A apresentar mensagens correspondentes à consulta arsénio de pina ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta arsénio de pina ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

[7230] Faleceu ontem Arsénio de Pina, médico pediatra, escritor e interventor social cabo-verdiano

Soubemos hoje, através de amigos e ex-condiscípulos do Liceu Gil Eanes (má notícia corroborada pelo Adriano Lima) da morte do nosso amigo Arsénio de Pina, médico pediatra, escritor, interventor social e colega colunista no jornal "Terra Nova", também algumas vezes comentador do Pd'B. A sua interessante (e importante) história pessoal e profissional está a ser amplamente divulgada na imprensa cabo-verdiana, pelo que nos abstemos de aqui a repetir. Limitamo-nos a divulgar algumas fotos nossas, feitas no dia do lançamento do livro "Crónicas da Terra Longe", do Luiz Silva, em Lisboa (24.Junho.2015). Juntamente com o José Fortes Lopes, Arsénio foi um dos apresentadores da obra. À família e a todos os amigos, os sentidos pêsames do Pd'B, pela perda desta grande figura da cabo-verdianidade.

Na imprensa, Ver AQUI e AQUI

Arsénio de Pina no Pd'B, AQUI e AQUI (há outras colaborações de Arsénio de Pina no Pd'B)

Com o cientista da área da oceanografia José Fortes Lopes - Foto Joaquim Saial
Com o sociólogo Luiz Silva - Foto Joaquim Saial
Foto Joaquim Saial

sexta-feira, 6 de maio de 2022

[6679] Caetano Veloso, em "Língua" (ver post seguinte)

Ontem, 5 de Maio, foi o Dia da Língua Portuguesa. Com o "dono" em escrita obrigatória de jornais e revistas e em exposição de amigo na Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Almada, não houve tempo para tudo. Ora a pedido "et pour cause" do nosso amigo Arsénio de Pina, aqui fica o Caetano a linguajar portuguesmente, cantando.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

[5375] Misterioso poema de Gabriel Mariano, que Arsénio de Pina quer saber se chegou a ser publicado

Gabriel Mariano

Segundo o nosso amigo Arsénio de Pina, o poema abaixo é garantidamente de Gabriel Mariano, mas ele nunca o viu publicado em livros desse autor (e o Ad'P tem vários). Aqui o Pd'B também possui dois, sendo que um é de prosa ("O rapaz doente") e o outro, "Capitão Ambrósio" é um longo poema, mas estes versos não constam lá. O Arsénio que explique melhor a dúvida que tem.

             Por árvores, braços erguidos

             por ribeiras, o choro

             e era a planície bebendo

             o sangue morno do povo


              Massacrado povo,

              espezinhado povo,

              retorcido povo.


              A paz virá um dia

              cadenciar os passos.

              Borboleta, voa.

sábado, 14 de agosto de 2021

[5168] Mais uma "stóra", contada por Arsénio de Pina

O cabo-verdiano sempre apreciou a língua de Camões, Padre António Vieira e Fernando Pessoa. Para isso contribuiu o famoso Seminário-Liceu de S. Nicolau, do século XIX, estupidamente encerrado pelo anticlericalismo da 1.ª república portuguesa. Formou muita gente que dominava o português, dada a exigência mitológica dos seus mestres nessa disciplina, como afirmou o Dr. Baltazar Lopes da Silva numa entrevista. Esses formandos do seminário-liceu encarregaram-se de ensinar e espalhar o português bem falado pelas ilhas como professores e funcionários públicos, dado que, nessa altura, não havia bolsas de estudo e bem poucos tinham meios para prosseguir os estudos em Portugal.

Com o desaparecimento da geração que frequentou o seminário-liceu, sobretudo com a independência, a língua portuguesa tropicalizou-se, não como dizia o sociólogo Gilberto Freire, numa vertente luso-tropicalista mas antes de cafro-lusitanismo (de cafre, como se chamavam os negros antigamente) com exagero na nossa identidade, que se pretende exclusivamente africana, sem nem dar o benefício de dúvida de todo o negro cabo-verdiano ter genes europeus.

Houve um parente meu por afinidade conjugal de um tio bisavô que se fixou em Santo Antão, que, não podendo frequentar o seminário-liceu de S. Nicolau, fez questão de qualificar todos os filhos, pelo seu gosto pela educação. Cultivava, à sua maneira, o português, tendo à cabeceira da cama "Os Lusíadas", o "Lunário Perpectuo" e um dicionário. Era de uma basófia lendária. Os termos mais arrevesados e sonoros, colecionava-os para impressionar os amigos quando contava estórias ou discursava em casamentos e baptizados. Contou-me o amigo de infância António Melo, infelizmente falecido há pouco tempo, uma dele, dita numa roda de amigos, que nunca esqueci; o homem adorava, também, a conjugação reflexa: “Cheguei-me à Chá d´Igreja. Lancei-me sobre o meu fogoso ginete, cavalo, corcel. Esporeei-me, chicoteei-me e este lançou-se numa corrida assaz vertiginosa por montes, vales e concavidades que mais parecia um raio despenhado da atmosfera aquática sobre o arquipélago. Vitupérios!”

Numa outra tirada dele, mas com cabeça, tronco e membros, os amigos perguntaram-lhe onde tinha colhido essa estória: “Nas profundezas subterráquias do meu crânio cerebral”, respondeu ele.

O Senhor Teodoro Almada tinha uma colecção de estórias desse tipo de pessoas apreciadoras da língua portuguesa, que utilizavam nos discursos de casamentos, baptismos e enterros, e os amigos patchês Djô Culana e mano Amílcar também possuem uma boa colecção delas.

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

[5159] História contada por Arsénio de Pina, sobre nhô Roque Gonçalves (António Aurélio Gonçalves, docente e escritor - em ambos os casos, de grande prestígio)

António Aurélio Gonçalves
Conta-se que, estando o Dr. Daniel cavaqueando amena e entretidamente com o Mestre Roque Gonçalves no passeio da Rua de Lisboa, à frente da antigo bar do Sérgio Frusoni, o Mestre Roque Gonçalves recostado tranquilamente na sua bengala, um desses miúdos voluntare de Soncente (mais tarde chamados piratas), vindo do mercado municipal, aplica um pontapé à bengala de apoio do Mestre Roque Gonçalves, seguindo, a toda a brida, no sentido do Dr. Daniel. Roque Gonçalves, na sua agilidade tradicional, enquanto se livrava de uma aparatosa queda, foi gritando ao Dr. Daniel: “Oh Nhélass! stica´m quês canela e bô panha´m quel fi de cadelaaa!” isso dito na sua conhecida voz mansa, pousada, pronunciando todas as sílabas. Claro que quando acabou de fazer o pedido, o miúdo tinha ultrapassado o Dr. Daniel e já se encontrava no passeio do Palácio.

Não posso garantir que esta estória seja verídica ou se foi invenção da malta do liceu desse tempo.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

[5115] Um divertido texto de Arsénio de Pina sobre uma das figuras mais carismáticas do Mindelo, o sr. Damatinha

Este texto foi publicado em 26 de Janeiro de 2014, com maior desenvolvimento, no blogue "Esquina do Tempo", do nosso amigo Manuel Brito-Semedo. Agora mais sintetizado (mas ainda bem sugestivo), relembra uma das figuras marcantes da história da cidade do Mindelo.

UM DOS TIPOS MINDELENSES INESQUECÍVEIS

Arsénio de Pina - Foto Joaquim Saial
Quando desempenhei os cargos de guarda-mor de saúde e delegado de saúde em S. Vicente, em 1970, houve uma epidemia de cólera, em vários países, a que tive de fazer face para evitar que a doença entrasse em S. Vicente através da Baía do Porto Grande. A acção principal era vacinar contra a cólera todas as pessoas que iam a bordo dos barcos demandando o Porto Grande.

Ao cabo de algum tempo perguntei ao agente de sanidade marítima (Centeio) encarregado do controlo da situação, como ia a vacinação dos agentes marítimos. A lista dos vacinados estava quase completa, exceptuando um único elemento, o senhor Damatinha (João da Mata), que se recusava terminantemente a ser vacinado.

Conhecia o senhor Damatinha de fama, do manancial das histórias e anedotas que lhe atribuíam, e, a partir de 1970, encontrava-me com ele, com certa frequência, no Café Rêgo, no nosso café matinal, em que sempre bebia o seu galão com um bolo de arroz e me cumprimentava com um bom aperto de mão que mais parecia de tenaz.

 Convoquei-o, devido à recusa, à Sanidade Marítima.

João da Mata "Damatinha"
Foto blogue "Esquina do Tempo"
Apareceu e mandei-o entrar, perguntando-lhe a razão por que não aceitava ser vacinado.

- Porque nunca tomei uma injecção na minha vida e já vou perto dos oitenta. Há anos, quando o seu pai foi guarda-mor de saúde neste Porto Grande – não sei o senhor doutor já teria nascido – houve uma bruta epidemia de febre amarela e não fui vacinado. Fez uma pausa e continuou: falei há dias com o Djô Figueira, que é lido nesses assuntos e ouve a BBC, que me informou que esta vacina só protege 60% dos vacinados

É verdade, caro amigo, mas já é uma protecção respeitável. Se for vacinado – e seria eu a fazê-lo – garantiria a continuação da sua boa saúde, e a mim dava um estatuto especial, de ter sido o primeiro médico a aplicar-lhe uma vacina. Não seria, caro amigo, uma beleza?

- Lá beleza seria, resmungou, olhando para o chão – e eu já estava convencido de que tinha tocado a corda sensível dos sentimentos do amigo e iria vaciná-lo – quando, como se fosse impulsionado por uma mola, se levantou da cadeira e me atirou: – mas no meu cú não mete agulha.

Não pude esconder um sorriso e chegámos a um acordo: como não tinha necessidade de subir a bordo para fazer o seu negócio, por o poder fazer do seu bote, não haveria grande perigo, pelo que condescendi em deixá-lo sem vacinação. 

terça-feira, 13 de julho de 2021

[5006] Um texto de Arsénio de Pina de 2016, mas actual

Eis um artigo que o nosso amigo Arsénio de Pina nos enviou para publicação, escrito em São Vicente - o que lhe dá mais sabor, é claro. Esperamos agora que ele dê sinal de vida e ponha algum comentário no Pd'B, que será obviamente bem-vindo.

AINDA A PROPÓSITO DA HERANÇA DO PORTUGUÊS

Jorge Barbosa e Fernando Pessoa

Essa estória do português como segunda língua já está sendo uma reola. Voltando à herança como responsabilidade e à declaração de A. Cabral sobre a Língua Portuguesa, deveríamos ter bem presente que o português é a terceira língua mais falada na Europa e a quinta mais falada no mundo, o que é extraordinário. O idioma de Camões, do Padre António Vieira, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Baltasar Lopes, Aurélio Gonçalves, José Lopes, José Craveirinha, Luandino Vieira e outros, foi a melhor herança que nos deixou Portugal, como bem disse Amílcar Cabral. Devemos investir é no Português como ferramenta de comunicação, não no crioulo, o que não quer dizer que abandonemos a nossa língua, uma relíquia patrimonial para uso doméstico. Ter em conta que os nossos estudantes universitários actuais, em Portugal e Brasil, que não estudaram a sério nem falaram português em Cabo Verde, têm tido sérias dificuldades nos cursos por não dominarem a língua, não lhes servindo para nada o crioulo. Reduzir Cabo Verde ao crioulo significa confiná-lo ao mutismo, mormente agora quando o português já é língua internacional utilizada na ONU. Como escreveu o nosso Mestre Aurélio Gonçalves na década de cinquenta, “o crioulo limitaria a zona de leitura das obras cabo-verdianas à limitadíssima minoria dos curiosos deste arquipélago e, por isso mesmo, a não ser que as letras cabo-verdianas prefiram sepultar-se no próprio berço, têm de recorrer ao português, língua em que, aliás, os escritores cabo-verdianos são educados”.

S. Vicente, 2016

Arsénio Fermino de Pina

domingo, 13 de junho de 2021

[4941] Um conto, possivelmente inédito, de Viriato de Barros

Já aqui o dissemos e repetimo-lo agora: um blogue destina-se a imagem e a textos curtos. Ler textos longos no ecrã é cansativo e deve evitar-se. Porém, já abrimos algumas excepções e esta é mais uma. Primeiro, porque o texto é bom, se situa dentro dos interesses do Pd'B e, ao que parece, é inédito; segundo, porque o Viriato de Barros (grande e interessantíssimo conversador) foi nosso amigo e ainda por cima vizinho durante muito tempo; terceiro, porque o texto nos foi enviado pelo Arsénio, seu irmão e igualmente nosso amigo e longo colega de letras no jornal "Terra Nova"; e quarto, porque os manos Barros, Arsénio, Carlota e Viriato são sempre bem-vindos a este local de encontro de cabo-verdianos e aderentes. Segundo o Arsénio nos confiou, o próprio Viriato e Nhô Roque Gonçalves, entre outros, são personagens do conto.

Aqui fica pois, a suculenta prosa. Em breve, outra virá, pois de duas se trata.


ELOS DE LIGAÇÃO  (1)

Há muitos anos que João Mendes vivia afastado da mulher. Não que estivessem divorciados, ou coisa parecida. A mulher vivia noutra ilha, onde ele tinha uma casa, a que de longe em longe regressava por alguns meses, para depois voltar para o cubículo que alugara em São Vicente, onde tinha montado o seu escritório. O cubículo tinha duas divisões, uma que era o quarto de dormir e outra que funcionava como sala de estar, escritório, cozinha (um fogão Primus, uma frigideira, duas panelas e uma cafeteira). Tinha duas estantes com livros, alguns muito antigos, e uns poucos novos, mas bem manuseados. Sobre a mesa de sala havia sempre algumas revistas e um ou outro jornal. Um sofá e três cadeiras completavam a mobília. A um canto uma cortina separava a sala do espaço onde funcionava a casa de banho. Era uma daquelas casas antigas de um só piso muito comuns no Mindelo.

João Mendes vivia só. Uma rapariga dos seus vinte e seis anos aparecia a certas horas para lhe preparar as refeições e tratar-lhe das roupas, da arrumação e limpeza da casa. Falava muito pouco e não dava confiança, deixando muito claro que não estava lá para outra coisa senão trabalhar e receber o seu dinheiro no fim do mês. João Mendes era um homem de idade e tinha mau feitio, muito difícil por vezes de aturar. Os seus amigos constantes e de longa data conheciam-lhe o feitio e davam-lhe o devido desconto, porque, apesar  da sua má catadura, João Mendes era um homem de valor e amigo dos seus amigos. Era normalmente verrinoso nas suas críticas pessoais, mas com o tempo poucos levavam a sério as suas tiradas contra os que tinham a infelicidade momentânea de lhe cair na alçada maldizente, a que raros escapavam. Se não era por uma razão, era por outra.

Uma coisa era certa, ninguém o tratava por Nho Jon, ou se dirigia a ele dizendo-lhe “Ah nha Jon...”. Todos o conheciam por Senhor João. E assim se dirigiam a ele. Essa é, aliás, uma misteriosa distinção que em São Vicente se faz, difícil de analisar, mesmo pelos mais propensos a análises sociológicas. A começar pelas Senhoras, mas aí a distinção não é entre “Senhóra” e “Nha”, mas sim entre “Dona” e “Nha”. Há mulheres que são tratadas infalivelmente por Nha: Nha Rosa, Na Chica, Nha Bina, Nha Maria. Há outras às quais se cola definitivamente “Dona”. Dona Bibi, Dona Zizi, Dona Maria...Em certas situações a identificação com a camada social a que a pessoa pertence, ou em que se situa pela sua postura, é evidente. Sim, porque há uma postura de classe que corresponde a certos maneirismos ou conjunto de atitudes e posicionamentos que nem sempre correspondem à situação económica real da pessoa. A não ser talvez por mera herança nominal. Vai-se a situação económica e fica a postura, ou melhor talvez, a posição. Posição, aliás, um termo que entrou em decadência sob o efeito da liquidação revolucionária. Não que as posições tenham desaparecido. Ninguém diria “pessoa de posição” para se referir a alguém bem colocado na estrutura hierárquica da sociedade pelos cargos que exerce ou pelo seu poder económico. As posições, portanto, não deixaram de existir, nem tão pouco as suas vantagens relativas na escala social. 

A distinção entre nhô e senhor, nha e dona continua a não ser tão simples como parece. Pode ser que tenha a ver com o grau de familiaridade que as pessoas consentem aos outros. Há pessoas que não dão confiança. Nem um milímetro. Ninguém se lembra de as tratar por nhô ou nha. Senhor, ou nada.

João Mendes pertencia, portanto, a essa categoria de pessoas. Mateus cultivava a sua amizade como uma herança paterna, pois sempre fora um grande amigo do pai. Visitava-o religiosamente sempre que podia, e ultrapassava habilmente as suas manifestações de mau feitio com um certo humor, não as levando a sério, ou, então, respondendo-lhe taco a taco, quando isso se proporcionava.

Apesar da grande diferença de idades, não o tratava por Senhor, mas tão-somente por João Mendes, ou por Você, conforme os casos. Essa atitude parecia assegurar-lhe a necessária reciprocidade de respeito pela parte do seu amigo mais velho.

Uma outra visita assídua de João Mendes era o Professor, a quem ele tratava por Toi, seu contemporâneo de estudos e outras andanças e conterrâneo da mesma ilha. Era o período de transição para a independência e a situação política do momento vinha inevitável e frequentemente à baila nas conversas, entre dois grogues e os noticiários da rádio.

Mateus folheava uma das publicações que na altura circulavam. Entretanto, chamou-lhe a atenção um poema que, numa hiperbólica e retumbante metáfora, descrevia o partido recém-chegado, ainda que parcialmente, ao poder como um enorme vergalho que tinha penetrado as entranhas da terra cabo-verdiana, emprenhando-a num colossal coito telúrico, promissor de um parto auspicioso. 

Mateus leu em voz alta os primeiros versos do poema. Levantou os olhos para fitar os dois interlocutores e ver o efeito da leitura, feita com a ênfase que a natureza dos versos requeria. Mas perante a mudez dos seus ouvintes, não resistiu ao impulso de os provocar.

– Quer dizer, estamos f...

– Estamos não, está você! Você é que anda com eles. – reagiu imediatamente o Professor.

A conversa ficou por ali, e a poesia também. Mateus teve a sensação de que o tiro lhe saíra pela culatra ao ser identificado com “eles” daquela forma pelo Professor. O pronome plural atirado assim tinha uma inconfundível carga negativa. Mas não desistiu. Achou que, para ser consistente com o que lhe parecia ser a verdade, devia separar o milho da monda, mas não adiantou muito. Ele próprio tinha consciência de que, qual erva daninha que invade o chão onde o milho cresce, o oportunismo e o entrismo galgavam as encostas do poder, aproveitando os socalcos já erguidos por outros. Era-lhe difícil não reconhecer a condescendência dos novos senhores, que faziam vista grossa às “tropelias” dos vanguardistas de ocasião, convictos de que, em última análise, iam jogando a seu favor, ao executarem um trabalho de sapa que não ficaria bem à sua imagem assumir. A parte suja da política assumida como inevitável na lógica de que os fins justificam os meios.

Como então separar o milho da monda?

A verdade é que à sombra do poder abrigavam-se os oportunistas na mira de obter vantagens, e o novo poder rodeava-se de uma certa aura que os seus detentores iam distribuindo de acordo com o seu próprio e exclusivo critério e a sua simpatia. O núcleo dirigente centralizou-se na capital e dali irradiava, com extrema e cautelosa parcimónia, directivas vagas, ao sabor das informações que lhes iam chegando da periferia e daqueles a que chamavam as bases, através dos seus informantes mais iluminados.

Espontaneamente foram-se formando subgrupos e grupúsculos entre os estudantes, funcionários e trabalhadores cujos líderes ganhavam por sua vez auras próprias, constituindo-se em pequenos feudos politicamente neo-iluminados. Não sendo possível transformar-se de um dia para o outro a estrutura económica e social do meio em que se desenvolviam esses grupos, optavam por começar pelo imediatamente possível, ultrapassando todas as formas de contenção e os constrangimentos que anteriormente inibiam a sua acção, quebrando barreiras e eliminando normas e padrões de conduta, entretanto rapidamente substituídas por valores de ocasião. O entusiasmo idealista de muitos sobrevivia através de actos de solidariedade e acções conjuntas empreendidas dentro de uma ordem nova que se consubstanciaria na criação de novas estruturas em que se constituía um Estado emergente, na remodelação de instituições antigas e edificação de outras segundo um novo projecto de sociedade.

O vazio de poder que se tinha instalado durante uma fase de transição e os seus efeitos anarquizantes foram a pouco e pouco sendo preenchidos pelas novas estruturas organizativas, enquanto paralelamente se instituíam os novos símbolos e marcas do poder, do que constituía agora o Estado, a República de Cabo Verde. Ainda que muitas dúvidas subsistissem numa considerável parte, se não na maioria da população, os receios maiores foram-se diluindo, no dia-a-dia, na luta pela vida e daquilo que cada trabalhador, cada funcionário, cada homem, cada mulher e cada criança em idade escolar considerava ser as suas obrigações, e a caminhada prosseguia, aderindo uns por convicção, acomodando-se outros por conformação com o que lhes parecia inelutável, responsabilizando-se outros, quer por dever de consciência cívica, quer pelo que consideravam dever de militância partidária. O Estado de Cabo Verde surgiu desse esforço e consentimento conjuntos, mau grado os constrangimentos e receios quanto à sua viabilidade, sentimentos justificados pela consciência da exiguidade dos recursos que sempre marcou a vida da população das ilhas.

Os que confiaram cegamente nos novos dirigentes diziam: “Mas eles sabem o que estão a fazer. Não são pessoas irresponsáveis!”. O benefício da dúvida. Sobretudo quando se tinha investido tanto em esforço humano, para muitos, com o risco da própria vida.

Para muitos agora era uma questão de nadar, uma vez atirados ao mar. Para outros, uma confiança total na viabilidade do projecto cuja execução exigia não só uma direcção segura e hábil, mas forçosamente também, o empenhamento de toda a população, o que implicava uma acção mobilizadora e pedagógica a todos os níveis.

Até onde era possível levar esse idealismo? Qual era o limiar de resistência ao desgaste provocado pelos insucessos, pela fadiga, pelas frustrações a que não escapam todos os projectos de longo prazo? Como evitar ou controlar os entrismos e o oportunismo das aves de rapina que rondam esses processos, sempre à espera da melhor altura para aterrar em voo picado.

Mateus associou-se a um grupo de trabalho porfiado em manter-se fora da aura do poder com que muitos se fizeram crismar junto dos novos portadores dessa carismática capacidade. 

À mediada que se alargava a instalação das estruturas organizativas do partido único ou, como uma vez um militante comprometido em algumas acções significativas teve o cuidado de corrigir Mateus, do único partido.

Jogo de palavras ou não, de facto, depois da razia levada a efeito pelas extensivas tarefas de mobilização ou manipulação de massas conforme o ângulo de visão a partir do qual se aprecie o processo, acabou por ser o único partido. Pelo menos, o único visível, já que nenhum outro ousaria, nas circunstâncias, vir à tona para se expor. Criou-se uma nova entidade política chamada de “prisioneiros de consciência” e outra correlacionada designada como “auto-censura”. 

Com o tempo, os prisioneiros de consciência e da auto-censura, abrigaram-se numa forma silenciosa de resistência ao novo regime, ou aos que nele se apoiavam para o exercício dos seus abusos pessoais, enquanto no silêncio político essa entidade indefinidamente referida como o povo, ia gerando em si uma espécie de fastio, uma forma de repugnância específica em relação aos que supostamente tinha elegido como sendo os seus legítimos representantes, bem como em relação a todos os símbolos do poder que representavam.

                                                                 -----     

Era uma dessa muitas “sessões” promovidas pelos comités locais, a que chamavam “de esclarecimento”. 

– Hoje vieram outra vez falar para o resto dos burros que ainda não entenderam. – disse Marinela, que estava sentada ao lado de Mateus, no anfiteatro onde se realizava a sessão. 

– Ou será antes de aviso para os que não querem entender.

– Acho que é as duas coisas.

Eram três os membros do comité que assumiam esse papel de esclarecedores junto desse sector da população.

– Se neste momento eu estivesse para ter um filho, saía com a cara desse fulano aí.

– Explica-me isso melhor...

– Não sabes que quando uma mulher está para parir, o filho sai com a cara da pessoa que lhe dá mais raiva. Já não posso olhar para aquele homem... E vejo-o em todo o lado a ditar sentenças ...

Marinela era, por feitio e natureza, propensa a utilizar a crítica, a maior parte das vezes sarcástica, em todas as situações que implicavam com os seus critérios de apreciação do comportamento do seu semelhante. Não controlava esse insaciável apetite por uma boa tirada sarcástica, quando a ocasião lhe aparecia. Sendo uma mulher culta por formação académica, e que as pessoas em geral consideravam inteligente e dessa espécie de inteligência atenta às contradições e fraquezas do homo sapiens, Marinela parecia demasiado silenciosa nos últimos tempos, silêncio que intrigava quem a conhecia. Como estaria ela a encarar todas estas transformações mais recentes na sociedade mindelense, no comportamento das pessoas, nas mudanças bruscas e diametrais de posição política em tantos, nos aproveitamentos súbitos da confusão e das indefinições do momento. Mas perante este seu desabafo, Mateus, tranquilizou-se, como se isso lhe garantisse uma daquelas permanências que não se querem perder, como a do imutável carácter de Marinela. Já não era a Marinela apenas, essa que intimidava os rapazes mantendo-se sempre a uma distância de defesa, distância que manipulava pela destreza agressiva com que esgrimia com palavras. Era, por tudo o que valia aos seus olhos, a lucidez analítica de alguém que não parecia deixar-se arrastar pela corrente do momento, mas antes a acompanhava pela margem seguindo em frente o seu rumo. Observava e comentava.

Terminada a sessão, Mateus, abandonou o edifício e seguiu por uma das ruas que o levava a casa. Quase maquinalmente encaminhou os passos até à casa dos seus parentes que moravam ali perto. Encostado à porta, no seu posto habitual de observação, Júlio ia acompanhando a sua aproximação.

– Agora não fazem outra coisa, não é? É só reuniões... disse, quando Mateus se aproximou.

– É. É isso mesmo. E tu daí a tomar nota. 

– Não queres entrar um bocadinho? Queria falar contigo.

Mateus entrou, e mesmo sem lhe dar tempo para a troca costumeira de galhofas com a dona da casa, sua prima Gina, Júlio encaminhou-o para a sala de visitas onde nunca se sentavam a conversar. A sala era reservada apenas para certas ocasiões e situações.

– Senta-te aí – disse num tom e com uma expressão no rosto que não lhe eram habituais.

– O que é que se passa? – perguntou Mateus preocupado já com a estranha alteração no comportamento de Júlio.

– Vou-me embora desta terra.

– O que é que me estás a dizer?

– Vou-me embora com a minha família. Já não consigo viver cá.

– Mas porquê? E para onde é que vocês vão nesta altura?

– Sabes que a tua prima tem direito de entrada na América como imigrante por via do pai e dos irmãos que lá tem. Vamos embora para Boston. Já começámos a tratar dos papéis.

– De certeza que não se estão a precipitar? O que aconteceu para provocar uma decisão dessas, nesta altura da tua vida? Nunca quiseste sair de S. Vicente. Tu és como aquele passarão aí no cais da alfândega. Fazes parte disto. Sinceramente não consigo entender. Com essa é que eu não contava. 

– Já vais entender. Tu ainda não estavas cá quando essas coisas se passaram. Não sei o que é que lhes subiu à cabeça com o 25 de Abril. Começaram a espalhar por aí que eu era informador da PIDE. Um bando de arruaceiros transformados em juízes populares abordou-me num daqueles dias, começaram a insultar-me, a chamar toda a espécie de nomes. Queriam levar-me preso à força. O que me salvou foi ter aparecido o professor Martins que ia a passar e começou a falar com eles. Disse-lhe se não tinham vergonha, passou-lhes um raspanete dos diabos e eles, por respeito ao professor deixaram-me em paz. O professor veio comigo até a casa.

– Mas porquê? Insistiu Mateus.

– Vou mostrar-te o porquê desta história toda da PIDE, etc. 

Ao dizer isso, Júlio tirou do bolso uma carteira e daí um cartão verde meio estragado nos cantos e estendeu-o a Mateus.

Mateus tomou o cartão e observou-o. Tinha num canto esquerdo um emblema que lhe era familiar desde os primeiros anos de escola, o emblema da Mocidade Portuguesa.

– Há quanto tempo guardas isso?

– Desde os tempos em que andava no Liceu.

– Comandante de castelo?!

– Isso mesmo, comandante de castelo. Eu até tinha orgulho nisso…

– Mas o que é que tem esse cartão?

– O que tem é que, muitas vezes, mostrava-o a certos tipos para os impressionar, incluindo guardas de alfândega. Dizia-lhes que eu era da PIDE. Mas só lhes mostrava o cartão de longe e metia-o logo no bolso para não lhes dar a possibilidade de lerem  com atenção. Sabes que eu tenho os meus negócios de bordo, e essas coisas. 

– Mas que interesse é que isso tinha para ti?

– Às vezes, queriam chatear-me, e eu mostrava-lhes o cartão e dizia-lhes que era da PIDE. Impor respeito, estás a ver. E então?

– Agora andam a perseguir-me, dizendo que eu era da PIDE. Desde que se deu o 25 de Abril. Estás a ver a minha vida?

– Tiveste alguma coisa a ver com a PIDE?

– Eu?! Deus me livre! Dava-me com alguns deles, mas isso era nos meus negócios. Contava-lhes umas larachas e coisas. Convinha estar bem com essa gente. Sempre vivi de negócios. Não quero saber de política para nada. Isso é para vocês.

– Vocês, quem? – provocou Mateus.

– Vocês que tiraram cursos.

– Mas eu não ando na política.

– Sabes o que quero dizer. Não te faças agora desentendido.

A conversa continuou nessa toada e Mateus ficou a saber que o marido da sua parente tinha estado quase a ser preso como informador da PIDE. Foi salvo de ir para a cadeia in extremis pelo dito professor, que, tirando partido do respeito que tinham por ele, falou aos representantes da autoridade improvisados na refrega do vazio de poder que se tinha instalado no momento num tom suficientemente convincente para dissuadir o grupo dos seus propósitos. Passou o braço pelo ombro do amigo e acompanhou-o no caminho que o levava até a casa. Dado o respeito que tinham pelo professor, os autoproclamados representantes do poder popular deixaram-nos ir em paz, ainda não totalmente convencidos da inocência do seu arguido.

A certo passo Júlio interrompeu o seu relato.

– Vês por que não posso continuar nesta terra?


                                                  Viriato de Barros Fermino de Pina

Texto adaptado da Wikipedia

Viriato de Barros nasceu em Vila Nova Sintra, na ilha Brava, Cabo Verde. É autor dos livros "Identidade" (2001) e "Para Lá de Alcatraz" (2005). Depois de ter trabalhado como professor do ensino secundário em Portugal, S. Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Moçambique (Quelimane) regressou a Cabo Verde em 1975, tendo entre 1975 e 1985 exercido sucessivamente os cargos de Director do Ensino Secundário e responsável pelos Assuntos Culturais e de Cooperação do Ministério da Educação, Conselheiro de Embaixada e Chefe do Departamente de África, Ásia e Oceania do Ministério dos Negócios Estrangeiros, e como membro do Quadro Diplomático foi Encarregado de Negócios de Cabo Verde em Washington (1978-1980) e Embaixador de Cabo Verde no Senegal e mais tarde Embaixador na Santa Sé, não residente (1984-1985), cargo que exerceu acumulativamente com o de Conselheiro do Presidente da República. Em 1985 deixou Cabo Verde, após ter sido seleccionado mediante concurso, para o lugar de jornalista da Voz da America, tendo trabalhado como jornalista daquele órgão de comunicação social em Washington de 1986 a 1988, ano em que regressou a Portugal, tendo-se então reintegrado na função pública portuguesa, novamente como professor do ensino secundário. Foi membro do Conselho Científico e investigador do Centro de Estudos Multiculturais, associado à Universidade Internacional de Lisboa. Faleceu em 7 de Fevereiro de 2018. Ver AQUI

segunda-feira, 9 de março de 2020

[4510] Lançamento do livro "Dr. José Baptista de Sousa - o Homem, o Médico e o Militar", de Adriano Miranda Lima - o texto do apresentador, Arsénio Fermino de Pina



Adriano Miranda Lima
Infelizmente, Pd'B ainda não tem fotos para mostrar, relativas a este evento que, segundo sabemos, correu muito bem. A foto que ilustra o artigo (imagem de Joaquim Saial) refere-se a outro livro "Cabo Verde, os caminhos da regionalização" em que AML foi co-autor, lançado também em Lisboa, a 25 de Julho de 2014 e foi agora copiada pelo "Notícias do Norte" do Pd'B (post 0980). Logo que possível, pois, a reportagem fotográfica que se impõe. Aguardemos...

Uffff! Foi falar e elas surgirem. Aqui estão, então, fotografias (de Abílio Alves) do recente lançamento do livro de Adriano Miranda Lima na Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde, Lisboa.









sábado, 6 de julho de 2019

[4249] Um stóra prop d'Mindel... de Rua de Lisboa e de Pracinha d'Igreja...

Do livro "Coisas do Djunga!...", de Arsénio D. Fermino de Pina (ed. do autor, Mindelo, 2002) por ele gentilmente oferecido ao Pd'B.

Esses intermediários!...

Tchuna, à porta do seu café, em 1999
Um desses chamados carenciados, com a pele da barriga colada às costas, que passam por tremendas dificuldades existenciais e períodos de alienação mental com manifestação precoce de pelagra (= fome), percorria a Rua de Lisboa ajoelhando-se da cada cinco passadas, com o olhar fixo para o Céu e as mãos juntas em sinal de prece, rogando em alta voz a Nosso Senhor, uma nota de quinhentos escudos de que estava muito necessitado.

Chegado ao passeio do Café Royal, repetiu o pedido; o Tchuna, que estava à porta, comentou: “Mais um que se avariou neste chão de Soncente.”

Igreja de N.ª Sr.ª da Luz
Dobrou a esquina da rua da Foto Djibla, que percorreu sempre na mesma cantilena e em genuflexão: “Oh Nosso Senhor Jesus Cristo, dê-me uma notinha de quinhentos escudos porque estou muito necessitado e que me fazia grande jeito.” Na Pracinha da Igreja, o mesmo estribilho, de joelhos, o olhar fixo e as mãos juntas dirigidas para o Céu. E ninguém se compadecia do desgraçado!

Chegado ao adro da igreja matriz, resolveu entrar, indo ajoelhar-se mesmo junto do altar-mor, fitando Jesus na cruz: “Oh Nosso Senhor Jesus Cristo, dê-me uma notinha de quinhentos escudos que estou mesmo muito necessitado.”

Encontrava-se a aparamentar o altar um padre que se condoeu do pobre cristão, ficando impressionado com tamanha fé. Ao cabo e algum tempo de ouvir essa ladainha, o padre, ao sair, passando por tras do desgraçado, meteu-lhe, discretamente, uma nota no bolso da camisa.

O nosso cristão viu, pelo rabo do olho, que era uma nota de duzentos escudos e continuou: “Oh Nosso Senhor Jesus Cristo, se quiser dar-me alguma coisa, dê-me nas minhas próprias mãos porque este padre já me ficou com trezentos paus.”

terça-feira, 11 de junho de 2019

[4234] Arsénio de Pina escreve sobre Nhô Djunga, João Cleofas Martins (1901-1970)

Praia de Bote está com dificuldade de edição, por se encontrar em processo de mudança de computador,  coisa que se resolverá em breves dias. Entretanto, aqui fica um trabalho nosso amigo Arsénio de Pina sobre uma das mais fascinantes figuras do Mindelo do século XX.
 
Nhô Djunga, in blogue "Esquina do Tempo"
Arsénio de Pina
Há anos seguidos que venho escrevinhando para os nossos jornais, publicando livros, com assuntos que presumo de interesse para a informação dos que ainda conservam o hábito da leitura e não perderam a faculdade da oponibilidade do polegar aos outros dedos, de propostas e críticas pertinentes da minha experiência e saber profissional, e ninguém tâ cdi. Como me parece que a maioria das pessoas das nossas bandas passou a apreciar mais a paródia, festas, fenhengas e festivais para apaziguar os ânimos eventualmente exaltados e as agruras da vida arquipelágica, irei fazer uma pausa no tratamento de assuntos sérios de interesse geral para me entreter e comungar com os leitores de “Praia de Bote”, com outros temas de índole jocosa, já que, como se costuma dizer, rir é o melhor remédio, e há que melhorar o animus e a qualidade de vida do ilhéu. Apresentarei também algumas peças de “Coisas do Djunga!...” retiradas do livro com o mesmo nome do nosso filósofo do povo, como lhe chamou o Mestre Roque Gonçalves, uma homenagem minha ao Djunga Fotógrafo, hipocorístico de João Cleofas Martins, que veiculou o seu pensamento, críticas fulgurantes e pertinentes encobertas da censura oficial com o manto diáfano do humor através de programas radiofónicos da Rádio Barlavento que deliciavam os ouvintes. As quatro primeiras anedotas não têm nada a ver com Djunga Fotógrafo.
Como os mais jovens pouco sabem do Djunga, talvez não seja descabido que diga que as peças do Djunga Roupa de Pipi e Bom Senso, Quel radiô de Praça Nova, Quel degrau de scada e tantas outras eram escutadas com enorme interesse pelo povo humilde, bem como por gente graúda e autoridades. Estas não se apercebiam do fundo das críticas e nem se sentiam visadas tal a habilidade do artista na sua sátira parodiante metafórica. Nem mesmo a Censura Colonial e a temível polícia política PIDE intervinham, completamente dominados pelo fascínio do humor, não se apercebendo (talvez apercebendo-se, mas tardiamente, quando a fama do homem já era tamanha que a sua prisão levaria o povo mindelense a manifestar-se) das críticas contundentes e mensagens subversivas veiculadas matreiramente dessa guisa. A pertinência e profundidade das suas reflexões, a sua coragem e a antevisão de acontecimentos ligados ao chamado ultramar português deixam-nos pasmados, sendo lícito atribuir-lhe uma inteligência fora de série.

1 - Discurso de casamento
O nosso grande vate Eugénio Tavares era tratado, na intimidade, na sua ilha Brava, por Tatá. Contou-nos o meu pai, que era cúmplice e amigo íntimo do poeta, na década de vinte do século passado, na Brava, que um compadre pediu ao poeta um discurso bonito a proferir numa cerimónia de casamento em que era padrinho. O poeta lá lhe compôs um discurso adequado á ocasião e à cultura minguada do amigo. Este, ambicionando prosa dilatada, pomposa e mais sentimental, agradeceu ao poeta, mas confessando-lhe: Nhô Tatá, discurso sta bonito, ma ´m creba um cusa que saí más dento de mi. Claro que Eugénio Tavares não apreciou o pedido do amigo, por ter tido muito trabalho para elaborar uma prosa adaptada ao nível cultural dele, e, então, aconselhou-o: di dento di bó …, bá la, bô da um renca de pede; discurso sta feto.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

[4228] Um texto de Arsénio de Pina sobre stóra sabim de Zizim Figueira

Arsénio de Pina
Houve um artigo teu  (Joaquim Saial) em que falas num barco cujo nome me escapa agora John qualquer coisa [NOTA do Pd'B: trata-se da escuna "John Manta" que em Março de 1920 andava na pesca da baleia sob o comando do capitão António (ou Anthony) J. Mandly e em Fevereiro de 1935, já na carreira de New Bedford - Cabo Verde, estava desaparecida] -, que fazia a carreira para os EUA, barco em que viajou o meu pai na década de vinte ou princípio de trinta para S. Vicente, onde iria fazer o serviço do Porto Grande (Sanidade Marítima e Delegação de Saúde), acompanhando o grande amigo, imediato do barco, ferido gravemente na Furna por uma corda que se rompeu e lhe decepou incompletamente o braço. Contava que o imediato, embora gravemente ferido, ia avisando a tripulação, ao longo da viagem ,“Nhôs bombâ água!” Quando chegaram a S. Vicente, ao cabo de uma noite de viagem, o porão estava cheio de água e a bagagem boiava nela. Ele ainda ajudou na cirurgia, realizada pelo Dr. Miranda (indiano). 

Zizim Figueira
Vou contar-te uma história de que tive conhecimento pelo Zizim Figueira, com quem tive longa correspondência, por estar a tratar da publicação das suas estórias tão interessantes naquel criol de Soncente, que infelizmente se malogrou devido à sua morte súbita e pela teimosia de não me enviar as estórias selecionadas por estar sempre a revê-las e querer enviar-mas completas. Tinham até prefácio do meu irmão Viriato. Tentei recuperá-las através da viúva, o que não deu resultado. [NOTA do Pd'B: parece que por milagre este caso está resolvido, pois entretanto uma filha do Zizim que tem os textos chegou à fala com Arsénio de Pina].

António Aurélio "Roque" Gonçalves
Estava o Mestre "Roque" Gonçalves conversando entretidamente com o Dr. Daniel Tavares, no passeio da Rua Lisboa, à frente do antiga Farmácia Teixeira, recostado na sua bengala, que segurava nas costas com as duas mãos, quando apareceu um daquês menine veluntare, malcriode, de Soncente, que aplicou um pontapé à bengala do Mestre Roque Gonçalves, levando este a desequilibrar-se em ginástica de acrobacia para não se estatelar no chão. Enquanto se livrava da queda foi gritando ao Dr. Daniel, naquele seu falar lento, pronunciando arrastadamente todas as sílabas, “Oh Nhelass, estica´m quêss canela e bô panha` m quel fi de cadelaa!!” Claro que quando acabou de falar, o miúdo já estava no passeio do Palácio, tendo passado em velocidade pelo Dr. Daniel.
Não garanto a veracidade da estória, visto a malta do liceu desse tempo ser useira e vezeira em inventar estórias jocosas, sendo vítimas o Mestre Roque Gonçalves, Damatinha, José Inocêncio (Djô fei), Bitim Sarampo, Guste Cavirinha, entre outros.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

[4227] Um cabo-verdiano (nosso) desconhecido... Em texto oferecido pelo amigo Arsénio de Pina que o recebeu de Armando Ferreira

Nota: O jornal é "Le Devoir" de Montreal (não o dizia o material recebido mas nós demos com ele - pois estas coisas, há que saber de onde procedem).

Mois de l’histoire des Noirs au Québec - 400 ans d’histoire méconnue
11 février 2013 | Caroline Montpetit | Actualités en société

Photo : Musée des sciences et de la technologie du Canada Un porteur ferroviaire fait contrôler son travail par son supérieur hiérarchique. 

Le mouvement des porteurs contribuera à améliorer le sort des communautés noires du Québec. Photo tirée du livre La contribution des Noirs au Québec (Les Publications du Québec, 2012) «Lorsqu’un Québécois blanc croise un Noir dans la rue, il présume encore parfois qu’il est étranger », constate l’historien Arnaud Bessière. Le dernier livre de Bessière, La contribution des Noirs au Québec. Quatre siècles d’histoire, aux Publications du Québec, s’applique précisément à corriger cette perception. 

S’il est vrai qu’environ 50 % de la population noire du Québec d’aujourd’hui est née à l’étranger, les Noirs font partie de l’histoire du Québec depuis les débuts de la colonie. Et le mois de février, consacré Mois de l’histoire des Noirs, est une occasion de le rappeler.

Il est assez connu, donc, que le premier Noir à s’être installé au Québec était un homme libre du nom de Mathieu da Costa, un interprète du temps de Champlain qui aurait été originaire du Cap-Vert. Mais on connaît moins l’histoire des Noirs qui a suivi.

De l’esclavage à son abolition, de la discrimination institutionnalisée à celle plus subtile, qu’on trouve encore dans le logement ou l’emploi, Arnaud Bessière ponctue son propos de nombreux extraits, de reproductions de journaux, de dessins et de caricatures qui évoquent, mieux que bien des mots, le contexte dans lequel la communauté noire a évolué au Québec.

Esclavage

Au sujet de l’esclavage, on apprendra qu’il n’y a jamais eu de convois d’esclaves au Québec, entre autres parce que ce n’était pas ici un « marché » florissant. Bessière rappelle qu’un esclave noir valait au XVIIIe siècle 900 livres, soit deux fois le prix d’un esclave amérindien. « L’achat d’un esclave noir signifiait un investissement financier considérable que la grande majorité des habitants, c’est-à-dire des paysans propriétaires, n’était pas en mesure d’assurer », écrit-il.

«Les plus grands propriétaires [du Québec] étaient les communautés religieuses, qui avaient quelques esclaves, qui ne travaillaient pas nécessairement sur les terres», relève M. Bessière. Le père de Louis-Joseph Papineau lui-même aurait été propriétaire d’esclaves… À la lumière d’écrits récents, l’ouvrage apporte un éclairage intéressant sur la période qui suit l’abolition de l’esclavage. On apprend la présence de propriétaires noirs dès 1793, dont celle d’Hilaire Amour, premier esclave affranchi à s’acheter une terre à Montréal.

Mais on découvre aussi des lois sur l’immigration qui ont exclu les Noirs, lesquels étaient perçus « comme un danger pour la sécurité de la race française ». L’Église, de son côté, a longtemps interdit la prêtrise aux Noirs. Et même après l’abolition de l’esclavage, elle forçait les Noirs à s’asseoir aux derniers rangs ou à des balcons distincts. Cette attitude, précise l’auteur, a encouragé l’établissement de la première église créée par des Noirs au Québec, l’Union United Church.

En fait, même l’armée exerçait une discrimination systématique envers les Noirs. « Alors que des Canadiens français refusaient de partir en guerre, on rejetait les candidatures de volontaires noirs. En dépit d’un tel comportement, quelques-uns - au moins une quarantaine - sont tout de même parvenus à s’enrôler, mais ils n’allaient pas participer au combat ; c’était un “ privilège ” réservé aux Blancs », écrit-il. Quant à la fréquentation de l’école par les Noirs, elle était « pour ainsi dire nulle » durant la seconde partie du XIXe siècle, relève l’auteur, jusqu’à ce que leur éducation devienne accessible et obligatoire pour tous, aussi tard qu’en 1940.

Train et jazz

Parallèlement à ces misères, la communauté noire s’organise. C’est le cas des porteurs des compagnies ferroviaires, qui se mobilisent au début du XXe siècle contre les plafonds d’emploi. « Les compagnies canadiennes estimaient que les Noirs ne devaient pas être promus au-delà du poste et qu’ils devaient rester sous la supervision des Blancs », écrit Bessière. Le mouvement des porteurs contribuera à améliorer le sort de l’ensemble des communautés noires du Québec et du Canada. Ce sont aussi les porteurs noirs, dont plusieurs arrivaient des États-Unis, qui ont favorisé l’émergence de Montréal comme plaque tournante du jazz au XXe siècle. « La première vague de musiciens arrive donc à Montréal dans les années1920. Une seconde suivra peu après, attirée par l’ambiance électrisante de la ville. Celle-ci constituait d’ailleurs à leurs yeux une sorte de refuge », écrit Bessière.

Aujourd’hui, la communauté noire du Québec regroupe quelque 250 000 membres, dont la moitié, donc, seraient de nouveaux arrivants. Elle représente 2,5 % de la population. Les dernières vagues d’immigration noire provenaient majoritairement de l’Afrique noire, un groupe méconnu jusqu’à présent au Québec.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

[4086] Um delicioso texto enviado ao Pd'B pelo nosso amigo Arsénio Fermino de Pina

E depois dizem que os cabo-verdianos não gostam do português (língua). Adoram-no. Só que, sobretudo a partir do momento em que o crioulo foi alçado à categoria de língua, através da sua marsianuzação, esqueceu-se que há outras variantes, saindo da categoria de dialeto do português, necessitando ainda de muito estudo para aí chegar. Noutros tempos, quando ainda havia professores formados no famoso Seminário-Liceu de S. Nicolau, é que se falava o português de lei. As pessoas perderam o gosto pela língua de Camões, e até na Assembleia Nacional, deputados licenciados pontapeiam a gramática sem nenhum respeito. É cada pontapé que até parece coice de mula brava, que dá para “esmaiar”.

Vejam lá a prosa de um santantonense, ainda meu parente não muito afastado, que não teve meios para frequentar o Seminário de S. Nicolau, nem o liceu, mas que fez questão e sacrifícios para qualificar todos os filhos no Liceu Gil Eanes. Entretinha-se a ler "Os Lusíadas", deixado por um dos filhos durante as férias, e também o Lunário Perpectuo, colecionando palavras sonantes e bonitas dos "Lusíadas" para impressionar os amigos; adorava a conjugação reflexa. O homem, que tinha certo peso social na ilha, era também de uma basófia lendária! Mas, para podermos avaliar a sua paixão pela língua de Camões, vejam lá uma a descrição de uma das suas façanhas, relatadas a uma roda de amigos:

”Cheguei-me à Chã d´Igreja. Lancei-me sobre o meu fogoso ginete, cavalo, corcel, e este disparou-se numa corrida assaz vertiginosa por montes, vales e concavidades que mais parecia um raio despenhado da atmosfera aquática sobre o arquipélago. Vitupérios.” É o mesmo patrício que, depois de ter contado uma história com cabeça, tronco e membros ao mesmo grupo de amigos-do-peito, este quis saber donde vinha a história. Resposta: “Das profundezas subterráquias do meu crânio cerebral”.
Não há dúvidas de que nesse tempo falava-se o português vernáculo!
                                                                                               
Arsénio Fermino de Pina

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

[4080] Um poema "claridoso" de Manuel Bandeira


Poema recebido do nosso amigo Arsénio de Pina, com a indicação de ser um dos que inspiraram os nossos claridosos. Que eles tinham uma especial afeição pelos brasileiros ficcionistas e poetas, não há dúvida. É coisa sabida, inegável e provada. E logo então o grande Manuel Bandeira... Ver AQUI um post do Pd'B que fala da correspondência entre Jorge Barbosa e este distinto poeta brasileiro.

O CACTO
Manuel Bandeira

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-os pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:

- Era belo, áspero, intratável.