguramente um profundo estado de alma que se lhe tem de reconhecer e enaltecer. Outro teria feito render o mais possível o prestigiante e dourado cargo na ONU. Ele preferiu regressar para participar activamente na política do seu país, e se bem o pensou melhor o fez, criando um movimento político com o qual ganha as eleições autárquicas, passando a ser Presidente da Câmara Municipal de S. Vicente, em dois mandatos consecutivos. 

Pela sua acção como edil, é unanimemente reconhecido como o obreiro da transformação de Mindelo no pós-independência. Realce-se, com efeito, a coragem com que quebrou rotinas pastosas na acção administrativa e fez avançar o progresso urbano da cidade, derrubando, ao mesmo tempo, tabus e preconceitos introduzidos pela sanha revolucionária que ameaçava adulterar e desfeitear a história da cidade. Estátuas de tempos idos que haviam sido desmontadas foram recolocadas nos seus pedestais. Impediu-se assim o sacrilégio de atentar contra o imortal Camões ou figuras como o ilustre estadista e humanista Sá da Bandeira, amigo de Cabo Verde. Ruas que haviam sido violentadas na sua identidade toponímica foram recuperadas para a veracidade histórica, e outras passaram a consagrar nomes de figuras da terra. Esta reposição de valores e princípios que preservam a identidade, só está ao alcance de quem ousa influenciar os acontecimentos, mesmo arrostando o desconforto de reacções adversas. Não fosse a sua acção determinada, a memória da cidade não se teria ressarcido dos excessos de alguns pseudo-revolucionários na sua ânsia de acerto de contas com o passado. A urbe fica a dever-lhe esta grandiosa bandeira, a da sua identidade resgatada, que deve permanecer hasteada no seu mais alto torreão.

Mais recentemente, Onésimo reapareceu em cena para defender o património histórico-cultural da sua cidade natal, ameaçado pela inoperância da actual Autarquia e pelo desamparo do Governo central. Os resultados ficaram, infelizmente, muito aquém da militância cívica que ele e outros cidadãos de vários quadrantes sociais entenderam protagonizar, mas nessa mesma forja fundiu o aço para a batalha seguinte, a do pleito legislativo, que é onde o surpreendo no cimo do palanque. 

Naquela noite eleitoral de Fevereiro, o veterano e incansável Onésimo Silveira “subiu à cruz à frente do seu partido” (1), exangue e de mãos vazias, mas certamente temerário e confiante como sempre, e “o povo acabou por crucificá-lo” (1). Porém, para o alto da cruz levou consigo a bandeira da regionalização, e ali a deixou hasteada. Tremulando no próprio assombro. 

As expectativas estão abertas, enquanto ele acumula cicatrizes dos recontros a que não se furta. Porque Onésimo nunca desiste de se bater pela perpetuação do possível, mesmo que a relação ambígua entre a efemeridade humana e a perenidade dos sonhos seja por vezes perniciosa para os cálculos mais ousados. Uma coisa que o deve, no entanto, entristecer é o silêncio de pedra que parece actualmente nimbar a sociedade civil da sua ilha, cristalizando um vidro espesso e opaco que não facilita a auscultação das vontades nem reflecte as antigas reminiscências. Tão intrigante é esta realidade como tão evidente é estarmos a pisar um terreno que reclama a charrua cívica deste intelectual talhado para brandir a palavra e encorajar ao arrebatamento de ânimo.

Seja o que o futuro próximo nos reserva, Onésimo Silveira, com o seu instinto e a sua resiliência, sabe que a fiança tutelar da sua ilha natal nunca lhe será revogada, inclinem-se por onde se inclinarem os ponteiros dos barómetros, sempre sensíveis a ventos e marés. 

Inúmeras são as bandeiras das suas pelejas, umas esfarrapadas e postadas em peanhas alinhadas na sua memória, outras incólumes ainda no tecido da sua heráldica, prontas para novas batalhas. Este cidadão não arruma as armas, e nenhum povo, nenhuma pátria, pode licenciar um guerreiro deste calibre. Sobretudo, a ilha de S. Vicente.

(1) Depoimento de Onésimo Silveira em entrevista ao jornal “A Semana”, publicada em 20/02/11, com o título “Só me retirarei da política com a minha morte biológica”.

Tomar, 16 de Março de 2011

Adriano Miranda Lima

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

[4648] Um livro de Adriano Lima que todos os cabo-verdianos deveriam ter: um padóce de stóra de Portugal e de Cabverde djunte


Estimados amigos,

O livro em título, da minha autoria (edição de autor), foi lançado em S. Vicente e tê-lo-ia sido também na Praia se a Covid-19 não nos tivesse trocado as voltas. Pelo mesmo constrangimento, não se prevê, por enquanto, qualquer lançamento em Portugal. O livro conta a história das Forças Militares metropolitanas em Cabo Verde, durante o período da II Guerra Mundial, descrevendo a actividade militar desenvolvida e a interacção social das tropas com as populações.

O livro tem 240 páginas e a sua capa é a que aqui se mostra.

Para a sua aquisição, basta contactar-me por este meio que accionarei de imediato o seu envio por correio, pelo endereço postal indicado pelo interessado. O preço em Portugal é de 12 euros, portes postais incluídos. Para fora de Portugal é de 14 euros, portes postais incluídos. 

O pagamento será por transferência bancária para a seguinte conta da Caixa Geral de Depósitos:   

003502630000193140059

Porém, os residentes em Cabo Verde  que o queiram adquirir localmente  (preço de 1000 escudos cv) poderão fazê-lo por qualquer das seguintes formas:

- Contactando directamente o meu primo José Carlos Soulé (telefone 002389915472);

- No Centro Cultural do Mindelo;

- Na livraria Terra Nova, Mindelo;

- Nas livrarias "Eugénio Tavares" e "Neves Solutions", ambas na Achada de Santo António, Praia;

- Na Biblioteca Nacional de Cabo Verde, Praia.

Um abraço amigo

Adriano Lima

segunda-feira, 6 de julho de 2020

[4636] O funeral do Totói, antigo craque do Mindelense e velha glória do União de Tomar, visto por Adriano Miranda Lima

Praia de Bote agradece ao amigo Adriano Miranda Lima este texto sobre uma figura estimável dos nossos dois países que mesmo na morte é mais um motivo para nos unir.

Totói - Foto Rádio Hertz - Tomar (pormenor)
Tendo falecido na noite do passado dia 3 de Julho, aos 81 anos, foi hoje [5 de Julho de 2020] a enterrar o jogador Totói, de seu nome oficial António Eduardo Fortes, antigo craque do Mindelense e velha glória do União de Tomar.

O corpo esteve esta manhã em câmara ardente na Igreja de Santa Maria do Olival, onde foi celebrada missa, com a presença de centenas de tomarenses, dentro e fora do templo, antes do longo cortejo fúnebre que iria organizar-se em direcção ao cemitério local, em Marmelais, arredores da cidade. A cidade não olhou para o intenso calor e esteve significativamente representada na hora do adeus ao seu ídolo.

O pároco foi de exemplar eloquência na exaltação das qualidades humanas, morais e cívicas do falecido, assim como do precioso legado que deixa à cidade como futebolista e como técnico dos vários escalões e camadas de formação do clube local. Interpretando o sentimento geral da cidade, foi de particular veemência na descrição das virtudes do Totói como ser humano, destacando a sua grande capacidade de relacionamento e a simpatia e naturalidade com que tratava toda a gente, independentemente da idade e condição social. Aliás, bastava olhar para os semblantes carregado de quantos assistiram às exéquias fúnebres, para se perceber que o sacerdote não falava em vão.

Durante o acto religioso, a filha mais velha usou da palavra de forma emotiva, recordando o pai extremoso e o dedicado chefe de família, dizendo que até ao fim da sua existência ele será sempre o seu fiel guia, inspirador e companheiro.

O cortejo fúnebre entre a Igreja e o Cemitério levou à frente uma comitiva do União de Tomar, com representação dos vários escalões do clube. O curioso foi ter-se visto, logo no início do percurso, uma camisola da Selecção de Futebol de Cabo Verde aberta e pendurada numa haste ladeando a estrada. Pareceu-me um gesto anónimo, pois não vi que alguém estivesse identificado com a iniciativa, mas interpretei-o como querendo sinalizar que o Totói era um homem de coração grande e ancorado em todos os lugares. De facto, acredito que até ao fim da vida ele nunca deixou de ser um mindelense autêntico, do mesmo modo que soube ser um tomarense dedicado e comunitariamente envolvido e comprometido. A popularidade de que gozava não era produto de qualquer artifício publicitário, resultava simplesmente da sua forma natural e autêntica de ser e de se dar.

No funeral, estiveram presentes, entre outros nomes ligados ao Futebol, o treinador Manuel José, seu compadre e antigo colega no União de Tomar, e também o actual técnico do clube Santa Clara, João Henriques, natural de Tomar. 

Uma imagem que guardarei sempre do Totói reporta-se ao já longínquo ano 1965, quando, numa noite dos princípios de Novembro, pela primeira vez o vi em Tomar, sem, no entanto, ainda o conhecer pessoalmente. Ia na rua Infantaria 15, impecavelmente vestido, trajando um elegante fato e sobretudo. Naquele tempo, havia certo primor com a indumentária. Entretanto, saí de Tomar, com destino a Angola, e só alguns anos volvidos regressaria à cidade, estabelecendo então com ele uma grande amizade, fomentada naturalmente pela nossa dupla condição de mindelenses e adeptos fervorosos do futebol. 

Descansa em paz, Amigo Totói. E até sempre!

Tomar, 5 de Julho de 2020
Adriano Miranda Lima

segunda-feira, 23 de março de 2020

[4537] Uma grande antologia de música cabo-verdiana que reproduzimos de novo no Pd'B (com adendas)



No post 4518 (ver AQUI) reproduzimo este CD duplo (43 músicas no original), apenas com o intuito de mostrarmos este trabalho de muita qualidade, excelente antologia da música cabo-verdiana - que, como todas as antologias, é discutível em termos de escolhas. De qualquer modo, para nós é um grande disco que já ouvimos dezenas de vezes do princípio ao fim.

Entretanto, o nosso amigo Carlos Gonçalves colocou nesse post o seguinte comentário que desde já agradecemos:

Ao Djack e ao Adriano Lima: esta antologia é um trabalho meu, escolha musical e texto, uma encomenda da Ariel de Bigault, produtora francesa que realizou o projecto para a ed. Buda Musique. O projecto destinou-se a dar a conhecer a música cabo-verdiana em França e não só, no momento em que se lançava a Cesária Évora… ano de 1993... Ao Adriano, que não deve lembra-se de mim, sou filho do Naldinho Gonçalves (pianista) fui criado pelos meus tios Roque Gonçalves e Julieta, esta amiga da Francelina e da D. Canja Miranda, tudo pessoas que conheci e muito bem... um abraço a todos.

Como o Calú merece, não podemos deixar de reproduzir o seu texto patente no booklet do CD que temos na nossa discoteca cabo-verdiana desde que ele saiu em Portugal, no início dos anos 90. A quem não conseguir lê-lo, por achar as letras demasiado pequenas, sugerimos que faça o download das imagens e que leia depois no seu computador com a ampliação que desejar.

Terminamos com um braça pertóde para o nosso amigo e condiscípulo do Liceu Gil Eanes, com votos de realização de muitas mais tarefas tão boas como esta.